Pode ter sido a saudade do Brasil, talvez. O fato é que foi em Portugal que Rod Krieger mergulhou mais a fundo na música brasileira. “Era comum escutar discografias inteiras repetidas vezes”, lembra. E ao ouvir as obras de Alceu Valença, Krieger se reconectou com uma canção que há tempos não ouvia. Cabelos Longos, originalmente lançada em 1974, é o novo single do artista gaúcho. Ouça aqui e assista ao vídeo aqui.
A faixa traz um instrumento indiano já conhecido por aqueles que acompanham os lançamentos do artista. No sitar, está Fabio Kidesh, parceiro de Krieger desde o primeiro single, de 2018, Louvado Seja Deus. “O Fabio, foi escolhido para substituir as guitarras da versão original pelo sitar, instrumento que eu tento sempre trazer para o meu trabalho pela beleza da sonoridade que ele nos entrega”. “O mais legal de gravar a versão foi que mostrou como é grande o leque musical do Rod. Muitos não acreditariam se a música não fosse gravada de fato como foi e ficou sensacional”, comenta Fabio.
A canção de Alceu, talvez pelo tom sombrio, por vezes irônico, se encaixa no conceito do álbum e se faz bastante atual. “Penso que essa letra ainda faz sentido mesmo cinquenta depois. O tom irônico e sarcástico condiz muito com pensamentos que tenho em relação aos dias de hoje”, diz Rod.
“Na versão que produzi, o som da bateria eletrônica somado à linha de baixo leva o ouvinte para dentro da canção. E o sitar e a voz mais solta deram o equilíbrio que busco reforçar no meu trabalho ao misturar o eletrônico com o analógico”.
E continua: “As notas tocadas pelo sitar dançam dentro da música e elevam as texturas sonoras. Isso é o que faz transitar por frequências que acabam alterando a percepção. E, de certa forma, as imagens sobrepostas também conseguem este efeito”.
Rod Krieger – Este Comboio Não Para Em Arroios (2024) (single)
Rod Krieger – Este Comboio Não Para Em Arroios (2024) (single)
Rod Krieger avança com a hipnótica Este Comboio Não Para em Arroios
A frase que remete ao metro de Lisboa o acompanhou mesmo já não estando mais a viver na capital portuguesa
“A maioria dos artistas que me inspiram, ou me influenciaram de alguma forma, já tiveram músicas instrumentais, e alguns deles já até se arriscaram a compor álbuns. E este é um caminho que estou a trilhar, passo a passo”, comenta Rod Krieger que edita hoje (19) o tema Este Comboio Não Para em Arroios, segundo single do disco A Assembleia Extraordinária, após Cai o Sol e Sobe a Lua, lançado em Maio.
Assista ao vídeo aqui e ouça nas plataformas de streaming aqui.
A canção instrumental segue uma tradição, uma vez que Raio, também foi single do álbum que marcou a estreia a solo, A Elasticidade do Tempo (2020). E desta vez vem com uma mensagem que marcou um período da vida do artista: “Este comboio não para em Arroios” era uma frase repetida todas as vezes que o metro passava pela estação de Arroios, em Lisboa, que naquela altura estava interditada para obra. Era pré-pandemia, uma outra realidade. E foi quando o tema ganhou os seus primeiros acordes. “Lembro de quando comecei a esboçar a música, recém tinha montado a minha banda, ainda em Lisboa. Depois de quinze anos como baixista, foram os primeiros ensaios de volta ao meu instrumento de origem, no caso a guitarra elétrica. O volume dos instrumentos era muito alto e isso colaborou para que nascessem canções mais pesadas”, recorda Krieger.
“Nesta época, o disco que fazia a trilha sonora das minhas caminhadas até o estúdio era A Página do Relâmpago Elétrico, do Beto Guedes e o Com Uma Viagem na Palma da Mão, do Jorge Palma, dois álbuns que influenciaram todo este meu momento. E numa dessas idas e vindas aos ensaios, peguei o telemóvel do bolso e registei a voz que tanto ressoou nos meus ouvidos”, conta.
No fim, a canção acaba por marcar a mudança de Lisboa para o Sobral do Parelhão, aldeia no oeste português onde o álbum foi registado e finalizado. “E a partir do momento que me mudei de Lisboa, a frase fez ainda mais sentido, pois a linha de trem da imagem da capa do single – no caminho entre Sobral do Parelhão e Bombarral – realmente não para em Arroios”, comenta Krieger.
Vídeo
“O trajeto percorrido durante o vídeo pode ser chamado de ‘o caminho da aprovação’, pois foi durante esse percurso que ouvi as misturas do álbum e as versões das músicas que estavam a surgir no processo de composição do disco”, recorda. Além da cena bucólica do caminho de Krieger, na estrada que liga Sobral do Parelhão a cidade de Bombarral – onde está a trilha da capa do single -, imagens urbanas captadas pelo fotógrafo Daryan Dornelles se misturam a pessoas em movimento com um certa dose de voyeurismo, quase um sujeito oculto no meio do caos.
“Como faz parte de um filme que vai ser ilustrado com vídeos das músicas do álbum, a ideia de aparecer de costas foi pelo fato da música ser instrumental. Pensei que seria interessante brincar com isso. E as referências do vídeo, acabaram por ser o próprio áudio, como se as cenas se encaixassem. Outro ponto interessante é que o disco, os vídeos, capas e símbolos acabam por se encontrar em algum momento, e a cada processo que avanço crio uma interferência no outro. Trabalhar com todas essas frentes tem sido uma experiência estimulante”, comenta.
Rod Krieger – Cai O Sol E Sobe A Lua (2024) (single)
Rod Krieger – Cai O Sol E Sobe A Lua (2024) (single)
Rod Krieger revela primeiro tema de disco registado em aldeia Portuguesa
Quatro anos após a estreia a solo com o disco A Elasticidade do Tempo, o artista brasileiro edita Cai o Sol e Sobe a Lua, que dá vida ao novo álbum
Cai o Sol e Sobe a Lua foi a primeira canção a ser escrita, “talvez a única composta em Lisboa”, lembra o brasileiro Rod Krieger que escolheu Portugal como sua segunda casa desde 2019. Hoje, a viver entre o oeste português e o Rio de Janeiro, ele lembra de quando teve acesso a obras de compositores portugueses, tendo se conectado principalmente com os primeiros discos de Jorge Palma. Foi neste momento que nasceu a música que depois viria a ser o pontapé inicial para o disco, que será editado em Outubro.
“Como essa música é mais antiga, e quando foi criada não existia a pretensão de registar um álbum, fiz algumas versões até chegar ao resultado final. Então, ela acabou por ser uma espécie de laboratório para o que viria a surgir, como se fosse uma matriz. Às vezes, estava a criar versões para ela e surgiam outros fragmentos que se transformavam em novas canções. Sem querer acabei por gerar o que viria a ser o segundo disco”, comenta Krieger.
Space Rock com batidas eletrônicas e melodias pop psicodélicas: é nesta fusão de ritmos que o artista aposta a sonoridade. Já sobre a letra, ele reforça a influência da vida numa aldeia portuguesa: “Penso que nessa nova fase estou escrevendo de uma forma mais introspectiva, muito influenciado pela minha vivência na aldeia Sobral do Parelhão, que fica no oeste português. De uma certa forma, aquela vida um tanto bucólica acabou caracterizando um pouco as letras”. O processo de composição foi sob controle total do compositor, tanto que todos os instrumentos foram registrados por ele mesmo, no seu próprio estúdio, com exceção da flauta por João Mello, e das teclas que ficaram por conta de João Nogueira.
A obra completa, que será editada em Outubro, vai compor um filme que tem como pano de fundo a pequena aldeia de Sobral do Parelhão, localizada no concelho do Bombarral, no distrito de Leiria, em Portugal, onde o disco foi registado de 2021 a 2023.