Projeto Ágora: Entrevista com Alexandre Pinheiro (13/11/2021)

Alexandre Pinheiro é um saxofonista e professor de música, originário de Belém do Pará (Brasil). Vive há cerca de três anos em Lisboa, onde se envolveu em vários projetos musicais, entre os quais se destaca a banda de afrobeat Carapaus liderada pelo guitarrista carioca Zé Vito e o projeto Pandeiro in Jazz, liderado pelo percussionista mineiro Juninho Ibituruna, ambos os projetos sediados em Lisboa. Em resposta à situação de atual emergência devida à pandemia do COVID-19 e à necessidade de promover iniciativas que possam avaliar e atenuar o impacto no âmbito das artes performativas, investigar os efeitos da crise, com enfoque no sector da música, documentar as estratégias aplicadas pelos artistas nas suas atividades criativas e de performance, o Projeto Ágora convida Alexandre Pinheiro, para compreender os efeitos provocados pela crise sanitária, quer no nível individual, quer no âmbito do sector cultural em Portugal.

Francesco: Olá bom dia Alexandre!

Alexandre Pinheiro: Bom dia Francesco! Tudo bem?

Francesco: Tudo bem! Bem vindo aqui nestas conversas do Projeto Àgora, podes te apresentar rapidamente?

Alexandre Pinheiro: Então, eu sou Alexandre Pinheiro, sou natural… sou brasileiro não é? Natural do Estado do Pará, Belém do Pará, que fica ao norte do país, sou saxofonista, músico, não é? Saxofonista e estou a viver em Portugal há três anos e de momento estou por aqui e continuo a vida de músico!

Francesco: Muito obrigado, te convidei para conversar rapidamente sobre toda a vivência e a experiência que tiveste, pronto… desde que chegaste, entraste logo no período de Covid e quarentena e etecetera. Gostava de saber como é que foi complexivamente esta vivência em termos digamos assim de profissão, de músico fechado em casa, como é que viveste este período?

Alexandre Pinheiro: Então, este período de pandemia eu já estava a cursar um mestrado que eu fiz… fiz na primeira parte, no princípio e veio a pandemia. Então, o processo da pandemia assim, para sobreviver como um músico… a parte artística, a questão do tocar música e de fazer música, eu me foquei muito nestes materiais que eu consumo na área de estudo de algumas coisas que preciso de esclarecer e estou esclarecendo, são duvidas minhas musicais antigas. A parte profissional, no caso da renda… de onde vem a renda logo teve um abalo mas eu consegui acessar a apoios, apoios financeiros, apoios de… emergenciais, não é? Para artistas, para apoiar os artistas e para várias classes assim da sociedade, eu consegui acessar! Alguns amigos não tiveram tanta facilidade, eu não achei tão difícil! Imaginei que não conseguisse, mas consegui e também continuei dando aula!

Francesco: Online?

Alexandre Pinheiro: Passei a dar aulas online, que eu trabalhava no momento como professor de AEC nas escolas de ensino básico, professor de atividades lúdico musicais e continuei a trabalhar nisso. Musicalmente, produzi coisas com amigos, aquelas lives que tiveram, toquei em lives, lives remuneradas, lives não remuneradas, produções de amigos, assim… participar de composições que foram feitas na pandemia, neste processo de confinamento, então participei de várias produções. Consegui ter uma vida, assim… de 100% de atividade musical antes da pandemia, eu acho que consegui ficar entre 40 e 50% com a atividade ainda… a parte profissional, assim…

Francesco: …fantástico! Então conseguiste mais ou menos manter uma atividade profissional, ter apoios?

Alexandre Pinheiro: Sim! Consegui ter apoios… os apoios foram o que deram a base…

Francesco: …que apoio foi em particular?

Alexandre Pinheiro: Então, o apoio que foi oferecido pela administração pública de Portugal mesmo…

Francesco: da Segurança Social?

Alexandre Pinheiro: É! Através da Segurança Social e também se tivesse emitido recibos verdes, inclusive tinha de passar alguns recibos verdes, três assim… que eu achei que não iria conseguir, eu consegui estes apoios que duraram uns três meses!

Francesco: Ficaste satisfeito com estes apoios, ajudou bastante?

Alexandre Pinheiro: Ajudou bastante, assim! Mas… era muito duvidoso se tu irias receber no outro mês, assim… eu recebi em dois meses seguintes, não é? Depois teve um intervalo de um mês e recebi no outro mês… isso foi meio complicado!

Francesco: Ajudou bastante?

Alexandre Pinheiro: Ajudou bastante!

Francesco: Em termos de performance neste período multiplicaram-se estas plataformas de performance online, streaming… o que é que sentiste como músico nestas circunstâncias performativas? Como é que vives a questão do live streaming, que me parece um novo formato de…

Alexandre Pinheiro: ..foi curioso porque o público, não é? Assim, principalmente a arte musical, ela é uma coisa que ela é muito de próximo… de proximidade ao público! Não que só seja assim, mas… essa coisa desta vida mais de músico que trabalha em vários trabalhos, assim que está fazendo gigs e trabalhas aqui e tudo mais no seus próprios trabalhos, foi interessante saber que o público todo está em casa, entendeu? E as lives tinham audiência, assim algumas tinham: eu observava lives de outros amigos e tinham audiência porque o público estava em casa, então… foi um negócio bem novo que… foi novo e foi curioso, tempos modernos, não é?

Francesco: Tempos modernos… de adequar-se aos tempos modernos!

Alexandre Pinheiro: Isso! Exatamente!

Francesco: E nos concertos ao vivo, mesmo em salas de espetáculos etecetera, qual foi por exemplo o efeito de ver o público todo tapado, isolado e digamos com distanciamento social, as mascaras e de repente foi um pouco estranho?

Alexandre Pinheiro: É!na realidade, quando tu percebes que este assunto pandemia e processos pandémicos no mundo, eles são… lembro disso! A gente tem isso no início do século com a gripe espanhola, a última que teve! Houveram outras pandemias que ficaram isoladas, mas essa que o mundo inteiro sentiu que foi bem, não é curioso… porque infelizmente aconteceu! Mas é assim, o processo tornou tão natural assim… do cuidado com o próximo e do distanciamento e cuidados consigo mesmo, que tu em alguns momentos já começas a achar aquilo natural! Hoje em dia tu não vês as pessoas tão protegidas como antes, tu já ficas assim meio… pó! Mas aquela naturalidade, não é? Que a gente conseguiu manter com o tempo agora…

Francesco: ..de adaptação à nova realidade?

Alexandre Pinheiro: É! Então assim… hoje, essa realidade que era uma realidade entre aspas que nós vivemos, sem o uso das mascaras alguns sem o distanciamento social… que agora começa a se abrir por causa da vacinação, ainda é estranho, assim… porque a gente ficou praticamente dois anos vivendo desta forma então, o teatro com pessoas de máscara foi normal, porque se não nem tinha o teatro. E aí, eu não sei! Tipo… fiquei assim porque já estava dentro do ambiente…

Francesco: … e… quer dizer, agora estamos numa altura em que a maior parte do povo está vacinado e estamos numa altura em que vamos para um novo inverno e há novas perspetivas eventualmente de lockdowns e coisas assim: como é que vives isto? É uma espécie de insegurança e um momento um pouco assim e não sabemos muito bem o que vai ser…

Alexandre Pinheiro: …é! Isto sempre pesa muito para o artista financeiramente, não é? A questão dos apoios, teve toda a burocracia no momento, então… se tiver o… este confinamento, neste momento de inverno… que em alguns lugares assim, aqui no continente europeu o inverno é bem mais rigoroso, aqui em Portugal o inverno ele é saudável para várias práticas ainda assim, tranquilas… e a música é uma! Assim, se infelizmente tiver que acontecer e for melhor para a saúde de todos, vai ter que ser! Claro que para o músico é um pouco mais penoso, porque acabam faltando coisas básicas assim… então se não tiver um outro… uma outra alicerce, uma outra coisa… vão faltar coisas básicas e ai tem uma questão de saúde mental, também… não é?

Francesco: Exato! E então, durante os lockdowns te mantiveste sempre produtivo ou houve momentos de pequenos down?

Alexandre Pinheiro: Acho assim que não! Acho que nem tanto, porque… era o mundo todo que estava parado, então tu não te sentias… não é aquele sentimento de que… de que quando tudo estava acontecendo, de repente tu como artista… percebes que tu estás um pouco isolado assim, fazer trabalhos e tudo mais! Aí tu tens um sentimento um pouco mais forte, tu percebes que está todo o mundo na mesma situação, este sentimento de não estar fazendo… trabalhando, ele é compartilhado, não é? Então tu tem um pouco… não é um alento, tu não te sentes como a única pessoa que está passando por aquilo, tem várias situações então… essa é bué compartilhada, que aí ele é ameno… fica mais ou menos…

Francesco: …sim, sim! E… última pergunta: tiveste algumas produções durante os lockdowns, se queres aqui aconselhar nos para linkar a esta entrevista, para podermos ouvir alguma coisa…? Algum live streaming, alguma gravação de disco?

Alexandre Pinheiro: Gravei um disco de um amigo de lá de Belém do Pará, chamado Delcley Machado, o nome do disco se titula “Ensolarando” , não é? O sol “ensolarando”… que eu fui participando neste disco e eu gravei de aqui, outros músicos gravaram em outros lugares! Ele conseguiu juntar… acho que uns três músicos gravaram de lugares diferentes… é um bom disco para se escutar e tem outros discos!

Francesco: Podes aconselhar uma ou duas faixas, para…?

Alexandre Pinheiro: A faixa que eu gravei é o “Ensolarando”!

Francesco: Ensolarando? É a que dá o nome ao…

Alexandre Pinheiro: …é! A que dá o título ao disco, eu não sei exatamente o nome das outras mas tem canções também, está bem interessante, ele é um músico de música instrumental!

Francesco: E alguma live streaming?

Alexandre Pinheiro: Aqui em Portugal, fiz trabalhos com Carapaus que é uma banda que eu faço parte, aqui em Lisboa!

Francesco: Bem, estamos em Silves, mas…

Alexandre Pinheiro: É! Desculpa!

Francesco: Não, tranquilo!

Alexandre Pinheiro: Mais outra coisa que eu lembre…

Francesco: …mas Carapaus gravou alguma coisa durante o lockdown, alguma live streaming?

Alexandre Pinheiro: Sim! sim… gravamos! Gravamos! Na realidade eu acho foi mais, aqueles vídeos montados…

Francesco: …ah sim, ok!

Alexandre Pinheiro: Eu não me lembro se fizemos um, não sim… fizemos uma live streaming para a FNAC, para receber o premio FNAC, então a gente participou desta live!

Francesco: E é fácil de encontrar?

Alexandre Pinheiro: É fácil de encontrar, esta live está muito boa inclusive… é FNAC, você coloca FNAC Carapaus e ai vai estar: é uma live de 30 minutos, é bem interessante, o som está muito bom… aconselho!

Francesco: Alexandre muito obrigado por esta entrevista neste lugar lindo!

Alexandre Pinheiro: Estamos em Silves nós…

Francesco: …estamos em outono mas parece ainda…

Alexandre Pinheiro: …então olhe só! Também eu gosto de sol!

Francesco: Muito obrigado!

Alexandre Pinheiro: Obrigado!

Projeto Ágora: Entrevista com Cláudia Loureiro (30/03/2022)

Cláudia Loureiro é a responsável pelo Camones Bar, um espaço dedicado à promoção das artes, do encontro de culturas e à apresentação de novos projectos e novos artistas. Desenvolve uma programação de concertos de artistas residentes sobretudo em Lisboa, mas por este palco acabam por passar artistas de todo o mundo e de todos os géneros. Durante a pandemia, Cláudia organizou 13 manifestações de rua, (desde o Coreto da Graça, passando pelo Martim Moniz e até à Torre de Belém) onde pretendeu dar vida e voz ao importantíssimo papel dos músicos na humanização do nosso dia-a-dia e à sua capacidade de união e responsabilidade social na angariação de alimentos para os mais desprotegidos.   Chamou-lhe Sopa da Pedra.

Francesco: Bom dia Cláudia!

Cláudia: Olá Francesco!

Francesco: Obrigado por ter aceite este convite, para conversarmos um bocadinho, queria que te apresentasses logo para começarmos este nosso encontro no Projeto Ágora!

Cláudia: Bom! O meu nome é Cláudia, trabalho com uma equipa de duas pessoas num bar, num restaurante bar [Camones Bar] que abre à noite na zona da Graça e recebemos diariamente, sempre que podemos, artistas da nossa praça. São artistas que tocam nas ruas de Lisboa, são artistas que vivem na Graça, mas que são oriundos de todos os lados do mundo, como tu! De muitos países, com muita diversidade e com muitas artes distintas e com muita riqueza, são artistas que são recebidos aqui com muito carinho e o foco do nosso trabalho é no artista, por tanto, isto não é? O nosso espaço não é um bar com música ao vivo, é um espaço de música ao vivo com um bar: é diferente!

Francesco: É muito interessante porque, exatamente… visto que o tema das várias entrevistas é os efeitos da pandemia na atividade da música no sector cultural, artístico no geral, mas neste caso dos músicos desde o princípio das restrições de Março de 2020, como é que vocês viveram isto? O impacto financeiro foi penso “devastante”?

Cláudia: O impacto financeiro foi enorme! Obviamente, não é? Porque paramos de trabalhar, mas tão grave quanto o impacto financeiro, foi o impacto… obviamente o impacto social que tudo isto tem! O impacto financeiro é muito importante, mas verdadeiramente não podemos nós focar só no impacto financeiro e desvirtuar as outras calamidades adjacentes. É gravíssimo não poder dividir a arte livremente num espaço que foi concebido para fazer isto, é gravíssimo não poder receber os artistas, é gravíssimo não poder receber as pessoas que procuram a arte, é gravíssimo não termos a oportunidade de nós libertar e de usufruir e de evoluir, com tudo o que a arte nos dá e nos permite fazer. É um exercício da alma e do coração e do espírito, que mesmo que não possa ser feito diariamente, porque há pessoas que não podem… antes da pandemia já não podiam sair todas as noites, mas enfim pelo menos é um exercício que tem de ser feito pelo menos uma vez por semana, para mantermos a nossa sanidade mental, para mantermos a nossa criatividade em marcha, para podermos evoluir como pessoas, para podermos ganhar laços com outras pessoas e tudo isso parou! O impacto financeiro é grave, mas ele é material… eventualmente de aqui há dez anos é recuperável, eventualmente…

Francesco: …dentro de quanto tempo, desculpa?

Cláudia: Eu diria 10 anos! Eu presumo e prevejo que por cada mês de encerramento, no meu caso, seja um ano de recuperação! Portanto vamos em 10 anos neste momento! Porem, os restantes impactos que isto tem em termos de evolução como pessoas, como entidades artísticas, como pessoas que fazem parte da arte… eu não sei tocar, nem cantar, mas considero que vivo da arte e para a arte, este impacto pode nunca ser recuperado! A não ser que nos esforcemos muito, a não ser que agora tentemos repor este capital perdido, duma forma muito coerente, muito consistente, muito… como uma missão, porque já perdemos muito e então temos mesmo que trabalhar para tentar no futuro recuperar isso! Não é mensurável, isto vai ser muito difícil de perceber…

Francesco: …é algo que está acontecendo, há faltas de perspetivas e novos formatos também de música ao vivo, por exemplo, muitas vezes pergunto aos músicos o que é que eles acham destes novos formatos de apresentação em streaming, como muita coisa aconteceu desde Março, muitas bandas a fazer coisas no zoom, muitos até festivais a apresentar bandas em streaming, não sei se vocês fizeram algo do género aqui…

Cláudia: …nunca!

Francesco: Nunca! E o que é que achas em relação a isto?

Cláudia: É bonito e é bom! Mas é outra coisa, não é o mesmo! Todos sabemos que é outra coisa… e que se perde neste caminho entre estar num espetáculo ao vivo, seja num festival com milhares de pessoas, seja num bar com 50 pessoas, o que se perde é a humanidade, o aspeto humano, o valor humano, as energias humanas, o contributo, o sorriso espontâneo, o trocar de olhos, a surpresa quando reconhecemos aquela música ou a vontade de cantar juntos… em streaming nada disso acontece! Já não vou falar da qualidade técnica do som, ou já não vou falar de toda a espontaneidade que se perde, do tripé que cai e toda a gente bate palmas para apoiar o artista, tudo o que torna o momento genuíno e verdadeiro, desaparece completamente no streaming! É óbvio que não podendo haver situações ao vivo, o streaming é uma das opções… nós optamos por não fazer!

Francesco: É por isto que efetivamente, faltando esta possibilidade de tocar

de exercer o nosso trabalho, não havendo lugares e não havendo concertos é que às vezes pergunto quais estratégiaspossíveis os músicos possam ter… mas o que me deixou bastante curioso, foi a vossa iniciativa da “Sopa de Pedra” que começou… parece… há quanto tempo?

Cláudia: Bom! Nós vamos, enquanto “Sopa da Pedra”, vamos na 4ª manifestação, mas estamos em manifestação desde o dia 23 de Janeiro e…

Francesco: em pleno confinamento?

Cláudia: Em pleno confinamento! E já fizemos 9 edições desta manifestação. Normalmente, aliás… sistematicamente ao fim de semana!

Francesco: E podes me contar um pouco o historial, como surgiu, qual é a ideia?

Cláudia: Foi um percurso, quando veio o segundo confinamento eu entendi que não ia parar!

Francesco: Exato! Gostava de saber um pouco do historial, como é que surgiu esta ideia, visto que nasceu e surgiu em pleno confinamento de Janeiro [2021], mas é um processo que claramente vem de…

Cláudia: claro! É um processo que vem de trás e… bom! Eu vou tentar explicar tudo, porque são tantas ideias que fluem ao mesmo tempo e, enfim! A “Sopa da Pedra” em si, surgiu já depois de termos experimentado fazer eventos aqui à porta do nosso espaço e como não foi possível as pessoas entrarem para dentro do espaço, então entraram os artistas e os artistas atuaram pela janela para as pessoas que estavam na rua, portanto uma espécie de serenata invertida e assim aconteceram as quatro primeiras edições, só com artistas, só com público e a tentar chamar a atenção para a situação calamitosa que estávamos a viver e que íamos continuar a viver. Ao mesmo tempo e sendo um bar, nós gostamos de servir comida e sabemos a importância de servir comida e a importância do momento de servir a comida, quando desejamos bom apetite, quando sabemos que as pessoas estão a satisfazer uma necessidade, ao fim e ao cabo, não é? À qual pode ser acrescido algum prazer. Neste sentido, realizamos que não podendo fazer isto normalmente, mas tendo esta necessidade de continuar a servir comida, íamos faze-lo através de uma sopa que seria oferecida a quem quisesse, a quem precisasse, neste caso. Fizemos uma primeira sopa que foi uma desgraça, porque pusemos a sopa na rua e ninguém apareceu para comer a sopa! E nós estranhamos! Achamos que as pessoas deviam querer comer sopa, ainda mais sendo feita com amor e não sendo paga… bom! E neste dia percebemos que

tínhamos que ser nós a ir ter com as pessoas que precisavam da sopa e não as pessoas da sopa a virem ter connosco e metemos a sopa num carro e procuramos pessoas que quisessem a sopa e as encontramos… e a sopa foi comida! Tínhamos trinta sopas neste dia e neste dia também perguntaram-nos quando é que voltaríamos, porque uma sopa quente à noite sabia muito bem! E nós não tínhamos nada planeado e pensámos, bom! Amanhã não conseguimos, mas depois de amanhã voltamos, de aqui a dois dias já conseguimos… e voltamos de aí a dois dias, ao mesmo sítio com a mesma quantidade de sopas, para as mesmas pessoas… e de aí a dois dias também e na semana seguinte pensámos: ok! Então, mas parece que há ali uma outra zona de Lisboa onde pode haver pessoas que querem a sopa, em vez de trinta vamos fazer sessenta e vamos lá também… e fomos! E fomos muito bem recebidos! É extraordinário, porque é um momento incrível, onde te encontras com pessoas, onde todos juntos comemos a sopa. A sopa é para eles e para as pessoas que vão fazer a distribuição que também comem a sopa onde se conversa, onde se dão abraços, onde se trocam ideias, onde às vezes também se toca música! Temos tido a oportunidade de às vezes levar um músico connosco, mas há sítios onde nós vamos e onde já há músicos a tocar junto destas pessoas chamadas “sem abrigo”, a arte tem estas coisas singelas e gentis maravilhosas! E portanto, a “Sopa da Pedra” por si, foi crescendo enquanto “Sopa da Pedra” e neste momento são 100 sopas, três vezes por noite em três sítios diferentes e satisfaz o estômago de muita gente, mas a alma continuava por satisfazer, não é? As necessidades da alma! Bom! Sopa na rua, artistas à janela: foi fácil juntar as duas coisas! A “Sopa da Pedra”, a angariação de ingredientes para podermos fazer a “Sopa da Pedra” durante três vezes por semana, precisa de almas bondosas, as almas bondosas são as que tem coração, as almas que tem coração, são as almas que são sensíveis à música! Por outro lado, estão os artistas a precisar de se manifestar e de mostrar o seu protesto, era preciso traze-los para a rua também de forma segura e legal e portanto foi uma questão de os organizar, de nós organizarmos também em termos legais e juntamos as duas coisas: a “Sopa da Pedra” precisa dos artistas para trazer almas bondosas que tragam ingredientes para a “Sopa da Pedra”, os artistas precisam manifestar-se e protestar e o seu contributo é… chamando estas almas generosas para trazerem ingredientes para a “Sopa da Pedra” e desta forma conseguimos colmatar a fome da barriga e a fome da alma! Portanto, todos precisamos um dos outros e a “Sopa da Pedra” é muito isto também! A “Sopa da Pedra” é quando tu juntas vários ingredientes e consegues fazer uma sopa muito rica! E portanto, o conceito natural e espontaneamente passou a ser esse:

cada um dá o que tem, junta-se tudo numa panela só ou num momento só e dali sai uma coisa muito mais rica e que todos podem experimentar! O que é extraordinário!

Francesco: Uma ideia fantástica! E tem vindo crescer bastante?

Cláudia: Tem vindo a crescer! A primeira vez que fizemos à porta do nosso bar [Camones Bar] tivemos dez pessoas, atualmente temos duzentas, a adesão dos artistas é incrível!

Francesco: E disseste que faziam três vezes por semana… ou uma?

Cláudia: Atenção! A distribuição da sopa na rua à noite é três vezes por semana, o evento “Sopa da Pedra” para a angariação dos ingredientes é uma vez por semana e continuará a ser… sempre!

Francesco: E tem vindo mais músicos a participar, claro… de boca em boca…

Cláudia: muitos músicos! Apareciam músicos que nem queria… às vezes fico surpreendida e grata, mas vai manifestar a sua solidariedade com a causa e com os outros artistas, temos tido artistas que na verdade por razões, enfim muito especificas conseguem ultrapassar financeiramente esta situação delicada, mas nem por isto deixam de estar solidários com a causa e com a questão dos músicos, dos seus colegas músicos que enfim… estão numa situação de

Francesco: …de precariedade absoluta!

Cláudia: De precariedade extrema, uma coisa que só vendo é que se acredita,  porque é triste! Eu não tenho outra palavra!

Francesco: Sim! É o que estou… nas várias conversas informais, com pessoas assim… vejo que é uma situação generalizada e que… há vários apoios que nem sempre abrangem todas as pessoas, alguns conseguem e outros não e como está tudo parado é uma situação extremamente delicada!

Cláudia: Eu sei de artistas que durante algum tempo ainda tiveram apoios humilhantes, mas tiveram… da Segurança Social e agora já nem estes apoios estão a ser dados, acabou tudo… e agora?

Francesco: Exato! Há uns apoios que pedem uma série de CIRS e CAES ou com atividades abertas… por exemplo, eu pessoalmente mantive a atividade fechada e se soubesse… como eu muitos outros mantiveram a atividade fechada para não acumular dívidas ou mais gastos e agora que estão saindo os apoios era preciso ter a atividade aberta a partir de Janeiro 2020…

Cláudia: claro, portanto precisavas de ter gasto muito dinheiro para manter a atividade aberta para agora ir buscar dinheiro… e na dúvida, quer dizer era uma questão da pessoa ter que fazer contas antes e sendo impossível, outra opção é fechar… repara que há outra situação: e pegando agora no que tu estás a dizer, que é uma situação muito grave, mesmo para os artistas que tiveram o apoio, esses artistas tiveram que apresentar documentação, tiveram que apresentar comprovativos de entrega de IRS, comprovativo de pagamento de renda da casa, comprovativo de agregado familiar, comprovativo de contas de luz e água… ou seja: eu nem tenho palavras para isto, porque são exatamente os que ainda nem isto conseguiram ter que mais precisam de apoio. E mesmo todos aqueles que têm isto e conseguem entregar uma declaração de IRS, a renda da casa, o agregado familiar e a conta da luz, estão a expor-se duma maneira humilhante, estão a dizer: eu juro que estou pobre! Por favor ajudem-me e isto não se faz! Isto não é ser solidário! Ser solidário é dar, sem nada em troca! É dar porque a pessoa está em frente a ti a precisar, não interessa a circunstância pela qual a pessoa foi lá parar, porque há muita gente infelizmente que também não compreende muito bem o percurso de certos artistas… estás a fazer o que gostas e estás a tocar na rua porque gostas, portanto agora aguenta-te! Não trabalhaste pois não? Tu agora passas fome e é bem feito! E isto é outra coisa que nos deixa de boca aberta! Porque se for preciso esta pessoa que diz isto ou que pensa isto, à noite está num bar a ouvir a música daquele músico excelente! Não é?

Francesco: Exatamente, estou absolutamente de acordo! Eu, por acaso, também… durante um apoio, no decurso do formulário, da apresentação de um apoio, foi me pedido um comprovativo de residência e me contactaram 5/6 vezes porque nenhum deles estava bom e foi tipo várias tentativas, cartas que me chegavam em casa do seguro de saúde e nunca eram aceite até que no fim, finalmente foi em Novembro/Dezembro do ano passado, foi todo um processo longo para conseguir um apoio…

Cláudia: claro! Quando tu pensas, bem… pode ser que finalmente desta vez seja aprovado e que para semana eu consiga ter o dinheiro… vem uma carta a pedir mais um documento em vez de ir o dinheiro! E isto requer uma resistência e uma resiliência incríveis e provavelmente esgota-te no sentido que ao fim do dia já não tens forças para ensaiar, não tens forças para criar…

Francesco: o que tens, por exemplo o que eu senti… parece que sou eu agora a… sentir que muitas vezes além de não poder trabalhar, perdes até aquela noção do teu papel social, ou seja tu como artista… te perdes nestes meandros de apoios, que às vezes é humilhante…

Cláudia: …como é óbvio!

Francesco: Perdes até o teu lugar social que é de ser músico! Não há lugar para tocar e agora estás a pedir e aí é uma questão que às vezes pode impactar na moral até ao ponto de poder até às vezes… alguns, de vez em quando posso ter pensado de mudar de trabalho…

Cláudia: …bom! Mas cuidado para o que mudas, porque na realidade isto passa-se com os artistas e não só, portanto tens de mudar para uma coisa que te permita não passar por esta aflição outra vez…

Francesco: …uma agência de marketing online e 8 horas em teletrabalho…

Cláudia: …eu acho uma boa ideia, podias fazer isto, ou nas obras… também é uma boa alternativa, não é? Ou sei lá… canalizador, qualquer coisa que te tire completamente a tua criatividade e a tua dignidade de… enfim, nada contra as pessoas que são canalizadores e que trabalham nas obras, mas ver um músico incrível que precisa das suas mãos para tocar um instrumento musical a… se calhar partir os dedos porque tem que trabalhar nas obras é uma questão muito complicada!

Francesco: Estou de acordo! Voltando à questão da “Sopa na Pedra”, como é que tem sido a questão policial do… digamos do controle do…

Cláudia: a questão policial para nós tem sido extremamente fácil e pacífica, não tem… só posso dizer bem! Não temos problema nenhum, ainda não tivemos problema nenhum, também porque estamos a fazer as coisas bem feitas, ou seja, orgulho me de dizer que tudo está realmente legalizado, porque tudo isto é possível fazer à luz da lei e à luz da Constituição da República Portuguesa, com regras e com respeito e cumprindo estas regras e cumprindo essas leis, da polícia só temos tido feedback positivo e apoio… e respeito! Este contacto com a polícia não tem sido feito só por email! O contacto com a polícia, à pedido da polícia tem sido feito intensamente, semanalmente, inclusivamente já houve uma reunião para a qual fomos convidados, não fomos convocados, fomos convidados e foi uma reunião que correu muito bem, durante uma hora e meia com altas patentes da polícia, desde o comandante distrital, ao comissário, ao subcomissário, agentes da polícia de transito, sistema de informação… tudo! E a reunião foi formal, foi oficial e por isso eu posso falar dela obviamente e posso também dizer que no final da reunião a palavra que ficou na minha memória e na minha cabeça foi do comandante distrital a dizer: “não desistam!” portanto… a partir de aqui…

Francesco: …e da comunidade, digamos assim do bairro e dos vizinhos, algum feedback positivo/negativo?

Cláudia: As duas coisas! Muito polarizado, ou seja… é difícil encontrar alguém que esteja no meio, do género: ah mas!? As pessoas polarizam-se muito, ou adoram e dão muita força, ou condenam e apontam e não nos querem cá! Existem as duas fações, digamos, o que também é uma pena porque não precisa ser assim, não é? As que nós adoram, é bom que adorem e é ótimo e que compreendem, mas não precisam ficar zangados com aqueles que têm um discernimento diferente e que não compreendem a amplitude e a necessidade destas ações e que nos condenam, muitas vezes alegando razões mal fundamentadas, porque as pessoas não percebem muito bem o que nós estamos ali a fazer, não é? Acham que não é uma manifestação, eu já tenho tentado… já estou a publicar com muita assiduidade no facebook a definição de manifestação, para as pessoas perceberem melhor o que é uma manifestação e porque é que existe a palavra manifestação, que é quando as pessoas se manifestam! E estas pessoas às vezes entram em conflito umas com as outras e nós tentamos que isto não aconteça! As que nós adoram, precisamos muito do apoio delas, as que nós condenam nós olhamos com compaixão, porque são pessoas que não estão num nível de paixão em que nós já estamos e isto é muito importante, são pessoas que não percebem de amor, não percebem de abraços, não percebem de afetos, prescindiram, abdicaram, entregaram essa amplitude de alma aos governantes, a terceiros e não estão a tomar conta delas, neste sentido… permitiram que outros tomassem conta delas neste sentido e realmente nós só podemos olhar para estas pessoas com compaixão e esperar que elas enfim um dia, no coração delas, no fundo… sozinhas em casa ou durante o banho ou no momento mais… de maior contacto com a sua própria vida, possam perceber que o que está errado, não é abraçar, cantar e dançar! O que está errado é não abraçar, não cantar e não dançar e que todos precisamos de fazer isto, devemos voltar a fazer isto com respeito, com os cuidados que temos que ter, ninguém quer contagiar ninguém com nada, a não ser com amor e com esperança e com sentido de benevolência e de humanidade, é só isso!

Francesco: Fantástico! Eu também estava a comentar, antes… que tive alguma discussão com algum amigo que está confundindo este evento como uma festa, alegando que há uma falta de respeito contra, por exemplo neste caso… ele dizia, contra os adolescentes que têm que ficar em casa, ou as lojas que não podem vender ou não podem abrir e tenho tido nos últimos dias uma conversa do género, para tentar perceber o compreender o significado desta reação contra, quando… posso dizer que estou de acordo absolutamente contigo e admiro a vossa iniciativa, porque precisamos justamente de nós encontrar até na praça, cantar e respeitar as regras, mas podermos falar sobre as nossas experiências. Uma coisa que me interessava saber, era mas… tiveste provavelmente várias conversas com os músicos e o que é que destas várias conversas sentes deles, por exemplo esta necessidade de tocar, de se apresentar, de voltar a experimentar e de sentir esta energia de comunicação viva e espontânea…

Cláudia: olha Francesco! O que nós sentimos todos, enquanto “Sopa da Pedra”

é que neste momento já não somos donos da ação, os donos da ação neste momento são os músicos, são os artistas e portanto nós estaremos lá no domingo seguindo sempre o que os artistas queiram, tratamos da parte legal, a ação é das artes, não é nossa!

Francesco: E a vossa ideia é seguir para a frente e fazer?

Cláudia: Nem imaginas o que vai acontecer!

Francesco: Isto é fantástico! Estou muito contente porque é uma iniciativa que… ao qual estou aderindo como público, ver os outros cantar… outro dia cheguei e estava um menino de 9 anos a cantar e adorei!

Cláudia: É o futuro! Vivemos um pedacinho do futuro nestes momentos em que o Miguel vai cantar, sim! É espantoso!

Francesco: Uma voz cristalina! E depois eu conheço ele desde quando era bebé, porque o conheci em Olinda, no Brasil! Para terminar, gostava de perguntar-te se conheces outras iniciativas do género parecidas com a vossa da “Sopa de Pedra” que merecem tipo… uma menção especial, muitas pessoas falam da União Audiovisual e de outras iniciativas, tens alguma coisa a…

Cláudia: …eu vejo muitas necessidades, mas na verdade vejo muitas poucas iniciativas e tenho pena! Nós falamos sobre isto muitas vezes e a nossa alegria seria que houvesse sopas de pedra pelo país inteiro, sopas de pedra, caldo verde, o que tu lhe quiseres chamar, que houvesse iniciativas pelo país inteiro, pelo mundo inteiro, que as pessoas percebessem que podem e devem manifestar-se. Eu não digo que façam exatamente o que nós estamos a fazer, porque cada um é livre de fazer o que quiser, mas cada um deve fazer o que tiver que fazer. Há muitas profissões a passar este problema e é importante que as pessoas entendam que tem que se sentar e conversar e unir e manifestar e perceber o que é que têm que fazer, porque eu volto a dizer: vamos a demorar anos a recuperar o que nós está a acontecer! Não podemos continuar à espera que o que está a acontecer, continue a acontecer, porque nós somos agentes de mudança e nós temos que estar envolvidos nas mudanças e nas decisões que nós afetam e nós somos pessoas crescidas, somos pessoas que podemos e devemos decidir por nós! Há uma pandemia, há um vírus, podemos ser contagiados, as entidades competentes tentaram controlar este contágio no início da pandemia. Ao que tudo indica, não vai ser possível! Já vamos na quarta vaga, as vacinas ao que consta parece que só vão conseguir proteger as pessoas durante um ano,

as variantes do vírus são imensas, portanto parece que as coisas não estão… não é possível controlar as coisas de cima para baixo, porque as coisas acontecem independentemente das vontades e dos esforços dos governantes para controlar a pandemia. Portanto chegou o momento de aprendermos a viver com isso e isso tem de vir de cada um de nós e tem de vir de baixo. Se não aprendermos a viver com isso, se não reaprendermos a manifestarmos, se não reaprendermos a ir para à rua, se não reaprendermos a pensar, se não reaprendermos a viver com isto e se ficarmos eternamente à espera que tomem conta de nós, nós vamos continuar em casa, sem dinheiro, com fome, sem poder criar, sem poder ver os familiares, sem poder ir à escola, sem poder viver! Portanto chegou um momento muito importante e muito crucial para esta decisão ser tomada em consciência

por cada uma das pessoas, tal como um adolescente que chega aos dezoito anos e que bem ou mal, normalmente bem, se for uma pessoa boa… normalmente bem, chegou um momento deste adolescente que somos nós, ao fim de um ano de pandemia, dizermos: agora já percebi mais ou menos como é que isto funciona e vou tomar conta da coisa e claro! Temos uma aprendizagem a fazer, sempre… claro que sim, há coisas que vão correr melhor e outras pior, mas temos que fazer, temos que viver, temos que ir para a frente e realmente deixo um apelo enorme para que toda a gente, principalmente para as pessoas ligadas às artes porque têm uma responsabilidade acrescida na libertação das pessoas: pessoas ligadas às artes manifestem-se, venham para a rua com cuidado, com regras, técnicos de luz, técnicos de som, músicos, cantores, teatro, circo, ajudem! Toda a gente precisa de vocês e vocês precisam de toda a gente, está no momento de virmos para a rua e de dar o nosso contributo para uma curva de mudança que não seja a da pandemia e a do vírus, acho que chegou o momento!

Francesco: Agradeço-te imenso Cláudia! Foi um contributo fantástico, valiosíssimo…

Cláudia: …eu é que agradeço Francesco, o teu… este ingrediente que tu estás a trazer para a “Sopa da Pedra”, vai dar aqui um gostinho extraordinário, um ingrediente incrível, obrigada!

Francesco: Obrigado!

Projeto Ágora: Entrevista com Olmo Marín (24/06/2021)

Olmo Marín é guitarrista, cantor e compositor, originário de País Basco (Espanha). Hoje reside em Lisboa, onde colabora com vários projetos musicais locais, como Sambacalao (em que atua em dueto com seu parceiro Diogo Picão). Entre as outras colaborações sugerimos a Orquestra Latinidade e Rosa Mimosa y sus Mariposas, grupo de cumbia que lançou o seu disco de estreia em 2021. Olmo colabora ainda com artistas de renome da cena nacional, como Nancy Vieira e Salvador Sobral, entre os outros.

Em resposta à situação de atual emergência devida à pandemia do COVID-19 e à necessidade de promover iniciativas que possam avaliar e atenuar o impacto no âmbito das artes performativas, investigar os efeitos da crise, com enfoque no sector da música, documentar as estratégias aplicadas pelos artistas nas suas atividades criativas e de performance, o Projeto Ágora convida Olmo Marín, para compreender os efeitos provocados pela crise sanitária, quer no nível individual, quer no âmbito do sector cultural em Portugal.

Francesco: Boa tarde grande Olmo Marín! Como estás?

Olmo Marin: Boa tarde! Tudo bem!

Francesco: Bem vindo aqui nas conversas do Projeto Ágora, num belo dia de verão, neste lugar maravilhoso, no Jardim de Tourel de Lisboa, podes te apresentar rapidamente e dizer quem és!

Olmo Marin: Boa tarde! Sou Olmo Marin, sou músico do País Basco, de Vitória em Espanha, toco guitarra e vivo em Lisboa há 5 anos e tento ser feliz com a música o melhor que se pode!

Francesco: Muito bem! Te convidei porque estou exatamente entrevistando uma série de músicos da nossa comunidade artística e não só músicos também, técnicos e outras figuras, para perceber mais ou menos como é que vivemos na nossa comunidade, neste sector esta vivência toda da pandemia desde o princípio, até hoje e ainda hoje que estamos em pleno verão de 2021, estamos com problemas… portanto, começaria por perguntar-te: como é que te afetou toda esta pandemia em termos financeiros, por exemplo?

Olmo Marin: Pois, eu cheguei de uma viagem de Cabo Verde e tinha… no fim de Fevereiro… e ia começar o ano a ganhar dinheiro para o verão, para subsistir… porque tinha gastado as poupanças e ai foi quando… pum! Chegou aquela facada

e pronto, foi muito difícil, ao começo, porque ninguém sabia nada… sobretudo economicamente… passaram um mês, dois meses e eu digo… uau! Como vou fazer? Primeiro, pelo menos conseguimos arranjar com o senhorio de pagar a metade da renda, pospor… não deixar de pagar, então pronto! Eu consegui alguma pequena ajuda da Segurança Social, da GDA que me deu algum dinheiro em compras e com uma coisa e outra, até Junho não tive nenhum concerto e aí consegui já a ir a uma pequena tournée na França e consegui uns pequenos fundos para subsistir, mas foi muito difícil!

Francesco: Ah! Conseguiste então tocar um bocadinho no verão de 2020?

Olmo Marin: Sim, em Junho fui à França, numa pequena tournée de 10 dias e já nos finais de Agosto, aqui em Lisboa comecei a ter mais uns concertos e pequenas coisas, não é? Não grandes e… com aquela sensação de que podia ir abaixo, cada coisa que marcavas podiam cancelar e aí de facto aconteceu, já em Outubro e Novembro, que… ahhhh… cancelado! Mas pronto!

Francesco: Tiveste muitos concertos cancelados neste período?

Olmo Marin: Sim, sim! Primeiro, os que já tinha em Março, não é? Quando começou tudo, para o verão… e pronto! Depois, não… para o ano, para o ano, mas muitos destes concertos nunca acabaram por acontecer, se calhar vão acontecer este ano em Setembro ou no ano que vem, mas sim! Depois tinha… tive concertos online, esta foi a grande salvação, porque o primeiro e segundo concerto em que todo o mundo estava: bora! Bora! Aí tinha aquela cena de doar, de dar dinheiro e conseguimos algum cache normal, mas além disso pouca coisa, depois já o quinto live que fizemos, não ganhamos nada, não é? Todo o mundo estava farto de…

Francesco: …já tinham esgotado… estavam fartos seja o público que se calhar os músicos, de se repropor?

Olmo Marin: Claro! Tudo, era chato para todo o mundo os concertos live

Francesco: …daquele formato… e, por exemplo, portanto em termos de números a atividade reduziu-se drasticamente, por exemplo em 2018 ou 2019 tocavas quantas vezes por ano?

Olmo Marin: Cheguei a tocar 100 concertos, me lembro…

Francesco: 100 concertos por ano?

Olmo Marin: Ya!

Francesco: E 2020 foi?

Olmo Marin: 20… não sei! 30…

Francesco: …sim, dos que eu entrevistei és um dos que tocou até mais…

Olmo Marin: …sim?

Francesco: Sim, mas pronto! Houve também aquela parte de desconfinamento do verão de 2020 e depois… e nos períodos de pandemia que era mesmo de confinamento restrito, estiveste em casa! Como é que viveste este período, por exemplo em termos de criatividade? Conseguiste produzir alguma coisa? Estudar?

Olmo Marin: Sim! Na verdade fui muito ativo, eu nas primeiras semanas era tipo… uau! O que vai acontecer? Mas de repente eu tinha uma banda na Holanda, que são Los Limoneros, que começamos a fazer um projeto de 1 minuto, um gravava um minuto sozinho em casa e mandava para o seguinte e assim íamos montando as músicas e conseguimos fazer quase dez músicas de 1 minuto… depois tinha os projetos, sei lá gravei com os Ayom algumas músicas do disco deles, com o Edison Monteiro, para a Nancy Vieira… para o live da Nancy Vieira fizemos alguma coisa e de repente, coisas assim… de trabalho até: grava, grava! Mas em termos de criatividade tinhas tempo, não é? De repente era, ok! Vou passar cá duas horas a ver o que acontece e acontecia, estás a ver? Consegui acabar 3 ou 4 músicas…

Francesco: …fantástico! Foi produtivo em termos de criatividade… também neste último confinamento de 2021?

Olmo Marin: Não! Este foi pior, este foi… porque o primeiro pronto! Estávamos todo o mundo com medo do que ia acontecer, como ia funcionar o mundo… mas mesmo assim, ok! Estávamos saudáveis, não acontecia grande coisa… mas o inverno de 2021 e Janeiro e Fevereiro… uh! Aí foi tipo, pam! Facada e era inverno… fui-me abaixo um bocado, moralmente também… não sei, foi como

o mundo acabou de repente! E não tinha acontecido da primeira vez…

Francesco: …tiveste alguma vez a sensação ou a tentação de pensar: vou mudar de trabalho?

Olmo Marin: Sim, sim! Já no primeiro confinamento eu disse: eu vou para Espanha, volto para a minha terra, começo a fazer pão na minha aldeia e já está, ou sei lá! E muita gente ao meu redor começou outros trabalhos, não é? Online, cenas com a net ou sei lá, outros trabalhos… então quando a conta foi diminuindo, um… era para ira à rua tocar, que até já tinha feito quando cheguei cá e não tinha nada… mas não tinha turista, não tinha maneira de ganhar na rua também nada… então dar aulas, pronto sempre aquelas outras possibilidades de ganhar dinheiro com a música, mas mesmo assim estava outra possibilidade que era fazer outra coisa… mas pronto! Ainda assim, aguentei!

Francesco: Ok! E agora estamos em pleno verão 2021…

Olmo Marin: …tenho sempre esta sensação, perspetivas? Sim! Estão lá, tenho algum concerto marcado, agora parece que vai ser bom… uma tourneezinha na Alemanha não sei aonde… mas agora que estão a subir os casos outra vez e volta aquele medo não é? De…

Francesco: …e a ideia que venha um inverno, mais um inverno como este?

Olmo Marin: Uf! Vamos ver!

Francesco: Ok! Vamos ver!

Olmo Marin: Paciência!

Francesco: Pensamento positivo! Eu estava a pensar… em relação aos concertos que fizeste, por exemplo aqueles online live e como este é um formato performativo que se está um pouco impondo, o que é que tu sentiste por exemplo em tocar neste tipo de situação?

Olmo Marin: Eu não gostei nada! Ou seja, era bom ter algum concerto, sentir que tinha alguém a ouvir a minha música e eu tocar para as pessoas, mas o ritual de ir a um lugar, fazer a prova de som, ok! Jantar, esperar… de repente chega o público, sentes o alento, sentes o silêncio, sentes as pessoas num palco qualquer… é algo que esquecemos, não é? Durante um ano e tal… isso foi… eu tinha muita saudade disso… e ok! Tocas, a malta aplaude no ecrã mas não sentes o calor, não sentes a energia que para mim é o que faz de um concerto ter sentido, uma outra coisa… partilhar esta energia!

Francesco: Claro! Em relação aos concertos mesmo ao vivo? Deves ter feito na França em 2020 e outros… com o público afastado… como é que si diz, com a distância de segurança, com máscara e com restrições várias… o que é que sentiste?

Olmo Marin: Me lembro a Festa do Avante do ano passado 2020, tocamos coma banda de cumbia que tenho, Rosa Mimosa Y Sus Mariposas e tinha que? Quinhentas pessoas?  Mas estavam numa área de um quilómetro, não é? Duas cadeiras aqui, duas ali, duas ali… e normalmente era esse calor, todo o mundo a dançar meio nu… e de repente era a dançar numa cadeira! Era horrível a sensação de que a música não chega, como que não chegava… eu tinha uma sensação má… pronto, não era a mesma coisa, não é?

Francesco: Sim, sim! Portanto considerando por exemplo este novo formato de performance online em streaming, que agora chegam mensagem de todo o lado de novas plataformas que querem que tu te escrevas para ter acesso ao público global, etc. E restrições e cancelamentos, concertos que não são reagendados… que tipo de estratégia tens… ou perspetivas futuras para sobreviver, resistir?

Olmo Marin: Boa pergunta! Não sei, eu vivo na esperança um bocadinho de que… não sei se vai voltar à mesma normalidade de suar juntos num palco… mas vivo com a esperança de que aconteça, de que os concertos voltem mais ou menos a ser o que eram e a música… uma coisa que percebi é que a música foi valorizada muito mais do que era antes, em termos económicos… agora todo o mundo é: ok! Tens que pagar 5€, reservar! E diz: ok, boa! Boa, fixe, vou fazer isto! Antigamente quase tudo era de graça, ou já… olha: um concerto que é 3 ou 5 €, epá! Com 3 recebes mais gente! Agora não, está quase sempre cheio… porque tem menos lugares também, mas pronto… o pessoal já percebe que a música pode ser valorizada a um nível económico, que antigamente não era tão claro!

Francesco: Isto é interessante! Mas por exemplo, sentiste que o público valoriza mais a música… e em relação por exemplo à pandemia e a tudo aquilo que aconteceu, deu para ver que a situação dos músicos e dos artistas em geral é de uma precariedade extrema?

Olmo Marin: Pois, sim!

Francesco: Portanto, se… digamos assim, a política cultural valoriza? Não valoriza? Tentou valorizar mais depois da pandemia, ou não?

Olmo Marin: Depende dos países eu acho, nós moramos cá em Lisboa em Portugal e eu tenho a sorte de que… tinha a atividade aberta e ajudaram-me… ajudaram-me da… Fomento da Cultura e de aqui e de ali e consegui sobreviver com isto também bem e agradeço muito estas ajudas! Só que claro a maioria dos músicos não tinha estas ajudas e ninguém se responsabiliza, não é? Desse mercado negro, dessa cena assim escura que acontece… tu vais tocar a um lugar, te dão o teu dinheirinho, com as entradas… és uma pessoa que estás tipo nas margens da sociedade e então acho que poderia ser uma maneira muito mais clara e muito mais ativa, um governo e uma sociedade a valorizar de uma maneira política e de uma maneira consciente a estes músicos, aos músicos que não são da super primeira linha mas que fazem parte da sociedade…

Francesco: …e que trabalham, tocam às vezes 2 ou 3 vezes por semana…

Olmo Marin: …claro! Mas ninguém… não está no sistema de alguma maneira…

Francesco: sim! Não está no sistema porque não pode exatamente… declarar que fizeram estes tipos de trabalhos… sem contar que depois cada concerto implica ensaios, preparação do repertório, trabalho…

Olmo Marin: …este trabalho que nunca se valoriza, mas que está lá!

Francesco: Ok! Portanto podemos só esperar que a política resolva esta… pelo menos, melhore a situação dos músicos?

Olmo Marin: Sim! Que sejamos visíveis para alguém, não é?

Francesco: Ok! Para concluir a nossa conversa, gostava de saber se produziste durante todo este período algum… sim! Já disseste que tocaste em live streamings, alguma produção se calhar de discos, que possamos linkar aqui a esta entrevista para os ouvintes depois ouvir a música do grande Olmo Marin…

Olmo Marin: …sim! Estamos a acabar… estivemos a acabar… a gravar o disco de Sambacalao que é o meu duo com Diogo Picão, estamos a acabar o seu disco dos originais que é o segundo disco do Diogo Picão, no qual participo e acabamos… estamos a acabar o disco de Rosa Mimosa Y Sus Mariposas

Francesco: …ah! Que gravaram em pleno confinamento!

Olmo Marin: Em Fevereiro, mesmo confinamento duro! Que foi difícil, aconteceu uma coisa que… no primeiro dia da gravação, alguém da banda, que somos 11 deu positivo… então foi tipo… cancelado! Ninguém morreu, tudo bem, mas pronto… foi um período difícil, porque todo o mundo estava fechado, tínhamos que imprimir aquelas páginas… todo para ir a trabalhar ao estúdio…

Francesco: …ah! A autodeclararão… a auto certificação?

Olmo Marin: Sim! Foi um filme do caraças, mas conseguimos… por enquanto temos um disco a sair do forno…

Francesco: …que experiência! Nunca vais esquecer estes dias…

Olmo Marin: …foi difícil! Sim mas… é a vida, são experiências!

Francesco: E estes discos vão sair ainda em breve?

Olmo Marin: Sim, sim! Este verão acho eu…

Francesco: …ah! Já este verão? Assim será fácil… podes indicar só duas músicas assim… significativas e comentar? Assim para eu escolher depois e linkar, assim as que mais gostaste… ou as que tem mais significado para ti!

Olmo Marin: Fiz uma música muito linda durante a quarentena para uma pessoa que não conhecia muito, mas que é muito linda… chamada “Margarida” e estou a compor muitas lindas melodias instrumentais que vão sair mais à frente, se calhar com o meu projeto, no qual vou contar contigo!

Francesco: Ah que maravilha! Que boa noticia!

Olmo Marin: E sei lá, com a cumbia também estamos a fazer o nosso single que é “Rio Arriba” que também eu compus e vai sair de aqui a pouco… fizemos um grande videoclip, com Cláudio Alves!

Francesco: Portanto, em breve estão prontos e dará para linkar isso! Então, agradeço imenso pelo teu contributo Olmo, maravilhoso!

Olmo Marin: Bueno! Obrigado!

Francesco: Obrigado e…

Olmo Marin: …grande Ciccio!

Francesco: E espero que tudo corra bem para este verão 2021 e em breve também estas entrevistas serão públicas e acessíveis para o público…

Olmo Marin: …obrigado por me meter aqui contigo!

Francesco: Grazie Olmo!

Olmo Marin: Gracias até a próxima!

Projeto Ágora: Entrevista com Pedro Loch (22/04/2021)

Pedro Loch é originário de Florianópolis (Brasil). Guitarrista e compositor, formou-se em Educação Musical na Universidade Estadual de Santa Catarina em 2012. Estudou Jazz na Morehead State University (EUA) e concluiu o Mestrado em Música na ESML (Escola Superior de Música de Lisboa). Loch fundou grupos importantes como Kiabo Instrumental. Juntou-se posteriormente às compositoras Tatiana Cobbett e Marcoliva, criando o grupo Sonora Parceria e gravando o álbum Música Súbita (2012). Loch gravou vários trabalhos, tais como os álbuns Corte Costura (2013) e Sawabona Shikoba (2015) de Tatiana Cobbett e Marcoliva. Participou ainda nos álbuns de Iara Germer e Rodrigo Piva. Trabalhou também ao lado de nomes relevantes da música brasileira, tais como Alessandro “Bebê” Kramer, Gabriel Grossi, Ricardo Herz, Amoy Ribas e Carlinhos Antunes. Hoje reside em Lisboa onde colabora com vários projetos, como Martin Sued e Orquestra Assintomática, Cristina Clara e Aixa Figini.

Em resposta à situação de atual emergência devida à pandemia do COVID-19 e à necessidade de promover iniciativas que possam avaliar e atenuar o impacto no âmbito das artes performativas, investigar os efeitos da crise, com enfoque no sector da música, documentar as estratégias aplicadas pelos artistas nas suas atividades criativas e de performance, o Projeto Ágora convida Pedro Loch, para compreender os efeitos provocados pela crise sanitária, quer no nível individual, quer no âmbito do sector cultural em Portugal.

Francesco: Boa tarde, caríssimo Pedro Loch!

Pedro Loch: Boa tarde caríssimo Francesco!

Francesco: Obrigado por ter aceite este convite e disponibilidade, para estas conversas do Projeto Ágora!

Pedro Loch: Eu agradeço que é uma honra para mim, participar…

Francesco: …estamos aqui num lugar maravilhoso, parece Lisboa, parece Nápoles, parece…

Pedro Loch: …é um dos meus lugares favoritos aqui, com certeza… da cidade!

Francesco: Olha, podes te apresentar, só para…

Pedro Loch: …sim! Eu sou Pedro Loch, sou músico, sou guitarrista ou violonista, sou do Brasil, como alguns vão perceber pelo sotaque e enfim, toco e estou bastante apaixonado pela música tradicional destes países: o samba choro, o tango, fado e flamenco e é a isto um pouco que me dedico e à composição também!

Francesco: Estás aqui em Portugal há quanto tempo?

Pedro Loch: Estou aqui há 3 anos e meio, vim fazer mestrado em jazz e acabei ficando…

Francesco: …mestrado na Superior?

Pedro Loch: Na Superior de Música de Lisboa [ESML]!

Francesco: ah que maravilha, ok! Gostava de… visto que chegaste aqui há três anos e meio e acabaste de entrar um pouco no circuito e conhecer gente e de repente depois chegou…

Pedro Loch: …o Covid!

Francesco: O Covid! Março 2020… estamos em Abril 2021… passou um ano e um mês… gostava de saber como é que viveste isto e qual foi o impacto em termos financeiros?

Pedro Loch: Para mim foi… acho que cada um seguiu um caminho e essa é uma coisa muito pessoal. Eu lembro que foi… na verdade foi em Fevereiro já… foi quando o Covid chegou na Itália muito forte e eu comecei a me interessar um pouco pelo assunto, eu vi um campeonato a ser cancelado, um campeonato de ténis. Eu assisto a campeonato de ténis e vi que tinha um campeonato de ténis que foi cancelado por causa do Covid, na época… isto ainda era Fevereiro e eu achei que… quando vi aquilo, eu pensei que não ia ter concertos por um ano!

Francesco: Sentiste logo?

Pedro Loch: Senti na hora! Falei… acho que a música vai ser muito complicado… eu acabei indo trabalhar e me dedicar à programação, na verdade! Sei trabalhar muito com programação, esta é uma adesão muito pessoal porque é uma área em que tenho facilidade e uma certa obsessão também e para mim não foi difícil trocar neste momento… não é trocar de área, eu continuei tocando! Mas eu precisava achar algum meio de me sustentar, eu tinha alguma coisa para fazer e comecei a trabalhar mais com programação. Então tive que largar a música por exemplo, largar não… na verdade, largar a música como sustento, não como paixão e como atuação, continuo tocando por aí! É uma área que escolhi fazer… esta área, porque é uma área que me dá muita liberdade de tempo de qualquer coisa e é uma área que eu pessoalmente gosto também! Então para mim está sendo uma época de muita programação na verdade! E de música também, mas de música de uma forma muito diferente, não é? E enfim… um pouco menos concertos, é claro e algumas gravações.

Francesco: Por exemplo em termos de concertos, quantos concertos fizeste em 2020?

Pedro Loch: Em 2020? Ah não contei mas obviamente foram muito menos, algumas lives, mas também poucas… e… não sei devem ter sido uns 20 ou 30 concertos, acho que não chega a isso… não sei!

Francesco: Ah! 20 ou 30, quase todos aqui na área de Lisboa? Porque festivais não havia…

Pedro Loch: …acho que sim! Acho que só fiz concertos em Lisboa, eu não toco fora de Portugal já faz mais de um ano… com certeza!

Francesco: Mais de um ano que não tocas fora de Portugal… que costumavas tocar normalmente?

Pedro Loch: Não fora de Portugal, mas fora de Lisboa sim!

Francesco: Ah ok, pelo menos Portugal continental e ilhas etc.

Pedro Loch: É sim!

Francesco: Portanto, reduziu-se bastante o número digamos… de concertos! E tiveste algum apoio no entretanto do Estado?

Pedro Loch: Não! Mas eu não busquei também, admito… eu estava… eu acabei achando uma situação de… com o trabalho que acabei inventando lá, eu acabei achando uma situação de sustentação financeira, que me deu uma tranquilidade e sinceramente achei que eu era uma daquelas pessoas que não estava realmente precisando naquela hora e eu acho que… neste caso valia mais a pena que os apoios fossem para quem tivesse… para os que estavam precisando de qualquer forma! Agora o facto de eu ir para programação, já é uma coisa muito… que já amostra a extrema fragilidade que é a nossa área, não é?

Francesco: Claro!

Pedro Loch: Foi logo a primeira reflexão que eu fiz! De como a nossa área é frágil e como é que nem vidro, não é? Teve uma pandemia e acabou, assim… se não tivesse a programação, eu não sei como é que me ia sustentar, na verdade! Foi como… achei ele ai na hora!

Francesco: E como outra pessoa que entrevistei, encontraste o trabalho em Fevereiro, um mês antes… vocês foram visionários?

Pedro Loch: É assim… eu tinha por onde cair, eu tenho uma família que trabalha com isso, então eu tinha uma certa rede, eu tenho uma certa… tinha esta certa sorte de certa forma! Eu tinha onde trabalhar, tinha tudo… claro que isso não me fez não me dedicar, eu me dediquei bastante, mas é assim como é uma área que eu gosto muito… me lembrou muito a música no começo, assim: eu estudava 10 horas por dia e foi mais ou menos o mesmo e foi uma área tranquila para mim, eu não posso reclamar! Tive muita sorte porque eu acho que muitas vezes eu nunca me tinha visto fora da música, achei que nunca iria conseguir fazer nada fora da música e acabei achando uma área que é interessante. Mas é difícil, normalmente quando alguém troca de trabalho, a gente vai fazer alguma coisa que não quer, não é? Eu tive a sorte de fazer algo que também gosto e dá dinheiro… dá um bom dinheiro tranquilo, assim… é uma área que tem muito dinheiro, eu acho!

Francesco: E em relação ao trabalho criativo? Pronto, tinhas um teletrabalho imagino que… não sei quantas horas por dia, mas conseguiste depois dedicar-te à música e vivendo esta… digamos, neste arco temporal, tivemos longos períodos de confinamento… como é que viveste a questão mais criativa? Composição, produção?

Pedro Loch: Foi um pouco difícil, mas isto é uma coisa… que eu acho que já vinha um pouco, esta dificuldade criativa. Não sei, acho que isto é muito pessoal, acho que deve ter gente na pandemia que teve muito… teve um processo criativo muito bom e teve gente que teve um bloqueio, eu acho que tive mais pelo bloqueio criativo pelo menos, mas de tocar não! Tocar… toquei bastante, compus muito menos do que costumava compor, muito menos! Não acho que foi o trabalho, porque eu tenho tempo para fazer isto também… Foi um pouco a…

Francesco: …o estímulo?

Pedro Loch: É, o estimulo… um pouco o estimulo… não poder estar tocando para as pessoas, eu acho! Acho que o facto de ficar muito isolado e não tocar muito com os outros é muito “desestimulante” para mim e acabei por compor menos por causa disto, eu acho!

Francesco: Ok! Sim, exatamente… esta impossibilidade de encontros e de ensaios…

Pedro Loch: …isto faz falta! Isto na minha opinião faz muita falta no meu caso, não é? Foi o que mais me fez falta!

Francesco: Sim porque também como músico de instrumentos e portanto membros de grupos… a nossa linfa vital e produtiva é partilhar…

Pedro Loch: …eu tenho muita dificuldade em estar sozinho, claro que já fiz isto muito na minha vida e até faço às vezes, mas ultimamente é muito mais prazeroso ir a um lugar e tocar com gente do que… compartilhar música… do que em casa sozinho às vezes é mais difícil de ter algum estimulo.

Francesco: Em relação aos concertos que fizeste, o que é que sentiste ao nível de performance em frente de… digamos assim… em situações com restrições, de distanciamento social, máscaras…?

Pedro Loch: Para mim, isto não… também nunca pensei sobre isto… não me fez tanta diferença ter que tocar, para mim não, não é? Mas eu sou guitarrista, se fosse cantora, claro! Mas se bem que não, é… mas no palco a gente não costuma usar máscara, a gente consegue ficar longe e faz o concerto….

Francesco: …o o público? Quer dizer pode ser que tenhas tocado em Lisboa em situações em que ainda não havia grandes restrições… em palcos grandes… houve festivais com cadeiras, distanciamento…

Pedro Loch: …é! Não sei… isto é muito… mesmo nos concertos é mesmo para o público, não é? Mas não sei dizer, não senti algo assim muito… claro que prefiro sem máscara, sem nada, é óbvio, não é? Mas não foi, para mim não foi algo assim tão…

Francesco: …que te deixou?

Pedro Loch: Talvez para o público é mais chato, não é? Mas a mim não, pelo menos para mim a máscara não me chateou muito!

Francesco: E agora que muitos festivais estão se propondo com programações em live streaming e os próprios músicos a partir do primeiro período de confinamento fizeram muito live streaming, tu também acho que fizeste alguns…

Pedro Loch: …fiz alguns sim!

Francesco: Parece ser um formato de performance que vai se consolidar no futuro, o que é que achas em relação a isto?

Pedro Loch: Assim a minha… eu sou muito suspeito para falar porque eu não gosto de… eu tenho muitas dificuldades com redes sociais e… então eu não vejo live, eu não gosto muito de ver… eu sou um pouco um bicho do mato nessas horas! Então para mim é muito natural achar que a live não tem futuro nenhum porque eu não assisto live… eu gosto de ver concertos ao vivo, mas live não!

Francesco: Ou seja fizeste live, mas não costumas assistir?

Pedro Loch: Não assisto, não gosto… mas assim, sou eu! Não estou tirando o mundo por mim, então… para mim é muito difícil de… para mim, se todo o mundo fosse igual a mim, estaria fadado ao fracasso! com certeza! Agora, como há pessoas muito diferentes de mim e ainda bem… eu não sei, eu acho que pode ser uma possibilidade, mas vejo muita gente reclamar dizer que não gostam… acho que é muito difícil uma live substituir um concerto ao vivo, me parece… mesmo com um som incrível… primeiro pra fazer uma live com um som incrível dá para gastar um dinheiro enorme…

Francesco: …exatamente! Este é uma questão que…

Pedro Loch: ….é uma coisa super difícil de ter, não é? Como é que sustenta uma live ao vivo assim… uma grande, como é que pagas as contas de tudo? Paga os músicos, paga os técnicos de som, paga o estúdio, não sei… a não ser que eu esteja errado, mas eu acho difícil depois de acabarem as restrições das lives continuar assim com esta força, acho eu! Os concertos ao vivo… mas, nos concertos tem uma experiência, o som vem… não sei explicar, tem a questão social, tem a questão….

Francesco: …do encontro?

Pedro Loch: …da música ao vivo, não sei… é complicado! Há coisas na música ao vivo que são boas porque são vivas, eu acho… não sei, não sei explicar… mas esta é uma minha percepção, não quero dizer… eu também realmente não tenho conhecimentos para dizer se vai para frente ou não…

Francesco: …eu como músico, me lembro que no princípio vários colegas, eu estava confinado em Nápoles… estava lá para fazer um disco e depois fiquei lá bloqueado e vários me pediram de participar em lives streamings, não é? Feitas com telefone… e aí a qualidade perde-se, mas era uma altura em que todo o mundo estava fazendo assim, então…

Pedro Loch: …claro!

Francesco: … surge esta questão!

Pedro Loch: Mas a coisa de não ter qualidade é que o pessoal faz muito… sei lá, quando posta assim no instagram, ou uma coisa curta e tal… nunca precisa de muita qualidade e muitas vezes tem um engajamento grande, não é? Isto para concertos, ou está contando uma história às vezes, sei lá faz um concerto de uma hora e mete dez minutos, as músicas tem uma ordem, uma razão de ser, uma coisa complementa a outra… acho que é muito difícil contar uma história como se conta num concerto e numa live… isto num concerto, se pensar numa live, então impossível! Não sei… todas as propostas que eu penso de concerto assim, seja um concerto em teatro, se fizeres uma coisa…  seja um concerto de baile sei lá ao ar livre, ou uma música para dançar, também não vejo a live substituir, não sei, não sei dizer… acho difícil!

Francesco: Esta pergunta liga-se a uma questão, ou seja… numa altura em que não sabemos ainda… os confinamentos se vão continuar ou não, se vai haver uma fase 3, uma fase 4, variante X ou Y… eu faço esta pergunta para que? Para perceber mais ou menos quais as estratégias que o músico pode ter para continuar a fazer o seu trabalho, se é o live streaming o formato possível ou

se poderá haver outros formatos, é só por isto que…

Pedro Loch: …olha, é uma boa pergunta!

Francesco: Estratégias, é… difícil como pergunta…

Pedro Loch: …é! Acho difícil, claro que há muitas coisas por fazer, provavelmente muita coisa que a gente ainda não imaginou… mas com certeza é difícil, claro que… eu me vi neste momento, eu não sabia muito para onde ir e acabei fazendo outra coisa!

Francesco: Claro!

Pedro Loch: Mas não sei, talvez a live seja uma opção, os apoios acho que são indispensáveis porque não se pode trabalhar… de certa forma, como sempre se trabalhou! Ou se tem um dinheiro guardado e se investe em gravações, talvez possa ser um bom momento para…

Francesco: …gravações de discos?

Pedro Loch: É! Pode ser um bom momento para produzir, para depois poder colher os frutos, não é? Se não… não sei muito o que se pode fazer, tem aulas online, que muita gente dá ainda… mas acho que trabalhar com música, bom sempre foi…

Francesco: …difícil! Agora ainda mais…

Pedro Loch: … dificílimo, enfim! É difícil mas é bom… é por isto é uma coisa… a paixão pela arte, faz as coisas difíceis serem coisas interessantes, não é? Mas, não sei muito como… eu acabei trocando de área porque eu nunca… não sabia o que fazer em um ano, se não tivesse concertos em um ano eu não saberia como viver e como pagar as contas!

Francesco: E… concluindo se esta precariedade do sector artístico em particular, aqui estamos a falar da música e dos músicos, quais espectativas terias por exemplo do mundo político e não digo só em Portugal como a nível, não sei… no Brasil ou… poderia ser visto este como um momento de mudança ou um reset… ou recomeçar com um novo…

Pedro Loch: …sim! Acho que sim! Claro que é muito fácil apontar o dedo, para mim é muito fácil de… está errado? Tal? Eu acho que a pandemia expos muito esta fragilidade toda, então… acho que alguma coisa tem de mudar… é claro que as propostas são sempre difíceis! Então vamos mudar o que, não é?  Mas acho que está constatada a enorme fragilidade do sector cultural, no Brasil é também assim… acho que no Brasil é até mais… e aqui é muito… e não sei, é preciso talvez ter uma organização melhor entre os artistas, os músicos… entre os artistas, porque os artistas tem os mesmos problemas, não é?

Francesco: Uma união mais forte?

Pedro Loch: É! Isto é uma coisa que a gente sempre fala e pouco faz… porque há muitas organizações que acabaram sobrevivendo por isso, a área tem pelo menos uma organização que sustente… eu acho que talvez seria… é uma das poucas soluções que me vem na cabeça e que também possa ter força política, não é? Porque sem união é muito difícil ter força política e… porque no fundo todo o mundo quer o seu, não é? Os músicos, os artistas, os enfermeiros, os… todo o mundo quer a sua parte…

Francesco: …sim mas sem representatividade e sem união não se chega a lado nenhum…

Pedro Loch: …sim! Acabando ficar invisível e isto é muito complicado!

Francesco: Ótimo! Muito obrigado Pedro, por este contributo, te pergunto… te faço uma ultimíssima pergunta para acabar… eventualmente, se podes aconselhar-nos uma música ou duas para ligar a esta entrevista, para quem depois vai ouvir pode ouvir-te também a tocar guitarra…

Pedro Loch: …ah claro!

Francesco: Tu produziste a partir?

Pedro Loch: A pandemia foi um tempo de muita gravação, pelo menos! Não posso reclamar disso, não tiveram muitos concertos mas pelo menos gravei, trabalhei nisso… então vou… pode ser uma, como eu sou compositor, pode ser uma composição que eu gravei com Aixa Figini e Ciccio e Diogo Picão, se chama “Viento”…

Francesco: …estava lá!

Pedro Loch: E enfim, acho que esta música é bonita e foi gravada durante a pandemia e fala sobre a… olha, é interessante… eu acho que o poema do “Viento” fala muito sobre… como diz a Aixa, a nossa insignificância perante o tamanho da natureza… e eu acho que é um pouco isso!

Francesco: Fantástico!

Pedro Loch: E é um poema super bonito e imagético, então pode ser “Viento”!

Francesco: Que vai sair em breve, portanto…

Pedro Loch: …vai sair em breve, é um trabalho meu e da Aixa e está… vamos ver como está ficando… em breve sai e quem quiser ouvir, espero que gostem!

Francesco: E tens uma segunda?

Pedro Loch: uma segunda…

Francesco: …já que gravaste muita coisa…

Pedro Loch: …e agora? Ah pode ser também o trabalho com Martin [Sued] também… que fizemos e… não sei, pode ser “Filas” talvez, que é um trabalho… este trabalho foi de Martin Sued, grande bandoneonista que me chamou e tive a felicidade de ele me chamar na verdade e é um septeto incrível e gravamos recentemente, espero que dê muitos frutos! Um trabalho com músicos talentosíssimos e enfim… eu me sinto honrado de fazer parte, é sempre um prazer! E pode ser uma destas músicas que gravamos recentemente…

Francesco: “Filas”!

Pedro Loch: “Filas” é boa! É uma boa!

Francesco: ok! Muito obrigado, gracias Pedro Loch!

Obrigado!

Francesco: Mais uma vez! Com passarinho a cumprimentar, obrigadíssimo!

Pedro Loch: Obrigado, obrigado! Tudo de bom!

Projeto Ágora: Entrevista com Juninho Ibituruna (28/03/2021)

Juninho Ibituruna é baterista, percussionista, compositor e produtor musical. Nasceu em Minas Gerais, na cidade de Itabira. Colaborou com vários projetos entre Brasil e Portugal, tendo multiplicado a sua atividade musical de performance e de ensino em vários países de Europa. Atualmente colabora com a banda Xafu (formada também por André Xina e Francesco Valente), Coladera (com Vitor Santana e João Pires) e lidera o grupo Pandeiro in Jazz. Conta com várias colaborações no seu historial e com vários álbuns à solo disponíveis na sua página, na plataforma Bandcamp.

Em resposta à situação de atual emergência devida à pandemia do COVID-19 e à necessidade de promover iniciativas que possam avaliar e atenuar o impacto no âmbito das artes performativas, investigar os efeitos da crise, com enfoque no sector da música, documentar as estratégias aplicadas pelos artistas nas suas atividades criativas e de performance, o Projeto Ágora convida Juninho Ibituruna, para compreender os efeitos provocados pela crise sanitária, quer no nível individual, quer no âmbito do sector cultural em Portugal.

Juninho Ibituruna: Olá sou Juninho Ibituruna, brasileiro, vivo em Lisboa, há mais ou menos uns 11 anos que eu fico indo e vindo do Brasil ao Portugal e é uma satisfação estar aqui, não é? Nesta cidade cosmopolita que me abraçou! Eu tenho uma longa história aqui com este pequeno pedaço da Europa, aqui!

Francesco: Muito bem, obrigado Juninho por ter aceitado este convite a falar aqui nas conversas do Projeto Àgora!

Juninho Ibituruna: Satisfação!

Francesco: Àgora e aqui… combinamos num lugar lindo e significativo!

Juninho Ibituruna: Agora que o sol chegou, não é?

Francesco: Chegou o sol, estamos “desconfinados”, ainda não a 100%… estamos aqui na Nossa Senhora do Monte de Lisboa, podem ver no fundo as belezas… então! Olha para ali… Te convidei para falar um bocadinho sobre a experiência do último ano em curso, desde Março, é mais de um ano que estamos entre confinamentos, presos sem poder fazer concertos e tivemos… temos em conjunto uma experiência alucinante… que vais contar agora!

Juninho Ibituruna: Única!

Francesco: Que vais contar agora!

Juninho Ibituruna: Eu tive…

Francesco: espera… não! Conta!

Juninho Ibituruna: É! Porque esta experiência é realmente única assim! Eu tive a sorte, a alegria e também o desespero de ficar 95 dias com este grande amigo Francesco Valente e o André Xina em Nápoles, quando foi a primeira quarentena, não é? O primeiro lockdown e… bom! A primeira de cara foi assustador, mas depois a gente foi muito criativa ao mesmo tempo, porque a gente teve oportunidade de criar em casa, não é? Tinham também um vizinho que era um percussionista que ajudou ali no processo criativo e artístico para balancear até a vivência entre nós os três, então… bom! Inicialmente foi criativo, porque a gente tocou muito, criou muito e… tocamos até ficar exausto de tocar um com o outro, e pronto! A gente compôs ai um disco que a gente vai gravar, com o projeto Xafu e depois teve um tempo, que foi a parte ruim da história que quando… obviamente vai ficar tanto tempo com as mesmas pessoas, você acaba que vai ficando estafado da vivência e tudo mais, não é? Então teve este lado também, o lado vamos dizer assim “deprê” da coisa e que para mim foi… pude usufruir também disto também, desta parte down para usar de forma criativa e fazer um álbum que eu acabei fazendo lá nesta residência forçada!

Francesco: E o álbum se chama?

Juninho Ibituruna: O álbum se chama “Até” e foi uma colaboração, assim não é? De coisas que eu estava criando… quando acabou assim, vamos dizer assim a vivência musical e criativa entre nós três, eu passei a criar coisas sozinho com uma maquina que é uma MPC, uma drum machine e o computador e a gravação de ideias e onde eu tive a ideia de fazer uma criação em spoken words, não é? Aquela coisa da poesia com a música e passei a comunicar com as pessoas de fora, do Brasil e outros amigos, a partir de criação, de poemas e de tudo mais, e foi melhor para mim porque era melhor do que ficar conversando à toa na internet, ou conversando em grupos, não é? Então conversando com criação, ficou mais legal, assim… então o disco está lá, o disco se chama “Até” e tem 8 faixas, é um disco interessante!

Francesco: Maravilha! Tiveste também grandes colaborações!?

Juninho Ibituruna: Grandes colaborações, Ciccio Valente é uma deles!

Francesco: Gostava de saber, em termos financeiros o impacto foi devastante, imagino… vinhas do Brasil com muitas datas marcadas?

Juninho Ibituruna: Sim! Eu tinha uma sequência de workshop’s para fazer, workshop de pandeiro, era… foi um ano… era um ano que eu tinha separado para fazer coisas de pandeiro, interações de pandeiro, aula… e enfim! Tinha um tournée de workshop para fazer que ia rodar 5 países e pronto, ai… caiu tudo, não é? Ai já não rolou mais nada, sim foi um desastre assim… mas foi a oportunidade de enxergar outro mercado, que é um mercado que não é tão legal, porque? Nada substitui a presença, não é? Mas foi a coisa da internet e da aula online, então também consegui outros alunos e ampliar o leque de alunos, digamos assim, foi difícil e é difícil que ainda vivo essa realidade, mas foi… é a forma que está sendo de trabalhar e sobreviver nesta atual conjuntura!

Francesco: Em termos de concertos, pouquíssimos?

Juninho Ibituruna: Mínimo, mínimo! Quase zero, não é? Atualmente o que eu fiz de concerto, fiz um concerto online, um festival online, não é? E… zero… neste ano agora, neste segundo confinamento, zero!

Francesco: Nos anos anteriores tocavas quantos concertos por ano? Estimativamente?

Juninho Ibituruna: Bicho! Esse era muito… principalmente na Europa, foi o lugar onde sempre eu toquei muito, assim! Não sei, não… sei lá!? Teve anos, quando eu tinha um grupo que era o Thião Duã, que é com Luiz Gabriel Lopes e Gustavo Amaral, o Gustavito… a gente chegou a fazer 30 shows em 30 dias!

Francesco: Muitos concertos!

Juninho Ibituruna: É! Muitos concertos, mas só para ter uma ideia das possibilidades, não é? Mas eu não sei, em 2019 por exemplo só em Lisboa, eu trabalhei muito na rua, também, não é? Tocando na rua e tocando em clubes e festivais do interior, enfim… Portugal é uma cidade que movimenta muito no verão, não é? Turismo, a música e tudo isto está muito presente aqui na nossa realidade! Então agora com esta parada toda é um desfalque gigantesco no orçamento e na produção também, não é? Na produção artística, da criação!

Francesco: Conseguiste ainda lançar o trio de pandeiro e outros projetos!

Juninho Ibituruna: É! Isso… apesar da situação, na verdade foi a coisa de enxergar todo o mundo, toda uma gama do mercado estava… sofreu… não só os músicos, mas restaurantes e bares e etc. E quando abriu um período ali que é o outono, que ali havia o inverno… o outono, eu enxerguei que os restaurantes precisavam de música, porque precisavam atrair as pessoas, que logo se falava que ia fechar e tudo mais… e então a gente… te convidei para criar o “Pandeiro in Jazz”, não é? E foi muito legal, assim um trio versátil que era o Francesco, eu no pandeiro… Francesco [Valente] no baixo, eu no pandeiro e o Claudino Andrade nas teclas… e foi muito legal, foi um período legal, a gente fez uma residência em Novembro num restaurante e enfim, foi bom para criar novos projetos também, não é? Então é um embrião que está aí aberto, não é? E… mas são formas que a gente vai buscando para driblar esta situação, não é?

Francesco: Recebeste algum apoio entretanto, desde o início das restrições?

Juninho Ibituruna: Ah… o único apoio que eu recebi e eu agradeço imensamente é da União Audiovisual, que é uma cesta básica que chega, que… como eu moro sozinho, tenho esta sorte de morar sozinho, esta cesta básica me alimenta o mês todo, então eu agradeço imensamente! assim…

Francesco: e recebes isto todos os meses?

Juninho Ibituruna: Recebo todo o mês…

Francesco: fantástico!

Juninho Ibituruna: Fantástico! Vem comida, vem tudo…

Francesco: ótimo! Deixa me ver aqui… para seguir, visto que no caso dos apoios não há nada a dizer, queria saber então… já falamos um bocadinho, em termos criativos, assim… a tua interação com outros músicos, foi obviamente menos possível, mas foi também um ano em que eventualmente… evidentemente surgiram projetos e ideias novas… há duas dinâmicas: uma do confinamento e de parar, por exemplo no último confinamento, mesmo neste último… conseguiste compor, fazer coisas?

Juninho Ibituruna: Cara! No último confinamento, diferente do primeiro… eu preferi criar sozinho, eu preferi fazer uma criação sozinho assim, que foi criar um podcast e… que é o Podcasts Pandeiro LX e foi muito legal assim esta interação, porque eu pude explorar mais este universo do pandeiro, que era a minha ideia desde o começo de… do 2020, não é? Então, foi uma forma mais criativa e ao mesmo tempo solitária, mas eu estava com todo o mundo ali, não é? Conversando e criando os episódios e eu não criei álbum, dessa vez… mas esse podcast assim abriu um universo assim, para mim! Porque foi aonde eu pude estudar mais pandeiro, conhecer novas técnicas, não é? Novas pessoas de outros países, pandeiristas deficiente físico que tem uma técnica para se tocar, enfim… mil situações, assim, não é? Ya! Mil situações assim que salvaram essa nova configuração, esse novo confinamento!

Francesco: E isto do podcast é assim um novo universo em que te estás a revezar…?

Juninho Ibituruna: É! Na verdade eu sempre fiz uns… há dez anos atrás já tinha uma espécie de rádio assim, não é? Na internet e todo o evento que eu produzia lá no Brasil, eu fazia um podcast antes e depois do evento, para divulgar o antes e o depois sobre a resenha do evento, não é? Como foi o show, a espectativa, enfim… então eu já tinha esse mecanismo assim, sabe? E aí quando deu essa coisa do novo lockdown, foi… pô! Vou fazer um sobre o pandeiro! Há tantos pandeiristas, não é? Eu acho que, eu costumo falar que “choveu pandeiro na internet quando rolou o lockdown”! Cara! Apareceu muita gente tocando pandeiro e várias coisas interessantes, assim… então… foi legal, assim…

Francesco: …e não! Por ter vivido contigo aqueles 95 dias eu admirei o teu dinamismo e as tuas ideias, mas me surge uma pergunta: nunca te surgiu na cabeça a ideia de deixar a música e chau! Vou mudar de trabalho?

Juninho Ibituruna: Cara! Isso aconteceu há muitos anos, não agora! Agora, pelo contrário! Agora potencializou as ideias e a certeza de que é isso mesmo que eu quero fazer! Sabe? Porque é na dificuldade, assim nos momentos mais difíceis, não é? Que a gente assim: ou é isso ou não é, não é? Ou é agora, ou não é? Então eu percebi muito isso e conversando também com alguns amigos todo o mundo teve essa mesma, é assim… não! É isso mesmo, é agora! Aquela aula, aquele projeto que eu tinha de aula, ou o projeto de não sei o que é agora que eu vou fazer, não é? E todo o mundo teve tempo para isso, não é? Mas essa coisa de não pensar em não fazer música, isso aconteceu comigo com 15 anos de idade, na verdade foi um trauma de adolescência que… eu parei de tocar por 8 meses e fui ser… como se chama lá no Brasil, de office boy, não é? Como se fosse um estafeta aqui, mas de bicicleta, porque eu não precisava de pensar em nada, não é? Era muito confuso para mim, porque eu já tocava, já ganhava grana e eu já sabia tocar porque era uma coisa que meu pai me ensinou, que meu avô ensinou para o meu pai, então é uma coisa de família… os meus amigos da escola, da… enfim que eu tinha no bairro ficavam perguntando: e aí agora que está fazendo? E aí vou ser advogado! E vou ser não sei o que… eu não, eu já era! Não é?

Francesco: De família… marcado!

Juninho Ibituruna: É! De família! E chegou um momento que eu fiquei confuso, mas depois eu… depois ficou de boa!

Francesco: Gerações e gerações de bateristas?

Juninho Ibituruna: É!

Francesco: Fantástico! Não poderias nunca deixar nem numa situação dessas, poderia alguma vez assustar-te…

Juninho Ibituruna: jamais!

Francesco: Mas eu agora, pensando nas perspetivas futuras, bom… estamos ainda a sair do desconfinamento, não sabemos ainda se vamos ter um verão, algum concerto ou não, etc.  Que tipo de estratégias, por exemplo… tudo o que falaste são estratégias, ou seja… trabalhar na internet… mas em relação à performance, aos concertos?

Juninho Ibituruna: Sim! Cara! É muito doido, assim, porque o conceito de concerto agora, eu estou enxergando completamente diferente! Eu acho… eu penso assim que, agora com a bagagem de dois confinamentos… eu penso que, quando a gente for tocar agora, isso não pode ser apenas uma amostra, sabe? A gente sentar ali num lugar, num palco ou num cantinho e apenas tocar por tocar… pelo facto que a gente gosta de aquilo, por um… entre aspas assim… um egoísmo artístico, eu não consigo enxergar assim isto mais… eu penso que o público está com tanta sede em ver música e a gente está com tanta sede em tocar para ele, que é preciso ter uma interação! Eu acho que a gente tem que recriar uma forma de fazer música e de fazer arte!

Francesco: Reinventar um pouco o formato de performance?

Juninho Ibituruna: Reinventar o formato da performance artística, com certeza, eu não sei como… na verdade! Mas eu sinto essa falta, sabe? assim como… eu penso… não sei… assim: quando eu ministro aula na rua, naturalmente tem uma interação e naturalmente tem um aspeto de espetáculo, por ser na rua! Como se fosse uma performance ali, não é? Então, teatral até, então não sei, assim… eu queria dialogar com outras artes para poder ter um entendimento melhor sobre isso!

Francesco: Ok ótimo! E em relação ao novo formato de concerto online… tudo o que vimo neste ano de grupos a fazerem concertos ou música no zoom, ou festivais agora que estão propondo como formato este do live streaming, o que é que tu achas… obviamente é algo diferente de um concerto live

Juninho Ibituruna: É! Cara! Eu acho que só funciona… de cara é um desastre, não é? De cara é uma forma que não é… que não supre ninguém, assim… é raso, na verdade! É uma forma muito rasa, o que chega tanto para o músico, tanto para o púbico! Eu acho que funciona o gravado, que você tem uma condição melhor sonora, você pode fazer uma pós-produção, a imagem legal… então eu penso que a coisa do zoom agora é um minidoc, não é? Basicamente é um minidoc e aí a junção do audiovisual, então agora… o live mesmo é frio, não bate… é frio, é demasiado frio, ou você tem uma grande produção, que não é o caso da nossa gama da maioria das pessoas…

Francesco: …se te lembrares, já vimos alguns concertos live, quando estávamos juntos em Nápoles e reconhecemos os dois que não chegava a energia…

Juninho Ibituruna: é! Não chega a energia, não bate! Não é?

Francesco: E já tocaste em situações de restrições, ou seja… imagina um palco grande com público sentado uma cadeira sim uma cadeira não, ou como público ou como músico, já estiveste, ou não?

Juninho Ibituruna: Não! Eu não tive esta experiência não!

Francesco: Ok! Porque gostava de saber no caso positivo, o que é que achavas…

Juninho Ibituruna: não! Não tive ainda…

Francesco: …perfeito! Então, em relação a tudo o que vivemos agora, tu estavas a falar antes da União Audiovisual, podes falar-me um bocadinho mais e realçar a função e o papel que movimentos ou grupos de pessoas podem ter nestas situações, o que é que esta situação provocou?

Juninho Ibituruna: Cara! Eu acho que a coisa… o ser humano é um… é incrível ao mesmo tempo, não é? Ele consegue sobreviver no meio destas coisas todas, não é? E… o ser humano é um bicho incrível assim, porque quando não tem nada o ser humano tem uma parte da caridade, não é? Que é natural na verdade, então surgem projetos como a União Audiovisual, que nada mais a menos são as pessoas ali dessa área que foram afetadas brutalmente, não é? Os técnicos de luz, de palco e etc., e que criaram este coletivo e no Brasil também tiveram vários! Eu vi várias lives de alta produção de grandes artistas arrecadando grana para isso, eu acho incrível, não é? Porque é isso! Têm uns artistas famosos e têm uns artistas que não são tão reconhecidos, assim… mas que têm um reconhecimento de cada um ter o seu público, não é? E movimentam a economia! A verdade é essa! A arte em si, ela movimenta uma economia brutal, movimenta o turismo, movimenta a economia, gera emprego formal ou informal, então… é o mínimo que este sector seja recompensado com o básico!

Francesco: Exato! Então, em termos de espectativas do mundo político, da política assim… queres comentar ou é melhor…

Juninho Ibituruna: cara! Sim! Eu acho interessante um artista e um músico sempre pensar na política assim, mas principalmente na política cultural, não é? Aqui em Portugal é muito lento o processo de política cultural, é muito devagar assim… eu tinha, assim… eu como brasileiro eu tive a experiência de viver… a oportunidade de viver o Gilberto Gil no Ministério da Cultura, não é? E foi um divisor de água porque, antes do Gilberto Gil também, era ruim! Era bastante ruim lá… Gilberto Gil entrou no Ministério da Cultura, ele criou todo um mecanismo que pode ser modelo para vários países, porque? O que é que ele criou? O mecanismo que ele criou foi pegando, sampleando modelos de vários países e criou uma coisa incrível, não é? De fomento, de intercâmbio cultural com outros países, não é? Eu tive a oportunidade de viajar muito através desses apoios, não é? E de criar intercâmbios, não é? Eu te conheço por causa disso, não é? E criei relação com muita gente por causa disso! Então é fundamental projetos como esses, assim… modelos de projetos como esses! Então eu acho que falta em Portugal é só uma política cultural, assim… de verdade, não é? Se falar disso! Porque, assim, como eu disse antes, a cultura movimenta um mercado gigantesco aqui neste país, não só na cidade de Lisboa mas no país inteiro, não é? Os estrangeiros vêm aqui ver… o turismo aqui, ele não fica aqui andando por aí, ele está procurando algo e a arte de aqui é muito forte, a música aqui é muito forte, a questão luso fónica, o universo luso fónico, não é? Isso aqui é uma gama de… eu vim para aqui por isso! Sabe? É uma cidade cosmopolita e um intercâmbio artístico gigantesco! Não é todo o lugar que tem isso, sabe?

Francesco: Ótimo! Muito obrigado Juninho!

Juninho Ibituruna: É isso aí!

Francesco: És o maior, gostei muito do teu contributo! Gostava de perguntar-te para acabar se queres nós dar uma dica das tuas produções “covídicas”, desde Março até aqui, para conseguirmos ouvir-te ou quem está a ouvir… irá ouvir isto poderá ouvir a tua música , ou alguma coisa que tenhas feito a partir de Março…

Juninho Ibituruna: sim! É, eu acho que é só ficar de olho ai  nas comunicações virtuais assim… que agora é desta forma que a gente programa para se encontrar, não é? Tanto virtualmente, quanto pessoal, não é? Quando é possível… então, na minha página do instagram é onde eu comunico tudo e deixo aí aberto para ouvirem ai o Podcast Pandeiro LX e para quem estiver afim, fazer aulas de pandeiro, a gente tem um grupo legal, onde eu mando vídeos, tem uma partitura, áudio e encontros virtuais e reais!

Francesco: Grande! E não tens uma ou duas músicas?

Juninho Ibituruna: Tem! Aí tem uma página no Bandcamp também, onde você pode encontrar toda a discografia Ibituruna!

Francesco: Mas do repertório mais recente, criado nesta situação?

Juninho Ibituruna: Na atual conjuntura, só o disco que vai sair em breve… que é um disco do João Pires, que é o que estou produzindo!

Francesco: E em Nápoles, fizeste o disco de poesias?

Juninho Ibituruna: Em Nápoles, tem o disco que é o “Até” aonde também você pode ouvir no Bandcamp!

Francesco: Tem uma música qualquer, ou alguma que queiras ressaltar?

Juninho Ibituruna: Cara! Tem a primeira música, que eu acho que é logo de cara, assim é “O vento” que é uma música que eu acho que fala muito a verdade do que todo o mundo está vivendo agora, assim… é um disco forte! Vamos dizer assim… para quem sofreu muito na pandemia, é um disco que eu confesso que é um disco forte! Mas tem também uma parte leve e tudo mais, eu recomendo duas faixas: a faixa “O vento” que é a primeira e a segunda faixa que é “Eu babo” que é onde você tem o contraponto ali, você tem uma parte pesada dark, e depois você tem um DUB super relax, assim mas que também fala desta questão que a gente está vivendo agora, de uma forma mais leve… que é bom, também!

Francesco: Muito obrigado Juninho!

Juninho Ibituruna: Valeu, satisfação!

Francesco: Obrigadíssimo!

Juninho Ibituruna: Valeu!

Projeto Ágora: Entrevista com Ariel Rodriguez (10/03/2021)

Ariel Alejandro Rodríguez Garcés (San Juan, Argentina), Licenciado em Composição Musical (Universidad Nacional de Villa María, Córdoba, Argentina), conta com uma extensa experiência como docente no ensino musical. Nos últimos vinte anos desenvolveu uma intensa trajetória profissional: festivais, concertos, gravações e workshops em Argentina, Brasil, Espanha, França, Portugal, Alemanha, Itália, Turquia, etc. Conta atualmente com um total de 4 discos autorais, assim como música para peças de teatro e espetáculos de dança contemporánea. Em 2017 radica-se em Serpa, Portugal, onde trabalhou como criador residente, gestor, técnico de gravação, pós-produção de áudio e professor de piano no Musibéria -Centro Internacional de Músicas e Danças do Mundo Ibérico–  (Centro Internacional de Músicas e Danças do Mundo Ibérico). Atualmente reside em Lisboa onde desenvolve-se maiormente como compositor, pianista e arranjador colaborando com inúmeros artistas da cena local e internacional. Atualmente reside em Lisboa onde colabora com vários artistas entre os quais destacamos Martin Sued e Orquestra Assintomática.

Em resposta à situação de atual emergência devida à pandemia do COVID-19 e à necessidade de promover iniciativas que possam avaliar e atenuar o impacto no âmbito das artes performativas, investigar os efeitos da crise, com enfoque no sector da música, documentar as estratégias aplicadas pelos artistas nas suas atividades criativas e de performance, o Projeto Ágora convida Ariel, para compreender os efeitos provocados pela crise sanitária, quer no nível individual que no âmbito do sector cultural em Portugal.

Francesco: Olá Ariel! Boa tarde, obrigado por ter disponibilizado esta conversa Ariel Rodriguez: obrigado eu…

Francesco: do Projeto Ágora, que está começando e vai abarcar muitos músicos amigos e colegas! Queria que te apresentasses…

Ariel Rodriguez: olha para a câmara ou olho para ti?

Francesco: Para mim!

Ariel Rodriguez: Eu sou Ariel Rodrigues, eu sou argentino, estou a viver aqui em Portugal já há mais de 4 anos, e pronto, sou músico, principalmente pianista, também toco guitarra, sou compositor e arranjador, pronto! Chega!

Francesco: Então, eu queria começar fazendo-te esta pergunta: eu queria saber de que maneira a pandemia te afetou do ponto de vista financeiro, desde o princípio? Ou seja, já passou um ano, estamos a cumprir um ano de pandemia e confinamentos vários e lockdowns… de que maneira isso te afetou do ponto de vista financeiro?

Ariel Rodriguez: Pronto! Foi muito concreto, foi uma afetação muito concreta, todos os trabalhos pararam, todos os projetos ficaram cancelados alguns, outros adiados, outros não sabem quando vão se montar e pronto! A atividade mesmo, encerrou! Então, pronto! A atividade financeira dependia desta atividade e esta atividade empírica mesma, da própria atividade… eu já acho que é um sucesso, é um êxito ter sobrevivido este ano nestas condições e não sei quanto tempo vai durar, mas sim afetou de uma forma muito concreta. Eu literalmente, no sentido literal… eu comi dos meu ahorros, das minhas poupanças, eu comi… este ano foi disso!

Francesco: Exato…

Ariel Rodriguez: consegui recuperar um bocadinho em alguns momentos…

Francesco: no final se calhar do ano de 2020?

Ariel Rodriguez: Sim! Consegui recuperar para que no pingue tão rapidamente, não? O dinheiro, mas eu literalmente vivi disso…

Francesco: ok! E dos apoios do governo, digamos assim, ao sector artístico… tiveste a possibilidade de conseguir algum apoio, recebeste alguma coisa? Da Segurança Social, dos outros apoios da GDA

Ariel Rodriguez: estou à espera um bocado de uma resposta da Segurança Social, agora neste momento. Eu tinha pedido para a cultura também um apoio e não sei se tenho sido escolhido ou não… à partida eu não tenho, são as únicas duas, os dois apoios que eu precisei pedir, até agora…

Francesco: …que podias?

Ariel Rodriguez: Que poderia, sim! Poderia pedir mais, na verdade não senti a necessidade, senti que se calhar tinham outras pessoas que precisavam mais do que eu… eu senti me ainda seguro, mas pronto já… tal como eu disse aquele… eu comecei a ver o final da minha conta bancária e pronto, então comecei a ficar… olha: se calhar eu vou precisar de pedir e agora para o futuro vou ficar mais atento!

Francesco: Te ocorreu alguma vez durante este período de pensar, vou mudar de trabalho?

Ariel Rodriguez: Sim, sim! Sim já me ocurrió, durante este período e durante o outro período também já… um período normal da vida, às vezes eu pensei… se calhar, sei lá, posso estudar psicologia a ser tipo psicólogo ou outra coisa, não sei…

Francesco: …mas ocorreu várias vezes, não é?

Ariel Rodriguez: E agora aprofundou um bocado, aquela crise existencial que eu acho uma crise saudável, digamos… um replaneamento constante do como faço o que eu faço, porque eu faço o que faço, quero fazer só isto? Quero fazer outras coisas? Pronto! Isto colocou também muitas coisas em questão, na verdade eu não acho que seja mais do que uma atividade intelectual, não vai passar de ai, eu vou continuar a fazer música enquanto se… enquanto eu puder eu vou fazer música…

Francesco: …e exatamente em termos de trabalho criativo, estávamos a falar um bocadinho antes, de que maneira todo este processo de confinamento, dos lockdowns, pandemia e falta de perspetivas, como de trabalho e apresentações em público, de que maneira isto afetou o teu trabalho criativo, por exemplo, em casa?

Ariel Rodriguez: Também foi muito direto, inicialmente eu tive uma espécie de explosão criativa, quando consegui encontrar de repente muito tempo que normalmente não tinha, uma pequena explosão criativa e também eu acho, mesmo no começo da pandemia quando foi aquele primeiro lockdown, eu tive  assim um momento… florescer uma pequena primavera criativa que foi o produto daquele ócio criativo. Mas de repente quando o ócio não foi escolhido, quando o ócio foi digamos forçado, foi obrigado… eu fui paulatinamente perdendo as energias e fui perdendo um pouco as motivações. Tenho que dizer que, sei lá? Que não me encontro agora num estado ótimo, estarei num 40% da minha energia criativa mais ou menos ativa, eu sinto isso! Sobretudo custa me… custa me sentar-me um tempo no piano a escolher músicas, a escolher harmonias, a tentar compor, a fechar ideias, eu fico desmotivado muito rapidamente, fico sem energia… já! E eu acho que tem a ver com esta situação de confinamento tanto tempo, não? De incertezas, incertidumbre

Francesco: …e de um inverno que foi muito duro…

Ariel Rodriguez: …inverno muito duro, muito duro! Até eu também fiquei infetado, então pronto sim, eu acho que tem a ver diretamente com isso…

Francesco: …é como sair de um pesadelo! Agora que vem a primavera…

Ariel Rodriguez: …alteraram-se teus horários, fico com os horários trocados às vezes, depois organizo-me de novo, consigo ter mais ou menos uma vida, consegui ver que há cosas simbólicas que eram importantes para mim, por exemplo: mesmo que não ia para a rua, vestir roupa de rua era bom para mim, preciso vestir uns ténis…

Francesco: …não ficar de pijama!?

Ariel Rodriguez: Não ficar com a roupa de casa o tempo todo… e pronto! Comecei a tentar ter alguns “atos simbólicos”, por dizer de alguma forma…

Francesco: …como se tudo fosse normal?

Ariel Rodriguez: Sim, sim! Mas pronto! São medidas paliativas que tentam subsanar uma coisa que de fundo não está, não é? Que é a atividade mesma, a troca com as pessoas, a partilha, os concertos, os convites… as coisas vem muito de pouco, muito pouquinho…

Francesco: …exato! Em relação aos concertos, tu por exemplo em 2019, que foi o último ano da vida “pré-covídica”, digamos assim, quantos concertos tocavas por ano mais ou menos, em 2018, em 2019, uma média?

Ariel Rodriguez: Pronto! Eu venho de Argentina, eu estava na Argentina até o ano 2016 e decidi vir para Portugal para viver e fui para o Alentejo, no meio do campo, no meio do nada, porque mesmo decidi de parar com aquela loucura dos concertos e decidi de dedicar-me… estive numa instituição cultural de produção cultural e dediquei me muito tempo a compor e a criar sobretudo e a gravar e a participar em projetos de outros, mas eu não tinha muitos concertos e de facto foi esse o meu… a minha motivação para vir a viver a Lisboa… eu já estava a sentir a necessidade de ir para os palcos novamente, só que cheguei aqui em Lisboa em Março de 2020…

Francesco: …ah! Ok, perfeito!

Ariel Rodriguez: A viver! Então não apanhei concertos… mas eu não tinha assim… uma grande presença nos palcos nos anos anteriores… mas na Argentina sim, eu não parava eu tinha concertos 5as, 6as, sábados e domingos, entre partilhas, convites e gravações, concertos meus e coisas… eu não parava…

Francesco: …portanto o teu normal era ter 100/120/110/90 concertos por ano… e a partir de 2020?

Ariel Rodriguez: Eram muitos! Muitas vezes não eram muito bem remunerados, algumas vezes sim… outras vezes não, mas não importava aqui muito a coisa financeira, se não que era a quantidade de concertos, eu tinha muitas participações de concertos em Argentina, eu não parava! Praticamente eu não parava!

Francesco: Então na hora em que decidiste de voltar para os palcos entrou…

Ariel Rodriguez: …pois! Eu estava em boxes, fui para a pista e digo, ok! Vamos recorrer a carreira e… estava tudo cerrado… fechou! Fechou tudo! Mesmo assim, tive agora uma pequena… um pequeno, no final do verão aqui… em 2020 que o confinamento abriu um bocadinho e permitiu, já estávamos a ter de novo uma exposição maior, não? Eu tocava 3/4 vezes por semana…

Francesco: …exato! O que me interessava saber era: nestes concertos que fizeste já durante o período da pandemia, o que é que sentiste em relação às restrições que existem, ou seja… como é que estes elementos extramusicais, digamos assim… como a máscara, o uso obrigatório da máscara, algumas restrições… não sei se tocaste em palcos maiores, como é que estes elementos podem afetar a performance, a nossa performance?

Ariel Rodriguez: No sentido dos horários, por exemplo, tem que ser todo mais curto, tem que terminar mais cedo, tem que começar mais cedo, por exemplo, alterou um bocado nisso, no sentido… não sei! Aquele ritual pós-concerto, quando acabas de tocar, que vais a cumprimentar as pessoas, que estás com gente, esta situação também alterou, não? Manter a distância e não poder mesmo ter um exercício natural da convivência com as pessoas, altera! Eu acho que reflete um bocado no palco, reflete um bocado sobre como tocas, o que tocas, o que escolhes tocar e o que não…

Francesco: …exato! O tipo de repertório e de comunicação…

Ariel Rodriguez: …o tipo de repertório, sim… pronto! Normalmente eu faço uma música muito tranquila e muito contemplativa, não é uma coisa assim muito virtuosa nem nada, então… normalmente já vinha assim mas eu acho que até ficou um bocadinho mais agora…

Francesco: ok! Interessante…

Ariel Rodriguez: poderia ser uma explicação…

Francesco: …ou seja, pode… digamos assim… ter influenciado a escolha dos repertórios?

Ariel Rodriguez: Também, sim! A criatividade e a criação…

Francesco: …e em relação a todos os concertos que houve nesta altura… de live streaming, performance e gravações, estes novos formatos de apresentação dos músicos, tens alguma coisa… pensaste nisso, por exemplo o futuro como será? Quais as estratégias podemos ter para imaginar o nosso trabalho no futuro?

Ariel Rodriguez: Não sei! Eu gosto, eu gostei… eu respeito! Eu não fiz muitos! Eu fui convidado a uns streamings que eu fiz, mas… não gosto muito, sobretudo porque acontece comigo às vezes, eu estou… sei lá… qualquer rede social, no instagram… de repente tem ali sei lá, um streaming live de alguém que eu admiro, que eu gosto muito… mas aquilo não foi planejado por mim, eu estou noutro momento da minha vida… eu estou fazendo outra coisa, estou… sei lá a cozinhar em casa, eu não consigo dar atenção para esta… não é uma atividade planejada por mim, a atividade vem a mim e não sou eu que procura a atividade, percebes? Acontece… pelo menos esta é a minha visão, não é? E isto, eu acho que muda muito o contexto, não? Que depende muito do contexto… e mesmo tu pões, quando acontece aquilo que pões um pianista incrível, um músico incrível naqueles pianos que estão nos aeroportos ou… está fora do contexto, percebes? E o gajo pode estar a tocar hermoso, pode estar a tocar de uma forma incrível, mas está fora do contexto… a maior parte da gente passa… e aqui acontece a mesma coisa, não? Normalmente, aqueles concertos em streaming é uma forma também, é uma forma de buscar outros caminhos para tentar compensar aquilo que não temos na vida real, não é? E como eu disse também e aqui vou por me de intelectual, como disse o Walter Benjamin naquele seu ensaio famoso, aquilo perde valor cultural para ganhar um valor de exibição, ou seja tens uma chegada a outros continentes, a lugares do mundo que tu se calhar não imaginas, mas vai em desmetro de aquela áurea que o valor cultural mesmo, que tem uma relação direta com a manufatura, com artesania, com aquilo que está vivo!

Francesco: Com a espontaneidade do momento?

Ariel Rodriguez: Com aquilo que está vivo mesmo! Não? Que está feito, digamos de pessoa para pessoa. Eu acho que ganhas aí um valor de exibição maior, mas aquilo não é de graça, não é grátis, ou seja… perdes um bocado aquele valor cultural e tens de ter certas condições técnicas que te permitam fazer um streaming com qualidade, por exemplo: eu tenho um telefone com streaming com aquele microfone que tem o telefone? Fogo! Não se percebe nada! Tens que ter certas condições, uma boa câmara, uma boa microfonia, uma mesa para a mistura e para poder enviar uma coisa decente, não sei… pelo menos, não é?

Francesco: Para outras pessoas que entrevistei, esta coisa… esta situação de performance em live streaming pode ser “um tiro no pé”, exatamente porque como tu estás a dizer também, pode haver ausência de recursos, digamos assim, de condições boas para fazer um bom som e ao mesmo tempo para outros… é como oferecer um show ou um concerto de graça sem…

Ariel Rodriguez: …sim! Mas além do técnico… tem pessoas do mainstream que fizeram o live assim por streaming, também não é? Pessoas que tem muito dinheiro… e nota-se muito a diferença, porque eles tem todos os meios, multi câmara, produções com multi câmara e tudo pós-produzido live… e pessoas que fazem em casa com uma ferramenta muito rudimentária… e fica muito evidente a diferença de…

Francesco: a discrepância…

Ariel Rodriguez: …mas por além desta questão técnica que é importante, mas eu acho que o mais importante… o essencial, aquilo apanha-te num momento onde tu não estás vinculado, estás a passar histórias no instagram, de repente está! Aparece aquele live, percebes? Ou estás em uma coisa… estás fora do contexto… eu acho que é importante tu saíres da tua casa para fazeres uma atividade, para ir para o teatro, para ir a um concerto, para ir a qualquer coisa, a uma sala qualquer, não é? Acho importante, desde o ponto de vista simbólico, tira-te do teu espaço, tira-te da tua zona, do teu conforto, tira-te do teu lugar e predispõe-te para… ok! Vou lá! Vou para o cinema, vais par ver um filme! É diferente quando tu vês na tua casa, de repente tens o whatsup ali, tu não molestas a ninguém, tu podes… fazes qualquer coisa…

Francesco: …o risco é que seja mais uma plataforma de música como o spotify, onde a música passa random e nem lhe das atenção e então teremos eventualmente muitas performances ao vivo assim, neste paradigma de…

Ariel Rodriguez: …temos, temos muitas! Na verdade não estão a faltar estas performances, estão a faltar os espaços de comunidade e convívio mesmo e de partilha…

Francesco: obrigado Ariel! Vamos logo para o final desta conversa que está sendo muito interessante… eu queria saber se esperas da política ou dos políticos algum melhoramento para a condição do sector cultural, dos músicos…

Ariel Rodriguez: [suspiro]

Francesco: difícil?

Ariel Rodriguez: Sei lá! Eu acho que a pandemia veio de uma forma muito evidente a deixar sim claro as diferenças estruturais que já… em este sistema, neste modo de viver que temos, que temos organizado… que estava organizado antes de eu nascer, que é muito difícil de mudar radicalmente. Acho que esta situação deixa muito evidente, mesmo com os meus parceiros que eu vejo na Argentina, com relação com Europa e mesmo aqui na Europa, entre diferentes camadas… artistas, digamos que tem uma maior colocação no sistema e pessoas que não tem tanta chegada [alcance] eu acho que de repente… e fora também, o espaço cultural em relação por exemplo com os apoios para as empresas, para o mundo financeiro, não tem comparação nenhuma, percebes? Ou seja, eu acho que o governo, que pronto! Fica muito evidenciado isso, por mais que o governo seja um… esteja a pronunciar-se com políticas de apoio, que eu acho bem… comparativamente com as políticas de apoio que têm grande entidades financeiras, não tem comparativa digamos, ou seja tem caminhos muito mais fáceis… e as diferenças de números são muito evidentes, eu acho que só fica mais demostrada a injustiça, a injustiça essencial que há!

Francesco: Era o ponto mais ou menos de conclusão ao qual toda a gente chega…

Ariel Rodriguez: …é aquilo que eles esperam também, não? Não sei como se… como se resolve!

Francesco: Difícil!

Ariel Rodriguez: Muito difícil, não sei!

Francesco: Vai! Ultimíssima pergunta: tens alguma, uma música ou duas para aconselhar, para podermos linkar a esta entrevista, para ouvir o que andaste a tocar durante o confinamento, ou seja, se fizeste algum live streaming, ou algum concerto ou alguma música que gravaste…

Ariel Rodriguez: pronto! Eu tenho um canal, falando justamente em streaming, tenho um canal do youtube onde eu tenho 4 discos já ali autorais. Tenho um canal de youtube com 4 discos autorais, estava ali… eu tenho um quinto disco que já está gravado, misturado, masterizado… estava pronto a ser lançado, só que veio esta situação de pandemia e deixou todo em standby e decidi de ficar um bocado à espera. Entretanto tenho gravado muitas outras coisas, tenho participado, tenho feito arranjos, tenho algumas coisas já também feitas, prontamente irão sair… mas pronto! Tentei mais ou menos manter-me ativo, algumas músicas saíram no meu youtube channel, Ariel Rodriguez, podes ir buscar um disco que chama-se “Umbrales” e ali aparece o meu youtube channel e aparece tudo e tem material miscelânea onde eu estou a tocar às vezes, a praticar alguma coisa, ou a partilhar com alguma cantora ou cantante…

Francesco: alguma música no específico, uma?

Ariel Rodriguez: Prontamente, agora no dia 24 de Março, vai sair uma música que é um arranjo de uma música de Charlie Garcia que é um rockstar argentino que eu admiro, que é uma música que chama-se “Los dinosaurios” que fala sobre os desaparecidos da ditadura e pronto! Vai sair agora 24 de Março [2021], que é o aniversário da ditadura de 1976 de Argentina, que eu gravei uma versão e pronto vai sair isso e aconselho visitar isso! Por agora… que é o último que eu tenho!

Francesco: Claro!

Ariel Rodriguez: Mas está tudo ali no meu Youtube!

Francesco: Muito obrigado Ariel! Fantástico, obrigadíssimo! Foi uma conversa super enriquecedora! obrigado!

Ariel Rodriguez: Obrigado! Espero que sirva!

Francesco: Obrigado!

Projeto Ágora: Entrevista com André Neves Valente | MAZE (17/07/2021)

Maze é um poeta, rapper, activista, agitador e divulgador cultural, artista visual e educador originário do Porto. É um nome referência na cena do hip hop português. Hoje continua a criar e a acompanhar a música mais fresca que se faz em território nacional e internacional. É o histórico MC dos Dealema e colabora com outros artistas da cena musical nacional, no âmbito do hip hop, soul, neo-soul e RnB, como Sam the Kid, Mundo Segundo, Beatbombers, Spock, Oder, Azar Azar, entre outros. É ativo em outros campos das artes, como no graffiti, na fotografia e na arte visual em geral, actualmente dedica-se a atividades pedagógicas realizadas em Portugal.

Em resposta à situação de atual emergência devida à pandemia do COVID-19 e à necessidade de promover iniciativas que possam avaliar e atenuar o impacto no âmbito das artes performativas, investigar os efeitos da crise, com enfoque no sector da música, documentar as estratégias aplicadas pelos artistas nas suas atividades criativas e de performance, o Projeto Ágora convida Maze, para compreender os efeitos provocados pela crise sanitária, quer no nível individual, quer no âmbito do sector cultural em Portugal.

Francesco: Boa tarde caro André, obrigado!

MAZE: Boa tarde!

Francesco: Por ter aceite este convite no ciclo de conversas do Projeto Ágora, estou muito contente de poder te entrevistar e falar um bocadinho, podes te apresentar!

MAZE: Obrigado eu pelo convite Francesco, é um prazer poder participar deste projeto que já me descreveste e que me parece ser muito interessante. Sou André, artisticamente as pessoas conhecem-me por Maze, sou artista multidimensional: artes visuais, música, poesia, escrita, vou me desdobrando artisticamente e é isso que eu faço desde sempre: criar!

Francesco: Perfeito! E… retomando um discurso já enfrentados com outros interlocutores, eu começo normalmente por perguntar como é que foi desde o princípio de Março 2020, toda esta vivência dos lockdowns e confinamentos, como é que se repercutiu na tua vida assim profissional, começando pelo lado mais financeiro, não é? Da sobrevivência e subsistência…

MAZE: …foi muito… foi muito duro, como foi para toda uma classe ligada à cultura, para muitas outras áreas mas assim pelo meu… pelas pessoas que gravitam à minha volta e que estão relacionadas com a cultura e com a música, com teatro também, com algumas da dança que eu conheço, foi grave… foi pesado, eu lembro-me que em Março, um dia antes de termos fechado, eu ia dar um concerto com a banda da qual faço parte, com os Dealema, ia tocar à Galiza e fiz a viagem de comboio para o Porto a confiar que ia tocar, eles iam-me apanhar no Porto e seguíamos de carrinha para a Galiza. Eu cheguei à estação e eles nem sequer vieram ter comigo, ligaram-me a dizer, olha: apanha já outro comboio e vai embora porque isto foi cancelado e vamos entrar em lockdown, quer Espanha, quer Portugal! E eu regressei para Lisboa, ainda sem perceber muito bem o que é que estava a acontecer, mas a pensar: ok! Então isto que eu faço e que me é tão natural, vai deixar de acontecer, como é que eu vou pagar a renda? Eu precisava deste concerto! Eu precisava deste dinheiro…

Francesco: …no especifico daquele concerto…

MAZE: …daquele concerto… então vinha a pensar nisso e obviamente que os primeiros meses foram meses de algum aperto, porque… já há algum tempo que eu vou baseando a minha sobrevivência e subsistência na minha criatividade e parte deste dinheiro vem de concertos ao vivo e se eles não existem não consigo pagar as minhas necessidades básicas. Então nestes primeiros meses de Março, Abril, Maio… foram meses de muito aperto… eu vivo com a minha filha, então não é só a minha sobrevivência é a dela também, então tive que arranjar aí formas de subsistir e durante o processo todo e o tempo todo deste ano e meio quase… ou já passou um ano e meio, talvez… foram altos e baixos, momentos em que realmente, sem trabalhar tive apoios, depois deixei de… depois não tinha tanto dinheiro, depois voltava a ter, depois não tinha, depois chegou ali um momento em que eu… resolvi ir para outros lados, não é? Procurar alternativas porque não ia ganhar dinheiro de espetáculos, de concertos e de apresentações ao vivo das quais baseio a minha principal fonte económica, então comecei a dedicar-me mais às artes visuais e à pintura e a coisas que estavam a acontecer, convites que surgiram para pintar campos… campos de basket e fazer intervenções, ajudar em intervenções artísticas, porque tive que procurar alternativas na subsistência!

Francesco: E hoje em dia ainda trabalhas nestas outras áreas?

MAZE: Sim! Eu vou fazendo, habituei-me a ser este freelancer, então nunca me comprometo com nada, já há muitos anos que não me comprometo com um trabalho das 9 às 17h, para sobreviver! Prefiro ter esta vida mais solta em que se calhar mais incerta e não sei bem o amanhã, mas sou mais feliz a gerir o meu tempo e a gerir a minha vida… mas continuo a fazer… agora que está tudo a retomar, eu começo a voltar à música e a muitos projetos que fui fazendo durante este tempo, tentar dar-lhes vida ao vivo outra vez de aqui para a frente, mas continuo a procurar estas alternativas e a agarrar muitas coisas que não são diretamente relacionadas com a música para conseguir ter dinheiro!

Francesco: Mas já fazias isto antes da pandemia, ou agora com a pandemia… foi mais…

MAZE: …já! Mais acentuado! Já fazia e sempre sempre fiz coisas muito diversas no meio artístico, mas que me iam aparecendo, não de uma forma muito forçada a basear toda a minha subsistência económica nestas áreas, porque tinha sempre concertos… a verdade é essa! Sou um privilegiado porque durante muitos anos tinha concertos de Dealema que é uma banda de culto, que mesmo sem editar discos, tínhamos sempre concertos regulares, tínhamos sempre coisas a acontecer mesmo sem termos discos há não sei quantos anos, havia sempre… as pessoas tinham sempre vontade de nós ouvir… então isto é um privilegio…

Francesco: …e eles estão retomando também, não é? A banda…

MAZE: …sim! Também… nós somos 5, temos vidas muito diferentes… eu vivo em Lisboa, eles vivem no Porto, então às vezes é difícil termos uma retoma de ensaios e de rotinas e de fazer músicas, mas eu acho que agora cada um de nós está a repensar outra vez em regressar à música e quando estivermos na mesma sintonia, vamos certamente como banda também fazer este regresso!

Francesco: Ótimo! E neste período em que eventualmente ficaste mais em lockdown como toda a gente ficou… a tua própria criatividade pessoal, tiveste uma força sobrenatural de convulsões criativas ou também tiveste pausas e momentos de reflexão ou de… simplesmente de tudo parado?

MAZE: Sim! Acho que disseste tudo… falaste em reflexão e em momentos criativos, eu acho que foi um oscilar destes momentos. Inicialmente em Março, de Março a Abril eu estava em casa e um amigo meu que também é músico, o Mike Coast, estava a falar com ele e disse olha: tenho umas ideias, quero fazer registos e ele enviou-me por correio um condensador, um microfone condensador e eu estava a fazer bases instrumentais, então tive assim um ou dois meses a gravar músicas, sempre a fazer músicas e a gravar músicas! Fiz ai um disco de 20 músicas no início da quarentena, que ainda não saiu este disco mas que eventualmente vai sair. Mas depois de ter feito e de ter criado isto tudo, eu acho que por não poder apresentar e por não poder tocar ao vivo… nada, não é? Estava tufo fechado… acho que tive também aí uma quebra na criatividade, foi… ok! Já tirei isto tudo de mim… agora não me apetece fazer mais! Vou entrar aqui noutro registo e acho que entrei mais neste registo da reflexão e de absorver mais coisas e ver filmes e ler livros, porque como parte da minha criatividade é a escrita, eu preciso de armazenar e de absorver para depois ter material para escrever e para criar! Então acabei de criar e entrei nestas fases de… ok! Agora deixa-me absorver, deixa-me absorver… deixa-me refletir…

Francesco: …mastigar e digerir!

MAZE: Digerir, perceber o que é que estamos a viver a nível mundial e o que é que está a acontecer… situar-me mais… e tive um período assim… depois retomei a criatividade, então são estes picos… não é?

Francesco: Exato! E por exemplo, em toda esta trajetória entre lockdowns e períodos de reabertura e outra vez lockdowns… tiveste eventualmente a possibilidade de voltar a tocar nu mundo mudado, exatamente… ou seja, por exemplo, na questão da performance ao vivo com um púbico já isolado… afastado com máscara o que é que sentiste nestas situações?

MAZE: É muito estranho porque… tu sabes bem, és músicos e quem está em palco alimenta-se de uma energia que sai, sai e vai para o público e regressa e quando regressa do público ainda te alimenta mais e é ali um ciclo, não é? Energético que tu crias… e sempre estivemos habituados a ter um público que reagia, que dançava, que berrava, que cantava, que… então a energia tem outra escala quando é assim! E de repente quando tem pessoas sentadas, com uma máscara e não estás a ver expressões, parece que há um bloqueio… há uma parede invisível que impede que esta energia saia de ti e entre no outro e regresse a ti, para criar este ciclo! Então é muito estranho, é muito muito estranho este regresso e espero que estas circunstâncias mudem rápido

porque há saudades desta energia de concerto!

Francesco: De libertação?

MAZE: De libertação, de palco, de catarse quase!

Francesco: E houve também uma altura no meio dos dois lockdowns e durante o primeiro, em que muitas pessoas começaram a fazer lives streamings e parecia ser o novo formato de música que podia trazer a música em casa das pessoas, apesar da distância…

MAZE: …sim!

Francesco: Muitos interlocutores, eu perguntei o que é que eles achavam em relação a este novo formato de performance, não sei se queres comentar… se fizeste algum live streaming destes…

MAZE: …quero comentar, quero! Eu por acaso quero… e tenho algo a dizer sobre isto, da minha perspetiva: para mim não funciona, no meu caso! No meu caso, não vejo que seja… não me traz, não me acrescenta, sabes? Não… acho que é valido para quem quiser… é uma forma de manter isso vivo e de manter a arte viva e de continuar a fazer… a criar conteúdos e a chegar às pessoas que cada vez mais estão atentas ao digital, mas para mim não funciona… eu prefiro o contacto, prefiro o contacto! Sentir, estar… a presença física é mesmo importante! Então não me satisfaz, nunca me satisfez… ainda por cima neste período eu comecei a ver que toda a gente fazia isto… então houve ali uma sobrelotação de oferta! Toda a gente estava a criar conteúdos e a oferecer conteúdos… e a maior parte deles eram forçados… era quase uma tentativa de… era quase uma auto imposição: se eu não fizer, eu não vou criar… eu vou desaparecer!

Francesco: Sim! Porque os outros estão fazendo, eu não faço? Eu desapareço…

MAZE: …ya é isto! Eu vou acabar por desaparecer porque não estou a aparecer na grande montra… na grande montra digital! Então esta confusão e este turbilhão todo afastou-me disto…

Francesco: …logo automaticamente?

MAZE: Automaticamente, tive mesmo sem redes sociais durante este período…

Francesco: …a sério?

MAZE: Ya!

Francesco: Durante o lockdown tu saíste da…

MAZE: …então a partir aí de Abril o meu telemóvel avariou e eu decidi… isto é um empurrão! Isto é mesmo… estava a me afetar disto, esta necessidade das pessoas aparecerem e se mostrarem… uma competição quase, uma competição artística: nós não podemos tocar ao vivo, mas estamos todos a fazer live… live streaming… estamos todos a fazer entrevistas ao vivo, estamos todos a fazer conteúdos e a gerar conteúdos! Isso incomodou-me um bocado e também serviu de empurrão para dizer: não! Eu vou me afastar disto, eu quero respirar, quero viver, quero experimentar outras coisas que não passem pela validação ou a aprovação do outro! Mesmo correndo o risco de desaparecer! Acreditar que a obra fala mais alto, quando crias alguma coisa fala muito mais… a obra fala muito mais alto que o artista, então independentemente se tu apareces ou não, se és convidado ou não, se as pessoas se lembram de ti, se o que tu crias consegue chegar ao outro, é o que interessa… é o que importa!

Francesco: Super interessante esta perspetiva!

MAZE: Fixe!

Francesco: Perfeito! Em termos depois de apoios…. tiveste alguns apoios, conseguiste te safar também através de apoios do governo ou…?

MAZE: Consegui! Consegui ter apoios da Segurança Social, candidatei-me aos apoios da Segurança Social e consegui porque tive uma quebra de faturação total e então não tinha forma de gerar dinheiro, não estava a tocar, não estava a… na minha atividade como músico, não estava a passar recibos, então tive direito a estes apoios e ainda bem que tive porque consegui sobreviver muito tempo com este apoio, isto a nível estatal! A nível de cooperativa, não é? Da GDA e da gestão os direitos dos artistas, também tive direito a apoios… lembro-me inicialmente tive direito a um cartão alimentar de compras em que podia fazer algumas compras, tive direito a três cartões… era preenchido com o valor, com o mesmo valor por três vezes… e depois mais tarde candidatei-me a um novo apoio da GDA e também consegui já mais perto do fim deste período todo e ainda recebi mais um valor numa distribuição que eles fizeram… então foram esses! Candidatei-me a mais coisas, candidatei-me… lembro de me ter candidatado a um da Gulbenkian, que não tive direito a esse e a mais algum que agora não me ocorre, que também não recebi… provavelmente porque estava a cruzar já mais apoios e já tinha o apoio da Segurança Social, porque este é o base!

Francesco: Ah ok! Não… eu pergunto isso normalmente para saber se os músicos e os artistas no geral se sentem satisfeitos com estes apoios e isto tendo em conta a precariedade enorme que nos envolve como classe trabalhadora, não é?

MAZE: claro!

Francesco: O que veio à tona nestas alturas, então… o que quero saber no fundo é se te consideras satisfeito ou se poderia ser muito melhor, digamos…

MAZE: …poderia ser, pronto! Não quero parecer ingrato, não é? Porque estou a receber algum dinheiro, estou a receber dinheiro que fui descontando ao longo dos anos para a Segurança Social, também então é um direito! Mas, pode ser sempre muito maior se tu for comparar com outros países europeus, com os apoios aos artistas que são completamente diferentes e em Portugal a cultura é sempre relegada assim para um segundo plano, isto é porque não é importante, não… estão aí, estão aí a… criam! Têm uns hobbies… sabes? A mentalidade portuguesa ainda vê o artista muito como uma coisa de hobbies, não é um trabalho sério! Não é trabalho sério… é um extra! Não é necessário… precisamos de engenheiros, de médicos… e depois há os artistas! E a arte está à frente disto tudo, porque a arte é essencial para a sobrevivência enquanto espécie da humanidade, enquanto…. deveria ser valorizada desta forma e então os apoios podiam obviamente ser muito melhores, porque eram apoios básicos que davam para alimentação, não é? Nem sequer para pagar uma renda, não são apoios suficientes para tu pagares uma renda, pagares as contas e te alimentares e uma filha, não é? É uma ajuda, é uma ajudinha… então pronto! É à nossa escala, em Portugal as coisas funcionam muito assim, no desenrasque desta forma… dão só para dizer que não estão a dar nada e se fosse… há países que não, tratam mesmo o artista de outra forma e com a dignidade que merece!

Francesco: Ok perfeito, muito obrigado André, queria concluir esta nossa conversa perguntando-te se entre as criações que aconteceram durante o período de lockdown ou durante este período todo, tens alguma coisa a sair, alguma música que queiras aconselhar para linkar a esta entrevista…

MAZE: …boa! Tenho! Tenho uma que ainda não saiu… quando estamos agora a gravar esta entrevista, mas que deve sair de aqui a um mês no máximo, nas próximas semanas… chama-se “Que horas são” e é uma música num registo um bocadinho diferente do meu, não é bem rap, é spoken word, é de um produtor chamado Spock

Francesco: …chamado como?

MAZE: Spock!

Francesco: É de aqui?

MAZE: Sim! É de Amadora e tenho um flautista Francesco Valente…

Francesco: …ah pois é!

MAZE: E deve sair brevemente, entretanto também lancei um projeto, mesmo recentemente com um teclista Azar Azar, compositor e teclista e produtor… de um projeto que é Maze e Azar Azar, o Vol. I chama-se “Sub-Urbe” o Volume I e o primeiro single que lançamos com videoclip chama-se… a música chama-se “Rubi” e foi lançada mesmo há pouco tempo, é um projeto assim… é uma narrativa, é um conto urbano… um conto urbano em rap!

Francesco: Ok! Perfeito, depois encontrarei na altura em que sairá a entrevista…

MAZE: …sim! Facilmente!

Francesco: Facilmente, para linkar! Muito obrigado, foi enriquecedor e muito interessante ter esta conversa contigo! Grazie!

MAZE: Obrigado pelo convite!

Francesco: Abraço!

Projeto Ágora: Entrevista com João Gomes (23/06/2021)

João Gomes além de ser músico (teclista), é DJ e produtor. Representa uma parte integrante da história e cultura musical de Lisboa, por ter integrado grupos de referência da cena musical nacional, entre os quais se destacam os Cool Hipnoise, Spaceboys, Orelha Negra, Cais do Sodré Funk Connection e mais recentemente os Fogo Fogo, grupo que lançou o seu disco de estreia em 2021, com título “Fladu Fla”. Além disso colaborou com inúmeros artistas em tournées nacionais e internacionais, como Ana Moura, Sara Tavares, Orquestra Todos, etc.

Em resposta à situação de atual emergência devida à pandemia do COVID-19 e à necessidade de promover iniciativas que possam avaliar e atenuar o impacto no âmbito das artes performativas, investigar os efeitos da crise, com enfoque no sector da música, documentar as estratégias aplicadas pelos artistas nas suas atividades criativas e de performance, o Projeto Ágora convida João Gomes, para compreender os efeitos provocados pela crise sanitária, quer no nível individual, quer no âmbito do sector cultural em Portugal.

Francesco: Olá, boa tarde, grande João! Obrigado por ter aceite este convite!

João Gomes: Boa tarde grande Francesco!

Francesco: Aqui nas conversas do Projeto Ágora, podes te apresentar rapidamente?

João Gomes: Então, sou João Gomes sou músico, trabalho aqui em Lisboa na música desde 1994 ou por aí, portanto há de ser por ai 25 anos… ya! Já trabalhei em vários projetos, com vários artistas na área da música negra, música soul, música afro, música reggae e por aí…

Francesco: Ótimo! Eu já cruzei contigo também em algum projeto no passado, Orquestra Todos e em algumas coisinhas ai que aconteceram…

João Gomes: …ya!

Francesco: É um prazer ter te aqui, eu normalmente faço uma série de perguntas aos artistas e aos músicos, exatamente para perceber um pouco qual foi a vivência durante este período de pandemia… estamos em pleno verão, agora, não é? 2021 e ainda cancelam concertos, me cancelaram um por exemplo da Orquestra Todos há uns dias atrás, estamos ainda no risco de cair outra vez em restrições, confinamentos e etc. Portanto eu gostava de começar para saber como é que viveste isto e como é que te afetou a nível sobretudo… digamos em primeiro lugar, financeiro por exemplo?

João Gomes: Oh! Claro que afetou muito, vivi de várias formas… estas pandemias teve várias fases, não é? Como principalmente na nossa interpretação das coisas, perceber o que é que estava a acontecer… o primeiro ano eu ainda tinha algumas economias fixe! Tenho trabalhado bem nos últimos anos e foi aquela ilusão de que tudo ia passar rapidamente. Tive uma quebra de faturação de 90 e tal %, mas fui me aguentando na esperança que no ano seguinte as coisas fossem voltar ao normal e que desse para regressar. No meu caso nada voltou ao normal, no final… no início do desconfinamento já este ano também perdi mais trabalho e cenas que tinha a espectativa de ter de trabalho, que deixei de ter e neste momento estou um bocado numa fase de procura de novos projetos, mas está tudo muito em águas de bacalhau, não é? Porque na realidade ninguém sabe com o que é que vai contar nos próximos meses, os próprios agentes e promotores, etc. não sabem o que é que vai acontecer, está tudo sempre dependendo dos números e dos comunicados da DGS e governo, epá! E é… continua a ser tudo muito complicado… epá! Acho que há cada vez mais gente do nosso meio a pensar em trabalhos alternativos e deixar…

Francesco: …e chegaste a pensar alguma vez nisso?

João Gomes: Agora, quando vinha a vir para aqui, pela primeira vez pensei nisto!

Francesco: Sim? De deixar por um tempo e encontrar alguma alternativa…

João Gomes: …epá! Para procurar outra cena…

Francesco: …tipo? No campo da música ou… mudar de sector…

João Gomes: …epá! Não sei, acho que, não sei… epá! Os campos todos onde eu estive sempre ligado, são todos campos que estão neste momento parados: noite, restauração, lojas, bem… lojas de discos por exemplo, foi uma atividade que acho que teve um pequeno aumento, um pequeno boost, não é? Quando… mesmo quando estavam fechadas eu acho que há muita gente que vendeu mais, há muitos anos já tive uma loja de discos e era uma cena que eu curtia fazer, que eu acho que conseguia fazer, epá! Sei lá, mas… pronto! Mas agora estou… por acaso estava a pensar nisto, mas ainda não tomei esta decisão, espero não chegar a ter que tomar…

Francesco: …mas chegaste a este…

João Gomes: …hoje em dia já dependo menos de… os meus filhos já estão crescidos, agora já não tenho aquela cena de comprar as fraldas… epá! Pronto, já são mais independentes e eu me aguento, mas está muito complicado e foi uma grande… um grande choque! Talvez para quem tivesse mais trabalho, nota-se isto mais…

Francesco: …e tu eras um desses…

João Gomes: …eu tinha muito trabalho, estava a tocar numa media de 4/5 vezes por mês todo o ano!

Francesco: Ou seja tinhas uma media de 50/60/70 concertos por ano…

João Gomes: …ya!

Francesco: 2020 foi tipo…

João Gomes: …2020 ainda tive ali em Fevereiro… ainda fiz uma tour!

Francesco: Ah! Pouco antes de…

João Gomes: …devo ter tido uns 9 concertos, que foi o meu balão de oxigénio para o resto do ano!

Francesco: E no verão de 2020… 0?

João Gomes: No verão de 2020 tive 3 ou 4 concertos, no verão quer dizer… de Maio até ao fim do ano!

Francesco: Sim, sim!

João Gomes: No segundo semestre de 2020, tive meia dúzia de concertos, que é muito… epá! Não daria para me sustentar…

Francesco: …muito pouco, claro!

João Gomes: Ou seja… todas as economias que eu tinha, foram usadas… epá! E é isso e agora um gajo está com 50 anos a fazer um restart! À espera de um momento para poder fazer um restart! Porque não sabemos quando é que isto vai acontecer…

Francesco: …por exemplo, em relação ao trabalho criativo, durante estes meses aconteceu alguma coisa relevante, algum projeto novo, algumas ideias… conseguiste trabalhar por exemplo em casa no confinamento, compor, fazer… ou também ficaste meio bloqueado?

João Gomes: Não! É a mesma coisa do que eu estava a dizer no início, houve várias fases e no início foi uma fase mais ingénua, mais lírica em que todos estavam a procura do lado positivo da paragem e a achar que íamos conseguir tirar muitas coisas positivas, nesta altura se calhar estava mais criativo e um pouco mais, com mais pica para fazer coisas… fiz um EP, produzi um EP com Karlon, um rapper… e no entretanto estivemos sempre na iminência de lançar o disco dos Fogo Fogo que tinha sido acabado de gravar também em Fevereiro de 2020. Acabamos por ainda não o editar, porque não achamos que fosse a melhor altura, porque epá! Não podendo produzir… promover o disco e as músicas novas, sem podermos apresentarmos ao vivo é um bocado complicado e é um projeto de festa, de dança e não estamos a conseguir a ter concertos… os poucos concertos que há, é tudo coisas mias intimistas, mais calmas… e portanto, temos estado nesta… a obra está feita, tinha sido feita mesmo antes de começar a pandemia, mas foi mais esta questão do planeamento e planificação do lançamento…

Francesco: …ficou em standby?

João Gomes: Já lançamos um single, fizemos… já temos tudo pronto e o disco está na fábrica, vamos tentar lançar no final deste verão…

Francesco: ah! No final do verão…

João Gomes: …sim!

Francesco: Tendo em consideração que o inverno poderá ser mais um inverno destes últimos…

João Gomes: ….epá! Pois!

Francesco: Mas tem que ser lançado, claro!

João Gomes: Claro! Epá, já estamos fartos de ter o disco há um ano… na prateleira!

Francesco: Claro!

João Gomes: Já não nós dá muita… a pica também vai se perdendo, já estamos com mais vontade de fazer um disco novo… do que divulgar este que nós já conhecemos de trás para a frente, já o ouvimos bué, apesar de ainda ninguém o conhecer…

Francesco: …sim, exato! Vais lançar um álbum que para ti já é velho…

João Gomes: ….já não é novo!

Francesco: Isto é muito esquisito, mas pronto! É um período de standby em que muitas pessoas têm discos para lançar e estão parados…

João Gomes: …é isto! Mas eu acho que acontece… corre-se o risco de acontecer este fenómeno, o próprio artista perde um bocado a…

Francesco: …a pica! E já que por exemplo, Fogo Fogo é uma banda de dança

e de festa, te aconteceu de fazer alguns concertos em live streaming, isto sim porque te vi durante a pandemia, eu estava confinado em Nápoles…

João Gomes: …ya!

Francesco: E fizeste alguns concertos com público, sentado, com máscara e estas restrições?

João Gomes: Fizemos!

Francesco: Qual é o sentimento e a sensação?

João Gomes: Epá! Já estou habituado… a começar a habituar-me, no início era super estranho, o último que fizemos que foi o primeiro… foi o regresso à Casa do Independente, estavam 35 pessoas ou o que… que era a lotação permitida máxima, que era ridículo… ma eu já curti bué! Diverti-me imenso, tal era a ressaca e as saudades de tocar naquele palco, mesmo sendo nesta situação das pessoas sentadas e super limitadas e super… ya! Limitadas… deu para curtir!

Deu para curtir, porque as saudades eram mais do que isto… super reprimidas na verdade, eu estava à procura da palavra… mas ao mesmo tempo, aqui há duas semanas atrás fui com a Sara Tavares à Bulgária, tocar no Sul da Bulgária, em Plovdiv e lá eles dizem que já têm imunidade de grupo, já não há restrições nenhumas, a lotação da sala estava… que era ao ar livre, parecia um teatro romano, estava totalmente cheio, sem máscaras… epá! Era uma sensação completamente diferente, parecia que de repente estávamos em 2019 outra vez!

Francesco: Fantástico!

João Gomes: Foi incrível!

Francesco: Eu por acaso vi nos jogos do europeu lá por Hungria…

João Gomes: …Hungria também…

Francesco: …estádios cheios de gente, tudo sem máscara tranquilamente…?!? Há umas diferenças e umas discrepâncias…

João Gomes: …nós fomos… só para viajar tivemos que fazer todos o teste, todos negativos, lá também… de lá para cá tivemos que fazer o teste, epá foi incrível!

Francesco: Ok! E em relação a estes novos formatos de apresentação e de performance, mesmo ontem me chegou uma email a convidar-me a escrever-me numa plataforma de live streaming para aceder a um público global, através deste formato de performance que é o live streaming, o que é que sentes em relação a isto? Se fez muito, não é durante a pandemia… muitos concertos, muitas gravações caseiras… ou não…

João Gomes: …não tenho a mínima motivação para investir nisto!

Francesco: A mínima motivação para investir nisto?

João Gomes: Ya! Não tenho nem interesse, não curto, epá! Atuar para um ecrã… não curto!

Francesco: É como ir num estúdio de televisão… mas é estranho…

João Gomes: ….também não curto ir à televisão!

Francesco: Não! Eu pergunto isto porque também…

João Gomes:  epá! É sempre gostei de fazer concertos e de fazer música… mas… epá! Estar a comunicar, estar a ver as pessoas, estar em festa.. então como DJ, eu gosto de ouvir música passada por DJ’s e de dançar com outras pessoas, danças com desconhecidos, epá! Esta vida agora é criminosa! Eu gosto… streaming, epá! É mesmo triste para mim, é mesmo triste… não, epá! Fiz meia dúzia de vezes, pronto! Porque… achava que era necessário, era… na altura era a única coisa que havia para fazer… epá! Nem sequer se ganha muito dinheiro, algum dinheiro de jeito… enquanto isto não acontecer, eu acho que não vou investir nisto!

Francesco: Ok! Ok!

João Gomes: Prefiro viver com dois trocos, vir para aqui todos os dias a apanhar sol e a ler o meu livro!

Francesco: Grande! Não és o único, há outras pessoas que disseram que eventualmente se o futuro da música vai nesta direção deixariam de tocar, o que é exatamente o último fim do músico é compartilhar momentos e música com o público…

João Gomes: …ya!

Francesco: Ok! Vamos para a parte final aqui da nossa conversa, eu gostava de saber se durante esta pandemia, conseguiste pelo menos ter algum apoio financeiro do governo, dos vários apoios que foram apresentados, candidaturas de projetos para a cultura…?

João Gomes: Ya! Tive alguns, por ter empresa no início foi muito complicado, em 2020, epá! As coisas estavam todas… não estavam feitas para a realidade… os apoios não foram pensados para a realidade… epá! Viu-se claramente que a tutela não tinha noção do que é que eram os estipulados, estas a ver? Não têm noção do que é que é o mundo terra a terra da cultura, portanto estava tudo… epá! Foi super complicado, eu tinha a empresa, mas sou trabalhador…  sou sócio gerente de uma empresa, mas tenho direitos de autor e passo recibos verdes para os direitos de autor, então como tinha recibos verdes passados não podia receber apoio da empresa, porque tinha a empresa não podia receber o apoio aos particulares, foi super complicado! Mas depois lá para o final do ano… lá recebi um apoio da Segurança Social, recebi um da Câmara e depois candidatei-me ao apoio do apoiar Compete2020… não é? Do Garantir Cultura, epá! Que se revelou no final um apoio muito, epá! Muito pouco apoio, porque implica uma grande capacidade de investimento, que naturalmente os artistas e as empresas das artes, neste momento poucas têm! Muitas poucas têm… e eu fiz um projeto que foi apoiado mas que… agora com o passar do tempo, estou a chegar à altura de começar a pô-lo em prática e estou a ver que não vai ser possível, porque eu tenho que… tinha que ter um fundo de maneio, que neste momento já não tenho, a minha vida está parada há mais de um ano! Eu tive uma quebra de faturação gigantesca que eu na altura que fiz o projeto ainda esperava talvez, pudesse mudar nesta altura, estamos um Junho, final de Junho… já tivesse algum trabalho, mas as espectativas neste momento são… igual ou pior a 2020, epá! Portanto vou ter que desistir, vou ter que… vou devolver o dinheiro, porque estou a ver que na altura de começar a fazer pagamentos ainda não vou ter… com o IVA, tenho que pagar a priori, eu não vou ter este dinheiro! O IVA só se recebe no ano seguinte, portanto a pessoa tem que ter um fundo de maneio, tem que ter uma base para conseguir fazer estes investimentos e epá! Pronto eu acho que… a ideia que eu tenho então em relação aos apoios que houve é que são todos meio falaciosos, então os apoios também do Garantir Cultura para profissionais independentes… é tudo… paga-se IRS, paga-se…  é tudo taxado!

Francesco: Sim!

João Gomes: Então como é que vais ganhar dinheiro com os apoios que estão a dar? Nós é que temos que pagar impostos de tudo, sobre estes apoios todos, epá! É por isto que é muito complicado resistir…

Francesco: …e portanto em conclusão a política cultural é assim um pouco meio… falaciosa, falaz? Não como é que se diz?

João Gomes: Falaciosa!

Francesco: No sentido que estes apoios vêm mas depois são taxados e é difícil depois realizar projetos culturais!

João Gomes: Ya! É preciso ter-se uma base, que não há nunca… porque julgo que nesta altura ninguém tem!

Francesco: Depois de um ano e meio de inatividade…

João Gomes: …pois…as maiores empresas do meio da música, estão a trabalhar com dois ou três trabalhadores e… epá! Está tudo desfeito, o nosso mercado…  o nosso, epá! Não sei números, mas de certeza que mais da metade das empresas, não vão reabrir…

Francesco: …não vão reabrir…?

João Gomes: Eu acho que nós no final disto, vamos estar a um nível se calhar semelhante em termos de meios, de número de empresas e de profissionais dentro da… na área a funcionar como estava em 1990!

Francesco: Incrível! Ok! Grande João! Para acabar, tens alguma música que produziste, uma ou duas durante o período da pandemia ou algum live streaming que possamos aqui linkar na entrevista?

João Gomes: Eu tenho estes live streamings dos Fogo Fogo

Francesco: …que fizeste no Namouche Studio?

João Gomes: Sim! No Namouche…

Francesco: …eu estava a ver te de Nápoles, quando estava confinado lá…

João Gomes: …ya! Foi o Live in a Box, o que era, não é?

Francesco: Fado in a Box?

João Gomes: Chamava-se Live in a Box… acho que foi!

Francesco: Ok! Encontra-se no youtube, não é?

João Gomes: Ya! E também lancei um EP com Karlon, chamado “Ismos”!

Francesco: “Ismos”! Boa!

João Gomes: Sim! Com cinco músicas, eram 5 instrumentais que eu tinha lá feito em casa, tinha comprado uma MPC e tenho produzido várias coisas assim, mais de hip hop, com samples de Cabo Verde e o Karlon que é de origem cabo-verdiana ouviu, gostou muito e fizemos aquilo um bocado assim à correr…

Francesco: …ele meteu umas letras por cima, fantástico! Eu procuro…

João Gomes: “Ismos”, está nas plataformas digitais!

Francesco: ok perfeito!

João Gomes: Madface e Karlon…

Francesco: …como?

João Gomes: Eu sou Madface e Karlon!

Francesco: Ok, nunca tinha ouvido, vou ouvir então, fantástico! Obrigadíssimo!

João Gomes: Nada Francesco!

Francesco: Pelo contributo, obrigado!

João Gomes: Um prazer!

Francesco: E espero que este verão corra melhor, estamos ainda em Junho…

João Gomes: …vamos ver epá, eu já estou à procura de sítios para ir dar mergulhos… apanhar sol!

Francesco: Obrigado mais uma vez!

Projeto Ágora: Entrevista com Walter Martins (14/04/2021) 

Walter Martins, além de ser arquiteto, é músico e DJ. Toca saxofone no grupo Rosa Mimosa y Sus Mariposas, canta e toca percussões no grupo Ayom. Natural de Luanda (Angola), reside em Lisboa onde além de colaborar com os projetos musicais citados, atua como DJ em vários lugares conhecidos na cidade.

Em resposta à situação de atual emergência devida à pandemia do COVID-19 e à necessidade de promover iniciativas que possam avaliar e atenuar o impacto no âmbito das artes performativas, investigar os efeitos da crise, com enfoque no sector da música, documentar as estratégias aplicadas pelos artistas nas suas atividades criativas e de performance, o Projeto Ágora convida Walter Martins, para compreender os efeitos provocados pela crise sanitária, quer no nível individual, quer no âmbito do sector cultural em Portugal.

Francesco: Olá Walter!

Walter Martins: Olá!

Francesco: Boa noite! Bem-vindo aqui, nesta série de conversas com artistas, músicos, amigos, colegas… e podes-te apresentar, se quiseres… se puderes…

Walter Martins: ok, primeiramente, obrigado pelo convite e por fazer parte deste projeto. Chamo-me Walter Martins, sou músico, angolano, nasci em Angola, em Luanda onde vivi até aos meus 18 anos e na altura mudei-me para Lisboa para começar o meu curso na universidade de arquitetura. Fiz o meu curso de arquitetura, comecei trabalhando como arquiteto, ou seja a minha vida como músico tem mais ou menos uns 5 anos, que sou… pronto! Que trabalho como músico profissional, mas pronto! Digo… ainda nem me considero um músico, considero-me ainda um aprendiz de música… a música sempre fez parte da minha vida, pela minha cultura, pelo meu país, não é? Sempre ouvimos muita música em casa e dançamos… as famosas festas de quintal, ou seja, a música… o meu pai também é um grande amante de música, sempre ouvimos muita música em casa, ou seja esta minha paixão pela música sempre foi, desde… posso dizer desde que nasci, mas pronto! Viver da música, trabalhar com a música é algo ainda recente, assim… na minha vida!

Francesco: E neste período especial que começou logo em Março 2020, também a tua atividade assim… sofreu algum bloqueio, não é? Parou de alguma forma?

Walter Martins: Sim!

Francesco: Desculpa! Queria saber mais ou menos a nível financeiro, qual foi o impacte, por exemplo, quantos concertos normalmente fazias por ano?

Walter Martins: É assim, um ano antes da pandemia, eu fiz… eu pronto, eu sou músico em duas bandas, um dos projetos chama-se Ayom, que é o projeto onde toco como percussionista e tenho outro projeto de trabalho também, que é um projeto de cumbia, que chama-se Rosa Mimosa y Sus Mariposas, onde eu toco saxofone. Digamos que no ano anterior à pandemia, com Ayom fizemos 70 concertos, com a Rosa acerca de 20, portanto posso dizer que num ano fazia 90 concertos…

Francesco: …muito concertos!

Walter Martins: Muitos concertos! E… com a pandemia as coisas complicaram-se muito, não é? Não havia possibilidade de podermos trabalhar, com muita sorte conseguimos ainda fazer alguns concertos no verão de 2020, mas podemos dizer que 20%, algo muito irrisório, se for a comparar com o habitual. Obviamente que houve um grande impacte financeiro, porque neste momento vivia só de música e era esse o meu trabalho e ao qual dedicava todo o meu tempo e como sabemos o trabalho de artista, não é? Tem intrínseco esta busca constante de datas, de trabalho, não é? Não é como um trabalho normal, que vamos das 9 às 18h e dia 30 de cada mês chega aquele salário! Portanto… a partir deste momento que deixamos de poder trabalhar, foi muito difícil conseguir resistir financeiramente, pagar as minhas contas, tinha que fazer… tive que voltar a fazer coisas que fazia antes, trabalhos de arquitetura, de carpintaria, tivemos que nos reinventar um bocado e fazer coisas que não pensávamos fazer para conseguir resistir, mas estamos aqui!

Francesco: E com muitos esforços, conseguiste manter as duas coisas: a música e estas novas experiências de trabalho?

Walter Martins: Sim, sim! De certa forma, tudo o que nós obriga a fazer uma mudança, que nós obriga a tomar caminhos que não esperávamos, também nós trazem coisas boas, outras novidades e surpresas na vida, são sempre janelas que se abrem e que nós fazem às vezes também pensar, mas sim! Foi duro e teve que ter muito jogo de cintura para conseguir manter, porque a verdade é que… a minha ideia sempre foi tentar resistir a isto para continuar a fazer música, para continuar a fazer o que eu gosto e então não tive este primeiro ímpeto, este primeiro instinto de… pronto! Agora vou desistir disso, vou me focar noutra coisa, mas mais no sentido de conseguir o mínimo para resistir para poder

continuar a fazer a vida que eu quero fazer e que eu gosto de fazer!

Francesco: E recebeste algum apoio do governo, algum apoio específico, pediste algum?

Walter Martins: Não! Na verdade, para ser sincero, também não fiz muito por isso, não pesquisei muito, não me candidatei a muitos apoios, mas também tentava pesquisar e saber por muitos amigos, muitos artistas e… pronto! O panorama em Portugal ainda é muito complicado, os apoios são escassos, chegam mas… só que muitas vezes muito atrasados. Na verdade é que tive de pedir o apoio dos meus pais em alguns meses que foram mais complicados e que… principalmente os meses de confinamento em que era impossível fazer qualquer tipo de trabalho e na verdade não consegui apoios da… os poucos que tentei não consegui!

Francesco: E em termos de trabalho criativo, o impacto qual foi, por exemplo, em termos de trabalho individual, estudo, ou de trabalho em grupo?

Walter Martins: É assim, para mim foi uma experiência bastante interessante, porque o meu… o processo de criação, pelo menos nos projetos em que eu trabalho, sempre foi um processo coletivo, não é? Havia sempre a possibilidade de estarmos juntos, juntávamos em algum lugar onde íamos criar, onde íamos… pronto! De alguma forma, criar as músicas, divertirmo-nos, experienciar…. e com o confinamento e por conta desta distância de estarmos distantes uns dos outros, cada um em sua casa, tivemos que começar a fazer isto quase de uma forma virtual, ou seja aprendi a mexer em programas que não mexia, a fazer…

Francesco: …quais?

Walter Martins: Por exemplo, eu não me lembro o nome dos programas, mas basicamente são programa de fazer faixas de música…

Francesco: …ah ok!

Walter Martins: Então começou a criar-se também uma nova forma de criar que era solitária, mais solitária do que coletiva e também esta questão de poder através… pronto! Da tecnologia, ter uma flexibilidade muito maior, ou seja, experienciar coisas em poucos segundos e conseguir ouvir o produto, perceber como funciona… ou seja, foi interessante perceber que mesmo que a gente tenha limitações e que não possa fazer as coisas como fazemos na normalidade, temos sempre alguma maneira de contornar estas coisas e de descobrir coisas novas e acho que a nível criativo a pandemia acabou por ser um período em que criamos muito com os dois projetos que fizemos, lançamos um disco com o projeto Ayom em Novembro de 2020, assim num ato bastante de coragem, quando tudo parecia parado, decidimos lançar e lançarmo-nos nesta aventura, neste desafio… e agora com a Rosa Mimosa, também neste segundo confinamento estivemos a criar o nosso disco que deve sair em breve!

Francesco: E esta decisão de lançar um disco num período tão sinistro, foi realmente corajosa! O que é que vos estimulou ou vos deu a força de acreditar em lançar um disco num período como este, em que toda a gente está em casa fechada?

Walter Martins: Eh! Eu acho que tinha muitos pontos de desvantagem, não é? Em lançar um disco nesta altura, porque normalmente quando se lança um disco temos concertos, temos tournées, temos estas coisas todas e a verdade é que lançar nesta altura, tínhamos sempre este risco, não é? Ainda hoje temos este risco, porque nós estamos em Novembro, oxalá que tenhamos uma boa tournée de verão de lançamento do disco, mas ao mesmo tempo algo instintivo em nós dizia que era a hora de lançar isso. Por outro lado também tínhamos as vantagens de as pessoas terem muito menos ofertas de concertos, muito menos oferta de música, de arte, de estímulos de positividade. Estamos num momento tão negro da humanidade que por um lado as pessoas estarão mais receptivas a ouvir, a pesquisar, têm mais tempo também para estar em casa, para ouvir e por outro lado, acho que como músico e como artista é esse o nosso papel na sociedade e acho que era um momento em que a sociedade precisava mais disso, portanto de certa forma também houve este chamamento quase de… do nosso papel, da nossa função na sociedade, de dar arte às pessoas e de dar esperança às pessoas, positividade, música! Vamos pensar que as coisas vão melhorar, que vão correr melhor! E pronto! Lançamo-nos nesta aventura!

Francesco: E pelos vistos foi uma grande decisão!

Walter Martins: Foi! Foi uma grande decisão porque, para a surpresa de todos nós o álbum tem sido premiado por várias revistas importantes, blogs de world music em todo o mundo, como a revista Songlines por exemplo, que é uma das revistas que eu mais gosto e que eu mais sigo dentro do mundo da world music, portanto é sempre uma grande satisfação, não é? Em receber esta valorização de algo tão grande, é algo quase que nós transcende e que nós admiramos é muito… tem sido muito bonito esse…

Francesco: …e a coisa mais linda… visto que sei porque estou um pouco envolvido nesta história, é que este disco foi feito e realizado aqui nesta casa fantástica no meio do Alentejo…

Walter Martins: …é verdade!

Francesco: Isto é incrível!

Walter Martins: Isto foi incrível! Foi um momento muito mágico porque, não é? Nós juntamos aqui para criar, não é? Para criar músicas, era um projeto que tinha acabado de nascer, estávamos todos com muita vontade, com muitas ganas de criar e a verdade é que tivemos uma química incrível, logo as coisas funcionaram muito rápido, muito fácil, muito naturalmente… e pronto! Logo decidimos de gravar as músicas, fizemos um home studio mesmo aqui nesta casa e fomos muito valentes e a verdade é que agora estamos a receber os frutos disto, das sementes que plantamos, não é? Colher um pouco os frutos disso e frutos que nós nunca esperávamos que alguma vez…

Francesco: …uma história incrível!

Walter Martins: Mas sim! A verdade é que às vezes é isto mais que interessa, a simplicidade, o amor, a dedicação, a verdade! Eu acho que isto, estas coisas conseguem de alguma forma tocar as pessoas, conseguem de alguma forma passar esta mensagem que nós como artistas queremos passar!

Francesco: E em relação aos concertos que conseguiste depois fazer em 2020, o que é que sentiste nos momentos digamos assim mesmo da performance, em tocar em frente a uma audiência… digamos tapada por uma máscara, distanciamento social, qual é a sensação do performer, no teu caso… por exemplo? O público… como é que sentiste o público depois do primeiro confinamento?

Walter Martins: Eu posso e confesso-te que pensei que ia ser muito pior!

Pensei que ia ser uma coisa completamente diferente, pensava: ah! O público com máscara, sentado… tanto num projeto como no outro… é música muito de dançar, muito enérgica! Então, pensamos que… pronto! Que ia ser muito triste, que ia ser muito cinzento e a verdade é que não! A verdade é que não é preciso a gente ver a cara de uma pessoa para perceber que ela está a sorrindo ou que ela está contente, mesmo que tenha a cara tapada ou mesmo sentada, sem poder se mover, sem poder dançar livremente, consegues na mesma perceber que estás a tocar nas pessoas, que as pessoas estão a gostar e que estão a ter ali uma experiencia emotiva, ou seja, eu diria que é diferente… sem duvida é diferente, mas tem a sua beleza na mesma, tem a sua magia na mesma, nisto acho que não perdeu nada!

Francesco: Ok, fantástico! E em relação aos concertos online, em live streaming e estes novos formatos de música que está surgindo nesta altura, este novo formato… muitas bandas fazem performances em casa, zoom, etc. e os festivais começam a adotar este tipo de formato para conseguirem que a música continue… o que é que achas? O que é que sentes em relação a isso? Se fizeste já algum? Ou…

Walter Martins: …sim! Durante a pandemia também fizemos alguns concertos em streaming! É assim: eu para ser sincero acho que nada consegue substituir o impacto da música ao vivo, o impacto de estarmos a ver uma coisa a estar a acontecer ali no presente e que nós estamos a ver com os nossos olhos. Acho que o streaming é uma boa solução, para este tempo e para estas limitações e eu acredito que será uma solução temporária porque acho que a partir do momento que se possa novamente fazer concertos como na normalidade, podermos estar todos juntos e seguros, acho que ninguém vai optar pelo streaming, não acho que vai virar uma tendência! Acho que simplesmente é uma tendência temporária e muito dentro daquele discurso que falei atrás, não é? Da gente ter que arranjar maneiras e contornar os obstáculos para continuar a fazer o que gosta, continuar a fazer o nosso papel como artistas, fazer isto chegar às pessoas. Portanto, neste momento eu acho que se tiver que ser streaming, será streaming, quando tenho que ir ver um concerto, se não posso ir ver ao vivo, verei em streaming e terei imenso prazer, mas sinceramente acho que isto será uma solução temporária.

Francesco: Ótimo! Portanto, em relação às estratégias que os músicos podem ter para continuar a trabalhar com música, pode-se… digamos, considerar o live streaming como uma opção, ou há outras estratégias possíveis? Pensaste alguma vez no que é que podemos fazer para… se isto continuar muito tempo, como é que podemos? Difícil?

Walter Martins: Eu prefiro acreditar que isto não vai durar muito tempo! Eu acho que a… que assim: isto também é um problema muito complexo, não é? É uma questão muito difícil de contornar em certos pontos, como o de ter muita gente junta, não é? Teríamos que talvez reduzir muito mais as pessoas e ter muito mais espaço, ou seja dentro de como funciona o mercado da música, eu acho difícil fazer mais do que se já está a fazer, não é que me vem uma ideia assim…

Francesco: …mas por exemplo os estádios de futebol para o Europeu de 2021, estão pensando em meter o 25% do público, eventualmente os festivais deverão ou poderão pensar… não sei…

Walter Martins: …é! Poderia ser uma opção sempre, seria sempre um número limitativo das pessoas, não é? Mas obviamente que… acho que isso muda todo o cenário, não é? Porque se um festival que traz 20 ou 50 bandas, que vive de bilheteira ou seja que consegue um retorno deste seu investimento de bilheteira, com menos pessoas… pronto! Teria que ser um festival alargado se calhar a um mês e as pessoas vão passando quase… quase mais como um teatro, como um circo, que são sempre coisas mais demoradas, mais prolongadas, talvez pudesse ser uma opção! Mas pronto! É… eu acho que é um pouco, acho que a única forma realmente viável economicamente para fazer estes eventos grandes seria exatamente arranjar espaços grandes, que normalmente não são espaços de concertos ou algo que permitisse ter mais gente, mas para ter mais gente precisávamos também de espaços muito maiores para conseguir manter a segurança: o estádio de futebol é uma boa ideia por exemplo, mas é… e pronto! Espaços ao ar livre, acho que também as praças das cidades, voltar a reabitar estes espaços e a dar estes lugares aos artistas, não é? Porque os artistas todos nasceram na rua, da vida quotidiana, portanto poderia ser também interessante isso, não é? Sairmos um pouco do conceito de sala de espetáculo interior, que vai ter todas estas condicionantes, que em relação ao vírus são complicadas de gerir e pensar talvez a fazer coisas mais ao ar livre, ocupar espaços da cidade que se calhar são… estão mais abandonados neste sentido e trazer as pessoas a contemplar também estes espaços, acho que poderia ser uma via!

Francesco: Ótimo! Em relação à questão do músico e da precariedade dos músicos, houve alguns movimentos ou digamos grupos que trabalharam um pouco esta questão da solidariedade, refiro-me por exemplo à União Audiovisual, existem sindicatos que estão querendo fortalecer-se e chamar a atenção para vários músicos alinharem em vários projetos distintos, para que exatamente a questão da precariedade do sector artístico seja tratada por uma… digamos por decisões políticas, ou seja, pode ser um momento também de mudanças neste sentido? Quais as tuas espectativas em relação à política da cultura?

Walter Martins: Eu acho que, por exemplo, digo para o caso do país onde vivo que é Portugal, não é? Eu acho que esta pandemia foi mais uma alerta, foi mais um trazer ao de cima um problema que existe e que normalmente está disfarçado, que é perceber que os operadores da cultura estão muito… digamos assim “abandonados”, muito pouco salvaguardados! E neste momento em que veio a pandemia e em que falamos de saúde, de morte e de coisas que parecem tão mais importantes, parece que a cultura é uma coisa que não é importante, não é urgente. Urgente é manter a população a funcionar, a indústria a funcionar, a comida a chegar à casa das pessoas, não é? E acho que os artistas sem dúvidas e a parte da cultura, ficou um bocado para trás, não é? Como se não fosse uma coisa urgente, urgente agora são os médicos, são os trabalhadores da parte alimentar… Houve aqui uma nova cadeia, não é? Uma nova estratificação, em qual a cultura ficou como se fosse para o último ponto, para o último posto, não é? O que eu condeno! Isso… acho que a cultura é muito necessária para a sociedade e eu acho que a pandemia vai exatamente mostrar isso, que além destas pessoas não estarem salvaguardadas, não é? E perceber-se que a primeira vez que não têm trabalho, não têm maneira de trabalhar, não têm maneira de obter algum rendimento, estas pessoas não estão a conseguir manter-se, não estão a conseguir chegar aos apoios que o Estado dá, esses apoios chegam tarde, a más horas, poucos, muito escasso, conheço muitos, muitos, muitos amigos que trabalham na cultura como: assistentes de palco, como técnicos de som, como todas estas pessoas que estão completamente desamparadas! E isto mostra um problema e traz um problema e eu espero que este sacrifício que estamos todos a passar seja o suficiente para abrir os olhos dos políticos e de quem nós lidera, não é? De perceber esta lacuna que está intrínseca e também de perceber da importância que nós temos dentro da sociedade, principalmente quando estamos a passar um momento de tristeza, é? De dureza da vida, ou seja, somos muito importantes nesta altura para manter as pessoas positivas, para manter as pessoas alegres, para conseguirmos dar este doce que a vida não nos está a dar neste momento e pronto! Espero que isto seja suficiente para abrir os olhos e para nós também artistas, nós impulsionadores da cultura nos movermos e começarmos a lutar para sermos mais respeitados e para sermos mais valorizados!

Francesco: Muito obrigado Walter, o teu contributo é ótimo e deste algumas sugestões superinteressantes. Vai ser muito útil para quem vai ouvir e para mim também que estou aqui a ouvir agora e para terminar a nossa entrevista, queria saber se das várias produções em que foste envolvido desde o princípio da pandemia, se podes nós aconselhar duas músicas, duas musiquinhas para alegar aqui à entrevista, para depois à posteriori quando ela sair, podermos ouvir-te a tocar percussões… o que é que nos aconselhas? Duas musiquinhas…

Walter Martins: …ok! Então pronto, vou aconselhar assim, sugerir duas músicas, uma de cada projeto em que participo. Pronto: do projeto Ayom, sugiro ouvirem “A Maré e o Luar” porque é um semba inspirado na música popular angolana e acho que vão gostar, é uma música muito dançante, muito enérgica e ao mesmo tempo com uma grande poesia e romantismo atrás!

Francesco: “Maré e o Luar” que é do disco?

Walter Martins: Do disco “Ayom” , do primeiro disco do grupo Ayom. E depois posso aconselhar da Rosa Mimosa Y Sus Mariposas a música “Rio Arriba” que é uma música que quem compôs foi o nosso guitarrista Olmo Marín!

Francesco: Olmo Marín!

Walter Martins: Umgrande músico e amigo excecional, com um talento incrível e fizemos esta música e compusemos para o disco, que vai sair muito em breve e espero que vocês gostem!

Francesco: E o lançamento previsto para?

Walter Martins: O lançamento está previsto para final de Junho [2021], está quase…

Francesco: …perfeito! Em tempo para…

Walter Martins: …está no forno, quase a sair…

Francesco: …está no “forninho”! Quase a sair… que maravilha! Eu gosto muito de saber e de conversar com pessoas que utilizaram este período de maneira positiva, guardando esta positividade… e produtiva, como é no teu caso, é mesmo assim! Produziste, estão saindo discos, portanto, os meus parabéns e agradeço-te pelo contributo mais uma vez, muito obrigado Walter!

Walter Martins: Obrigado eu Francesco!

Francesco: Obrigadíssimo! Grazie e mille!

Walter Martins: Obrigado!

Projeto Ágora: Entrevista com Diogo Picão (10/03/2021)

Diogo Picão é músico, compositor e letrista. Nasceu em 1988 na Lourinhã, começou a estudar saxofone na Escola de Jazz de Torres Vedras em 2003 e licenciou-se em Música na ESMAE- Escola Superior de Música, Artes e Espectáculo, Porto, em 2009. Terminou a Pós-Graduação Artes da Escrita na FCSH, Universidade Nova de Lisboa, em 2018. Lançou em Fevereiro de 2018 o seu álbum de estreia, “Cidade Saloia”. O disco conta com a participação de vários convidados que encontrou em Lisboa, entre os quais destaca-se Salvador Sobral, com o qual colabora em vários projetos. Colabora também com Olmo Marín, no projeto chamado Sambacalao. Atualmente trabalha no seu segundo disco e integra outros projetos como a Orquestra Latinidade e a Banda B.leza.

Em resposta à situação de atual emergência devida à pandemia do COVID-19 e à necessidade de promover iniciativas que possam avaliar e atenuar o impacto no âmbito das artes performativas, investigar os efeitos da crise, com enfoque no sector da música, documentar as estratégias aplicadas pelos artistas nas suas atividades criativas e de performance, o Projeto Ágora convida Diogo, para compreender os efeitos provocados pela crise sanitária, quer no nível individual que no âmbito do sector cultural em Portugal.

Francesco: Olá caro Diogo Picão, bem-vindo aqui a estas conversas do Projeto Ágora, muito contente de poder falar contigo… apresentação rápida?

Diogo Picão: Obrigado eu pelo convite! Sou o Diogo Picão, músico, compositor, cantautor da Lourinhã e residente em Lisboa! Basicamente acho que é isso, acho que é o mais importante!

Francesco: Então eu queria começar a nossa conversa com esta pergunta, de que maneira a pandemia desde o princípio das restrições, etc. e já vamos completar um ano, desde o princípio de tudo, afetou a tua situação financeira?

Diogo Picão: Bom! Totalmente, porque deixou quase de haver concertos ao vivo, excepto na altura em que abriu depois na altura da primeira vaga, mas, sim! No fundo foi uma quebra, não sei de… 80/70%, 80%… houve ali uma fase do ano em que consegui reestabelecer um bocado, há alguma coisa da net que se fez no primeiro confinamento conseguiram render alguma coisa, outras nem tanto, depois houve alguns apoios do Estado que também ajudaram a… da Segurança Social e do Ministério da Cultura, também um apoio da GDA com a Santa Casa da Misericórdia, que ajudaram a reestabelecer um bocado a coisa, mas sim foi um buraco muito grande!

Francesco: Sim! Porque por exemplo: tu nos anos anteriores, costumavas fazer quantos concertos por ano? Por exemplo em 2019, em 2018?

Diogo Picão: 2019 foi bastante… foi o meu melhor ano desde que sai da universidade há 11 anos, em que só fiz música e foram por ai uns 70 concertos…

Francesco: …e em 2020?

Diogo Picão: Não sei… 15? 20 no máximo… a contar com

Francesco: …os da net, online?

Diogo Picão: Mas sim! Mas foi uma quebra, eu diria uns 15/20… por acaso ainda não os fui contar mas foi assim… uma… foi chegar a um ponto… estava a achar que agora já estava, senti que já estava a coisa a rolar e isso, sempre há uma quebra muito grande, mesmo antes do Covid, de… primavera/verão e outono/inverno em que há muitos menos concertos…

Francesco: sim! Que é fisiológico!

Diogo Picão: Mas a partir do momento em que já está… pelo menos foi o que eu senti agora, que já estou na cidade há mais anos, a roda já andava um bocado sozinha, aqueles que eu arranjava e aqueles que vinham ter comigo, aqueles concertos que vinham ter comigo… porque já estás no meio… e isto, de repente a quebra foi abrupta!

Francesco: E esta quebra te levou alguma vez a pensar de mudar de trabalho? Encontrar outro trabalho, complementar com outra coisa?

Diogo Picão: Sim! Complementar? sim! Comecei a fazer na altura um… foi por aí em Setembro, um curso de programação digital, de web development, mas veio o primeiro concerto grande a seguir e rapidamente perdi a motivação… mas, sim! Não é uma coisa de agora que eu penso que… sempre foi um caminho instável em termos económicos… é uma coisa que eu já sabia desde que eu fui estudar para música, que eu assumi isso! Mas… e já em outras alturas, tive outros trabalhos ou a dar aulas de música no início e depois tive alguns trabalhos: trabalhei num hostel e pensei nisso, arranjar alguma coisa a longo prazo que desse para trabalhar nas duas, na música e neste caso na programação, porque pareceu-me que era um coisa que há bastante procura e que dá para trabalhar á distancia, mas pronto… a partir de… quando há concertos? O meu foco vira diretamente para tocar…

Francesco: …pronto! Mas é um pensamento que já vinha desde antes?

Diogo Picão: Sim! Só se tornou mais forte, porque a quebra também foi muito mais forte… mas, pronto!

Francesco: Eu gostava de saber se a partir do momento em que tivemos estas restrições e confinamento, lockdowns etc. De que maneira estas situações podem ter afetado o teu trabalho criativo, por exemplo tu compões, fazes música…

Diogo Picão: epá! Vou te ser sincero: logo no início, no primeiro confinamento em Março, eu acho que eu estava mais organizado… quer dizer… acho que houve ali partes mais criativas em que escrevi mais, até texto, uma ou outra crónica, compus duas canções, na altura acho que… mas depois o tempo vai passando e entras um bocado num marasma de estar muito tempo em casa e falta-te o estímulo exterior, não é? Porque acho que compões, eu pelo menos componho em relação ao que me acontece na vida e se estou sempre em casa, pronto aquilo… depois rapidamente esgotou e de repente…

Francesco: …a chama?

Diogo Picão: Sim! Dás por ti e já não… vais compor sobre o que? Quer dizer: depende das pessoas, a mim pelo menos, no início ainda senti isso de tentar me organizar um bocado mais para isso e depois compus ali uma coisa ou outra e escrevi um bocado mais, mas essa chama depois foi se um bocado embora. Agora neste confinamento é que estou a aproveitar para gravar o meu próximo álbum, pronto! Que é… ou seja as coisas já estão compostas… é um bocado pensar nos arranjos, chamar os músicos e ir gravando, porque não há… ou seja… não há muito mais a fazer, fartei-me também de combater… não há como combater um tsunami e tipo, pronto! Estás a ser levado e é um bocado tentar de te manter (…) da água e…

Francesco: …tomar na positiva e ser produtivo ao máximo…

Diogo Picão: sim! De alguma maneira, sim!

Francesco: É positivo e aproveitaste este último neste sentido…

Diogo Picão: sim!

Francesco: Agora, eu gostava de perceber, por exemplo, em termos de concertos ao vivo que tu fizeste, não aqueles online, são duas dimensões distintas: naqueles em que tocaste ao vivo mesmo, com público, o que é que sentiste em termos de limitações, ou simplesmente… como é que os elementos externos à música, como as restrições, a máscara, etc. podem ter afetado a tua performance?

Diogo Picão: Ok! Bom! A primeira sensação foi de alívio gigantesco, porque de repente estava a tocar para pessoas presencialmente e isso é uma sensação muito positiva… e ao mesmo tempo, percebia-se que havia ali um medo no público ou nas pessoas que estavam a organizar o concerto e isto foi diferente um bocado… demos uns concertos mais pequenos de bar ou de restaurante, que haviam… não sei 10/15/20/30 pessoas e… pelo menos as pessoas estavam ali próximas, mas senti isto: toda a gente de máscara, é uma coisa estranha, é difícil habituares-te a isso… só que como nós, acho que vínhamos de um período tão chato, que deste alguns concertos online, que é mil vezes pior que isso, a sensação foi: epá! Menos mal, pelo menos posso estar ao pé das pessoas a tocar! Mas depois foi estranho, por exemplo num concerto grande, um dos melhores que foi do ano passado, foi sempre no Teatro S. Luíz, organizado pelo B.leza e pelo Music Box em que era uma sala grande e de repente… epá! Chegar e teres metade das cadeiras vazias e pessoas a quererem dançar e… o pessoal que trabalhava lá a dizer, que pronto! Que não podia, aquela coisa de cumprir as regras… e é mesmo um contrassenso e tu sentes que aquilo está a levantar voo e… ah! Nunca consegue arrancar, na mesma foi um alívio… porque vinha dos vários meses em que a única possibilidade de tocar foi online, portanto era um misto, uma dualidade com as duas coisas…

Francesco: …ou seja, de um lado a possibilidade de poder estar lá outra vez e ao mesmo tempo a consciência que isto não podia levantar um voo como…

Diogo Picão: …exatamente, sim! Especialmente quando a música é mais dançável, não é? Neste caso específico, no São Luiz era muita música cabo-verdiana e tal e epá! Umas coladeiras e tal… epá, de repente! As pessoas estão já agarradas à cadeira e eu próprio a tocar, tipo a querer… a querer dançar, então, sim! Mas pronto, sim! Era uma sensação estranha…

Francesco: …e em relação àquelas performances online? Já que hoje em dia este formato vai ser uma das possibilidades futuras de transmissão de…

Diogo Picão: epá! Eu vou te ser sincero, eu não… eu acho que tens uma ferida e pões um penso por cima, mas o penso não é a resolução… a ferida tem que sarar! No fundo o que eu achei destas coisas online, é ok! Que bom! Eu posso estar a tocar e houve uma ou outra que economicamente correu bem, outras que… não digo que foram um fiasco, mas em termos económicos não deram nada de especial, o que também é interessante perceber que se é um novo modelo para se fazer no futuro é interessante perceber, ok! Mas, se não serve para os músicos sequer terem um cachê ao mínimo, então não é um grande modelo económico, pode ser um modelo de divulgação para fazer de vez em quando, mas não é… é como ter… se não fores um artista de renome, teres músicas no spotify é fixe, ou nas redes sociais, é fixe para divulgar o trabalho, mas não é isso que te dá dinheiro, ou seja… cada play é 0,2 cêntimos creio, portanto!? É assim um mínimo, portanto, eu acho que foi… por um lado é… é um misto também, é bom haver esta possibilidade, foi bom ter havido esta possibilidade, foi bom ter havido público e as pessoas terem mexido… mostrou também a importância da arte e dos concertos na vida das pessoas, sendo que somos trabalhadores bastante precários, ao mesmo tempo percebes que há muita… e com fraca organização sindical e fraca organização de classe, ao mesmo tempo as pessoas querem ouvir a música, querem ver os filmes, querem ver teatro, querem este tipo de cultura! Mas eu não acho que seja uma troca, principalmente quando são coisas mais… o primeiro porque… a qualidade sonora é difícil ter, por exemplo, concertos que fizeste pequenos em casa, não tens material técnico suficiente para ter uma qualidade à sério e pronto! E às vezes é mais porque tu sentes que estás a ver os músicos ao vivo… mas em termos técnicos é quase melhor gravar antes e por numa certa hora disponível, porque… e depois é também a questão de teres tanta oferta, ou seja tu não podes estar a combater com a quantidade de shows, de concertos gravados ao vivo durante décadas com qualidade boa, então os mais recentes, não é? E de repente estás a ver o teu live ou o teu concerto no zoom e é tipo… ok! É porque o teu público gostas das canções…

Francesco: …se bem que houve alguns concertos online produzidos já em estúdio, tipo… no teatro, em algumas salas de espetáculo…

Diogo Picão: claro! Aí é mais… sim! Neste caso tendo mais meios técnicos e uma boa ligação à internet é possível fazer isso, agora a partir de casa que era aonde muitos artistas e os artistas independentes, creio que a maior parte estiveram nesta situação… tiveram que trabalhar com a sua net que tinham disponível, com… ou se calhar uma “interfacezinho” que tinham ali, se tivessem… um microfone ou dois e pronto… tentar! E eu acho que as pessoas vão ver e isso é um lado interessante porque as pessoas ligam-se a isso, porque há uma ligação também emocional à música que está a ser feita, ao artista específico que aquelas pessoas gostam… eu próprio, dei por mim como púbico, ver uma ou outra live de artistas que gostava muito, com qualidade de telemóvel e a gostar muito de aquilo e a perceber, ok! Isto é o que é! Não é que a qualidade seja muito boa… mas a partilhar com este momento, até eu acho que foi bom neste sentido! Agora… no futuro eu acho que isto não pode ser visto como: ah! Agora descobrimos aqui uma coisa que vai funcionar!

Francesco: Exato! Então as estratégias para nós pensarmos em novos formatos… isto há de vir ainda, não sabemos bem qual é que será o futuro… mas…

Diogo Picão: …epá! Pois, eu acho que a primeira coisa é resolvermos isto para podermos voltar a tocar ao vivo, que nunca vai ser substituído por mim, por nada! Porque tocar ao vivo, quer dizer: é a troca entre os músicos que estão no mesmo espaço a tocar e a reação do próprio público, não é? E é nesta troca, há um momento ali em que as pessoas estão fisicamente juntas e isto faz muito a diferença, ou seja, no público está a haver e está a ver aquilo a acontecer ao vivo, “live” como se diz na net, mas ao vivo realmente ou aos vivos… mas… ou seja… além disso, de resolver este problema na parte digital, a questão é: os modelos em que isto for feito, tem que ser minimamente rentáveis, pronto! Ou que sejam coisas mais curtas, só de divulgação porque tu queres e pronto e abre-se ai um espaço para aquilo, mas… por exemplo, houve alguns deles organizados em zoom e com alguma organização por trás, na altura até o “My Invisible City” que era uma associação que estava a fazer estes concertos, mais bem organizados e funcionaram ou Inside Number Nine que eram outros amigos que faziam, já faziam antigamente uns concertos em casa e organizaram aquilo e de repente há algo palpável, não é? Que ajuda a pagar a renda e não só, porque as visualizações não pagam a renda, tipo… as palmas e as visualizações podem ser boas ou más para o ego, mas não pagam a renda nem nunca pagaram um jantar, portanto tem que haver esse equilíbrio e acho que no futuro, tem que haver essa noção: até que ponto a gente se pode estar a expor na Internet, ou em concertos e tal… o que não tem nenhum…

Francesco: …retorno?

Diogo Picão: Retorno financeiro! Que é onde… com o qual nós contamos para ter a nossa vida como toda a gente! Não é pedir e também não é dizer nada que as pessoas não queiram… em quase todos os trabalhos não seja uma coisa óbvia… como dizia a Billy Hollyday: “don’t ask me to give the only thing I can sail”… algo assim do género… não me peças para dar a única coisa que eu possa vender que é a minha arte!

Francesco: Exato! Obrigado Diogo, fantástico! Queria saber, para terminar, o que é que… quais as tuas espectativas em relação à política, aos governos: o que é que eles podem fazer para proteger um pouco este sector cultural e também aqueles movimentos reivindicativos que surgiram agora, se tens algo a dizer sobre isso…

Diogo Picão: …bom! Uma das coisas que mais me dá esperança neste momento será se conseguirmos criar o Estatuto do Artista ou dos trabalhadores da cultura que me parece ter a ver com o sistema dos intermitentes em França e que aqui não há… eu acho que isto daria algum fôlego a quem trabalha nas artes e não só, os artistas e os frontman’s, todos os artistas que estão à volta da criação de qualquer peça ou de qualquer obra musical, o que for e todos os técnicos que estão à volta dessa… que quase todos sofrem do mesmo que é: quando há trabalho recebes, quando não há trabalho não recebes, pronto! Acho que essa é a única, a primeira… porque se começa a ouvir a falar disso pela primeira vez, nalguns políticos e nalguns… nos meios… nos média! Porque isto mete aqui uma questão que é: finalmente a sociedade a perceber ou admitir que precisa destas pessoas, utiliza os recursos que estas pessoas criam, gostam do trabalho que elas fazem e então a sociedade como um todo, tem que se organizar para que estas pessoas terem meios básicos de subsistência, a mim parece-me óbvio! E portanto… essa é a minha única esperança deste processo tão duro, pronto! É que realmente seja tão.. que isso fique tão óbvio que é… além de uma coisa importante, um tipo de escolha de vida muito precária e que as pessoas fazem na mesma, porque gostam daquilo que fazem e acreditam na arte que fazem e então decidem dar as suas vidas por isso, porque é uma… às vezes não é quase uma escolha, mas é uma necessidade também… queres exprimir uma coisa e decides dar a tua vida e escolher o teu caminho profissional naquele sentido, pronto! Isto é uma coisa que me dá esperança, que a sociedade como um todo e os políticos forçados por essa noção crescente criem este Estatuto, não sei em que moldes mas, no caso eu acho dos intermitentes em França é… tu descontas por todos os concertos ou peças que fazes e depois quando não tens trabalho há uma média para conseguires subsistir se não houver este tipo de trabalho, o que também eu acho que vai forçar os próprios músicos e os artistas no geral, que muitas vezes vivem ali numa… nós vivemos ali numa zona cinzenta, em que não se passa recibos de tudo, em que não… em que de repente há uma força para se passar tudo e para tudo ser declarado mas que o Estado contribua quando é necessário e que aceite que há realmente uma onda, não é um trabalho estático e pronto! E a criação cultural será melhor quanto mais estrutura tiverem as pessoas, pronto isto é a esperança maior que me dá! A outra questão é, tenho… não sei se é esperança mas tenho alguma… sim alguma esperança que os próprios músicos e neste caso contra mim falo… ganhem um pouco mais… alguma noção de classe, consciência e que se comecem a juntar um pouco mais e que se comecem a criar estruturas agregadoras, sindicatos que funcionem ou que pelo menos tenham uma abrangência grande da classe que já está em trabalho e também dos alunos que estão a ser formados agora e que vão para o mercado de trabalho entretanto e que… pronto! Isso era uma coisa boa em termos, pra nós e pra quem vier a seguir e pronto! E também que isto seja feito pelas sociedades dos direitos, ou seja a SPA Sociedade Portuguesa de Autores, que eu acho que é muito fraca no trabalho de transmitir a informação e o conhecimento, principalmente para as pessoas que se estão a formar agora, acho que esta fraca comunicação com o exterior com os direitos dos autores, no âmbito do… no geral… não para quem já está inscrito mas na sociedade no geral e na própria GDA que na mesma, acho que tem feito um trabalho até bastante bom durante esta pandemia de apoio e de transmitir esta informação, porque não é só existir o apoio, não é só… é dar literacia, é saber ensinar aos artistas, os criadores, ou os executantes, no caso de não serem até compositores no caso da música, mas que dos direitos que existem e para as pessoas poderem registar as coisas e para a recolha ser feita o mais justamente possível e a repartição ser feita mais justamente possível! Porque se não quer dizer… ou seja, não serve só cobrar se depois a repartição não é clara, não é transparente, pronto! Mas eu acho, quanto mais noção de classe houver e mais houver esta união, melhor vai ser para todos! Claro que há aqui uma questão que é: a criação artística e acho que por isto é que é difícil organizarmos por classe, tem um lado muito individual, tem um lado muito… difícil de agregar às vezes e noutros não. Ou seja, por exemplo: nós como músicos tocamos em conjunto, tocamos em banda, por exemplo se me perguntares para eu escrever canções, geralmente eu quero estar sozinho até aquilo estar feito e eu não quero nem sequer a opinião de ninguém e depois quando eu acho que já está mais ou menos o que me parece interessante, depois vou partilhando e até às vezes corrigindo coisas que eu acho pertinentes, consoante as críticas dos outros. Mas há um lado que liga-se à estética, não é? Tens um bocado que deixar cair esse… ou seja, tu podes não gostar esteticamente da obra de um artista e na mesma reconheceres-te em termos de classe com ele. E isso é uma coisa que que eu acho que os artistas tem muita dificuldade, que é: ok! Não gosto daquela obra específica, mas nós estamos todos dentro de uma classe que é um bocado… ok! Uma subclasse, o músico, o ator, o encenador, sei lá? O técnico de som, mas pronto! Não… é começarmos a separar um bocadinho a coisa que eu acho que ainda é difícil de… ou seja, o músico clássico, o músico de jazz, o músico de samba, o músico pimba, o rapper, o que for… pronto! As pessoas que estão a criar música e, isto falando só do âmbito da música, e tem que haver a noção de que estamos todos no mesmo barco! Não é que todos tenhamos de gostar do trabalho de uns e dos outros e ter que dar palmadinhas nas costas, não é nada disso! Acho que até é bom criticarmos e não é que a gente tenha que seguir o trabalho de coisas que não gosta, mas termos esta noção que não temos que gostar do trabalho necessariamente esteticamente que está a ser feito, para percebermos que trabalhamos todos na mesma coisa, no nosso caso que é a música! Portanto… e que levamos música a vários públicos diferentes, pronto! E que tudo isso é valido, porque eu acho que isso nós vai dar muito mais força, em termos de classe e vai evitar com que haja caches tão baixos e haja uma precariedade tão grande!

Francesco: Perfeito! muito obrigado! Diogo, última… ultimíssima pergunta que te queria fazer: tu tens realizado concertos online durante a… durante o período mais crítico, se bem que ainda estamos num período crítico e tens contribuído por exemplo em produções de discos, etc. Tens alguma, uma ou duas músicas que nós possamos linkar a esta entrevista para te ouvir?

Diogo Picão: Sim! Olha: um dos concertos que dei no verão, que foi a convite da Câmara Municipal da Lourinhã, donde eu cresci! Foi uma série de concertos que eles fizeram, chama-se Sons da Minha Terra e foi um concerto todo gravado por uma equipa técnica, vídeo e som e que está disponível no Youtube da Câmara Municipal da Lourinhã e em que eu toco só piano e voz e foi o primeiro concerto que eu fiz assim, só piano e voz, que é como eu escrevo, como componho as canções, pronto… sem banda! Esse é um deles, o outro foi um trabalho de um duo que eu faço parte com o Olmo Marin, chama-se Sambacalao, que foi gravado no Camones, que é um lugar de concertos muito interessante ali na Graça, aqui em Lisboa e que está também no youtube deles e é um concerto inteiro, também gravado com qualidade som e vídeo, creio que aquilo está como “Little Cam Ones” mas se forem ao youtube do Camones, vai lá aparecer “Sambacalao”, pronto! Foram assim os dois mais… que eu acho que ficaram mais interessantes neste sentido!

Francesco: Ok! Perfeito! Obrigado Diogo, muito obrigado pela conversa!

Diogo Picão: Obrigado!

Projeto Ágora: Entrevista com João Cabrita (05/07/2021)

João Cabrita é músico/produtor. Conta com uma extensa discografia. Fez parte de grupos como SitiadosKussondulola, Despe e Siga, os Assessores (banda que acompanha Sérgio Godinho), Cacique ’97, Virgem SutaDead Combo, entre outros. Colabora com Susana Félix, Zeca Baleiro, Caetano Veloso, Rui Veloso, Vitorino, Martinho da Vila, Cool Hipnoise, Paulo de Carvalho, Jorge Palma, Orelha Negra, D.A.M.A., X- Wife, Selma Uamusse, entre outros. Mais recentemente tem colaborado com The Legendary Tigerman e Cais Sodré Funk Connection. Trabalha para teatro, publicidade, televisão e cinema como músico e/ou diretor musical.  Em 2020 lançou “Cabrita”, o seu álbum de estreia à solo, com várias colaborações. Em resposta à situação de atual emergência devida à pandemia do COVID-19 e à necessidade de promover iniciativas que possam avaliar e atenuar o impacto no âmbito das artes performativas, investigar os efeitos da crise, com enfoque no sector da música, documentar as estratégias aplicadas pelos artistas nas suas atividades criativas e de performance, o Projeto Ágora convida João Cabrita, para compreender os efeitos provocados pela crise sanitária, quer no nível individual, quer no âmbito do sector cultural em Portugal.

João Cabrita: Olá eu sou o Cabrita, saxofonista e lancei o meu primeiro disco agora em 2020!

Francesco: Olá Cabrita, obrigado por ter aceite esta proposta de encontro e entrevista, estamos em Julho 2021. Há um mês e meio atrás parecia ter tudo quase acabado ou quase a abrir e a desconfinar… e estamos agora em pleno verão ainda com os mesmos problemas. Então vou te fazer uma série de perguntas sobre a vivência assim… de nós os músicos e artistas no geral na altura da pandemia e queria saber em primeiro lugar: como ela te afetou a nível financeiro?

João Cabrita: Foi um grande golpe, eu tinha… quando nós chegamos em Março, eu tinha à volta de 40 espetáculos marcados e desapareceram todos! Portanto, fiquei fechado em casa nesta altura estava basicamente a recuperar do inverno e acabei por não ter receitas quase nenhumas. Tive algumas… felizmente como sou compositor, tive alguns apoios da SPA e da GDA e foi basicamente isto que me safou neste trimestre e só não foi pior porque a minha mulher não trabalha nas artes e então continua a trabalhar e a receber dinheiro regularmente…

Francesco: …e destes 40 concertos por exemplo, conseguiste recuperar algum? Ou ser pago por algum, ou um adiamento…

João Cabrita: …não! Houve adiamentos e deles todos houve um que já foi feito, entretanto este ano, que foi o dos Funk Connection em Almada, houve um privado que nós pagaram metade mas depois nunca mais nós marcaram a outra data e os outros todos estão assim num limbo de, há de ser feito um dia, mas não sabemos!

Francesco: Quando voltaremos a uma vida normal… não, exato! Será reagendado quando um dia… portanto, ou seja houve um corte total de número de concertos, se num ano normal tu tocavas 50/80/100 datas…

João Cabrita: …sim! Normalmente faço por ai 120… 140 datas por ano e no ano passado, apesar de tudo… ao contrário da maior parte dos meus colegas, ainda acabei por tocar bastante no verão, ou seja fiz por aí uns 30/40 espetáculos no máximo, o ano todo… do princípio ao fim, antes do primeiro confinamento, durante o verão e até Outubro, devo ter feito por aí 30 concertos!

Francesco: Ah! Conseguiste ainda tocar um bocadinho…

João Cabrita: …ainda toquei umas coisas, sim, sim! Principalmente com o The Legendary Tiger Man, conseguimos ainda espetáculos… One Man Band e coisas assim…

Francesco: …fantástico! Tenho entrevistado pessoas que tiveram um corte total, quase de 95% das datas, o que é incrível…

João Cabrita: …sim, sim! É horrível!

Francesco: E conseguiste então nesta altura algum apoio para te sustentar?

João Cabrita: Tive dois “apoiozitos” por ser gerente da minha empresa, logo ao princípio… tive os layoffs iniciais e entretanto depois disso já não, já não tive nada, tive uns concertos e fui tendo mais um… tive um apoio da DGArtes para este ano fazer a itinerância do meu espetáculo, do projeto Cabrita e pronto! Basicamente, apoios… apoios não tive… também, a verdade seja dita que também não… a partir de uma certa altura senti que estava um bocadinho melhor do que a maior parte da malta e não quis concorrer e deixar para quem precisasse mais, porque havia muita gente pior do que eu!

Francesco: E agora, observando mais uma outra perspetiva desta vivência, em termos de criatividade, como é que ela te afetou? Ou seja, ficaste em casa confinado, conseguiste trabalhar? Compor, fazer… eu vi que…

João Cabrita: …sim! Porque há sempre uma espécie de síndrome do impostor no artista, que é de nós não merecermos bem a sorte que estamos a ter, e isto, pelo menos comigo é bastante forte e às vezes acho que é mais uma sorte do que talento ou trabalho, ou quer que seja… então faço, sinto… que tenho sempre que fazer qualquer coisa que me faça sentir útil então, por exemplo no meu primeiro confinamento eu resolvi… como sei que não sou uma pessoa de… não sou muito estudioso enquanto saxofonista, achei que uma maneira de me por a trabalhar e a estudar, era compor um tema por mês ou por semana e por aí fora e foi aí que nasceram as Quarentine Sessions que foi basicamente eu a estar a trabalhar continuamente e a tocar! E o compromisso de por as coisas cá fora com uma regularidade, também me obrigou a não deixar as coisas ir abaixo…

Francesco: …e isto foi ao longo de todo o confinamento, não tiveste momentos de quebra emocional ou…

João Cabrita: …sim! Epá! Porque nós já… é a tal história: a tal síndrome do impostor já faz pensar que nós… que a cultura não é bem… um bem assim tão essencial como a comida como habitação, como a saúde ou educação… mas a verdade é que é, porque é a única coisa que nós distingue enquanto civilização, enquanto país de outro país, não é a localização geográfica, é a nossa cultura! Portanto… e como se viu aliás com o confinamento, o consumo de bens culturais aumentou imenso, porque as pessoas sem livros, sem discos, sem cinemas, sem teatro… sem teatro não… mas tudo o que eram coisas que são, que estão registadas ou gravadas ou que se podem ver em diferido foi… aumentou imenso, exponencialmente! Portanto é de facto um bem essencial e é por causa disso, eu também me forcei a fazer este tipo de coisas e continuar a fazer, a produzir novo trabalho e também em boa verdade, na minha vida normal estou sempre a queixar-me que não tenho tempo para compor, então… estou a adiar discos… então, aproveitei, pronto! Olha… não é que a inspiração venha sempre, mas seu eu trabalhar continuamente, pelo menos quando ela vier eu estou lá com as ferramentas na mão, prontas a receber e acho que foi um bocado por ai a minha lógica de…

Francesco: …mas o teu disco é anterior à pandemia?

João Cabrita: É anterior! Mas aconteceu também num período mais ou menos parecido, que foi o… tive um buraco de dois meses em que terminei a primeira tour do Tiger Man do “Misfit” e estava ainda a acabar o disco dos “Back on track” dos Cais do Sodré Funk Connection. Normalmente estas coisas vão parar umas encima das outras e eu andei a fazer malabarismos com a agenda, neste caso não: foi ao contrário, fiquei com um buraco sem concertos de dois meses e então comecei a compor por exercício, para guardar ideias mais pá frente e por aí fora e foi de aí que nasceu o disco…

Francesco: …que nasceu o disco, fantástico! Sentiste que estes vídeos, estas lives que fizeste nas “Quarentine Sessions”, tiveram algum sucesso de público, alguma resposta…

João Cabrita: …sim! Não foi uma coisa massiva mas… o que eu faço não é uma coisa como o rapper gang ou aquelas maltas de… incrivelmente famosas nos youtubes da vida… mas senti que sim, que havia uma adesão das pessoas bastante alta e houve muita gente que gostou e inclusive para mim, a cereja no topo do bolo foi… como adiamos o lançamento do disco para depois, para o final deste ano, acabou por se incorporar… estas Quarentine Sessions num disco bónus na versão de vinil do meu álbum… portanto…

Francesco: …ah! Vai ser um disco bónus?

João Cabrita: E é um disco bónus no vinil do meu disco! É um 10 polegadas, um mini LP que está junto com o meu álbum!

Francesco: Fantástico, não tinha percebido disto!

João Cabrita: Acabou por ser um trabalho que acabou por dar frutos! E assim fica registado…

Francesco: …super produtivo! Então, o que me interessa por exemplo perceber, na perspetiva dos músicos, visto que agora muitos festivais foram feitos online porque não se podia meter público, muitas plataformas que estão surgindo agora sobre o live streaming, sobre a apresentação e a possibilidade de acesso a um público global, o que é que sentes em relação a isso, já que também foste muito ativo neste campo?

João Cabrita: Sim! Eu o que eu acho em relação aos festivais ou aos espetáculos em live streaming, tem um problema ainda por resolver que é a parte do gerar receitas, porque nós temos uma postura em relação aos conteúdos de internet, em que é tudo mais ou menos gratuito e portanto… o problema que nós temos por exemplo nos espetáculos de lotação curta é que não são… não se pagam! A lotação é pouca, os preços dos bilhetes não pagam as despesas, então a maior parte das bandas ou vão em formatos reduzidos ou vão só com o cantor com a sua guitarra para se poder fazer alguma coisa e gerar receitas suficientes para sustentar os espetáculos. No live streaming é o mesmo, ou tu tens algum parceiro que entre com capital, ou tens uma plataforma que tenha um método de pagamento, mas mesmo assim estás sempre numa… ainda não há uma formula, ou bem que és um artista internacional, tipo sei lá… se os Cold Play fizessem um concerto em live streaming, em que toda a gente dava o que quisesse, de certeza que gerava receitas, ou Radiohead ou uma banda grande, mas não é uma solução ainda para a maior parte dos projetos musicais que aí estão, ou bem que é uma coisa de uma pessoa só em que 600 pessoas virem a dar 1€ e de facto são 600€ e já é qualquer coisa para uma pessoa, mas se for uma banda de 9 por exemplo, como as que eu tenho, já não chega a 100€ por cada um… portanto teríamos que fazer muitos concertos desses e é uma coisa que também vive pela novidade… e então há esta questão do gerar a receita que ainda é difícil de chegar a um sitio onde isto seja realmente viável…

Francesco: …é uma questão também técnica, muitas pessoas fizeram live sessions em casa por exemplo com tecnologia rudimental e outras que…

João Cabrita: …sim, sim! Houve muita boa vontade ao princípio e necessidade de fazer coisas para… havia uma espécie de sentido de comunidade…

Francesco: …entreter…

João Cabrita: …exatamente! Um sentido comunitário mesmo no primeiro confinamento que entretanto já se perdeu mas em que os artistas fizeram a sua parte em que também partilharam um bocado este momento e estiveram a contribuir para o entretenimento das pessoas no confinamento. Mas de facto foi uma coisa que na primeira fase foi toda ela mais de boa vontade do que de meios! A partir do momento que entraram mais meios, mais à frente… já se chegou a este problema, que é o problema da sustentabilidade do negócio todo da música e enquanto nós não… de facto, enquanto nós não gerarmos… encontrar maneiras de gerar receitas, a coisa não é muito viável, mesmo!

Francesco: Exato! Posso perguntar por exemplo, naqueles 30/40 concertos que fizeste em 2020, o choque de tocar num palco com uma audiência isolada entre aspas…

João Cabrita: …alguns deles, metade deles foram online até… foram coisas compradas por Câmaras e com seis pessoas da Câmara, só os dirigentes e por aí fora… outro foi um postal da cidade de Chaves, um postal musical… mas houve alguns, sim é muito… na verdade o que tu pensas é: que maravilha estou a tocar outra vez e estão aqui pessoas, são poucas mas estão todas felizes de cá estar e de usufruir do espetáculo e… então há uma alegria partilhada muito grande e maior do que o normal porque, o normal deixou de haver… pá atrás! Depois quando… mais á frente é que é aquele embate, que é realmente isto é horrível de estar a tocar por tão pouca gente e em circunstâncias normais, se não for alguém que tivesse pago, este espetáculo se calhar não se podia estar a fazer! É assim, eu estou mortinho para voltar a tocar com gente colada ao teto, a suar todos uns para cima dos outros, ou numa quinta, um parque da Bela Vista com um mar de cabeças assim… até a perder de vista, epá! Estou mortinho, sim! Mas não posso deixar de ficar feliz por todas as oportunidades que tenho para encontrar público!

Francesco: Ok! Então para terminar a nossa conversa, queria saber se agora, digamos… como cidadão e artista, se tens alguma espectativa do sistema, da política sobre o sector cultural, se isto poderá um dia mudar ou se pelo menos a pandemia trouxe à tona a precariedade em que os artistas vivem e portanto algumas consequências poderão haver…

João Cabrita: …eu acho que o principal, no meio desta porcaria toda que nós estamos a viver, que de facto é fruto da nossa… do carácter precário da nossa profissão, nossa e dos técnicos e de toda a gente associada a área dos espetáculos e dos eventos, acho que houve uma coisa de bom, porque eu normalmente sou otimista nestas coisas e acho que houve mesmo uma coisa bom que é de facto… foi, a parte… os políticos a aperceberem-se da precariedade da nossa… da especificidade da nossa área e a haver passos dados e estarem a se dar passos, que embora sejam bastante pequenos, mas pelo menos vai se criar um Estatuto do Artista, do intermitente… pronto, do contribuinte intermitente, não sei como é que se vai chamar… mas pelo menos já é um pé na porta, agora já estamos aqui a começar a fazer…

Francesco: …pelo menos a falar disso…

João Cabrita: …é! Exatamente, porque isto é tão idiota… é que não… por exemplo, há coisas absurdas… agora já não tenho recibos verdes há muitos anos, mas há muito tempo atrás se falava nisto e não tinha repercussões, que era: se eu fazia retenção na fonte quando recebia, porque não podia reter uma percentagem do que recebia também para a Segurança Social? E em vez disso pagar um valor fixo todos os meses que muitas vezes era mais alto do que eu ganhava neste mês e este tipo de situações só existem porque as pessoas desconhecem… e os decisores políticos desconhecem as particularidades da nossa profissão! É verdade, por exemplo, eu posso passar… posso estar num mês em que ganho bastante dinheiro, mas posso passar três em que estou a fazer um álbum e a não ganhar absolutamente nada, tu aliás vês… quando eu compus o meu primeiro álbum tive dois meses, três meses na verdade, foi de Novembro a Fevereiro, sem receber um tostão que fosse… recebi zero! Felizmente tinha dinheiro poupado e fui me orientando e assim é como aconteceu na pandemia, portanto, não! Estas coisas não podem acontecer! Tem de haver uma maneira destas… de nós sermos contribuintes de acordo com o que ganhamos, portanto do sistema ser mais justo e de ter… de estar atento a este carácter, que nós… que é particular… é diferente, mas estamos num bom caminho… já começou!

Francesco: Estou absolutamente de acordo contigo! Agradeço, muito obrigado! Eu queria… tinha só uma última pergunta, queres por exemplo indicar uma ou duas live sessions, ou músicas que produziste naquela altura da pandemia mais profunda, para podermos linkar aqui à entrevista, eu meto o link e o público pode ir ver…

João Cabrita: …ah ok! Pode ser o “Waiting for Waits” que é uma homenagem ao Tom Waits e o “Ugos walk” que é uma homenagem ao mais entusiástico editor discográfico de Portugal que é o Hugo Ferreira da Omnichord Records!

Francesco: Ah! Fantástico! E encontramos isto claramente no youtube?

João Cabrita: Sim! No youtube, João Cabrita e encontras logo…

Francesco: …perfeito! Muito obrigado então Cabrita, até breve, bom verão e bons concertos!

João Cabrita: Sim a ti também!

Francesco: Obrigado! Um abraço, obrigado!

Projeto Ágora: Entrevista com Rui Galveias (14/05/2021)

Rui Galveias, é guitarrista e compositor e reside em Lisboa. Colabora atualmente com vários projetos musicais, entre os quais se destaca o grupo El-Sur. É também produtor cultural, por gerir um dos novos lugares de referência para a música independente e as artes do espetáculo da cidade: o espaço cultural BOTA (Anjos). Além disso é coordenador do Sindicato dos Trabalhadores de Espectáculos, do Audiovisual e dos Músicos CENA-STE.

Em resposta à situação de atual emergência devida à pandemia do COVID-19 e à necessidade de promover iniciativas que possam avaliar e atenuar o impacto no âmbito das artes performativas, investigar os efeitos da crise, com enfoque no sector da música, documentar as estratégias aplicadas pelos artistas nas suas atividades criativas e de performance, o Projeto Ágora convida Rui Galveias, para compreender os efeitos provocados pela crise sanitária, quer no nível individual, quer no âmbito do sector cultural em Portugal.

Francesco: Olá boa tarde Rui Galveias, obrigado por aceitares este convite aqui do Projeto Ágora para responder aqui a algumas das nossas perguntas e questões, podes te apresentar rapidamente?

Rui Galveias: Sou Rui Galveias, sou músico e artista plástico, tenho a minha vida essencialmente no universo da música e das artes plásticas onde trabalho. Sou também dirigente sindical do CENA-STE, o sindicato dos trabalhadores do espetáculo, das artes do espetáculo, do audiovisual e dos músicos e neste momento… é isto!

Francesco: É isto! Está ótimo! Eu gostava muito… exatamente de entrevistar-te seja enquanto músico e representante do sindicato e queria começar exatamente pela parte mais do performer músico: como é que viveste desde, já que passou mais de um ano, desde a pandemia e os vários confinamentos… como é que viveste como músico esta fase e qual foi o impacto real a nível financeiro na tua vida de performer?

Rui Galveias: A vida que nós tínhamos antes da pandemia já era uma vida muito precária, com muitas dificuldades, não é? Ou seja, a nível financeiro sempre foi difícil, sempre foi de procura constante de trabalho, de lutar muito com muitas dificuldades, fazer muitas coisas diferentes ao mesmo tempo, quer na área da produção, quer na área da criação, quer nos espetáculos. Com o confinamento e as consequências da pandemia, toda esta multiplicidade de trabalho, no trabalho que nós tínhamos… desapareceu! No meu caso em concreto, nós tínhamos num dos grupos que faço arte, que é o El Sur, nós tínhamos lançado um disco em Fevereiro, pronto! Diz tudo, não é? A data diz tudo, lançamos um disco em Fevereiro com uma lógica de lançamento relativamente bem pensada, com… bem preparada, mas… e ainda fizemos um conjunto de participações na televisão, na rádio, nestas coisas todas e programas que são relevantes para a divulgação do trabalho da música em Portugal, mas a partir do momento em que houve a suspensão da atividade… foi todo um processo muito difícil: os concertos reduziram-se brutalmente, eu fiz… até em comparação com outros músicos, acabo por me sentir privilegiado, porque fiz, salvo erro 6 espetáculos!

Francesco: Quantos?

Rui Galveias: 6 durante o ano de 2020, ou seja um com uma componente de vídeo e os outros espetáculos foram feitos no verão, foram estes 5 ou 6 espetáculos… 6 salvo erro, no total!

Francesco: Uma grande tournée!

Rui Galveias: Foi uma grande tournée, sim! Grande tournée de silêncio e ausência, não é? Dos palcos e do trabalho ativo, que nos inspira e que nos move, que é tocar e fazer o nosso trabalho preferencialmente ao vivo. Por outro lado, em 2021 a situação mantem-se parecida, não é? Houve agora um período mais intenso nas últimas semanas, portanto entre Abril e Maio, fruto também de uma vontade muito grande que os músicos têm de por as coisas cá fora, somada a algum espaço que apareceu finalmente! E também uma sensação que eu tenho… que as pessoas querem consumir, querem e precisam da música de uma maneira que nunca esperaram, ou seja sentimos isso e eu acho que sentimos isso nos espetáculos, uma intensidade parte a parte que… pronto! Que é bem vinda e que é importante. Posto isto, a minha vida enquanto músico se acalmou razoavelmente, nós vamos tentando sempre combater a paragem fazendo outras coisas, gravando e produzindo coisas novas e tudo mais! Por oposição a isso, o trabalho no sindicato intensificou-se brutalmente porque a dimensão na vida dos trabalhadores da cultura de uma forma geral, não só dos músicos mas dos trabalhadores da cultura em quase todas as áreas, foi de tal forma afetada por isto, não é? Que o sindicato não teve mãos a medir para tentar dar resposta e ajudar a combater os problemas que foram surgindo e a resolver, e a procurar contribuir para que os problemas que foram… que já existiam, que já cá estavam, estavam disfarçados pela nossa realidade especialmente fruto do turismo e de uma certa realidade que existia de que se tinha assumido como normal, ou seja quando essa… quando cai a pandemia, toda essa normalidade desaparece, não é? Epá! E é aí que tem sido… que a minha vida tem sido muito mais intensa! Ou seja, no envolvimento com este processo. Nós tínhamos cá os problemas antes, ou seja, nós tivemos sempre problemas de forte precariedade, de falta de consciência dos direitos enquanto produtores e agentes de cultura… produtores no sentido de criadores, de agente que cria conteúdos e que faz o material que é… que muitas vezes não é associado à ideia de trabalho, é associado a uma ideia de uma coisa abstrata, que aparece, não é? Quando nós sabemos que não… é um trabalho intenso que tem toda a legitimidade de qualquer outro trabalho e que merece a dignidade que qualquer outro trabalhador merece, não é? Eu acho que essa é a única nota positiva deste processo! É que de repente os trabalhadores da cultura fizeram saber, ou fez-se saber e conseguiu se fazer saber que os artistas também… os artistas e todos os trabalhadores que trabalham à volta da criação cultural e da produção cultural são trabalhadores que têm direitos, que têm direitos como as outras pessoas, podem sonhar com ter uma família, com ter uma vida normal e organizada e que para isto precisam de garantir direitos que outros trabalhadores têm e têm lutado muito para preservar, porque não tem sido fácil! Mas que hoje em dia… mas que esses direitos são legítimos e que devem conquistá-los e isto perante a nossa precariedade e a ideia de que a precariedade é o normal, é a única coisa positiva da pandemia.

Francesco: o que me interessa por exemplo saber, visto que tens lidado com muitos músicos ou também pessoas ligadas ao sector artístico, numa situação que permanece como é agora de 2021, de confinamentos e faltas de perspetivas, entrevistei muitas pessoas por exemplo que acharam em alguns momentos a necessidade de mudar de trabalho… de deixar isto para ir fazer outras coisas, outras pessoas têm uma espécie de faltas de perspetivas… o que é que vai ser? Portanto no geral me interessa saber o que é que os músicos… como é que se podem organizar, como é que podem tipo, tentar abordar o futuro tentando manter-se ativos neste campo…

Rui Galveias: …sim! Esta é uma das questões que surgiu neste período, foi a possibilidade de abandonar este trabalho por outro. O problema é que o confinamento também limitou todos os outros trabalhos, não é? Se calhar, até um certo ponto, ainda bem porque obriga a que as pessoas se mantenham naquilo que são as suas escolhas de vida, não é? E como é que os trabalhadores podem garantir esta legitimidade e os artistas podem garantir esta… os artistas são trabalhadores, como é óbvio… como é que podem garantir esta legitimidade e este futuro? É tomando consciência dos seus direitos! Porque nós, a conclusão a que chegamos era uma conclusão que já existia… a que já tínhamos chegado antes no sindicato, era que em 80 ou 90 % dos casos, se a lei do trabalho que existe em Portugal fosse comprida em quase todas as relações laborais que existem, muitas destas pessoas não teriam ficado nesta situação, ou seja: é óbvio que há exceções, é óbvio que há de facto trabalhadores independentes que são trabalhadores independentes e isso é um problema que choca com a nossa frágil legislação, por causa… o recibo verde é uma invenção para os advogados e para os médicos que tinham um consultório privado, ou seja, não era uma ferramenta para outro tipo de trabalho ou qualquer outro tipo de trabalho! E é óbvio que o trabalhador independente, o artista que é um criador e que está em casa, está a escrever um livro, está a fazer o seu próprio disco, está a fazer o seu trabalho, no seu tempo, nas suas regras, na sua lógica, precisa também de ter acesso a direitos, precisa de conquistar o seu próprio espaço, como ter proteção social, ter essa… precisa ter os direitos plenos que qualquer habitante deste país tem. Mas o problema é que o 90% dos trabalhadores, nós não temos a certeza porque o mapeamento que era preciso fazer, o Ministério da Cultura vai adiando… são trabalhadores subordinados, mesmo um freelancer, que tem legitimidade para ser freelancer, um técnico de som, por exemplo… é freelancer mas é um trabalhador subordinado, o que quer dizer que ele devia ter um contrato de trabalho, mesmo que fosse por um dia, mesmo que fosse por horas… e o acesso a este contrato de trabalho teria lhe permitido ter uma contribuição para a Segurança Social, para ter uma carreira contributiva lógica… ah! Diz: ah! Os trabalhadores independentes através dos recibos verdes também podem fazer descontos e também teriam alguma proteção! Pois! Mas a lógica… a lógica e a proteção que existe no contrato de trabalho e o valor das contribuições é completamente diferente do recibo verde e naturalmente esta proteção é maior por um contrato de trabalho, não descorando que o trabalhador independente devia ter mais proteção, há um aspecto fundamental que é: o que é a Segurança Social e a importância que ela tem? A Segurança Social é uma figura absolutamente uniforme, que procura cuidar de todos os que tem dificuldade, com a contribuição dos que estão bem e dos que estão muito bem. Se toda a gente contribuir seriamente para a Segurança Social, o apoio da Segurança Social é possível para todas as pessoas que estão em situações diferentes e em momentos diferentes das suas vidas, por exemplo na reforma, ou por exemplo numa situação de sem emprego, ou numa situação de doença, não é? É por isto que a Segurança Social serve e essa lógica solidaria e universal da segurança social tem que ser preservada através dos nossos descontos. O problema aqui, é óbvio que bate um conceito que se criou de que eu quero ser independente e um contrato tira-me a independência, é um conceito falso! Porque é uma ilusão, um contrato é a única coisa que me dá a garantia que eu vou receber o meu dinheiro e que estou protegido por uma figura contratual e que se o… por exemplo: se eu fizer uma peça para uma companhia de dança, para uma companhia de teatro e ao fim de um mês ele dizer, ah! Afinal eu quero outra coisa… se tiveres um contrato de trabalho, estas protegido e estiveste a criar descansado porque sabes que no final do mês vais receber! Se estiveres a espera do final do mês para passar um recibo verde, ele pode eventualmente nem sequer querer saber de ti para nada e dizer que não era nada do que ele queria, embora haja formas legais de combater isto e é possível através de algumas figuras legais ultrapassar algumas destas questões, por exemplo através de uma troca de emails, que pode ser que seja validada como uma negociação, não é? Epá! É óbvio que não é o mesmo nível de proteção, isto é um aspecto! O contrato garante essa lealdade parte a parte, no sentido em que há uma proteção de facto e esse… e essa proteção é assumida e estes valores são descontados para efeitos da Segurança Social. Mas há um problema aqui que é o problema dos baixos salários e dos baixos valores, ou seja, quando tu tens no sector em Portugal, baixíssimos caches, o que acontece é que naturalmente um trabalhador independente ou um trabalhador em situação de freelancer, ou um trabalhador subordinado mas que está em pequenos contratos de meses, quando olha para o valor que tem na mão e para o cache que recebe e é confrontado pela entidade patronal, que diz: eu só tenho este dinheiro para ti, se tu quiseres eu faço-te um contrato, mas sai desse dinheiro… ele olha para o dinheiro que vai meter para o bolso e percebe que o dinheiro não vai chegar ao fim do mês, não é? E como percebe que o dinheiro não vai chegar ao fim do mês, opta pela situação e acaba por pactuar com a ilegalidade, não é porque queira, não é? No limite, o que aconteceu em Portugal nos últimos 20 anos, é que as pessoas tentaram manter-se nesta lógica que lhes foi imposta por uma espécie de “babilónia da contratação” que é o recibo verde e acabaram muitas vezes por se endividar de tal forma à Segurança Social porque os pagamentos eram regulares e os recebimento dos caches, portanto o incoming não! Ficaram numa situação em que foram empurrados muitas vezes até para a informalidade, no limite já… não ter qualquer relação com o Estado! Isto não é culpa da malta! Pode haver uma exceção, pode haver meia dúzia de pessoas que sonham com um Estado anarquista, em que não há Estado, ok! Não é? Uma lógica de sociedade, uma sociedade em que não há Estado, ok tudo bem! Mas a maioria das pessoas não escolheram isto, tiveram… foram empurradas para isto, porque o dinheiro não lhes permite estabilidade e a forma como o sector funciona em Portugal não lhes da estabilidade, epá! E o resultado foi, quando caiu a pandemia e todos os ganchos, todos os trabalhos que iam existindo e pequenas coisas que se iam fazendo para sobreviver desaparecem e de repente estamos todos na merda! Estamos todos numa situação dramática! Epá, o que é que os trabalhadores deviam fazer? Tomar consciência dos seus direitos, devem se organizar… nós entendemos o sindicato… que a melhor forma de estar organizados é no sindicato, sendo sindicalizados naturalmente e achamos que… há uma coisa que nós defendemos sempre: se houver só um violinista no sindicato, o violinista não era uma figura menor no sindicato, enquanto trabalhador sindicalizado, passaria a ter a força de todos os outros que estão sindicalizados e nós, no CENA-STE,  temos muitas frentes das artes do espetáculo em Portugal e do audiovisual também, sabemos que aquele violinista que sozinho, que estaria sindicalizado, pronto! Há mais do que um, felizmente…

mas sozinho teria a força dos atores, dos outros músicos e das outras áreas profissionais, porque o combate é comum e aquilo que é preciso garantir aos trabalhadores da cultura de uma forma geral é com… mesmo especificidades que é… a conversa que se tem falado muito sobre a questão do Estatuto, este Estatuto do Trabalhador do espetáculo, do profissional da cultura, do intermitente e estas coisas todas. Mesmo nestas questões, que são questões que estão… que deveriam ser especializadas, ou seja: o que nós entendemos no sindicato é que deveria haver, não um Estatuto, mas um conjunto de Estatutos que resolvem problemas específicos de cada profissional, já temos um ainda muito frágil que é o do bailarino, por exemplo, mas tal como o do bailarino há o do pescador… porque um músico de orquestra não é a mesma coisa que um ator e um operador de câmara não é a mesma coisa que um técnico de som. Têm especificidades diferentes e espetar acerca de 150 profissões dentro de um Estatuto, ou Estatutos que  têm o tamanho do código de trabalho, ou então… não faz qualquer sentido, não é? Porque as especificidades não são contempladas e os Estatutos têm a ver com as especificidades e não com as generalidades, pronto! Estas frentes de direitos que nós temos de conquistar, da tomada de consciência que o trabalho independente muitas vezes é uma fraude, é mentira… que os caches deviam ser diferentes, que se calhar deveríamos trabalhar para garantir que temos tabelas dignas e trabalharmos todos nisto, são várias razões para os artistas e para os profissionais da cultura se organizarem e estarem connosco, estarem com o sindicato. Mas isto é um… isto é infinito…

Francesco: …infinito!

Rui Galveias: Porque há neste momento uma série de coisas que foram colocadas cá fora, que nos… que é a propósito do conceito do trabalho e da ideia de trabalho na cultura, que nos abrem sempre mais perspetivas e mais pontos

e mais aspectos que eu acho que era importante a malta… e que é bom para a malta que queira estar organizada e que tenha… que queira ter consciência dos seus direitos, primeiro… mesmo que não esteja… consciência dos seus direitos, não é? Que tem vindo a surgir esta discussão do Estatuto, que não é o Estatuto que queremos… que está… foi aprovado há pouco tempo, abre coisas muito interessantes, abre uma coisa… coisas muito simples, por exemplo: porque é que nós não estamos de acordo com este? Porque ele substitui o código de trabalho em alguns aspectos e ao substituir o código de trabalho, afasta-nos da realidade dos outros trabalhadores, como se nós estivéssemos numa cúpula e fossemos uma espécie de seres paralelos à realidade, epá! E nós não somos uma série de… não somos seres para além da realidade. O nosso trabalho, para alguns de nós, não para todas as profissões na cultura é noturno, por exemplo: há uma parte do nosso trabalho que é ao fim de semana e é noturno. Nós, o conceito de trabalho noturno e de fim de semana que existe no trabalho extraordinário, ou em horários extraordinários ou fora das horas ditas e convencionadas pela sociedade como horário convencional, é um trabalho normal para nós… mas o problema é que o nosso contexto de trabalho enquanto pessoas que vivem numa sociedade, é um contexto igual há dos outros… ou seja, está ligado à vida, está ligado às outras pessoas todas. Estas dimensões que foram surgindo na discussão do trabalho na cultura, que foi muito intensa no último ano… é a coisa positiva de discutirmos o Estatuto para o Trabalhador, discuti-lo seriamente e eu acho que da parte do sindicato e das outras organizações que estiveram envolvidas na discussão. A discussão foi séria, no caso do governo tenho muitas dúvidas, porque no final nós temos uma coisa que não mudou assim tanto em relação a aquilo que eles apresentaram antes, mas há um conjunto de aspectos que nós entendemos nas nossas profissões, como aspectos que nós distinguem pela questão do trabalho noturno, do trabalho ao fim de semana, que fazem com que nós sejamos considerados uma espécie de entidade à parte, que vive num limbo e não é essa a razão! Existe um conceito de trabalho noturno e o conceito de trabalho ao fim de semana, este conceito existe no código de trabalho…

Francesco: …se bem que isso, ou seja… não é contabilizado todo o tempo que nós trabalhamos para os ensaios que são diurnos…

Rui Galveias: …pois! Também!

Francesco: E da preparação conceitual e física, mesmo, não é?

Rui Galveias: Sim! Esta é a nossa especificidade e é a tal especificidade que devia estar considerada no Estatuto, não é? O nosso trabalho, a forma como o nosso trabalho é construído, de uma grande parte de nós, mesmo a formação e quando eu aponto isto aponto também o conjunto de profissionais, porque falando dos músicos, este campo dos ensaios e do tempo que não existe no palco e que está por trás de todo o nosso trabalho que às vezes é de anos, não é? Este conceito teria de ser considerado e teria que passar a existir num Estatuto por exemplo para os músicos, não é? Com as diferenças com os músicos clássicos, os músicos de pop rock ou da música popular de uma forma geral, não é? Mas depois… e isso é uma especificidade. Já o trabalho noturno não é uma especificidade: é uma característica da nossa profissão, é um horário… epá! De uma forma muito simples, tal como os trabalhadores do lixo… nós trabalhamos à noite e eles também! E o trabalho deles tem uma série de regalias por ser feito à noite e essas regalias, são regalias que nós temos de ter direito porque o conceito de trabalho noturno não pode ser normalizado, como se… ok! Nós, a nossa normalidade é o trabalho noturno… não é uma normalidade! É uma excepcionalidade e o facto de ser uma excepcionalidade deveria fazer com que os valores que são pagos porque se está a trabalhar à noite deveriam ser logo garantidos, porque são diferentes de um trabalho diurno, não é? Tu trabalhas ao fim de semana, eu pago de uma maneira diferente, porque se eu tiver um filho e eu tive filhos… agora já são crescidos felizmente, mas tenho amigos que têm filhos que os têm que levar de manhã para a escola, porque não há uma escola para os músicos, não é? Os filhos dos músicos não vão para uma escola e é que sai as 3 da manhã de casa quando o pai sai do trabalho e vai… ou chega finalmente a casa e pode ir buscar os miúdos e estar com eles até as 6 da manhã e os miúdos depois vão se deitar… portanto, não é esta a realidade! A realidade da vida das pessoas é dentro de uma lógica de 7 dias por semana, uma semana em que se valorizou com uma luta duríssima, desde o século XIX das 8 horas de trabalho, 8 horas de descanso e 8 horas para fazer o que se quiser e essa lógica faz com que o trabalho diurno é trabalho diurno, o trabalho noturno é trabalho noturno, o trabalho extraordinário é trabalho extraordinário e isso tem a ver com a proteção ao lado fraco que é quem trabalha, quem é subordinado a uma entidade qualquer. No nosso caso, mesmo como independentes, se nós tivermos consciência disto, é importante para percebermos a importância de defender por exemplo os caches mais justos, valore mais corretos, fazer compreender o peso do trabalho nas artes que é uma coisa que eu acho que a sociedade começou a compreender com este ano de pandemia e que muitas vezes não compreende, vê o resultado final, fica encantada mas depois todas aquelas anedotas que nós conhecemos: “ok! És músico mas trabalhas em que?”… nós já as sabemos todas, já as discutimos, mas elas não deixam de ser atuais, infelizmente mantém-se, não é? Há chavões que nunca desaparecem! E esta coisa do Estatuto dos Trabalhadores do Espetáculo ou do profissional da cultura… porque isto também é outro um problema que existe naquele conceito porque aquilo pretendia meter tanta gente e depois percebeu que se tinha esquecido… sei lá, dos artistas plásticos… então e de repente, então e estes? Quer dizer, é revelador da forma como foi mal pensado… são coisas que o Estatuto não pode substituir ao código de trabalho, porque e o código de trabalho é a base do trabalho para todos e forma como todos somos protegidos e essa base é que nos garante que podemos comparar a nossa realidade com a dos outros, mantendo a mesma balança, porque se formos para balanças diferentes, o risco que temos de ficarmos numa balança que é profundamente desequilibrada para nós, que é aquela em que vivemos à conta da precariedade, não é? Porque a precariedade desfez  a balança, o que é que a precariedade fez? Afastou-nos de uma lógica de proteção, que a nossa Constituição defende, que é a defesa de quem trabalha previu… a Constituição Portuguesa defende quem trabalha, contra quem domina os meios de produção, esta parece uma coisa assim mais de… uma coisa que parece ideológica e é ideológica… não há nada a fazer! É ideológico e é político… e político não quer dizer partidário, as nossas decisões de vida são sempre politicas, não é? E essa ligação é aquilo que a gente precisa de recuperar, a ligação aos nossos direitos enquanto trabalhadores da cultura, é a ligação aos direitos dos outros trabalhadores todos. Essa dimensão é fundamental para nós nos defendermos melhor e depois a consciência das nossas diferenças, é fundamental para desenvolvermos os nossos… os direitos e a defesa dos nossos… da nossa especificidade, mas isto é um passo acima… é um passo à frente, que é muito importante, não é? Nós voltamos a falar por exemplo, dos ensaios, o trabalho intelectual que é feito fora dos olhares de toda a gente, mesmo um músico de orquestra, trabalha fora da orquestra, não trabalha só na orquestra, não consegue ensaiar só na orquestra, tem que manter… para se manter em forma, ui! Não é? E isto aplica-se a muitas profissões, pois há profissões que são diferentes. Os operadores de câmara, por exemplo são sujeitos a horários e a pressões imensas por causa dos timings de produção que existem e foram habituados a esta lógica e é preciso compreender que nas suas profissões, a componente física que tem e as características que tem são diferentes por exemplo dos maquinistas de cinema, não é? E por ai fora… ou seja, todas as profissões têm estas especificidades mas elas são uma a uma, não existe um Estatuto Geral da Cultura que põe um artista plástico ao lado de um violinista, não faz sentido, não é a mesma… a única coisa que existe em comum é o facto de haver uma componente intelectual no trabalho, não é? E estas especificidades é que não existem no tal do Estatuto. Agora, as generalidades que nós precisamos que sejam adoptadas, nós precisamos de generalidades, precisamos que na generalidade o trabalho noturno é trabalho noturno e nós precisamos de ser protegidos nisto, na generalidade o nosso trabalho, quando estamos a trabalhar para alguém e cumprimos um horário e… ou usamos um equipamento desta pessoa, ou trabalhamos para uma companhia de teatro e eles definiram o local de ensaio, o período, quando é que o espetáculo acontece, ou seja: isto são características de trabalho subordinado e isto vem da generalidade, não vem da especificidade. Primeiro temos que ganhar a generalidade e depois imos à especificidade e uma coisa não invalida a outra, não estou a dizer que devemos adiar um Estatuto do Trabalhador da Cultura ou um conjunto de Estatutos, não devemos adiá-los, estamos a discuti-lo e queremos discuti-lo… não pode é ser apresentado como foi, como uma medida de emergência perante a situação dramática que as pessoas vivem, aliás serviu para nós distrair das medidas de emergência que não foram tomadas com seriedade e com a dimensão que mereciam. Nós vemos muita gente com muitas dificuldades…. mesmo os que receberam aqueles apoios de miséria, não é? A meia dúzia que receberam, com muita dificuldade em receber este dinheiro, com muitos atrasos, porque o Ministério da Cultura está subdimensionado e depois pode-se dizer: ah! Mesmo quem olhe de uma forma mais liberal para o mundo do trabalho e para a cultura, mesmo olhando desta forma o dimensionamento do Ministério da Cultura, até nesta perspetiva, não pode ser este, tem que ser substancialmente diferente, tem que ter outro financiamento, tem que ter mais gente, tem que ter uma capacidade de intervenção muito maior e no caso, o Ministério da Cultura substituiu-se ao Ministério do Trabalho nos apoios, porque os apoios… ok! É um esforço extra do Ministério da Cultura para fazer… epá! Mas depois não pode fazer um esforço que é um esforço virado para a Câmara, virado para a propaganda, porque foi propaganda, não é? O dinheiro foi para… há dinheiro para fazer aqueles apoios, foi garantido no orçamento do Estado que este dinheiro existe, é um facto! Mas depois transformaram aquilo numa medida de propaganda, apresentada por exemplo no verão passado com os resultados que conhecemos, os poucos… e apresentados em Janeiro de 2021 com resultados desastrosos, não é? Em que as medidas são apresentadas sucessivamente, mas o dinheiro é sempre o mesmo… nunca chegou às pessoas! E ainda dá para ver onde é que anda este dinheiro, que este dinheiro nunca mais chega e ele está cativado no orçamento do Estado para isto, portanto… é mesmo uma má gestão e esta má gestão tem toda a ver com a escala do Ministério da Cultura e a importância que teria ter um Ministério da Cultura diferente… por exemplo, que garantisse que através dos apoios que dá às companhias independentes que são apoiadas pela DGArtes e a todo os universos de artistas que é apoiado pela DGArtes, o dinheiro que dá e que garante às fundações que são apoiadas pelo governo, não é? A Casa da Música, SerralvesCCB e por aí fora… ou seja, que estes cumprissem a lei e que nos trabalhos subordinados que têm, deixassem finalmente de ter recibos verdes, nunca mais terem recibos verdes e passar a ter um contrato de trabalho, porque não há problema! É possível uma pessoa ter um contrato de trabalho, mesmo que seja a termo, mesmo que seja para um período muito curto é um mito a ideia que o contrato de trabalho é muito difícil de conseguir, que dá muito trabalho e…

Francesco: …ou despesas extras…

Rui Galveias: …e o argumento que.. ah! Mas eu preciso dele amanhã, epá! Mas em geral as coisas são planeadas com meses de antecedência, não é por causa de um dia a tratar de 3 ou 4 na Segurança Social, que são enviados para… 3 ou 4 números da Segurança Social que são enviados para a Segurança Social, são colocados no site a dizer este trabalhador está aqui a trabalhar neste período, não é por aí que é impossível fazer, isto! Há alterações que era preciso fazer nos contratos, há coisas que eram preciso melhorar por causa de algumas exceções.

Em situações de conflito laboral e para ser representado pelo sindicato, tem que estar sindicalizado, ter as quotas em dia para poder ter acesso ao apoio jurídico que nós temos e que funciona muito bem e que tem crescido também porque temos cada vez mais sócios e o facto de termos mais sócios…

Francesco: …está aumentando o numero?

Rui Galveias: Aumentou substancialmente, a história do CENA-STE é engraçada porque era um dois sindicatos que estavam com dificuldades em sobreviver porque dependem diretamente dos sócios, os sindicatos em Portugal apesar de uma tentativa que houve uns… sindicatos com um universo sindical que nós não temos nada a ver felizmente, de uma espécie de financiamento europeu e uma lógica de financiamento que existe em outros países. Em Portugal os sindicatos são completamente independentes e autónomos, dependem completamente das quotas dos sócios, ou seja, nós somos aquilo que os sócios quiserem e somos o que os trabalhadores quiserem, se tivermos poucos trabalhadores e poucos sócios temos pouca força, se tivermos muitos trabalhadores a pagar as quotas, com capacidade para se manter numa relação normal com o sindicato, embora por exemplo neste caso, neste período agora tivemos… facilitamos porque entendemos que as pessoas estavam sem trabalho, isto era o mínimo que podíamos fazer é com esta força que o sindicato tem mais força, não há nada a fazer! E isso é uma possibilidade, ou seja recorrer ao apoio jurídico e ao sindicato quando se é sócio. Quando não se é sócio há sempre um tribunal de trabalho, mas eu acho que o melhor é ser sócio do sindicato e recorrer ao sindicato sempre que possível… nas relações laborais, acho que é… porque é uma defesa entre pares, são os pares que te defendem, mas os pares não estão condicionados! Uma comissão de trabalhadores que tem um papel útil dentro de uma empresa, ou uma estrutura, quando pensamos em companhias grandes ou em por exemplo… na Opart ou na Casa da Música que tem comissões de trabalhadores, é óbvio que a comissão dos trabalhadores é útil. Mas um trabalhador que está dentro de uma empresa não tem a mesma capacidade para se defender de quando tem uma estrutura externa que o defende e que é feita pelos seus pares, não é? Pelos seus colegas, pelos seus companheiros de trabalhos, pelos camaradas. Esta relação é que permite que muitas vezes alguém seja devidamente a ser defendido sem estar a ser posto em causa, porque não é uma relação entre iguais! Uma relação subordinada tem no limite tem sempre um patrão e um empregado para todos os efeitos, mesmo nas companhias mais pequenas, mais… de maior intimidade em que as pessoas são praticamente iguais e eu sei que no nosso tecido existe gente muito boa que dirige companhias e tem pequenas companhias que são maravilhosas, mas há um momento… aquele momento da decisão final do espetáculo, em que é uma decisão às vezes até criativa, há um momento que quem manda é quem manda… não há nada a fazer! Não é? Quem manda é quem manda e isto é trabalho subordinado, não estamos sempre entre iguais! E para isto é que o sindicato pode ser fundamental, porque cria uma distância, afasta a componente pessoal que existe entre um trabalhador e um patrão, que muitas vezes está condicionada por esta relação próxima e depois é a consciência de classe, a consciência de pertencer a um coletivo maior que te defende e com quem estás junto pelas mesmas razões, que é garantir que o teu trabalho e o trabalho dos teus, dos teus amigos e das pessoas que estão contigo é melhor! Eu dou um exemplo: se nós defendêssemos todos… se tivéssemos capacidade e os sindicatos tentaram isso, no caso daquela situação no Sul de Portugal com os imigrantes que estão a trabalhar nas estufas, lá em baixo… se toda a gente os proteger, está a proteger os seus próprios interesses e está a proteger aquelas pessoas e aquilo já não acontece. Ou seja, nós só nos defendemos melhor se defendermos os lados mais fracos e nunca ao contrário, não é… porque este conflito é absolutamente errado! Nós temos que nós defender unindo-nos na base do que é que é.. lá de baixo, porque nós somos de lá de baixo, não há nada a fazer… somos de lá de baixo! E estamos exatamente ao nível dos imigrantes que foram para que vieram da Asia à procura de uma vida um bocadinho melhor aqui, que estão exatamente ao nível dos imigrantes que foram de aqui para a França viver exatamente as mesmas condições em França nos anos 1950 e 1960 e essa relação e… por exemplo: foi fundamental em França garantir que estes imigrantes fossem envolvidos em lutas sindicais, para todos terem mais direitos, porque se não funcionava ao contrário, não é? E é um bocado isso que a gente tem que ver… nós estamos no limite da base mais baixa de isto tudo, estamos todos ao mesmo nível, o nosso trabalho que é mágico, que é… que tem uma dimensão que eu acho que é superlativa na nossa sociedade, não deixa de ter a palavra trabalho associada e naquilo que é a palavra “trabalho”, estamos na base como os outros!

Francesco: muito obrigado Rui por este contributo super valioso vai ser útil para muitas pessoas e até para mim, que estou ouvindo e já te ouvi falar em outras ocasiões, é muito importante para as pessoas interessadas, não é? Chegar a estes conhecimentos e saber que há possibilidades e perspetivas neste campo. Para voltar só à tua atividade de músico, se quiseres nós indicar uma música que tenhas produzido neste período, para podermos alegar aqui à entrevista e poderem te escutar… uma ou duas músicas e comenta, por favor!

Rui Galveias: Sim! O “Quantos é que nós somos?” claramente… foi feito depois do… foi feito durante o mês de Abril de 2020…

Francesco: …como é que se chama?

Rui Galveias: “Quantos é que nós somos?”, que foi um tema que nós convidamos… El Sur, foi feito com “El Sur” e convidamos o LBC Soldjah, é um tema do Zé Mário Branco, nós fizemos uma versão e que diz tudo… quanto é que nós somos? Eu acho que tem tudo a ver como o que estivemos a falar agora e com aquilo que é o momento que vivemos, recomendo vivamente… acho que é um objeto muito bonito, até visualmente e o teledisco foi feito e a canção é incrível!

Francesco: Encontra-se…

Rui Galveias: …encontra-se na página de El Sur, o link é http://www.elsur.com.pt, ou nas redes sociais procurando El Sur, e no Spotify também se encontra é sempre .pt para se encontrar porque há mais do que um El Sur, mas há muitos Suis… Suis? Suls? Não sei… não sei como é que se diz o plural de Sul..

Francesco: …suis? Sules… não…!

Rui Galveias: Suis, Sules… não sei! Mas são muitos, o Sul é muita coisa e eu acho que “Quantos é que nós somos?” é um tema incrível, porque faz esta pergunta: é um tema que foi criado num contexto pós PREC, não é? Do Período Revolucionário em Curso do 25 de Abril, mas que… a pergunta é esta: quantos somos? Quantos é que estão aqui de facto, para conseguir mudar as coisas?

E é uma pergunta que fazemos sempre, não é? Quantos é que somos? Quanto… quando nós temos que avançar com uma situação em que temos que ir para a rua e exigir alguma coisa, temos que ir para a administração de uma empresa, por exemplo quando o sindicato exigir alguma coisa, quantos é que nós somos? Temos força para isto? E este tema é ótimo para isto!

Francesco: Ótimo! Muito obrigado Rui!

Rui Galveias: Obrigado eu!