Jorge Cruz – Passou Tanto Tempo (2024) (single)

Jorge Cruz – Passou Tanto Tempo (2024) (single)

‘Passou Tanto Tempo’ é o single de estreia de Jorge Cruz, o jovem alentejano, natural de Beja, conhecido do grande público pela sua passagem pelo The Voice Portugal 2023. 

Começou muito cedo a ouvir as histórias do seu avô, que tinha uma casa de Fados em Queluz por onde passaram nomes como Alfredo Marceneiro, Fernando Farinha e até o grande guitarrista Carlos Paredes, e essas histórias sempre o fascinaram. Com apenas 10 anos, este avô que tanto o influenciou, começou por lhe ensinar algumas modas do cancioneiro alentejano na guitarra e desde então a música começou a ganhar asas nas suas mãos e mais tarde na sua voz.

A par das aulas de guitarra de Jazz, do Rock e da guitarra clássica autodidata, o artista depressa percebeu que junto aos instrumentos podia vir aquilo que herdou da família libertando os sentimentos na voz. Entre modas alentejanas com amigos nos cafés, nos intervalos da escola, começou a perceber que de facto havia uma fusão mágica naquilo que era o instrumento e a sua voz. 

Participa no THE VOICE PORTUGAL e é então, depois de virar quatro cadeiras a cantar “O meu nome é saudade” canção original de Luís Trigacheiro, seu conterrâneo (Beja), que percebe que o seu caminho é na música e muito mais do que imaginava. É nesta fase que começa a criar a sua identidade artística.

“Passou Tanto Tempo” surge no meio de tantas canções que começou a coleccionar, mas esta tem a particularidade de conter na letra palavras escritas pelo avô que lhe deu asas para começar neste caminho que é agora o sonho.

Este é o primeiro single de Jorge Cruz, que conta com letra de Jorge Cruz e uma quadra do seu avô, vozes de Bandidos do Cante e Jorge Benvinda, e produção de Eduardo Espinho.

“Passou tanto tanto tempo, que de tanto fica pouco. 

Passando tanto assim tão louco, não sobra mais que um momento”.

“Escolhi esta canção para primeiro single em parte porque tem um toque especial do meu avô. Houve um dia que ao jantar com a minha família ele começou a declarar a quadra do refrão, perguntei logo ao meu avô se a podia usar numa música minha e decidi escrever o resto da letra à volta desta quadra, esta canção carrega para mim um valor sentimental muito grande” afirma Jorge Cruz sobre o single de estreia.

Jorge Cruz é atualmente o substituto de Luís Aleixo, em guitarra e voz, na banda do Buba Espinho, que somou mais de 70 concertos este ano. Este tem sido o projeto que, para o artista, lhe tem dado a “maior bagagem de palco e uma experiência única”.

Por agora podemos ouvi-lo no YouTube e em todas as plataformas digitais com o seu primeiro de muitos singles num registo Pop com muitas influências de Cante Alentejano, aquele que carrega consigo e se orgulha de levar pelo país. 

Jeremy Pelt – Jeremy Pelt The Artist (2019)

Jeremy Pelt – Jeremy Pelt The Artist (2019)

Memória de Elefante 04/11/24

Autor: Francesco Valente

Uma rubrica que revela eventos, curiosidades, lançamentos, aniversários e fatos históricos ligados ao universo da música popular mundial.

Fushi – Luz (2024) (single)

Fushi – Luz (2024) (single)

A banda FUSHI, formada pelo guitarrista André Fernandes, a cantora Sara Badalo e o baterista Alexandre Frazão, acaba de lançar o single “Luz”, que antecipa o lançamento do seu álbum de estreia, a ser editado em novembro pela Timbuktu Records. “Luz” distingue-se pela fusão entre uma sonoridade futurista e eletrónica, com uma letra introspetiva que reflete sobre o desenvolvimento humano, a liberdade de expressão e a busca pela autenticidade.

A letra evoca imagens poéticas, como corpos que se transformam em templos e telas, sugerindo uma jornada de crescimento pessoal. A frase “Entre os muros movem-se na luz” ilustra essa evolução e a complexidade das experiências humanas. A música celebra a luz interior de cada ser e convida os ouvintes a refletirem sobre a sua própria trajetória.

André Fernandes, um dos mais conceituados músicos de jazz em Portugal, construiu uma carreira sólida, marcada por colaborações de relevo com figuras como Bernardo Sassetti, Mário Laginha e Maria João. Além disso, tem explorado outros géneros musicais, integrando projetos de rock, como The Spill, e eletrónica, em parceria com artistas como Kalaf, João Gomes e Dmars. Sara Badalo, que já fez parte de vários projetos musicais, como Rádio Royale, The Happy Mess, The Spill, Sam Alone & the Gravediggers e STORM & the Sun, é atualmente a vocalista de The Legendary Tigerman. Alexandre Frazão, um dos bateristas mais requisitados do panorama musical português, tem colaborado com bandas como Dead Combo, Mário Laginha Trio e Led On. Juntos, oferecem uma sonoridade singular e envolvente, que foge a qualquer rótulo convencional.

A faixa foi gravada nos Timbuktu Studios, em Lisboa, por Ricardo Riquier e André Fernandes, com mistura e masterização também a cargo de André Fernandes. O álbum de estreia será apresentado ao vivo no Tokyo, em Lisboa, no dia 27 de novembro, data em que será lançado oficialmente.

O visualizer que acompanha “Luz” foi realizado por Mike Ghost, que também assumiu a direção de fotografia e edição. A direção de arte e o styling ficaram a cargo de Sara Badalo, enquanto a maquilhagem foi feita por Tânia Doce.

O single “Luz” e o visualizer já estão disponíveis em todas as plataformas digitais.

1 Álbum 100 Palavras #66: Tinariwen – Elwan (2017)

1 Álbum 100 Palavras #66: Tinariwen – Elwan (2017)

Um podcast de Francesco Valente: 

1 álbum “sem” ou “100” palavras, por semana! Uma pérola musical da história da música, descrita em 100 palavras! Cada dia da semana, às 14h na Rádio Olisipo. Boa escuta!

“Elwan,” álbum de 2017 dos tuaregues Tinariwen, foi gravado em meio ao deserto de Joshua Tree, na Califórnia, e no Marrocos. “Elwan,” que significa “elefantes” em Tamashek, é uma metáfora para as forças opressoras que impactam a terra e o povo tuaregue. O álbum traz o som característico do assouf, o blues do deserto, com guitarras hipnotizantes e letras sobre exílio, resistência e saudade. Faixas como “Sastanàqqàm” e “Ténéré Tàqqàl” revelam a tristeza e a resiliência dos músicos. “Elwan” foi aclamado pela crítica por sua autenticidade e por continuar a missão de Tinariwen em preservar e transmitir a cultura tuaregue.

boa escuta!

Gustavito – E Se Vier (2024) (single)

Gustavito – E Se Vier (2024) (single) Id

“E Se Vier”, novo single de Gustavito, chega nas plataformas de música no próximo

dia 18 de outubro, antecedendo a chegada do seu novo e aguardado disco, com

previsão de lançamento para 2025. A canção de autoria de Camila Borenstain em

parceria com o cantautor mineiro poderia ter como principal sinônimo a palavra

“delicadeza”. Na gravação, Gustavito convida Tainá para um dueto cuja doçura e

suavidade têm o poder de envolver o ouvinte numa profunda sensação de

acolhimento. Tainá, cantora e compositora brasileira radicada em Portugal, tem

vivido uma ascensão no cenário internacional, e acaba de lançar “Âmbar”, seu novo

disco sob produção de Marcelo Camelo.

“E Se Vier” foi produzida por Fabio Pinczowski (produtor de “Belezas São Coisas

Acesas por Dentro”, de Filipe Catto) e teve direção musical de César Lacerda

(compositor já gravado por nomes como Gal Costa e Maria Bethânia). O arranjo de

cordas é de Felipe Pacheco Ventura (que já trabalhou com nomes como Elza

Soares, Tim Bernardes e Nando Reis).

Gustavito

Gustavito é um cantautor brasileiro, de Minas Gerais, com doze anos de carreira. Circulou em

diversos estados do país e também em festivais pelo mundo em países como Canadá, México, Itália,

República Tcheca e Portugal. Seu som é marcado pela presença dos ritmos brasileiros em seu estilo

característico ao violão. Gustavito canta em diferentes línguas trazendo mensagens de notória

sensibilidade. A experiência de suas apresentações ao vivo leva o público numa jornada por ritmos e

melodias, sempre convidando as pessoas a participar com vocalizações, danças e visualizações.

Nos últimos tempos, realizou alguns lançamentos envolvendo diversas vertentes de seu trabalho. Os

mais notórios dentre eles foram “O Destino do Clã”, álbum em parceria com Nanan e Luizga, que foi

lançado em 2023 com 2 digressões passando por 6 capitais do Brasil e 7 concertos entre Portugal e

Galiza; “Mahàtupã”, EP de sonoridade eletroacústica produzido em parceria com o DJ português

Mushina, pelo selo “Resueño”, que tem sede na Guatemala; e o álbum duplo de música medicina

“AHO AHA”, com 3 videoclipes. Dentre os festivais onde Gustavito já se apresentou destacam-se

Embodiment Festival (Guatemala 2023), Transcendence Festival (México 2023), Sacredsoul Fest

(Portugal 2023/22), Medicine Festival (UK 2023), MUMI – Musicas do Minho (Galiza 2023), Vibrant

Ecstatic Gathering (Portugal 2023), Mundo Sol (Brasil 2022/19), Virada Musical Xamânica (Brasil

2022), Kiva Fest (Itália 2022), FMM Sines – Músicas do Mundo (Portugal 2017), Sunfest (Canadá

2017), Ollin Kan (México 2017).

Tainá

Tainá aterrou em Portugal vinda do seu Brasil natal, onde estudou música à revelia da família,

trabalhando na escola para pagar o seu curso. Com 21 anos gravou um disco de estreia em Lisboa,

quando se propunha gravar apenas uma maquete. O talento transbordante não cabia numa demo,

nem sequer num EP, pelo que urgia registar toda aquela música cheia e prístina, até à última nota, à

derradeira palavra, ao silêncio final… Passeava Tainá pelas ruas de Lisboa, quando se juntou

espontaneamente a uma jam de um grupo de músicos e foi desafiada a cantar “Corcovado”, de Tom

Jobim. No final soube que se tratava da banda de Erlend Øye, dos Kings of Convenience, que no dia

seguinte actuava a solo no Capitólio, em Lisboa. Convidada a assistir ao concerto, Tainá cantava à

porta do Capitólio quando Erlend Øye a ouviu e se lhe juntou e, impressionado, propôs-lhe actuar na

primeira parte dos seus dois concertos seguintes em Portugal. Mas estes e outros factos

transformam-se em histórias fascinantes quando relatados por Tainá, exímia contadora, cantora e

compositora, que em “Sonhos” revela apenas o primeiro capítulo de uma estreia notável. O namoro

oficial da artista com o público português começa hoje e continua ao longo de todo o verão, em

vários concertos de norte a sul do país, com datas e locais a revelar em breve, que antecipam a

edição do disco prevista para meados de Setembro. Porque há paixões de verão que se transformam

em amores de uma vida.

Prazeres Interrompidos #311: Robin Vose – The Index of Prohibited Books (2022)

Prazeres Interrompidos #311: Robin Vose – The Index of Prohibited Books: Four Centuries of Struggle over Word and Image for the Greater Glory of God (2022)

Autor:

Octávio Nuno

Podcast sobre livros. Um livro num minuto! Em todas as tuas redes sociais, plataformas de podcasts, mas também nas rádios e jornais. Boas leituras!

The first comprehensive history of the Catholic Church’s notorious Index , with resonance for ongoing debates over banned books, censorship, and free speech .

For more than four hundred years, the Catholic Church’s Index Librorum Prohibitorum struck terror into the hearts of authors, publishers, and booksellers around the world, while arousing ridicule and contempt from many others, especially those in Protestant and non-Christian circles. Biased, inconsistent, and frequently absurd in its attempt to ban objectionable texts of every conceivable description—with sometimes fatal consequences—the Index also reflected the deep learning and careful consideration of many hundreds of intellectual contributors over the long span of its storied evolution. This book constitutes the first full study of the Index of Prohibited Books to be published in English. It examines the reasons behind the Church’s attempts to censor religious, scientific, and artistic works, and considers not only why this most sustained of campaigns failed, but what lessons can be learned for today’s debates over freedom of expression and cancel culture.

Jazz Tracks de Danilo Di Termini #188

Jazz Tracks de Danilo Di Termini #188

Descrição do podcast:

Cada Domingo a partir das 9 horas, uma hora de jazz com Danilo Di Termini. Duke Ellington disse uma vez que estava se tornando sempre mais difícil estabelecer onde começava ou acabava o jazz, onde começava Tin Pan Alley e acabava o jazz, ou até onde residia a fronteira entre a música clássica e o jazz. Não será certamente o Jazztracks a traçar estas linhas de fronteira.

Tracklist:

Enrico Pieranunzi → Molto ancora

Attilio Zanchi → Better Git It In Your Soul

Charles Mingus → The Shoes of the Fisherman’s Wife Are Some Jive Ass Slippers

Samara Joy →  Reincarnation Of A Lovebird

Esperanza Spalding & Milton Nascimento → A Day in the Life

Andy Sheppard → Pop

Jerry Bergonzi → Just Friends

Sonny Rollins → Softly as in a Morning Sunrise (alternate take)

Dizzy Gillespie → Vote Dizzy 

Bert Jansch: The Pentangle – Solomon’s Seal (1972)

Bert Jansch: The Pentangle – Solomon’s Seal (1972)

Memória de Elefante 03/11/24

Autor: Francesco Valente

Uma rubrica que revela eventos, curiosidades, lançamentos, aniversários e fatos históricos ligados ao universo da música popular mundial.

Catman Plays The Blues  #146

Catman Plays The Blues  #146

Autor:

Manuel Pais

Partimos esta semana á descoberta de dois nomes injustamente menos conhecidos dos aficionados do Blues, o harmonicista Matt Lomeo e o guitarrista Mike Munson.

Espaço ainda para congratularmos o guitarrista e cantor James Peterson na passagem do seu aniversário.

Kamuya – Ninguém Ft. koi Kowaku (2024) (single)

Kamuya – Ninguém Ft. koi Kowaku (2024) (single)

O artista multifacetado Kamuya está prestes a lançar o seu novo EP autointitulado, KAMUYA, um projeto que explora uma fusão inovadora entre Rage, Trap, Emo e EDM. Gravado, misturado e masterizado no próprio estúdio de Kamuya, o EP reflete a versatilidade e experimentação sonora do artista ao longo de nove faixas cuidadosamente produzidas e será apresentado pela primeira vez ao público no MusicBox, dia 13 de Novembro, no evento Bloodborne, onde Kamuya atuará junto a MIZU, Koi Kowaku e outros artistas independentes que fazem parte do line up da segunda edição do evento.

Kamuya, também conhecido como Ricardo Ramalho, cresceu em Marinhais e construiu a sua reputação na cena musical underground de Lisboa, tanto como artista solo quanto como membro do grupo Dark Knights Clique, ao lado de Devlloz e SKIN. Este ano, Kamuya teve destaque como DJ e engenheiro de som no evento Bloodborne no MusicBox e participou no evento solidário A-gosto, organizado pela Rádio Ophelia. Recentemente, atuou com o grupo Dark Knights Clique na FCUL, num evento de benefício para apoiar estudantes.

O EP KAMUYA inclui colaborações especiais com o artista Koi Kowaku em duas faixas e destaca-se pela sua fusão de elementos digitais e acústicos, como sintetizadores, guitarra, baixo e bateria. Kamuya explora as várias facetas da sua musicalidade, misturando gêneros de forma fluida e criando uma atmosfera única que junta o old school com o new school do underground.

As influências de Kamuya são vastas, desde o SoundCloud Rap, com referências a XXXTENTACION e Juice WRLD, até à cena Emo, com bandas como Bring Me The Horizon e Falling In Reverse. Mais recentemente, o Rage e o Rap Underground têm exercido grande impacto sobre o seu trabalho, com influências de artistas como Zodiak, 2hollis e Ken Carson.

O público já pode explorar o single “123”, lançado em agosto, que conta com a colaboração de Micas, de Reia Cibele, no baixo. O single é um reflexo da habilidade de Kamuya em desafiar fronteiras e criar algo novo e cativante.

Para explorar mais sobre o trabalho de Kamuya, o link do EP e o single estão disponíveis abaixo:

Link para o EP “KAMUYA”

Single “123”

Mira Kendo – N Dija Nha Africa (2024) (single)

Mira Kendo – N Dija Nha Africa (2024) (single)

Braima Galissá nasceu na Guiné-Bissau, cresceu na tradição familiar dos griots, figuras íntimas da história cultural e identitária do povo Mandinga. Durante anos, dedicou-se a explorar as profundezas da sua herança, praticando a arte e o ofício da Kora.

Tocando o seu instrumento, sentado à sombra de uma mangueira outrora plantada em Bankulé Bissau, a sincronicidade existente na circularidade dos tempos trouxe à cena o músico holandês Jori Collignon. Produtor, teclista e músico eletrónico, Collignon vê-se como um amante das raízes tradicionais da música, que utiliza para tecer, na sua própria trama identitária, as pontes sonoras que interligam diferentes povos, origens e gerações.

Juntamente com o célebre guitarrista da Guiné-Bissau, Eliseu Imbana Forna e o baterista de Selma Uamusse, Gonçalo Santos, colaboraram na criação de Mira Kendô, ou “bem pensado”, um projeto que traz à conversa a naturalidade dos seus caminhos e eleva a sensibilidade das relações com os outros e com o mundo ao seu redor.

Após a apresentação do novo grupo no festival Le Guess Who? em 2023, nos Países Baixos, Mira Kendô lança o seu álbum de estreia pela Gris Gris Records no próximo dia 8 de Novembro.

“Kano” é o primeiro single de Mira Kendô. Uma doce e animada canção de amor. Esta homenagem ao jovem romance é cantada pelo Mestre Braima Galissá, acompanhado pelos sons hipnotizantes do seu kora. O guitarrista, Eliseu Imbana Forna, tece as suas partes de guitarra e baixo ao longo do arranjo, enquanto o orgão Farfisa de Collignon entrega algumas belas melodias e o baterista Gonçalo Santos marca o groove acelerado e envolvente. “Kano” é uma canção feita para mover corpos e corações.

Braima Galissá: “O Híbrido Improvável”

Texto de Fininho Sousa

Conheci Braima Galissá lentamente. Não num determinado momento, mas ao longo de anos. Quando nos tornámos amigos próximos e começámos a trabalhar juntos, éramos já incapazes de traçar a origem exacta da nossa amizade. Braima é uma figura cultural de talento cristalino, colocado perante uma ambiguidade azeda. Por um lado, é um artista disciplinado e meticuloso, que atingiu um nível de desempenho raro, colaborou com algumas das maiores figuras da música nacional como Sara Tavares e General D, toca Kora todos os dias há 55 anos e impõe um estilo especialmente tecnicista, sofisticado, e absorvente de todas as linguagens musicais valiosas à sua volta. Por outro, a arquitectura dos costumes culturais Europeus delineou-lhe limites por ele sempre rejeitados mas impossíveis de ignorar. Vezes sem conta, em sua representação perante o interesse – mais ou menos formal – de editoras na gravação e edição dos seus temas, ouvíamos propostas ou planos de pré-produção já definitivos que consistiam apenas no Braima, sozinho, a tocar os seus temas na Kora, cantando. Sem metrónomo, sem efeitos; “Puro”. E sem interesse em ouvir o próprio artista que, repetindo em vários idiomas e ao longo de variações gramaticais, afirmava que a sua música era de dança, criada para uma banda de pelo menos cinco elementos. Estes editores independentes, bem versados nos obscuros nomes do Jazz, nunca se aperceberam da arbitrariedade daquela arrogância; seria este paternalismo também calmamente explicado a discípulos dos Weather Report? A identidade histórica do Djidiu como contador de histórias e a sua formação histórica como compositor para Kora e voz é inegável. O que se duvida é do músico tradicional Guineense exclusivamente como agente do passado, estático no tempo, representante de uma pureza cultural imaginada. A Kora, como tantos outros instrumentos desenvolvidos ao longo de séculos, evoluiu. Braima, como qualquer músico Guineense, toca Salsa. O Gumbé, cuja versão Guineense é o orgulho nacional da Guiné-Bissau, teve muitas vidas, e tem muitas versões distintas pela África ocidental adiante. A Morna Cabo verdiana, como argumenta Vasco Martins, tem fortes influências da Argentina, via ilha da Boavista. A modernidade não é um projecto exclusivamente Europeu, e é um desperdício que músicos associados a territórios (erradamente) vistos como alheios à modernidade tenham constantemente de provar que também pertencem ao clube dos “cosmopolitas”. Os Tabanka  Djaz que o digam.

A 8 de Junho de 1998, de regresso à Guiné-Bissau depois de ter actuado em dois concertos, viu os seus voos cancelados ao saber que Ansumane Mané tinha reunido tropas para depor Nino Vieira em Bissau, iniciando uma Guerra Civil. Braima viu-se, então, inadvertidamente retido em Portugal e uma nova vida tomou forma. Um novo país por tempo incerto, com novas tradições musicais e formas de comunicação, e muitos admiradores de braços abertos. Uma das maiores diferenças que Braima refere ter encontrado em Lisboa foi a de poder colaborar com músicos de conservatório. Estes músicos, experimentados na composição colectiva, impunham um método e uma estrutura, tanto nas composições como nos ensaios, que o fez repensar as possibilidades da Kora e voz em estúdio. Tudo, afinal, era possível. Lembro-me de, em certos períodos de abertura e inspiração, ter ouvido pelo WhatsApp experiências quase diárias que o Braima ia fazendo com músicos de todos os ângulos. Da Kora em loop e sob efeitos, enleada numa manta de texturas de electrónica experimental, a um tema onde a Kora parecia arrastar-se, distorcida, em linguagem blues ou, frequentemente, a Kora tocando sobre uma caixa de ritmos. A vontade de absorver a diversidade espantosa de tradições musicais na metrópole não influenciou, no entanto, um dos pilares fundamentais da sua arte. Braima representa uma forma artística rara entre as elites culturais das grandes cidades contemporâneas: carrega a sua arte como um desígnio que exige disciplina, repetição, rigor e paciência. A Kora exige constantes afinações, manutenção e tipicamente um período de aprendizagem de vários anos, incompatível com a era artística contemporânea de expectativa de resultados imediatos. Braima não vê a sua carreira de músico como uma forma de escape ou de liberdade de expressão, mas como uma responsabilidade herdada, honrosa e que importa cumprir em pleno.

A minha geração, nascida pouco depois do 25 de abril em Portugal, foi totalmente dominada pela cultura do eixo EUA-Reino Unido. Essa preponderância, que abordei de forma juvenil mas enérgica no panfleto “Colónia Cultural Voluntária”, tem como uma das consequências a marginalização imediata de música de tradições afastadas desse eixo. A música de dança electrónica sem Detroit, Chicago, Londres e Manchester perde peso e transforma-se numa de duas hipóteses: um papagaio irrelevante, ou uma novidade imperceptível para a maioria esmagadora das populações ocidentais urbanas, educadas, viajadas e democráticas. As portas da aceitação são sempre, por muitas razões, abertas por projectos das mesmas metrópoles: Nova Iorque, Paris, Londres, LA, Berlim. A World Music como um projecto unitário (que é cada vez menos), mostrava “o outro lado” empurrado pela contracultura e pelos cooperantes  entretanto regressados. Esse lado, hoje, está esgotado porque traz consigo percepções essencialistas que o novo entusiasta já não patrocina: genuinidade, simplicidade, primitivismo.

Braima, continuamente avaliado por editores Europeus como apenas um representante, revelou repetidamente para quem o ouviu ao longo da sua longa carreira, todas as qualidades de um compositor tradicional em constante evolução, bem como as de um experimentador urbano implacável. Essas frequências, no entanto, permaneceram inaudíveis às mesmas elites que, nos anos 80, precaviam Youssou N´Dour para que não se degradasse fazendo música sofisticada. Este disco, ao aninhar-se em redor das suas composições enquanto busca um som híbrido e desabrigado, encurta distâncias e junta finalmente a arte de Braima ao corpo árduo de trabalho que cria novos pólos, novas misturas, novos riscos, novas alternativas aos mesmos centros urbanos que ainda hoje nos ditam o gosto. Porque é neste trabalho de lento aperfeiçoamento que se cria cultura: um achatamento intercultural radical que gera uma equivalência e familiaridade, facilitando a troca de argumentos musicais ao ponto das fusões parecerem, afinal, naturais.

Obrigado Braima e Gris Gris.

Mira Kendo – Yo Debo (2024) (single)

Ensaio do projecto musical Mira Kendo ( Mestre Braima Galissa , kora , Jori Collignon , teclados , Eliseu Forna Imbana , guitarra , e Goncalo Santuns , bateria ) no estudios Le Garage Palmela . Palmela , 22 de Setembro de 2023 . ©Enric Vives-Rubio

Mira Kendo – Yo Debo (2024) (single)

Braima Galissá nasceu na Guiné-Bissau, cresceu na tradição familiar dos griots, figuras íntimas da história cultural e identitária do povo Mandinga. Durante anos, dedicou-se a explorar as profundezas da sua herança, praticando a arte e o ofício da Kora.

Tocando o seu instrumento, sentado à sombra de uma mangueira outrora plantada em Bankulé Bissau, a sincronicidade existente na circularidade dos tempos trouxe à cena o músico holandês Jori Collignon. Produtor, teclista e músico eletrónico, Collignon vê-se como um amante das raízes tradicionais da música, que utiliza para tecer, na sua própria trama identitária, as pontes sonoras que interligam diferentes povos, origens e gerações.

Juntamente com o célebre guitarrista da Guiné-Bissau, Eliseu Imbana Forna e o baterista de Selma Uamusse, Gonçalo Santos, colaboraram na criação de Mira Kendô, ou “bem pensado”, um projeto que traz à conversa a naturalidade dos seus caminhos e eleva a sensibilidade das relações com os outros e com o mundo ao seu redor.

Após a apresentação do novo grupo no festival Le Guess Who? em 2023, nos Países Baixos, Mira Kendô lança o seu álbum de estreia pela Gris Gris Records no próximo dia 8 de Novembro.

“Kano” é o primeiro single de Mira Kendô. Uma doce e animada canção de amor. Esta homenagem ao jovem romance é cantada pelo Mestre Braima Galissá, acompanhado pelos sons hipnotizantes do seu kora. O guitarrista, Eliseu Imbana Forna, tece as suas partes de guitarra e baixo ao longo do arranjo, enquanto o orgão Farfisa de Collignon entrega algumas belas melodias e o baterista Gonçalo Santos marca o groove acelerado e envolvente. “Kano” é uma canção feita para mover corpos e corações.

Braima Galissá: “O Híbrido Improvável”

Texto de Fininho Sousa

Conheci Braima Galissá lentamente. Não num determinado momento, mas ao longo de anos. Quando nos tornámos amigos próximos e começámos a trabalhar juntos, éramos já incapazes de traçar a origem exacta da nossa amizade. Braima é uma figura cultural de talento cristalino, colocado perante uma ambiguidade azeda. Por um lado, é um artista disciplinado e meticuloso, que atingiu um nível de desempenho raro, colaborou com algumas das maiores figuras da música nacional como Sara Tavares e General D, toca Kora todos os dias há 55 anos e impõe um estilo especialmente tecnicista, sofisticado, e absorvente de todas as linguagens musicais valiosas à sua volta. Por outro, a arquitectura dos costumes culturais Europeus delineou-lhe limites por ele sempre rejeitados mas impossíveis de ignorar. Vezes sem conta, em sua representação perante o interesse – mais ou menos formal – de editoras na gravação e edição dos seus temas, ouvíamos propostas ou planos de pré-produção já definitivos que consistiam apenas no Braima, sozinho, a tocar os seus temas na Kora, cantando. Sem metrónomo, sem efeitos; “Puro”. E sem interesse em ouvir o próprio artista que, repetindo em vários idiomas e ao longo de variações gramaticais, afirmava que a sua música era de dança, criada para uma banda de pelo menos cinco elementos. Estes editores independentes, bem versados nos obscuros nomes do Jazz, nunca se aperceberam da arbitrariedade daquela arrogância; seria este paternalismo também calmamente explicado a discípulos dos Weather Report? A identidade histórica do Djidiu como contador de histórias e a sua formação histórica como compositor para Kora e voz é inegável. O que se duvida é do músico tradicional Guineense exclusivamente como agente do passado, estático no tempo, representante de uma pureza cultural imaginada. A Kora, como tantos outros instrumentos desenvolvidos ao longo de séculos, evoluiu. Braima, como qualquer músico Guineense, toca Salsa. O Gumbé, cuja versão Guineense é o orgulho nacional da Guiné-Bissau, teve muitas vidas, e tem muitas versões distintas pela África ocidental adiante. A Morna Cabo verdiana, como argumenta Vasco Martins, tem fortes influências da Argentina, via ilha da Boavista. A modernidade não é um projecto exclusivamente Europeu, e é um desperdício que músicos associados a territórios (erradamente) vistos como alheios à modernidade tenham constantemente de provar que também pertencem ao clube dos “cosmopolitas”. Os Tabanka  Djaz que o digam.

A 8 de Junho de 1998, de regresso à Guiné-Bissau depois de ter actuado em dois concertos, viu os seus voos cancelados ao saber que Ansumane Mané tinha reunido tropas para depor Nino Vieira em Bissau, iniciando uma Guerra Civil. Braima viu-se, então, inadvertidamente retido em Portugal e uma nova vida tomou forma. Um novo país por tempo incerto, com novas tradições musicais e formas de comunicação, e muitos admiradores de braços abertos. Uma das maiores diferenças que Braima refere ter encontrado em Lisboa foi a de poder colaborar com músicos de conservatório. Estes músicos, experimentados na composição colectiva, impunham um método e uma estrutura, tanto nas composições como nos ensaios, que o fez repensar as possibilidades da Kora e voz em estúdio. Tudo, afinal, era possível. Lembro-me de, em certos períodos de abertura e inspiração, ter ouvido pelo WhatsApp experiências quase diárias que o Braima ia fazendo com músicos de todos os ângulos. Da Kora em loop e sob efeitos, enleada numa manta de texturas de electrónica experimental, a um tema onde a Kora parecia arrastar-se, distorcida, em linguagem blues ou, frequentemente, a Kora tocando sobre uma caixa de ritmos. A vontade de absorver a diversidade espantosa de tradições musicais na metrópole não influenciou, no entanto, um dos pilares fundamentais da sua arte. Braima representa uma forma artística rara entre as elites culturais das grandes cidades contemporâneas: carrega a sua arte como um desígnio que exige disciplina, repetição, rigor e paciência. A Kora exige constantes afinações, manutenção e tipicamente um período de aprendizagem de vários anos, incompatível com a era artística contemporânea de expectativa de resultados imediatos. Braima não vê a sua carreira de músico como uma forma de escape ou de liberdade de expressão, mas como uma responsabilidade herdada, honrosa e que importa cumprir em pleno.

A minha geração, nascida pouco depois do 25 de abril em Portugal, foi totalmente dominada pela cultura do eixo EUA-Reino Unido. Essa preponderância, que abordei de forma juvenil mas enérgica no panfleto “Colónia Cultural Voluntária”, tem como uma das consequências a marginalização imediata de música de tradições afastadas desse eixo. A música de dança electrónica sem Detroit, Chicago, Londres e Manchester perde peso e transforma-se numa de duas hipóteses: um papagaio irrelevante, ou uma novidade imperceptível para a maioria esmagadora das populações ocidentais urbanas, educadas, viajadas e democráticas. As portas da aceitação são sempre, por muitas razões, abertas por projectos das mesmas metrópoles: Nova Iorque, Paris, Londres, LA, Berlim. A World Music como um projecto unitário (que é cada vez menos), mostrava “o outro lado” empurrado pela contracultura e pelos cooperantes  entretanto regressados. Esse lado, hoje, está esgotado porque traz consigo percepções essencialistas que o novo entusiasta já não patrocina: genuinidade, simplicidade, primitivismo.

Braima, continuamente avaliado por editores Europeus como apenas um representante, revelou repetidamente para quem o ouviu ao longo da sua longa carreira, todas as qualidades de um compositor tradicional em constante evolução, bem como as de um experimentador urbano implacável. Essas frequências, no entanto, permaneceram inaudíveis às mesmas elites que, nos anos 80, precaviam Youssou N´Dour para que não se degradasse fazendo música sofisticada. Este disco, ao aninhar-se em redor das suas composições enquanto busca um som híbrido e desabrigado, encurta distâncias e junta finalmente a arte de Braima ao corpo árduo de trabalho que cria novos pólos, novas misturas, novos riscos, novas alternativas aos mesmos centros urbanos que ainda hoje nos ditam o gosto. Porque é neste trabalho de lento aperfeiçoamento que se cria cultura: um achatamento intercultural radical que gera uma equivalência e familiaridade, facilitando a troca de argumentos musicais ao ponto das fusões parecerem, afinal, naturais.

Obrigado Braima e Gris Gris.