Projeto Ágora: Entrevista com João Pires (26/03/2021)

Francesco: Bom dia João Pires!

João Pires: Bom dia!

Francesco: Bem-vindo aqui, nestas conversas do Projeto Àgora! Estás aqui num belo lugar com uma bela paisagem…

João Pires: Pois estou!

Francesco: Ok! Vamos começar, podes-te apresentar, quem és?

João Pires: Então, sou o João Pires, português, sou músico, guitarrista, compositor!

Francesco: Muito bem!

João Pires: E… é isso, não é?

Francesco: É isso! E um grande colega! Há muitos anos que a gente se conhece…

João Pires: E colega há muitos anos!

Francesco: Isto é verdade! Agora, te convidei aqui para falar sobre algumas questões que estamos a viver nos últimos tempos e queria começar por te perguntar: dada a situação que estamos a viver acerca de um ano já, já se passou um ano, como é que viveste mais ou menos esta situação toda enquanto músico e de que maneira a pandemia afetou a tua situação financeira?

João Pires: Bom! Afetou muitíssimo! Acho que, igual a todos desta área, não é? Há um ano, tem um ano que no fundo isto… andamos a fazer malabarismos e mudar um bocado a forma como nós vínhamos fazendo as coisas, não é? Ou seja… e eu sou uma pessoa que nestes últimos anos, eu tenho vivido muito de palco e de concertos um pouco pelo mundo todo e de repente tem um ano que eu estou em casa! E…

Francesco: Uma mudança radical!

João Pires: Uma mudança completamente radical! Agora: eu também… pronto! Eu estou muito afetado com esta situação, igual vocês todos… pronto! Nós todos! Talvez eu… talvez eu tenha um escape, que tem sido a coisa da composição e de direitos de autor, não é? Que isso me tem dado um certo respaldo de… pronto, epá! Ou seja, não estou a tocar ao vivo, mas a minha música não está parada, está a ir tocar por vários… graças a deus, por várias rádios do mundo e tal… e isto reflete-se nos direitos de autor, mas isto não quer dizer que eu, ou seja… eu sou pai! Portanto… e é um malabarismo constante, não é? De…

Francesco: exato! Mas pelo menos tinhas esta entrada… esta possibilidade de complementar…

João Pires: sim!

Francesco: Recebeste algum apoio, no entretanto, neste ano? Alguma assistência financeira do governo?

João Pires: Sim!

Francesco: Podes explicar rapidamente?

João Pires: Então, eu recebi apoio da Segurança Social, do Apoio Extraordinário ao Trabalhador Independente e também recebi um apoio de Fundo Fomento Cultural, acho que é uma coisa do Ministério da Cultura, pronto! Mas assim, mas…

Francesco: …te consideras satisfeito por estes apoios?

João Pires: Epá! Satisfeito!!? É que nós estamos numa posição em que não dá para exigir…

Francesco: grandes coisas…

João Pires: …é que qualquer coisa que venha… é bem-vinda! Porque… a gente está parada e todos os meses tem a conta da renda da casa, tem a escola do puto, tem, não é? Mas, epá! Melhor que nada, melhor que nada, não é? 

Francesco: Mas poderia ser melhor?

João Pires: Mas poderia ser melhor! Sim, poderia… ou seja, isto da pandemia também… isto veio constatar e “escrachar” ainda mais no quadro… o quanto nós somos precários! O quanto o músico é precário, é meio como um ser à parte assim da sociedade!

Francesco: E te aconteceu alguma vez durante este período de pensar: vou mudar de trabalho!? Ou, preciso de mudar de trabalho, deixar a música e fazer outra coisa… de vez?

João Pires: Confesso que não! (risos)

Francesco: Fiel!

João Pires: Não! Não… porque a música já, eu e ela já são muitos anos, não é? E então já é uma relação que não vai parar! Dificilmente… não me consigo ver a deixar de tocar ou de fazer música! Agora… mas também me trouxe este espelho de o quão precário… o quão precário nós somos e sei lá! Assusta-me um bocado é esta coisa de agora ainda temos, pronto epá! Fisicamente e coiso… a coisa ainda vai dando para lá umas curvas, mas preocupa-me a coisa: e então quando eu entrar nos 60 e nos 70 e quando não haver a mesma vitalidade, a questão é preocupante!

Francesco: Preocupante! Exatamente e eu acho que todo o mundo pensa no fundo isto: e quando eu chegar aí? Como é que vai ser?

João Pires: Como é que vai ser? Como é que…?

Francesco: Esta é uma grande pergunta e ninguém sabe, podemos só tentar imaginar! Eu gostava de saber, também em relação ao teu trabalho criativo: acabaste de dizer que apesar de todos os limites e da impossibilidade de tocar ao vivo, conseguiste  de qualquer maneira te concentrar para criar novas coisas, como é que então viveste ao longo deste ano esta questão do trabalho criativo? Da criatividade?

João Pires: Então, foi uma verdadeira montanha russa, epá! Eu lembro-me que foi, portanto… nós estamos a fazer um ano, em Março, não é? 

Francesco: Sim! Já passou!

João Pires: Já passou! Foi uma verdadeira montanha russa, porque eu lembro-me que quando isto começou o ano passado, sobretudo ali os meses de Abril, Maio… eu toquei imenso em casa, ré conectei-me com o instrumento, como eu não me conectava há muito tempo, que eu digo assim do dia a dia, tocar muitas horas por dia, de…. foi muito engraçado, parece que foi uma coisa assim, meio instintiva de… pronto, epá! Isto, o mundo está a arder, eu vou ficar aqui no meu casulo, com a minha guitarrinha e aqui estou bem! Então foi um período muito estimulante, criativamente… ou seja, porque eu voltei um bocado a estudar, estudos mesmo, estudar! Voltar outra vez a coisas técnicas…

Francesco: ter tempo para fazer…

João Pires: ter tempo para… e isto desperta-me logo a criatividade e a antena parece que liga e começa a ouvir música e… pronto! Depois, tive uns meses à seguir a isto em que…. nada! Zero! Não…

Francesco: passou aquela pica toda de fazer…

João Pires: passou aquela pica toda! continuo no mesmo lugar e isto continua no mesmo lugar e… perspetivas nulas, mais concertos cancelados, mais sonhos cancelados ou adiados e eu… tive ali uns meses assim, também… encostei bastante, a guitarra e a música e tal! E agora, pronto… epá! Agora há dois meses voltei, voltou a vir o impulso e também o impulso também por outros projetos profissionais, o do Coladera, começar o processo do terceiro disco e isso fez com que voltasse esta…

Francesco: …ímpeto criativo!

João Pires: É! Este impulso visceral forte e agora estou mega ativo e não só Coladera, como comecei o… comecei a nova viagem do meu próximo filhote, à solo!

Francesco: Fantástico, ótimo de saber! Para fazer uma espécie de estimativa, por exemplo no ano anterior à pandemia, era 2019 e também 2018 por exemplo, quantos concertos por ano fazias?

João Pires: Opá! Eu acho que andava assim numa média de 50…

Francesco: 50 concertos por ano?

João Pires: Sim, só que…

Francesco: em 2020?

João Pires: 2020 foi bastante catastrófico, porque tinha muitos concertos… tinha muitos concertos agendados e foram todos… não houve um! Foram todos cancelados! E isso foi angustiante, foi uma desilusão porque havia concertos muito bons, ou seja…

Francesco: importantes?

João Pires: Havia concertos importantes de… que é um trabalho, não é? Que tu vens lá de trás e que tu vais… e que vais conseguindo atingir objetivos e de forma que 2020 seria o ano em que iriamos aos Estados Unidos, ao Canada! Canada pela primeira vez e íamos continuar a fazer um projeto que estreamos que foi… foi um pouco antes, que era o Coladera com a Orquestra, que foi uma coisa com a Orquestra de Câmara, uma coisa fantástica na nossa vida e que também tínhamos vários concertos e que foram todos cancelados! Cordel tinha vários concertos também agendados e… não! Neste plano é…

Francesco: foi um a trajetória, assim interrompida…

João Pires: é catastrófica!

Francesco: Catastrófica! E em relação a isso, como é que… se tens alguma estratégia para o futuro, considerando que agora muitos dos concertos são feitos online…

João Pires: epá! Pronto, eu tenho procurado que o pessimismo não me contamine e tenho preferido pensar que isto é um congelamento ou é um adiamento, então… epá! Tenho procurado meio que manter o contacto com essas portas, que estavam marcadas e que… portanto, para estas portas estarem abertas e também produzir, produzir novo material: músicas, discos, para depois, se Deus quiser, quando isto “desparalizar”…

Francesco: retomar!

João Pires: Retomar e vir com tudo, não é? 

Francesco: E gostava de perguntar-te: já tocaste em festivais com restrições e público sentado, com máscara…

João Pires: já!

Francesco: O que é que sentiste a nível de performance? A tua performance mudou, foi diferente?

João Pires: Epá! Eu confesso-te que achei… confesso-te que foi estranho, foi um bocado desconfortável… pronto! Epá! É muito esquisito tu veres, olhares para uma plateia em que tu não vês a expressão e… não é? E não sabes se a pessoa está a cantar, se não está a cantar, se está a rir, se não está… ou seja, isto foi estranho!

Francesco: Surreal!

João Pires: E depois também é estranho tu não veres corpos… juntos!

Francesco: Afastados!

João Pires: Foi estranho! É estranho!

Francesco: E em relação, por exemplo, a todo este… digamos assim, a esta produção de vídeos em streaming, deste novo formato de performance, que poderá eventualmente ser um novo formato para o futuro, que é que tu… por exemplo, tu também trabalhas como produtor naquele Festival Minas Música Mundo… fizeram muita coisa online?

João Pires: Ó Francesco! Sim, sim, sim… muita coisa online, concertos online…

Francesco: ou seja este é um novo formato de… apresentação…

João Pires: sim, epá! Eu acho que é assim: eu acho que é um formato que tem muito potencial para crescer, porque eu acho que tecnicamente, questões técnicas… acho que há muita coisa que vai melhorar, acho que vão novas plataformas, vão… vai crescer imenso em termos de qualidade sonora, de áudio, de vídeo, de sincronização, acho que é um mercado que tem potencial para crescer, agora… opá! Eu sou velha guarda e confesso-te que não me bate da mesma maneira que me bate de ver uma coisa, ver e ouvir… que está ali, que está na minha frente, que eu quase que sinto a… não é?

Francesco: A energia…

João Pires: a energia, quase que se sente à pele… à flor de pele, portanto…. epá! Percebo, entendo, respeito, acho que isto de facto é uma coisa que está aí, que é o presente e que será também o futuro…

Francesco: por exemplo, imagina a ir a um festival…

João Pires: …mas não substitui a música presencial, nem pouco, nem mais ou menos!

Francesco: Exato! Concertos online e festivais sem público… já fizeste, porque te vi no festival Fado in a Box [com Cordel]…

João Pires: …epá! Não.. pronto! Eu vou te ser sincero… e como espectador, o som não me bate da mesma maneira, não… não bate!

Francesco: Não há emoção, falta emoção?

João Pires: É frio! É frio… é… e viceversa: e tocar para uma câmara a saber que do outro lado estão pessoas a ver-te através de um… agora, lá está, epá agora… isto! Cada um é diferente, não é? Há pessoas que acham o máximo e estão confortáveis nesta posição, pronto! Há outros que não tanto e eu sou mais deste caso, epá! Eu e a câmara…

Francesco: é um novo formato que… quase todos estão com dificuldades em aceitar… ok João, obrigado! Eu queria saber para acabar o nosso encontro e a nossa conversa, se… existem vários movimentos sociais de defesa ao artista, ao sector artístico, houve muita conversa também nos meios de comunicação, seguiste um pouco esta questão ou há algum movimento que te surpreendeu, ou alguma coisa… em Portugal por exemplo?

João Pires: Epá! Sim, eu há um movimento que eu gostaria de realçar, porque me tocou e toca imenso e porque tenho alguns amigos que estão envolvidos que é o… que é a malta da União Audiovisual, que… epá! Têm feito um trabalho notável e que estão até hoje, todos os dias… sempre malta a entregar cabazes com comida, com… e eu acho notável esta ação que esta malta anda a fazer e é tudo voluntariado, não é Francesco? Ou seja, ninguém está ali a ser remunerado, é a causa… ou seja, apoio mesmo a nós, às famílias que, não é? Que estão a passar por… epá! Por aperto e eles todos os meses lá vão entregar, não sei se tu… eu já recebi! Acho incrível, têm outras várias mas eu esta é aquela que eu fiquei bastante sensibilizado!

Francesco: Interessante! E em relação à política, tens alguma espectativa?

João Pires: Não! Eu acho que a cultura, eu acho que a cultura do nosso país se resume bem no espelho da nossa ministra! É um desnorte! É uma desvalorização, um desnorte brutal! Não sei, epá! Acho que nem… acho que nem carece de palavras!

Francesco: Ok! Bem! Vamos então acabar com, eu gostava de saber se durante este ano produziste alguma coisa, sei que estás a preparar um disco… e gostava de alegar a este nosso encontro, a esta conversa alguma música que tu tenhas produzido ou criado neste período, assim para os que vão ouvir este nosso encontro, esta conversa podem ouvir também o teu som… e se tens criado alguma música que queiras aqui, digamos assim, realçar ou aconselhar para nós depois ouvirmos…

João Pires: já lançada? Ou a querer lançar?

Francesco: Se estás a lançar algo em breve, podes escolher uma delas… ou duas… e comentar… obrigado! Ou por exemplo se tiveste…

João Pires: não, não! acho que eu vou…

Francesco: …ou algum live streming que fizeste, durante a pandemia, ou…

João Pires: não! Eu vou nomear duas…!

Francesco: Ok, fantástico!

João Pires: Pronto! Uma eu vou nomear o videoclip do Coladera, que é “Mantafro” Remix com Jazzanova, que foi já neste coiso de pandemia, já estávamos na pandemia, quando… e com estas dificuldades e barreiras todas… físicas, não é? Porque de repente eu estou em Portugal, o Vítor [Santana] está no Brasil, o mar nos separa, a nossa editora na Alemanha… e conseguimos… epá! Conseguimos materializar esta música com a banda Jazzanova, que foi uma honra para nós, foi… epá! E depois acho que conseguimos um videoclip muito bem conseguido!

Francesco: Ótimo!

João Pires: Mesmo com a distância, portanto eu recomendaria esse tema “Mantafro”, Jazzanova Remix…

Francesco: que é uma música do 2º disco…

João Pires: que é uma música do 2º álbum “Lá Dôtu Lado”!

Francesco: Perfeito! Lindo!

João Pires: Minha…! Que eu irei lançar e que fará parte do meu disco, do meu álbum novo solo… eu acho que vou referir uma música que se chama “Quietude”, que foi composta já nesta coisa fechada em casa, na pandemia, a olhar para a janela a ver o vazio, mas que foi… mas que me apaziguou, assim… foi uma daquelas músicas que me… está tudo certo! Vai dar tudo certo! As coisas vão passar, vão transformar: o “Quietude” acho que é uma música…

Francesco: é um retrato um pouco deste…

João Pires: é um retrato um pouco de…

Francesco: vais lançar de aqui a… em breve?

João Pires: Vou lançar em breve, eu estou a querer lançar em breve!

Francesco: Que maravilha! Que boas notícias… então logo quando sairá esta entrevista, a música já estará aqui entre nós!

João Pires: Já! Se Deus quiser!

Francesco: Poderemos juntar esta música aqui, à nossa entrevista! Muito obrigado João!

João Pires: Obrigado tu!

Francesco: Foi um imenso prazer, obrigado pelo contributo! Um abraço…

João Pires: À nossa Lisboa!

Francesco: À nossa Lisboa!

Projeto Ágora: Entrevista com Tiago Santos (08/03/2021)

Tiago Santos é guitarrista, compositor, letrista e fundador de bandas seminais da cena nacional como Cool Hipnoise ou Spaceboys, mas também Cais do Sodré Funk Connection, Rita E O Revólver, Los Malditos e, mais recentemente, Hill’s Union e Suzie & the Boys. Fã assumido da dita “Música Negra”, é também DJ e radialista na Rádio Oxigénio, assinando vários programas de autor, como Planeta Jazz, Hora do Sol, Heróis no Ar e Exótica.

Em resposta à situação de atual emergência devida à pandemia do COVID-19 e à necessidade de promover iniciativas que possam avaliar e atenuar o impacto no âmbito das artes performativas, investigar os efeitos da crise, com enfoque no sector da música, documentar as estratégias aplicadas pelos artistas nas suas atividades criativas e de performance, o Projeto Ágora convida Tiago Santos, para compreender os efeitos provocados pela crise sanitária, quer no nível individual que no âmbito do sector cultural em Portugal.

Francesco: Olá Tiago Santos!

Tiago Santos: Olá Francesco!

Francesco: Tudo bem?

Tiago Santos: Tudo ótimo!

Francesco: Então, muito obrigado por aceitar este encontro, para uma conversa que contigo será super interessante, portanto se te puderes apresentar em quatro frases…

Tiago Santos: …então, eu sou Tiago Santos, sou músico, trabalho também na rádio e acho que é isso! É o que eu faço!

Francesco: Perfeito! Então, és perfeito para esta conversa, visto que já quero entender como os músicos viveram este período desde o princípio da pandemia e ainda estamos dentro desta… aliás vamos completar agora um ano quase, desde o princípio das restrições… eu gostava de saber: de que maneira a pandemia afetou a tua situação financeira, desde o início das restrições até hoje?

Tiago Santos: Sim! Pronto, como eu já disse eu sou músico e continuei a trabalhar na verdade durante todo este tempo em teletrabalho e mantive este trabalho e este rendimento que também já vinha de trás e manteve-se. Em termos financeiros, tive sempre esta base que tem sido também parte do meu trabalho. É claro que há outra parte do trabalho de músico que me ajuda a ter uma vida mais um pouco mais tranquila e… pronto! Tem a ver com a remuneração do trabalho que eu gosto de fazer e que eu quero fazer, e essa esteve cortada agora durante este período, mas pronto! Não… financeiramente… na verdade consegui manter esse rendimento de base que vem do meu trabalho da rádio, que também pronto, é um trabalho que eu faço com gosto!

Francesco: E em relação à tua parte, digamos de músico profissional e músico que toca em várias bandas, recebeste algum apoio, ou assistência financeira do governo? Recebeste? Conseguiste?

Tiago Santos: Epá não! Eu na verdade não me candidatei porque lá está, consegui manter este rendimento e neste aspecto não houve. Sei que, por exemplo, o meu patrão manteve o vencimento da rádio dos seus funcionários através do layoff e através de apoios que houve, portanto também parte do meu ordenado vem desse dinheiro da Segurança Social que é do layoff, mas não recorri a nenhum porque tenho mantido o ordenado.

Francesco: Então, vamos concentrar-nos na parte musical e da tua vida como artista e como músico. Em termos de trabalho criativo como é que a pandemia, ou o princípio do lockdown, o confinamento, como queremos assim chamá-lo… poderá ter afetado digamos… a tua vida normal criativa?

Tiago Santos: É claro que todas as pessoas são afetadas pelo seu meio, não é?  Isto é uma lição que já aprendemos da história e todos os músicos também são… todo o seu meio à volta, todas as suas experiências afetam as suas vidas. É óbvio que esta situação transformou a vida de toda a gente e isto mudou muitos dos nossos, como tu disseste há bocado, estamos agora a completar um ano em que estivemos… em que estamos neste período de confinamento e isto criou naturalmente mudanças muito radicais na nossa vida, na nossa forma de trabalhar. Uma coisa essencial e o primeiro efeito, eu diria, que é a falta que faz a possibilidade dos músicos, sobretudo naquilo que é o meu trabalho, que é trabalhar em grupo, trabalhar em bandas, trabalhar nesta ideia de haver uma banda que tem uma determinada linguagem, uma determinada mensagem, uma determinada ideia para passar, mas… para já, a dificuldade de ter este contacto com as bandas para conseguires trabalhar e isso prejudica o teu trabalho, afeta-te, isola-te e altera a coisa. Depois também a falta de contacto com o público, daquilo que é razão de ser do nosso trabalho de subir ao palco e aquela interação que existe dos espetáculos, não é? Pronto! Essas foram à partida as grandes alterações, a primeira grande alteração. Depois houve várias fases, que por acaso no início, no primeiro confinamento… nós todos, epá! Não sei… nós todos, mas pronto! Eu estou a dizer, eu e acho que deve ter passado pela cabeça de muita gente, que é aquela ideia: bem! Eu, finalmente vou poder ter tempo para me dedicar a coisas, a ideias e tal… que eu poderia e gostava de desenvolver e houve um bocadinho esse frenesim de me obrigar quase a ocupar o tempo que tinha, um tempo fechado e confinado em casa: bem! Vou aproveitar este tempo para trabalhar! E eu… epá! Eu comecei inicialmente, até porque eu comecei com o teletrabalho…

Francesco: …foi logo em Março?

Tiago Santos: Sim! Aliás eu até comecei com o teletrabalho da rádio antes de vir o… uma semana ou duas semanas antes de vir o confinamento para toda a gente! Mas… portanto, eu comecei a fazer o teletrabalho e a fazer uma coisa que também, pronto aquela coisa de estar em casa a editar, fazer coisas para o computador, pronto, como sempre… ligadas especificamente ao trabalho da rádio. Mas então, eu estava a dizer que a determinada altura, nesta primeira fase eu como estava a mexer no editor, para me obrigar um bocado a compreender em mexer mais naquilo, comecei a fazer umas experiências musicais de volta daquilo! Como o meu sistema é muito rudimental, estava com um editor… epá! Pronto andei a fazer uns re-edits e assim umas coisas musicais, fiz uma coisa que até resultou bem, coisas que já te mostro a seguir… por acaso até acho que resultou bem que é assim uma brincadeira de tipo de coisas para dj’s, tipo fiz um mash-up! Pronto! Aquelas coisas que estava a fazer em casa, ouvir música e tal… mas isto para dizer o que? Que a determinada altura, eu senti e neste primeiro confinamento, eu senti esta coisa de… passei ali horas seguidas e dias seguidos à volta do trabalho com a música, ocupava o meu trabalho com… já trabalho na rádio com música, já trabalho como músico e no tempo livre estava a tentar fazer músicas para me distrair e houve um ponto em que acho que aquela coisa explodiu, saturou um bocado, houve ali um momento…

Francesco: …de stop!

Tiago Santos: Houve um momento de stop! Assim, uma espécie de rotura, epá! De repente já era música sempre, ia para a cama a pensar em música, acordava… epá! E tive que parar, então veio assim uma espécie de uma ressaca de tudo isso, em que fiquei tipo assim quase… em que não conseguia pegar no instrumento para trabalhar, não conseguia… epá! Olhava para o instrumento… e pronto! Eram muitas horas tipo… e às tantas, parece que fiquei assim numa espécie de… como uma intoxicação!

Francesco: Olha aconteceu-me a mim a mesma coisa, várias vezes durante esses…

Tiago Santos: …sim! Pois! E fiquei um pouco com esta reação, que é um bocado estranho que é terrível, porque tu és músico e tens quase uma reação em relação ao teu instrumento, que também é a tua vida e se relaciona com a tua vida e com o que tu és, com o teu trabalho e às tantas ficas com um sentimento de culpa, mas eu… isto é o meu trabalho! Não posso ter este tipo de… percebes? Foi uma coisa muito complexa, muito agressiva, foi assim uma coisa tipo: de repente, quase um choque com aquilo… com a tua vida, com a música… e a música… entrei assim , numa espécie de um conflito!

Francesco: Poderia ter sido uma perda de motivação… claro! O que senti foi isso!

Tiago Santos: Sim! Isto sem dúvida! Porque lá está: a mim o que me motiva e que me puxa um pouco é um bocado esta coisa da construção em coletivo, das bandas e não sei que… de tocar… para tocar ao vivo, que acima de tudo é isto que a gente faz! A gente toca em bandas para tocar ao vivo e subir para o palco e realmente, neste aspecto foi um bocado esta clara falta de motivação para isso, não é? E agora se calhar também respondendo a outras perguntas que se calhar vais fazer mais à frente, mas é… eu nunca tive predisposto, nunca foi a ideia para mim, uma ideia par mim, nunca existiu a coisa de poder fazer concertos online! De ir para… substituir… ah! Vamos criar aqui uma alternativa! Isto para mim nunca foi uma alternativa, quer dizer nunca pode existir! Pode funcionar como arma de marketing, para continuares a aparecer, para as pessoas conhecerem a tua música e o teu trabalho, o teu nome, para não se esquecerem de ti, pronto! Nesta perspetiva de marketing, talvez! Mas numa perspetiva daquilo que é o nosso trabalho de subir a um palco, daquela realidade que é a interação com o público à noite, que altera sempre a música que está a acontecer no palco, não é? E isto nunca substituiu… por isso é que me recusei um pouco a essas soluções alternativas!

Francesco: Mas, por exemplo, em perspetiva futura poderá haver este novo tipo de performance, ou de formato de performance, porque ouve-se falar em festivais que vão ser feitos em live streaming… poderá tornar-se um paradigma? Em relação a isso….

Tiago Santos: …não, epá! Eu creio que nunca poderá substituir, nunca irá substituir, porque sabes que as pessoas procuram é exatamente a comunhão, pronto! A comunhão à distância também existe, não é? As novas tecnologias permitem isso, mas todos nós sabemos que não é a mesma coisa, não é? Tipo… nós estarmos aqui a conversar ou estarmos à distância a trocar mensagens ou a falar por whatsup ou por teleconferência é diferente… e ainda para mais na música, no espetáculo, no trabalho de palco!

Francesco: De performance…

Tiago Santos: …sim! Nas artes do espetáculo que tem a ver com esta coisa de realizar ao vivo, mas realizar ao vivo num determinado ambiente específico, numa sala com público, pode não ser a sala convencional, não é? Não precisa de ser uma sala de 4 paredes, mas o conceito de espetáculo não é substituível porque as pessoas precisam é exatamente dessa relação e é a relação essencial que… não é eu ir tocar para cima de um palco que me satisfaz, não é a relação com o público, o intercâmbio com os outros músicos, com o público, com esse ambiente e essas energias que se criam… e agora perdi-me um bocadinho na conversa…

Francesco: …não! Portanto, estavas a dizer que o live streaming não poderá…

Tiago Santos: …pois! Eu penso que nunca substituirá, acho que pode haver alguma… epá! Como hoje em dia, quer dizer: hoje em dia as telecomunicações e as ferramentas tecnológicas que existem devem ser usadas e estão aí ao dispor para serem usadas, nada em contra! Tudo bem! O que eu acho é que nunca substitui isto… e até acho que pode ser errado! Depois é uma questão, lá está: outra vez em termos de estratégia e de marketing para… mesmo em termos artísticos, porque tu… é a minha opinião mas pronto! Há falta de melhor! Acho que pode ser errado nós passarmos a disponibilizar, começarmos a achar que disponibilizar-mos o nosso trabalho na internet, que substitui o nosso trabalho e que pode de alguma forma alimentar aquilo que é o nosso trabalho. Eu acho que há um efeito aqui muito…

Francesco: …contra produtivo?

Tiago Santos: Sim, exato! Pernicioso ou contra produtivo, um efeito contrário que é: na verdade, quando a gente está a disponibilizar as coisas na internet, elas ficam na internet, portanto eu quando me apetecer ouvir, epá! Eu gosto muito da música daquele grupo do Francesco, dos Tora Tora, epá! Adoro os Anonima Nuvolari, olha: vou aqui, tens aí… liga ai o bluetooth que eu vou ligar a application… e substitui agora aqui os Anonima Nuvolari por… ou seja, esta disponibilidade que os artistas começaram a dar do seu trabalho e da sua criatividade, pode ser contraproducente no sentido em que num ponto de viragem, as pessoas.. ah! Eu para ouvir o Tiago ou para ouvir o Francesco, ah sim! Eu tenho aqui, ah tá aqui! Queres ouvir os Space Boys, queres a ouvir Suzie & the Boys, está aqui! Eu saco e olha: puseram… por acaso nós sabemos, agora fazendo um outro aparte: um gajo pode gravar um disco e no dia seguinte o disco está na internet sacado, não é? Sem ninguém receber direitos, mas pronto! Eu acho um bocadinho contraproducente! Eu na verdade, muitas vezes eu brinco a dizer que sou um bocadinho… sou um gajo analógico num mundo digital! Mas eu prefiro muito mais esta coisa da malta…

Francesco: …viver?

Tiago Santos: Sim! Tocar ao vivo, vivenciar, experimentar, esta coisa… de tocar em bandas, tocar em palco, muito mais do que a coisa da distância e da internet!

Francesco: E agora aproveito mesmo… para fazer uma pergunta bastante interessante, ou seja: me interessa saber se tocaste ao longo de 2020 em concertos em que havia restrições… as pessoas, por exemplo, máscara, uso de máscara, impossibilidade de dançar, de estar em pé e como viveste este tipo de performance e de concerto? Ou seja, como estes elementos extra musicais podem afetar a tua performance e o que é que o próprio público pode sentir a estar num contexto do tipo…

Tiago Santos: …epá! Eu estava aqui a tentar lembrar, eu penso que eu não… concerto…?

Francesco: Te vi tocar uma vez na Praça da Alegria!

Tiago Santos: Ah é verdade! Sim exatamente, agora estava a me falhar a memória…

Francesco: …e tiveste outros?

Tiago Santos: No final de Setembro, epá! Em termos de concertos tivemos esse, não me lembro se tive mais! Concertos propriamente ditos eu acho que não tive mais, mas eu estive na Festa do Avante, onde aconteceu… pronto! Concertos e teatro e cinema ao ar livre e uma série de atividades culturais.

Francesco: Com as pessoas sentadas?

Tiago Santos: Com as pessoas sentadas e pronto! Com máscaras e a desinfetar as mãos e aquela coisa, e tive a oportunidade de assistir a vários concertos e aquilo que eu pensava que, eu não sei… pronto! A questão da Praça da Alegria, já lá voltamos e já falamos sobre isso, mas pronto! Eu não tenho a perspetiva dos músicos que estiveram nesse evento um bocado maior, mas estive no público e epá! Ao contrário de aquilo que eu imaginava que… quando isto estoirou… epá! Mas um gajo não vai tocar com as pessoas de máscara e sem se puderem abraçar? Isto não faz sentido! Como músico? Pronto, eu mentalmente a criar uma ideia… e a verdade é que eu como público, estava sentado a ver o Scúru Fitchádu que é um poder do caraça! Aquilo é muito bom, nunca tinha visto, tinha ouvido umas músicas assim na rádio, bem! Isto é power, mas na verdade, ok! Isto é power… mas não me bateu assim tanto, na verdade o áudio… bem! O concerto, a primeira vez, com máscara, com isolamento… bem! Foi de uma força, até pelas próprias circunstâncias em que aconteceu e a necessidade e a força que houve para realizar aquele concerto e os músicos também, a própria mensagem deles a dizer: pronto! Naquela mensagem antirracista e antifascista na Festa do Avante, aquilo fez-se um cenário tão completo, ou seja isto é para dizer que… ao contrário daquilo que eu imaginava teve uma intensidade e teve uma força, mais do que aquela coisa de superar as dificuldades e apesar disso a música permanecer, a comunicação, as pessoas… ao vivo, permanecer com a vida, contra a ameaça de morte, isto acho que foi… é uma força também… que é intrínseca a cada ser humano, mas que é forte por mais… quase tanto ou mais do que uma expressão artística individual, ou seja, ela também… é aquela coisa comum, não é? Da gente… nós quase é que fazemos parte de… eu acho que o público ali sentia que também fazia parte daquele espetáculo tipo… e isto, eu acho que apesar de tudo é um bocado essa… que esta crise nós pode, epá! Nós deve ensinar, que é: a gente ter sempre… e o ser humano sempre tem isso e isso é história do ser humano e da natureza… ter sempre a capacidade de resistir, de vencer, de se levantar e de continuar com a vida, epá! Mesmo com as regras, em contraponto do que for… de tudo o que for… que possa limitar a nossa liberdade, a nossa criatividade, a nossa arte, a nossa vida, lá está à nossa vida, como estavas a dizer à bocado…

Francesco: …fantástico sentir como o público… esta participação no concerto de uma forma intensa…

Tiago Santos: …exatamente! Eu acho que toda a gente, mais do que num outro concerto normal, às vezes em que está com muita mais gente, com toda a gente aos pulos, parece que as pessoas sentem… epá! Estamos aqui como… quase um ato de resistência contra o medo e contra a doença e contra o perigo, não é? Tipo… um gajo proteger-se, protegendo os outros, mantendo as regras e tal, mas continuar a vida que… assistir a um concerto dos Mão Morta, epá! Foi brutal, não tive a oportunidade de ver o Mário Laginha e o Camané… também foi muito bom, mas vi os Dead Combo por exemplo, que fizeram um concerto brutal também e pronto! Lá está! Dead Combo às vezes tem aquelas músicas agitada e dá vontade de dançar e é um bocado esta coisa… a gente…

Francesco: …e como músico? Igual?

Tiago Santos: Sim, como músico sim! Há bocado estavas a falar desse concerto do Suzie & the Boys na Praça e foi… e lembro-me, foi na Praça da Alegria e lembro-me da alegria com que a gente recebeu a notícia que íamos ter um concerto, não é? Já tínhamos estado em confinamento e aquele concerto tinha sido adiado, não sabíamos quando é que poderia acontecer e depois veio a acontecer, ouve ali aquela abertura do verão… epá! E a alegria com que nós todos partilhamos aquela coisa de ensaiar, estivemos a ensaiar com máscaras e tal, mas depois poder tocar ao vivo e isso, pronto! Acho que para nós, foi assim… uma espécie de uma botija de gás, como é que se chamam aquelas maquinas de oxigénio, foi a nossa maquina de oxigénio da crise da pandemia! Mas é um bocado esta coisa, que eu acho que é de… nós temos e é o ser humano e a natureza e a vida, sempre tem que… sempre encontra! E nós temos de saber encontrar esta coisa de continuar com a vida, continuar com a cultura, continuar com a arte, perante de todas as adversidades. Houve gajos que vieram e queimavam livros e proibiam a gente pensar e queriam proibir a gente pensar e também resistimos e vencemos, veio o vírus, também resistimos e vencemos, agora isto há de ser difícil, mas epá! A gente não pode é ficar fechado sem trabalho… sem… quer dizer, cumprir as regras, fazer toda a segurança, mas continuar a viver…

Francesco: …e para terminar, acho que é uma pergunta que poderás responder de maneira…

Tiago Santos: …simples, sim ou não?

Francesco: O que é que esperas da política ou dos políticos? Digo isso, na perspetiva de um melhoramento dos músicos e do sector das artes e da cultura…

Tiago Santos: …essa não é bem simples, não é? Mas o… não! Eu acho que acima de tudo o que nós devemos esperar e que já esperávamos antes de tudo isto acontecer e que continuamos a esperar é que os governos, quem manda no país, os responsáveis cumpram a Constituição: cumprir a Constituição! E a constituição diz que todos, todo o povo, todos os portugueses têm direito ao acesso à cultura, à criação e à fruição da cultura: isto está na Constituição! É um direito fundamental de todos os portugueses, o acesso… o livre acesso à criação e à fruição… e nessa perspetiva até à fruição, pronto! A gente assistir a espetáculos, à arte até é quase um auxiliar para a criação, porque o que interessa é ver mais gente a criar e quanto mais gente a criar e cada vez melhor, cada vez com um sentido mais aperfeiçoado da sua arte e das suas ideias… isso é melhor para todos, não é? Portanto, aquilo que se espera… a primeira coisa que se deve esperar é que cumpram a Constituição e isso, não foi a pandemia que veio… já não o faziam antes! Portanto, o que a gente precisa é que os governos olhem para o país, olhem para o seu povo, para a sua população e para a cultura do país como um bem, como a palavra diz… é um bem, é uma coisa boa… epá! Que é essencial e que é um direito fundamental de toda a gente! Portanto, tem que haver meios para que os trabalhadores da cultura possam trabalhar, possam trabalhar com direitos, tem que haver meios para que as pessoas e a população em geral, possa aceder à cultura sem haver elitização da cultura, mas que também possa acima de tudo fundamentalmente estar em contacto permanente com a cultura e que a cultura seja uma linguagem do dia a dia, ou seja,

faça parte da vida das pessoas e isto é tudo o que falta, tudo isto faltava antes! Quando vem esta crise, veio demostrar acima de tudo o que? Mais do que isto que todos nós já sabíamos que ninguém cumpre, é que a maior parte das pessoas que trabalham na cultura e sobretudo na nossa área das artes do espetáculo, mas… e sobretudo os músicos independentes, das artes do espetáculo… como nós, não é? Tipo músicos que não estão ligados a estruturas, orquestras, companhias e não sei o que… o que nós sabemos é que… ou técnicos e não sei o que… é que vivemos todos na maior das precariedades, na maior das incertezas, na maior da fragilidade da… que de um momento para outro, as nossas vidas podem descambar, não é? De… e se acontece um abalo? E isto foi um grande abalo ainda por cima! E acontece um abalo: há sempre companhias e pequenos grupos a fechar, bandas a desaparecer, músicos ou outros artistas a abandonar e tal, não é? E isto, pronto! Isto revela que o que é que falta na verdade? Falta uma política de cultura a sério, digna desse nome e digna da obrigação fundamental que o Estado tem de garantir a cultura, a fruição e a criação culturais a toda a população… falta tudo!

Francesco: Exato! Em relação aos movimentos reivindicativos que surgiram neste período, participaste em algum? Tens algo a acrescentar, por exemplo, a União Audiovisual e outros grupos?

Tiago Santos: Não! Tenho seguido o surgimento de vários grupos, portanto… já havia e que continua a haver uma estrutura que é o sindicato CENA-STE, uma estrutura Central dos Trabalhadores, epá! O sindicato dos músicos que já existe há muitos anos, o CENA e o STE também já desde os anos ’40 do século passado, portanto existe esta estrutura e surgiram muitos movimentos sociais e associativos… epá! Eu acho bem, eu acho… é um bocado o que eu estava a dizer, em relação às dificuldades, eu disse de uma forma geral há um bocado que são problemas que atravessam todas as áreas, não é? O que eu às vezes… pode-me preocupar um bocadinho, é que haja… quando surgem estes movimentos e começa a haver muita polarização na… há muita fragmentação, aumenta o divisionismo e acaba por não contribuir para aquilo que é fundamental, que é para já, quer dizer, para além da solução dos problemas concretos de cada profissão, mas a solução é procurar aproximarmo-nos da solução daquilo que são os problemas gerais de toda a área dos trabalhadores da cultura… e pronto! Este é um dos meus receios, que estes movimentos… agora: por outro lado acho que é positivo, que revela que… pronto! Que há pessoas que se levantam da sua condição habitual de espectador da realidade e da vida e começam a agir, a fazer coisas e a participar, eu acho que sim! Agora o que eu acho muito importante é preservar esta ideia de que… da unidade e de que os trabalhadores da cultura, são trabalhadores, não é? Nós não vivemos num mundo à parte, isolado do resto da sociedade e as nossas necessidades ficarão satisfeitas quando também o resto da sociedade e o resto dos trabalhadores também verem as suas necessidades resolvidas, quando tiver mais gente com mais acesso à cultura, para ir a espetáculos, para alimentar e procurar espetáculos mais desenvolvidos em que a gente possa ser mais livre de criar e não termos, ou não estarmos obrigados a… nós hoje em dia vivemos escravizados, nós como músicos por exemplo, vives escravizado… vives se a tua música tiver sucesso comercial, se for vendável!

Francesco: Isto é incrível, é verdade!

Tiago Santos: A arte e a cultura está… sempre esteve ligada também ao show business, a… pronto! A uma área de comércio de uma certa indústria ligada a isso! Mas na verdade hoje em dia, o que está a acontecer é que nós se não vendermos, se nós não conseguirmos atrair público para vender, não existimos! Portanto… pronto! A maior parte dos trabalhadores das artes e do espetáculo, estão numa área comercial e não devia ser! Têm que estar numa área que é cultural: a cultura é livre, a cultura não pode ser uma coisa que é vendável, que é…

Francesco: …comercializada!

Tiago Santos: Pois! A cultura não tem um valor que seja numerável, tem um valor tão grande que não pode ser mensurável e este é que é o erro de toda… em que nós estamos apoiados, o sistema em que nós estamos apoiados!

Francesco: Perfeito! Muito obrigado Tiago! Pelo contributo valioso!

Tiago Santos: Obrigado Cesco!

Francesco: Tenho só uma pergunta estatística, que faço a todos, tu se te lembrares, em 2019 no ano antes da pandemia, tiveste mais ou menos quantos concertos? À volta dos…?

Tiago Santos: Epá! Eu, por acaso na verdade, na minha vida já tinha tido algumas mudanças, mas… quantos concertos é que eu tive?

Francesco: Quantos é que tinhas em média em 2018 e 2019?

Tiago Santos: Epá, não sei! Eu nunca consegui dizer… não sei, tipo uns… é porque eu na verdade, reduzi um bocado a minha atividade, fiquei só com Suzie & the Boys, que também é uma banda emergente e os Hill’s Union que também é uma outra banda também um bocado emergente. Abandonei um bocado outros trabalhos que tinha que trabalhavam mais, mas não sei… à volta de que… tipo 10 por ano… em 2019…

Francesco: …em 2020?

Tiago Santos: Em 2020? Quanto é que tive? Acho que tive 2! Tive um 14 de Fevereiro com Hill’s Union, não! Então tive 3… em Março com Suzie & the Boys, depois com Suzie & the Boys também em Setembro, em Fevereiro tinha feito um com os Hill’s Union e acho que foi isto!

Francesco: Ou seja uma atividade musical muito reduzida…

Tiago Santos: …exatamente!

Francesco: Para acabar, deduzo que não fizeste nenhum live streaming durante este período, com outros músicos…

Tiago Santos: …deduzes bem! Elementar, meu caro Cesco!

Francesco: Não! Mas queria saber se tens alguma, por exemplo, neste caso… nestes dias fizeste uma residência artística, ou seja pode ser incluída como uma atividade artística, em pleno confinamento e se tens alguma música que aqui produziram com Suzie & the Boys que querem aconselhar para ser ouvida, assim… destas músicas que fizeram nestes dias?

Tiago Santos: Opá! Isto, eu devo dizer que estes dias, aconteceu uma coisa extraordinária em termos humanos e em termos como músico, que é esta coisa da gente poder estar numa residência durante vários dias, a banda preocupada com o seu trabalho e a viver a sua vida também e a ter bons momentos e tal! Mas a ocupar o seu tempo a trabalhar, concentrada neste trabalho e isto foi uma coisa extraordinária e… epá! Eu acho que acabou por ser altamente produtivo, acho que… nós somos um grupo de… somos 8, mas houve um que faltou e somos 7! Acho que a maior parte das pessoas, estavam um bocadinho cépticas, estavam com receio do que é que ia a acontecer… eu desconfiava, que pronto! Eu tinha uma certa ideia que a gente ia conseguir levantar pelo menos dois temas, pronto! E isso, já não seria mal, dois temas originais completamente novos de raiz no espaço de uma semana com uma banda toda a tocar, isto já era muito bom, mas pronto! A gente conseguiu levantar mais, levantamos 5 temas e acho que foi uma experiência extraordinária e acho que foi um grande contraponto para aquilo que tem sido as nossas vidas habitualmente até aqui, não é? A gente, de viver confinados, separados, fechados em casa a praticar sozinhos na guitarra, tristemente “desinspirado”! E chegarmos aqui e todos sentirmos esta alegria de estarmos juntos, alegria de trabalharmos juntos, a alegria de estarmos a construir coisas em conjunto, sabes que é insubstituível e é… acho que é para mim, é o lado do trabalho que é mais interessante do nosso trabalho. Acho que já era o mais difícil de realizar em qualquer circunstância, acho que foi a primeira vez que eu consegui fazer uma coisa deste género, que eu acho que é muito importante e devia ser uma coisa acessível, lá está é o tal acesso à criação, isto devia ser uma coisa acessível a toda a gente e eu cheguei agora e fiz a minha primeira residência artística com um grupo de extraordinários músicos e seres humanos, que é um grupo fantástico onde a malta tem possibilidade de: vamos ver o que acontece e sai quase com meio disco feito… é bom! Foi um bom tempo!

Francesco: E uma destas músicas que queiras…?

Tiago Santos: Que eu recomendo? Não sei, epá, olha nós levantamos uma música completa… levantamos várias músicas completamente de raiz, é um bocado difícil, mas acho que aquela música, aquela balada que a Suzie escreveu a letra “You are my Crown” e construímos aqui, eu acho que… ninguém diria que aquilo resulta de um trabalho tão árduo! É que aquela acaba de… quem ouvir a música parece que ela… que é uma canção tipo simples e feita assim, uma construção simples e uma melodia e tal e não sei o que! E resulta de um trabalho coletivo que é extraordinário e acho que tem essa simplicidade, tem a beleza das coisas simples! É um bocado isso que eu queria dizer!

Francesco: Perfeito! Muito obrigado Tiago!

Tiago Santos: Muito obrigado Francesco! Foi um prazer!

Francesco: Obrigadíssimo!

Projeto Ágora: Entrevista com Nilson Muniz (30/04/2021)

Nilson Muniz é um ator e cantautor brasileiro, que transita entre a música, o teatro, a poesia e a performance. Formou-se em Pesquisa Teatral em São Paulo (Brasil) e através de intercâmbios em Israel. Colaborou com o CEM, cantando músicas de Luiz Tatit, André Ambujamra e Pepeu Gomes. Desde 2003 se dedica a performances com canções de sua autoria, apresentando-se em vários países, entre os quais Brasil, Alemanha, Israel, Bulgária, Portugal e Espanha. Atualmente reside em Lisboa.

Em resposta à situação de atual emergência devida à pandemia do COVID-19 e à necessidade de promover iniciativas que possam avaliar e atenuar o impacto no âmbito das artes performativas, investigar os efeitos da crise, com enfoque no sector da música, documentar as estratégias aplicadas pelos artistas nas suas atividades criativas e de performance, o Projeto Ágora convida Nilson Muniz, para compreender os efeitos provocados pela crise sanitária, quer no nível individual, quer no âmbito do sector cultural em Portugal.

Nilson Muniz: Olá eu sou Nilson Muniz, sou um performer da palavra, corpo e som, passei pelo teatro, pela dança, pela música e pela poesia: esta é a minha parada, a minha movimentada!

Francesco: Muito bem vindo Nilson, obrigado por aceitares este… com esta disponibilidade a esta conversa do Projeto Ágora! Há poucos dias estivemos juntos a tocar, foi o primeiro concerto depois do desconfinamento, foi fantástico!

Uma belíssima experiência e depois te pedi exatamente de conversar comigo sobre algumas questões relativas ao nosso trabalho, à nossa profissão, à música e aos últimos acontecimentos e normalmente começo por perguntar, já que se passou mais de um ano do princípio da pandemia, quais foram os impactos, qual foi o impacto a nível financeiro sobre a tua profissão de performer?

Nilson Muniz: É! Foi um susto! Na realidade ainda é, porque ainda não é possível prever como serão os próximos tempos assim… de uma certa forma, me sinto positivo porque também observo um pouco Portugal, curiosamente um pouco melhor dos outros países, neste aspecto. Então acho que pode ser que por aqui as coisas voltem ao normal um pouco mais rápido, assim espero… pelo menos que se mostre um pouco assim também, mas quando ocorreu foi um susto mesmo! Eu estava com projetos em andamento, no período… no exato momento em que aconteceu a pandemia, em Março do ano passado [2020] eu estava a começar os ensaios de um espetáculo… de teatro e ia começar uma residência também com uma performance minha, num projeto meu no Braço de Prata, que é uma casa aqui! Então, eram dois projetos que estavam ali para acontecer, que eu estava muito animado por aquilo e de repente, foi tudo meio que cortado! A performance parou! Nós só fizemos uma semana e na semana seguinte, exatamente no dia em que eu faria a casa encerrou, naquela tarde… através de uma mensagem! Eu estava saindo de um ensaio para ir para lá e recebi a mensagem, fiquei um pouco com as pernas assim… e o espetáculo continuou, o início foi interessante, foi uma sorte, ou enfim… a Companhia João Garcia Miguel, que é uma companhia subsidiada pelo governo, então eles tinham ali que preencher aquele calendário de alguma forma e nós então tentamos ver como poderia ser este trabalho naquela circunstância. Então a gente continuou ainda ensaiando por uns dois meses mais ou menos, via online, sem saber se voltaríamos ou não ou como voltaríamos, então pensamos: vamos fazer então rádio teatro, pensando as linguagens que nós faríamos para preencher aquele projeto, aquele calendário deles, não é? E por sorte ou… enfim, nós acabamos voltando em Maio, quando se encerrou o estado de emergência, o diretor queria muito… nós poderíamos ainda estrear em Setembro, parar os ensaios e os ensaios voltar só em Setembro! Mas o diretor queria muito… acho que ele tinha outros projetos neste mesmo período, então ele queria mesmo cumprir

aquele calendário e nós voltamos… retornamos em Maio a ensaiar presencialmente, então foi também um pouco… foi para mim, da forma como eu… foi por lealdade ao projeto mesmo, ao diretor, porque era um risco! Nós estávamos correndo um risco, éramos em 7 integrantes e todos aceitamos correr o risco, porque se um de nós… estivéssemos, fossemos contaminados os espetáculos… tinham que parar o projeto, tinha que parar! E por ser um espetáculo de teatro e um trabalho muito físico que exige contacto, então se um de nós fosse contaminado o projeto pararia e se um de nos morresse, mas enfim… enfim, então […] então nós ensaiamos ainda, nós ensaiamos mais um mês e estreamos no final de Junho, ficamos oito dias direto em cartaz e então, dentro deste período eu tive este trabalho de uma certa forma que me salvou, não é? Consegui ali me programar para os meses seguintes, assim… não é? E dentro deste período também peguei um apoio da Gulbenkian, então isso para mim também foi…

Francesco: …te ajudou a…

Nilson Muniz: …me ajudou a ficar mais tranquilo, dentro desse primeiro período. Mas depois é lógico, não é? A vida corre e as coisas, as contas veem e não param… tudo para, menos as contas!

Francesco: Incrivelmente verdade… verdadeiro!

Nilson Muniz: Foi um período e está sendo ainda de uma certa forma, um período escasso, não é? De apresentações assim de… performance e também não me sinto tão animado a me apresentar para… só para dizer eu estou me apresentando, não! Quero me apresentar para pessoas, eu quero ver pessoas… para mim esta é a questão, mesmo assim… o meu trabalho é assim, então…

eu estou paciente, como este período pede! Vejo um pouco assim… não é fácil, é um exercício constante dia a dia, vivendo um dia após o outro, com paciência e com confiança de que as coisas melhorem e então é assim que eu me sinto neste momento, já que nada parou, as coisas estão a melhorar mas… tudo continua como há um ano atrás basicamente, assim!

Francesco: Ótimo! E em termos de trabalho criativo durante os confinamentos, quando ficaste completamente parado a nível de apresentações, este confinamento, a pandemia… impactou de alguma forma? Conseguiste criar, escrever, fazer… ter ideias… ou de qualquer forma houve um bloco?

Nilson Muniz: Eu sinto que é um bloqueio, sinto que há um bloqueio por conta desta pressão de você… você não está tranquilo, totalmente tranquilo… para aquilo que eu faço, de uma certa forma eu preciso me sentir tranquilo para me concentrar, assim… para escrever por exemplo ou para pensar num projeto… não é? Não consigo assim pensar num projeto sem ver quando eu vou fazer isto, para quem eu vou fazer isto, aonde eu vou fazer isto! Então os lugares, a maioria dos espaços encerraram, fecharam as portas, alguns voltando aqui e ali em condições um tanto estranhas, não diria estranhas mas…

Francesco: …mas isto quando em Setembro/Outubro… quando? Depois do primeiro confinamento?

Nilson Muniz: Depois do primeiro confinamento até agora! Não é? É um pouco assim… são pouquíssimas as casas que retornam… depois não se sabe exatamente como é que é o pagamento destes trabalhos, já que o público está com receio de sair de casa, então você vai fazer… vai produzir algo para não ganhar nada? Não é? Tipo isto não é algo o que te estimule, então teoricamente até seria um momento assim, então vou produzir para quando isso melhorar… só que esse quando isso melhorar, por enquanto não existe, não é? Então há um bloqueio neste sentido… é lógico, eu vou preenchendo esse ócio com outras… colocando a minha criatividade em outros sectores, assim que me é possível, surgiu a oportunidade de criar sites de uma forma artística, então eu ali posso de uma certa forma aplicar um trabalho que eu gosto, assim de lidar com imagem que também é poesia de uma certa forma, de uma forma de ver… então acabaram que surgiram outros trabalhos, ou mesmo trabalhos também com… de dobragem que também num segundo momento, depois desse primeiro período também me ajudou ali… e é isso, um dia após o outro, vendo o que é que surge e aberto para o novo e para o que pode aparecer, assim… é isso!

Francesco: E em termos do novo e do que pode aparecer, quais tipos de estratégias podemos aplicar para o nosso trabalho, tendo em conta que isso pode eventualmente ainda durar algum tempo, alguns meses, quem sabe? Não sabemos! Mas como performers, músicos, no teu caso também ator, escritor, poeta…

Nilson Muniz: …eu vejo que… tem esta questão do streaming, eu ainda me sinto um pouco temeroso de ir para este espaço, não sei ainda… tendo por base a mim próprio… assim porque para mim, eu não tenho tanto interesse de pagar para ver um streaming, por exemplo, a menos que seja um espetáculo que eu sei que é de um diretor fantástico, sabes? De assim que você sabe que você só tem aquela oportunidade para ver e se você não ver, você vai comer bola… que não vai ter em outro momento… se é algo assim acontece, acho que sim… eu pagaria, não é? Mas as pessoas que estão neste momento, creio eu, pagando para assistir a espetáculos em streaming, elas estão pagando… é um pensamento meu! Eu posso estar completamente errado, mas eu acho que elas fazem isto muito mais por um sentimento fraterno de ajudar aqueles artistas, do que realmente de querer ver aquele produto artístico, porque não é a mesma coisa, porque o teu trabalho feito para palco é do palco, é no palco, para se ver! Esse fenómeno que acontece entre a plateia e o artista, o performer…

Francesco: …é única!

Nilson Muniz: É único e acontece naquele espaço, não é? Assim… é um encontro que acontece aí, entre a plateia e o público e o artista e é um encontro que acontece aqui… nós só sabemos quando o presenciamos! Não é a mesma coisa quando você está em frente a uma tela de computador em que você pode pausar para ir a casa de banho, para beber uma água, para.. ah! De aqui a pouco vejo os outros 30 minutos… Não é a mesma coisa! Não é? Não é a mesma relação que se tem com uma obra, não é? Pode ser que… ela acho que é uma linguagem, acho… eu vi alguns trabalhos não de aqui, vi alguns trabalhos de colegas brasileiros, no Brasil eu sinto que eles estão bem mais à frente neste aspecto, de… porque lá também existem outras entidades culturais que propiciam esta possibilidade, de auxilio mesmo ao artista, então existe ali… existe o SESC, existem algumas leis que o governo ainda não conseguiu derrubar, porque lá está a se viver um momento terrível, quanto ao golpe que aconteceu… que está acontecendo… mas existe… os artistas de alguma forma eles estão conseguindo, não todos… não é? Mas eles estão entrando e tentando descobrir esta linguagem…

Francesco: …do streaming? Deste formato…

Nilson Muniz: …do novo formato de espetáculos em casa, feito em casa, feito ao vivo, que eu acho que é algo interessante, é uma linguagem que sem dúvida vai se desenvolver e vai ter um caminho próprio, mas sabemos que não é a mesma coisa e será um novo produto, penso eu… assim! E pode ser que depois, ainda se ramifique em outras novas linguagens que… e que nós também nos acostumemos a isso e estas gerações que vêm a seguir… elas vão saber lidar e vão saber consumir isto com mais gosto do que nós que temos já esta necessidade, este costume da plateia, do palco, de usar o palco, de estar em contacto visual com o público… assim! Vamos nós acostumar, mas acho que isto leva um tempo e acho que algumas pessoas, alguns… em alguns lugares isso pode se desenvolver mais e acho que nós aqui temos que estar atentos a como que isso… como que esses outros países, estes outros lugares que estão desenvolvendo isso, como é que eles estão sabendo se colocar diante desta circunstância, de uma forma positiva descobrir este novo espaço, que é um espaço novo!

Francesco: Muito interessante esta perspetiva. Sim, muito interessante ver este novo formato assim… de performance como algo de novo que poderá se ramificar para outros formatos e observar quem o está fazendo, numa perspetiva positiva, é justamente interessante. Queria… já que estamos quase no final da nossa conversa, saber mais ou menos o que é que tu achas deste… considerando este momento, como um momento de reset ou de recomeço… este período mostrou a precariedade toda do sector cultural e artístico e se tens alguma espectativa da política, em relação ao trabalho das artes e da cultura no geral?

Nilson Muniz: Eu acho que num primeiro momento da pandemia, em que as pessoas tiveram mesmo que ficar nas suas casas, acho que tudo isto de uma certa forma está acontecendo para nós aprendermos a observar melhor a importância que a arte tem na nossa vida, não é? A arte é um alimento, nós precisamos da arte tanto quanto nós precisamos do arroz com feijão ou seja, precisamos do alimento físico para alimentar o nosso físico, mas precisamos da arte para alimenta o nosso intelecto, a nossa alma, não é? O que quer que queiram chamar isso, não é? O nosso “não matéria”… então a arte é um alimento e necessário! Sem ele, nós não conseguimos avançar e nós não temos outra condição se não a evolução, estamos aqui para evoluir! Então eu acho que de alguma forma esse mal, pode trazer a consciência desse bem! Não é? Que é um bem que nós temos, que é um bem imaterial, que é um bem cultural, é? Assim! Então eu acho que num primeiro momento as pessoas perceberam que elas não podem viver sem ouvir uma música, sem ouvir um disco, sem assistir a um filme, sem ler um livro, não é? Sem consumir arte, sem consumir cultura, não é? E essa… acho que isto foi bastante discutido, acho que muitas pessoas que nunca tinham observado isso, passaram a observar mais isto, então acho que é um passo… ainda um passo miúdo, não é? É pequenino… aos pouquinhos eu acho que esta consciência pode acontecer, mas ainda não é possível prever quando é que isso vai se dar de uma forma realmente consistente, de forma a valorizar realmente o trabalho do artista como deve ser. Mas acho também que… porque na dificuldade é que nós podemos… é na crise que nós avançamos, não é? Ou seja onde quer que seja, tanto na questão criativa, não é? Mas também na questão económica em todas as suas áreas, não é? Então, uma coisa que eu sinto aqui em Portugal é que é preciso uma consciência de classe, de união de classe, atenção que esta classe ela é ramificada, não é? Existem vários sectores culturais, não é? A música, o teatro, a dança, a literatura, não é? Mas eu sinto que aqui é sempre cada um por si! Não é? E essa… e não é possível se avançar de forma a conquistar esses direitos e ser bem valorizado por isto, não é? Ainda, com este pensamento solitário, este pensamento quase que egoísta… não é possível se avançar coletivamente… e a arte é algo que só acontece coletivamente, ela não tem outra forma de… ela não teria outra razão de existir se não fosse “eu para o outro”, não é? O eu com o outro, é exatamente essa… a comunicação, estar em “comum única ação”, assim… então! A arte eu a vejo desta forma e se nós não conseguimos entre nós… percebermos as nossas necessidades para poder colocar isso, para quem deve suprir estas necessidades, ficamos na praia! E eu espero que esta consciência parta de nós, que parta do artista principalmente! Se perceber que é preciso lutar, é preciso conquistar os seus direitos, não é? Junto a… de contrário, somos sempre reféns do empresariado, dos empresários, dos donos de casas noturnas, dos donos de teatros, das pessoas que são sempre as mesmas, que ocupam estes espaços e pagam quanto querem e se você não aceita, virá outro que está chegando e fará por menos e será sempre assim… se não houver uma lei que controle tanto estas pessoas que contratam, quanto estas pessoas que se submetem a fazer este trabalho… leis eu digo mesmo… penalizações mesmo! Para aqueles que não cumprem um mínimo básico!

Francesco: Uma tabela!

Nilson Muniz: Uma tabela! De forma a ser respeitada mesmo e não simplesmente… ah! Não é? Dar… se dando jeitinho para se escapar de algo que precisa mesmo de acontecer!

Francesco: Muito obrigado Nilson! É uma conversa que está a se desenvolvendo eu acho em vários grupos e este é o momento ideal para que estas problemáticas sejam analisadas e debatidas. Muito obrigado pelo contributo valiosíssimo, muito interessante ouvir as tuas ideias sobre estas questões. Gostava de terminar por pedir-te se queres nos dar algum link de alguma tua performance que possamos

alegar a esta entrevista, para o público depois…

Nilson Muniz: …eu adoraria dar um link de uma performance que vou fazer a semana que vem… mas infelizmente, neste momento ainda não… não sabemos a semana que vem, se a semana que vem virá…!

Francesco: Ah! Se a semana que vem dará… mas neste caso seria qual?

Nilson Muniz: Não! No caso, eu uso as minhas redes sociais, que no facebook é nilsonmuniz, a página oficial é nilsonmuniz, no instagram é muniz.nilson e no youtube também é youtube.com/nilsonmuniz… e ali tem, ali também… por ali dá para saber o que é que eu estou a fazer ou tem assim um pouco daquilo que eu já fiz e que virá e eu espero que seja muita coisa!

Francesco: Muito obrigado Nilson!

Nilson Muniz: Obrigado eu!

Francesco: Grazie e mille! Foste acompanhado pelo som dos passarinhos aqui desta bela primavera de Lisboa!

Nilson Muniz: Muito obrigado, obrigado eu Francesco!

Francesco: Mais uma vez!

Projeto Ágora: Entrevista com Miss Suzie

Francesco: Olá boa tarde! Olá Suzie como estás? Tudo bem?

Suzie: Va bene!

Francesco: Bem-vinda aqui a estas sessões de entrevistas e de conversas com os músicos do Projeto Ágora e queria que te apresentasses rapidamente, tu te chamas? Suzie!

Suzie: Sim! Chamo-me Suzie, chamam-me Suzie e… pronto! Tenho vários projetos musicais, o último é o Suzie & the Boys, e tu deves conhecer… e canto também com os Ena Pá 2000, com Os Irmãos Catita, mas paralelamente tenho uma vida de… ligada ao teatro e ao cinema e a estas coisas, como figurinista e diretora de arte!

Francesco: Perfeito, portanto tu és muito importante para estas conversas, visto que estás envolvida em muitos projetos! De que maneira a pandemia afetou a tua situação financeira desde o princípio das restrições?

Suzie: Foi complicado, porque… em duas vertentes diferentes, não é? Uma vertente musical e uma vertente de bastidores, não é? Portanto, logo quando a pandemia começa eu ainda estava a filmar, a trabalhar, continuei… já não havia maneira de parar, mas imediatamente fiquei com todos os trabalhos cancelados e um ano que até se previa que fosse um ano bom, de repente fiquei sem nada, não é? Isto a nível da minha parte de figurinos e direção de arte. Depois na parte da música tive a felicidade ou a infelicidade de fazer um concerto com os Suzie & the Boys uns dias antes da pandemia, foi o último concerto inclusivamente do Sabotage, que depois fechou as portas, já estava anunciado, mas com a pandemia ainda veio a agravar mais e ficamos com todos os concertos todos cancelados, não só… das bandas todas e durante o período da pandemia e fui conseguindo recuperar alguns trabalhos da parte dos bastidores, mas da parte musical perdi quase tudo. Tive a sorte de fazer um concerto com os Ena pá 2000, algures em Outubro e um concerto com os Suzie & the Boys em Setembro. Quer dizer, num ano fazeres… tens três projetos musicais e só fazes dois concertos? É hardcore!

Francesco: Incrível, exato! Ou seja uma redução extrema quase…

Suzie: exatamente!

Francesco: E… vista a situação agora presente, estamos em Março e estamos mais ou menos na mesma situação ou quase de um ano atrás, aliás… acabamos de fazer um ano… hoje? Quando é que foi em Portugal?

Suzie: O confinamento, acho que entrou no dia 18, se não estou em erro… nesta altura já se estava a adivinhar que alguma coisa mais grave viria por aí, mas eu acho que ninguém estava preparado para isso!

Francesco: E portanto, eu queria saber se isto se protrair assim, quais serão os efeitos na tua situação financeira de 2021… iguais?

Suzie: Epá! É assim, eu tenho uma empresa, pronto! Eu trabalho como uma empresa que abrange todas os projetos que faço. Eu no início de tudo isto, eu tive 87% de quebra de faturação, que é uma coisa problemática, mesmo! Pronto! Como eu faço muitas coisas diferentes, não é? Fui conseguindo aqui, ali, ali, ali… conseguindo aguentar o barco, não é? E passado este ano, eu consegui aguentar o barco, mas longe, muito longe do que era a minha vida normalmente, de trabalho com todos estes projetos que se cruzavam, não é? Porque eu muitas vezes estava durante o dia a fazer figurinos e chegava à noite, ia dar concertos, não é? Portanto, isso… esquece, isto nunca mais aconteceu! Não é? Pronto… epá! De alguma forma, sinto-me privilegiada porque consegui ultrapassar, consegui sobreviver, mas foi muito, muito difícil, foi a custa de muitos emplastres nas minhas costas, mas pronto! Foi uma situação que aconteceu e uma pessoa tem que andar para a frente e o que vai acontecendo, tu vais agarrando e tu vais fazendo, não é? Foi isso que aconteceu!

Francesco: Eu queria saber, em relação aos apoios, digamos à assistência financeira do governo, se existem… e se tu recebeste algum, se conseguiste…

Suzie: …eles existir, existem! Têm muitas regras diferentes e por vezes tu podes não ser abrangido por isto ou por aquilo ou wherever, pronto! No meu caso, eu tive… acabei por ter alguma ajuda, mas que no fundo se nós formos ver, é completamente ridículo porque num ano, em doze meses disto, o apoio que eu tive foi: vamos supor, sei lá… portanto… eu tive, acho que foi no total ao longo deste tempo todo, tive por aí do governo 700€ de apoio! Portanto, dividido por 12 meses, no total! Depois da GDA, que é um órgão muito importante e que eu dou os parabéns, porque se mexeram com a Santa Casa e etc., para apoiar os artistas, consegui mais 700€! Portanto, juntando todos estes apoios, num ano eu tive 1500€ de apoio, o que é dinheiro obviamente, mas sabendo que eu todos os meses eu pago ao Estado, por ter uma empresa, todos os meses, todos, todos, em pandemia ou sem pandemia, eu pago cerca de quais 600€, portanto: é só fazer as contas, saber o apoio que eu tive de 1500€, dividido por 12 meses, percebes? Portanto, foi complicado… se não fossem os emplastres nas minhas costas, eu não tinha sobrevivido!

Francesco: Exato! Portanto deduzo que te consideras insatisfeita?

Suzie: …de alguma forma sim! Porque depois há muitos impedimentos e no meu caso, no início quando realmente eu estive muito mal com aqueles 80 e tais % de quebra de faturação, quando tu tens… eu tenho um estudo que tenho que pagar a renda, eu tenho um atelier que eu tenho que pagar a renda, para além de toda a minha vida, não é? Todos nós temos uma vida, uma casa, comida, tudo não é? Pronto! para além disso, eu nesta altura, os apoios que vieram eram completamente idiotas, porque havia imensas restrições e não abrangiam toda a gente, eu como sócio-gerente não tinha direito a apoio! Portanto…. eu não era trabalhadora, não é? Por ser sócio-gerente da minha empresa, não tenho direito a receber… caramba! Sou eu que ponho lá o dinheiro, sou eu que trabalho para lá estar o dinheiro, sou eu que pago ao Estado, mas eu não tenho direito? Pronto! Nesta altura foi muito complicado! Quando já no final do ano, começaram a aparecer, porque no entretanto houve imensas polémicas, não é? Portanto… quando começam a aparecer no final do ano já alguns apoios, que já poderiam abranger ou incluir mais pessoas e com menos restrições, estás a ver? Eu já tinha tido os meus emplastres nas costas, já tinha recuperado, felizmente… mas como já tinha recuperado, já não tenho direito… ainda que a minha recuperação, tivesse sido mínima e nunca… e muito longe de aquilo que eu costumava trabalhar, não é? pronto! Portanto é assim um pau de dois bicos, percebes? 

Francesco: E te ocorreu nesta altura ou digamos assim, ao longo… se te ocorre de pensar às vezes: se esta situação se protrair, de mudar de trabalho, encontrar outra situação… se te ocorreu…

Suzie: não, isso nunca me passou pela cabeça! Aliás isso não me passa pela cabeça há 30 anos, porque… aliás, eu acho que nós, os artistas, pensando bem… se calhar fomos… embora tivéssemos sido… ou estejamos a ser ainda os mais prejudicados com toda esta situação, não é? Não temos sítios para tocar, não podemos tocar, não podemos trabalhar, filmar? Filma-se pouco e bla bla bla…! No entanto, se calhar nós éramos os que melhores estávamos preparados para esta situação, porque nós sempre vivemos assim, nós nunca sabemos o amanha! E isso é que é realmente a essência destas profissões, não é? Tu não sabes, tu não sabes se o telefone liga amanhã e tens um trabalho e portanto é sempre obviamente uma vida precária, mas ao mesmo tempo é uma vida muito apaixonada e só está nesta profissão quem realmente ama muito aquilo que está a fazer! E muitas vezes, ao longo destes 30 anos de profissão, quando eu tinha alturas de menos trabalho e que tu às vezes passavas alguns meses sem ter trabalho, que felizmente agora… se calhar já tenho uns aninhos, já estou velhota, já não é bem assim… tu pensavas: fogo! Eu se calhar tenho que fazer outra coisa, porque eu não me vou safar! Mas eu sempre pensava: não! Fodes ai! Eu não sei fazer outra coisa… não se pode dizer asneiras! Mas pronto! Eu sempre pensei: eu quero fazer isto! Eu não vou desistir… portanto não era agora um bichinho, que ia fazer com que eu fosse desistir! Não, isto nuca me passou pela cabeça! 

Francesco: Perfeito, ok, ótimo! Agora eu queria passar a uma outra parte aqui, da nossa conversa em que penso mais na coisa do… digamos na situação do trabalho criativo, ou seja, de que maneira toda esta situação pandémica afeitou o teu trabalho criativo e de performance, desde o início das restrições?

Suzie: Sim! Ai tem duas partes: afetou o meu trabalho performativo, mas não afetou o meu trabalho criativo, pelo contrário! Porque o que aconteceu, mas isto se calhar tem a ver com a minha pessoa, com a minha personalidade, tenho bichos carpinteiros no rabo, não posso ficar quieta… e então eu tenho que arranjar algo que me preencha! Então se eu não posso fazer agora, eu não posso fazer agora, mas eu vou inventar ou vou fazer depois, portanto: criativamente? Eu criei imenso, eu inventei imenso, não é? E consegui! Inclusivamente fazer coisas para o futuro, esperemos… performativamente é que não! Não posso… não havia espaço para isto, quer dizer, à exceção daqueles dois “concertozinhos”, não foi mais nada!

Francesco: Agora, exato! Então eu queria saber, em 2019, antes de que acontecesse a pandemia, quantos concertos fizeste, por exemplo, em quanto espetáculos participaste, já que tens um duplo trabalho?

Suzie: Antes da pandemia? 

Francesco: 2019, vai…

Suzie: 2019! Eu não sei contabilizar exatamente, mas por exemplo, entre as três bandas, não é? Eu seguramente, sendo que não são bandas… tipo que estão aí nos festivais todos, é um bocado tudo mais underground, mas eu seguramente teria uma media de concertos por mês de 2, 3.. uma media no ano…

Francesco: uns 30/40 concertos por ano, mais todo o trabalho de…

Suzie: sim! Mais todo o trabalho que isso implica, em relação à música…

Francesco: em 2020, foram?

Suzie: Em 2020? Foi no início do ano, portanto, tive ali 2 ou 3 concertos e depois tive 2! Portanto, provavelmente ao todo terei tido, que? 5? 6 concertos?

Francesco: Em todo o ano?

Suzie: Em todo o ano! 

Francesco: E agora, falando mais na questão da estratégia, não é? Estratégia dos músicos para ultrapassar este período, digamos que se carateriza pela falta de perspetivas, tens alguma estratégia? Artística? Criativa?

Suzie: Talvez, voltando um bocadinho atrás, na tua pergunta do processo criativo e performativo, não é? Eu acho que a estratégia musical neste momento, passa precisamente por preparar o futuro e não ficar à espera que as coisas abram e aconteçam, mas sim estar preparado para quando esta altura chegar… já estás!

Francesco: Para ter material?

Suzie: Para ter! Tens conteúdo, tens material, tens coisas para fazer, tens coisas para mostrar, aliás acho que até provavelmente terá que haver uma estratégia, ou pelo menos… eu penso nisso em relação às coisas que estou a fazer… que é: quando isto abrir vai haver imensa coisa, porque toda a gente esteve a incubar, esteve a criar, esteve a fazer, portanto toda a gente está doida, para… assim que isto acabar, toda a gente vai mostrar… exatamente! E portanto também penso eu, será preciso um certo cuidado estrategicamente de… de repente: se toda a gente lança tudo ao mesmo tempo, se toda a gente faz tudo ao mesmo tempo, as coisas caem no vazio, porque não… as pessoas não conseguem assimilar tanta informação ao mesmo tempo! Portanto acho que terá que haver um certo cuidado, perceber o que está a acontecer quando isto tudo abrir, para que as coisas não se atropelem umas às outras e poderem dar espaço a todas, porque se não vai ser o caos!

Francesco: Em relação a este futuro que não sabemos bem como vai ser, por exemplo, o que é que tu achas ou se pensaste em relação a isso… deste novo formato de música ao vivo que se faz em streaming, os live streaming… o que é que poderá haver depois? Se isto ainda protrair-se por muito tempo?

Suzie: Sabes que eu senti uma postura em relação a estas coisas do live streaming e estas coisas… para já eu não sou muito internética, eu sou mais miúda de mexer com as mãozinhas e não nos botões, pronto! Isto é logo à primeira! Mas eu também, ou seja… quando nós tivemos o primeiro confinamento e ficamos mesmo todos… e ninguém sabia, ninguém entendia o que é que se estava a passar, não é? Eu acho que foi maravilhoso, haver toda uma parte generosa artística que fazia lives aqui, lives ali, não é? Nestas ligações todas em streaming: um concerto, uma música, um poema, um… o que fosse! No fundo, eu achei isto como um ato solidário, não é? Bora lá entreter esta gente toda que está toda a gente a tripar e ninguém sabe o que vai acontecer. Neste momento? Eu não sei se não é um tiro no pé! Ou seja, a partir de uma certa altura, esta coisa de fazer os concertos por donativos, os mbway’s, os não sei o que e não sei o que mais… epá! Oh gente! Então? Vocês estão malucos meu? Porque isto não vai acontecer e eu inclusivamente vi… nós fizemos.. eu recusei-me de ir a um concerto dos Ena Pá, precisamente porque era neste esquema e eu disse: epá! Eu não quero fazer isto! Epá! Depois foi os Irmãos Catita fizeram e eu já estava cheia de “saudadinhas” de tocar, eu disse: epá! Que se lixe! Vou lá pela vodka! Pronto! E cheguei a ver comentários de pessoas que estavam a ver o concerto: epá! Que fixe! Um concerto à borla!… Epá! Não é a borla, meu! É o nosso trabalho, não é à borla! Percebes? Portanto esta coisa dos live streamings, esta coisas das plataformas, ok agora até estão a organizar plataformas em que tu tens de pagar um bilhete para entrar e ver, mas não é a mesma coisa! Eu, como músico, eu não vou pagar um bilhete para ver um concerto online, não vou! Não quero! Porque um concerto é muito mais do que isso, um concerto é ali! É aquela energia! Não pode ser através de um ecrã de computador, eu nem vejo os concertos que passam na televisão, quanto mais os do computador, não quero! E não quero contribuir para isto!

Francesco: Exato! Então eu queria saber, por exemplo, quando tocaste e tiveste  estes concertos durante este período, por exemplo o que tivemos… que eu também estava contigo, da Praça da Alegria e os outros que fizeste em streamings, como é que tu achas que estas situações… por exemplo como no caso da Praça da Alegria, restrições, fio a delimitar espaços, impedimento de circular das pessoas, o uso da mascara obrigatória ou por exemplo o teu concerto que fizeste no live streaming, como é que achas que isto pode afetar a nossa própria performance? A performance do músico? 

Suzie: É engraçado estares a perguntar isto, se calhar, pronto! No caso, vamos começar pelo concerto que eu fiz em streaming com Os Irmãos Catita! Eu assumi… fui pela vodka, como já te disse! [risos] Mas eu assumi aquele concerto como se eu estivesse a fazer um programa de televisão… e então eles até andavam a filmar com os telemóveis e eu lembro-me que às tantas virava-me para os telemóveis e ia a dizer: epá! Agora tudo a bater palminhas lá em casa! Com os Catitas dá pra fazer isto, não é? Mas pronto! Portanto, ultrapassei isto desta forma porque também é uma banda um bocadinho sui generis em que também dá para brincar com isto! Dá para gozar com isto! Quando nós fizemos o concerto na Praça da Alegria com os nossos Suzie & the Boys, eu sou a Suzie e tu és um dos boys [risos]… foi engraçado, porque: há aquelas limitações todas, houve uma grande adesão do público se bem te recordas que a praça estava cheia, aliás a própria organização estava um pouco preocupada de repente com o ajuntamento que ali se criou! Estranhamente e não sei se tu sentiste isto, mas eu ao estar a dar o espetáculo naquela primeira zona que era a zona das cadeirinhas, tudo de máscara, tu estás a atuar para anónimos, para anónimos! E uma coisa que é fundamental em qualquer espetáculo, seja ele teatral, seja ele musical, seja ele qual for, é precisamente esta interação que tu tens com o público: o público te dá a ti, tu ainda dás mais, é sempre assim! Pelo menos eu sinto isto! E portanto foi de alguma forma estranho atuar desta forma! Claro que depois, fora daquela “zonazinha” restrita, como a praça encheu e de repente estava toda a gente ávida de dançar, disto… e como a nossa música também puxa para dançar, de repente tu viste a praça toda a dançar e de repente, epá, afinal, não é? Há coisas que não se perderam ainda, ainda bem! E mesmo por trás das mascaras tu até conseguias reconhecer alguma vivacidade… não é? 

Francesco: Ou alguma expressão, ou alguma resposta!

Suzie: Exatamente! Depois fizemos o concerto com os Ena Pá e foi na Casa do Capitão em que já havia, era muitas mesas, as pessoas estavam sentadas, não tinham máscaras se estivessem na sua mesa, o concerto foi incrível! Mas por exemplo, eu lembro-me perfeitamente como “valquíria”, em determinada altura dizer: levantem-se epá! E eles ficaram sentadinhos, não se podiam levantar! Portanto nem te era permitido estares na tua cadeira como eu estou agora, levantares e dançares um bocadinho… nada! Mesmo que não saísses da tua cadeira: não era permitido levantar e dançar, dançar não era permitido! Epá! Isto é completamente escabroso!

Francesco: Incrível! Então em relação ao futuro, quando pensas em novas práticas ou a realidades performativas a que… vão voltar os concertos assim como sempre foram?

Suzie: Epá! Eu penso é que este bicho vai embora rapidamente para voltarmos àquilo que tínhamos…

Francesco: isto é uma boa maneira também de valorizar o que tínhamos, que já era muito bom!

Suzie: Exatamente!

Francesco: Agora, para terminar esta nossa conversa, queria saber se tens alguma espectativa da política, dos políticos para um melhoramento da situação dos artistas, no geral, assim… dos músicos?

Suzie: Eu como costumo dizer, eu não sou muito de politiquices! Conheço alguém que também é um dos nossos boys que diz: epá! Isto é mentira! Tu és uma rapariga cheia de statement e não sei o que… e sou! O que é que eles podem fazer por nós? Quais são as minhas espectativas? Eu não sei se tenho algumas, já não sei o que eles podem fazer por nós, porque realmente eu estou sempre um bocadinho à parte disso, o que eu procuro é sempre lutar para aquilo que eu acredito, estás a ver? Fazer as coisas acontecer! Não ser aquela coisa… ah! Bora fazer isto ou fazer aquilo… e depois não se faz nada! Não! É para fazer? É para fazer… e tentar desbravar caminhos! Portanto, toda a minha vida… estou habituada: queres fazer? Desbrava o teu caminho, porque ninguém vai desbravar para ti! Percebes? Pronto! Portanto nunca fiquei muito à espera dos apoios que os políticos me possam dar ou sem dar ou isto ou aquilo, aliás na própria pandemia acabou por se relevar isto! Se eu ficasse à espera do apoio que eles me dessem, estava morta neste momento! Portanto, epá! O que eu gostava é que eles olhassem mais para nós culturalmente, porque sem duvida que há uma grande lacuna culturalmente na política… epá, mas fora disso acho que não te sei responder a esta pergunta…

Francesco: fantástico! Só para terminar tenho uma outra pergunta: existe algum movimento reivindicativo de artistas que conheceste nesta fase, eu me refiro muitas vezes à União Audiovisual ou a outros grupos que estão fazendo atividades, assim… que vale a pena mencionar ou que..

Suzie: eu curiosamente, eu que não sou nada de politiquices, nesta pandemia aliei-me muito às lutas pela cultura e houve vários movimentos, se não me falha a memória agora, houve um Movimento que era pelo Futuro da Cultura, penso eu… houve um outro, eu inclusive no princípio da pandemia comecei a fazer umas máscaras com sorrisos, as máscaras sorridentes que de repente se tornaram um símbolo também de luta cultural, porque estavam presentes nas manifestações todas culturais e chegamos a fazer um assalto ao Ministério da Cultura, com uma Bonnie e um Clyde com um magro… um saquinho representando o magro subsidio que eles iam dar de 180€ para o Ministério da Cultura e fomos lhe oferecer um “cabazinho” de alimentos e portanto, estive muito ativa nestas guerrilhas e nestas manifestações culturais, na vigília que houve na Assembleia da República porque realmente, culturalmente… ou a nível cultural, o governo tomou uma série de medidas que eram muito incompreensíveis, não é? Eu lembro perfeitamente aquela polémica, quer dizer que uma sala de espetáculos não pode estar aberta e tu podes viajar de avião, com avião cheio, quer dizer? Não…! Houve várias coisas que não fizeram sentido e portanto sempre que foi para marcar uma posição e chegar lá e as pessoas verem que, fogo! Não somos um ou dois, somos muitos! Eu estive lá! Ainda que eu não seja de politiquices!

Francesco: Fantástico! Obrigado Susi! Só para terminar: fizeste algum live streaming, alguma performance durante este período que possamos… ou alguma coisa que produziste, uma gravação, alguma residência artística? Ou algum… sim exato!

Suzie: Sim! Fiz duas coisas diferentes: uma fiz contigo e que foi uma oportunidade maravilhosa que as Oficinas do Convento de Montemor-o-Novo nós proporcionaram! Fizemos uma residência artística onde criamos originais para um futuro, aquilo que estávamos a falar há pouco… não ficar parado, fazer… não é? Outra que fiz, eu acho que tive mais a ver quase com uma cena de psicologia, não teve a ver com esta coisa dos live streamings, fiz uma situação quase caseira: eu todos os dias, durante a pandemia e por causa das minhas máscaras sorridentes, fazia uns lives no facebook, quase para por as pessoas bem dispostas, porque uma das minhas profissões também é palhaço e senti que nesta altura foi muito importante: o rir! Continuar a sorrir! O chegar a um determinado ponto do dia e mandar umas gargalhadas, que isto não pode ser sempre a bater com a cabeça nas paredes!

Francesco: E estes vídeos estão ainda disponíveis?

Suzie: Estão no meu facebook, agora estou a fazer outra vez a dar umas aulas de haute couture e resolvi fazer vestidos para mim e até para a banda, que nunca tenho tempo para fazer vestidos para mim, então todos os dias ensino a fazer mais qualquer coisa, não ensino nada… porque a minha gata está sempre a me lixar o esquema todo! Arranjei uma direção que são os meus bonecos de peluche, portanto, quer dizer… isto é quase uma esquizofrenia, mas faz bem! Faz bem! A mim diverte-me e sei que diverte mais uns quantos e se puder ser assim, epá melhor ainda!

Francesco: E existe alguma música que possamos colocar aqui ao lado desta conversa, para poder te ouvir cantar?

Suzie: Sim! 

Francesco: Uma que tu possas escolher e que possa eu depois recuperar para juntar…

Suzie: eu acho que se calhar a melhor música parta acompanhar isto, seria um brinde ao futuro e… nós fizemos agora uma música muito fixe que é o “Tchim tchim”! E se calhar podemos brindar ao futuro que ai vem que há de ser risonho com certeza!

Francesco: Perfeito! Muito obrigado Susi, foi um enorme prazer!

Suzie: Obrigado eu, gosto muito de ti como tu sabes!

Francesco: Obrigado!

Projeto Ágora: Entrevista com Martin Sued (23/03/2021)

Martín Sued é um compositor, arranjador e bandoneonista argentino. Nascido em Buenos Aires, destaca-se como compositor por renovar o repertório do bandoneon, um instrumento tradicional, muito presente no folclore e na identidade da música argentina. Desde 2009 lidera o grupo Tatadios Cuarteto que tem dois discos editados. Também integra o Chiche Trío, junto com Sergio Verdinelli e Juan Pablo di Leone, e o duo Sued – Nikitoff. Recentemente editou seu primeiro disco de composições para bandoneón solo, “Iralidad” (2017). Nos últimos anos desenvolveu parcerias com músicos de diferentes países, como Guillermo Klein, Seamus Blake, Ben Monder, Milton Nascimento, Gilberto Gil, Yamandú Costa, Miguel Zenon, Diego Schissi, Liliana Herrero, Silvia Iriondo, Daniel Binelli, Mono Fontana, entre outros. Atualmente reside em Lisboa onde lidera o conjunto Martin Sued e Orquestra Assintomática.

Em resposta à situação de atual emergência devida à pandemia do COVID-19 e à necessidade de promover iniciativas que possam avaliar e atenuar o impacto no âmbito das artes performativas, investigar os efeitos da crise, com enfoque no sector da música, documentar as estratégias aplicadas pelos artistas nas suas atividades criativas e de performance, o Projeto Ágora convida Martin Sued, para compreender os efeitos provocados pela crise sanitária, quer no nível individual que no âmbito do sector cultural em Portugal.

Francesco: Grande Martin!

Martin Sued: Grande!

Francesco: Buenos dias! Bom dia!

Martin Sued: Bom dia!

Francesco: Bem-vindo aqui a estas conversas do Projeto Ágora, podes te apresentar rapidamente…

Martin Sued: Obrigado! Bueno, yo soy Martin Sued, soy argentino, soy un músico argentino, toco bandoneon y estoy a morar aqui en Portugal, en Lisboa há um ano e meio mais ou menos… agora cheguei em Portugal dois meses antes do confinamento e então, está sendo uma experiência assim inesperada!

Francesco: Chegaste na altura certa!

Martin Sued: Cheguei na altura certa! Este…

Francesco: …vou te fazer uma série de perguntas já que tu és um músico que viajou pelo mundo e agora estás entre nós aqui em Lisboa, assim… e estás a viver como nós esta situação do último ano um pouco especial e então queria… vou começar com uma série de perguntas que têm a ver com a questão mais financeira, não é? Da vida, nesta situação, ou seja de que maneira a pandemia afetou assim… a tua situação financeira desde o princípio das restrições?

Martin Sued: Quase nada! Estou muito bem economicamente, não! No início afetou de uma maneira assim, drástica porque como falei acabava de chegar aqui a Portugal e eu ainda não tenho as documentações necessárias para receber apoios nem nada. Acabava de chegar no país e tive mesmo que sair da cidade e fazer pela primeira vez na minha vida um trabalho de outra coisa que não é a música, eu sempre trabalhei com música e tive uma experiência incrível, trabalhando no campo no sul de Portugal por um período de três meses, quase quatro meses, porque aconteceu isso: cancelou-se todo o trabalho, 100% do trabalho e então tive que utilizar a criatividade e achar a melhor possibilidade e foi uma experiência de aprendizagem super forte e linda também!

Francesco: Tiveste neste período a ideia alguma vez de mudar de trabalho, de deixar a música e de dizer: basta!

Martin Sued: Sim, muito! Sim, no início aconteceram muitas coisas como a todos, acho que todas as áreas, foi um momento muito mobilizante, não? Mobilizador para todo o mundo mas… sim! No início eu senti como… quanto a nossa atividade dependia de… da roda financeira internacional, ou seja: que é uma coisa que nós achamos que tem muito a ver com os afetos, a paixão, o sentimento… quanto isto está ligado a um sistema económico que se quebra um pouquinho e desaparece a nossa profissão, não é? Então comecei a fazer perguntas: para quem estou a fazer o que eu faço? O que quero com isso? Estou a fazer para mim? Para quem estou a fazer? E quando a coisa começou a virar assim para o digital e para a coisa virtual, aí comecei a sentir, ou seja… se a música começa a ser uma coisa virtual eu não tenho interesse em continuar a… com isso como minha prioridade, não?

Francesco: Sim! Isto é interessante porque parece que o futuro vai nesta direção!

Martin Sued: Claro! Mas, depois por exemplo, quando a coisa acalmou um pouco e abriu um pouco e começamos, quando começamos a ensaiar com o nosso projeto, aí voltou de uma maneira enorme a vontade de tocar e de fazer música e também de ressignificar ou voltar ao sentimento que me levou à música no início, não é? Que é a coisa de partilhar, a importância de partilhar com os outros a música, a importância de… como uma coisa de comunicação e de convívio que quando não está… é o momento que eu penso, que começo a pensar… assim não me interessa!

Francesco: Sim! Interessante! Diz me uma coisa: tu por acaso recebeste algum apoio da cultura, de alguma instituição durante este período?

Martin Sued: Não! Nada, porque como te dizia, como ainda não estou, não tenho… não cumpro requisitos para…

Francesco: …deve ter sido ainda mais difícil… para perceber o tamanho dos efeitos reais, tu em 2018 e 2019 fazias quantos concertos por ano, por exemplo? Em média?

Martin Sued: No mínimo um por semana, mas muito mais do que isso…

Francesco: …por volta dos 70/80… 100 concertos por ano?

Martin Sued: Sim! Ou mais…

Francesco: …e 2020 foi um ano específico… em que tocaste quantas vezes?

Martin Sued: Ah! Contados com os dedos das mãos!

Francesco: Eu gostava de saber, em termos de criatividade, de trabalho criativo, tiveste por exemplo esta oportunidade de fundar uma orquestra que se chama Orquestra Assintomática em Lisboa, mas nos períodos mais duros de confinamento como é que correu esta questão criativa?

Martin Sued: Tive vários momentos, não é? No início, quando começou a pandemia, tive um momento muito forte de conectar com a música de uma maneira mais pura, fora da coisa da profissão, se não… mais natural de conexão com a música, super forte, voltei a estudar o meu instrumento, a fazer exercitações de harmonia, a gravar, muitas coisas como portas adentro, que vivi como um momento de detenimento do mundo e senti uma necessidade forte de aproveitar isso para ficar em casa! Se calhar muitos amigos e outras pessoas ficaram com uma necessidade superforte de continuar mostrando coisas, fazer vídeos… eu tive um período em que comecei a conectar-me com a música muito forte em casa… adentro! E foi super lindo… e sim! Tive um momento de criatividade e depois, quando fui… quando passei esta experiência no campo no sul, também porque… como… a coisa de ter uma experiência de vida totalmente diferente, num espaço super agradável e partilhando com pessoas super lindas e foi uma coisa super inspiradora, mas numa altura começou a acontecer isto: de não ter a possibilidade de fazer música com outros e de ter um objetivo real de… sei lá? Por exemplo para compor… uma música para tocar com outros, sem não saber quando esta música vai ser tocada, comecei a perder o estímulo, sim!

Francesco: É mais ou menos o que todos respondem, um primeiro momento de… digamos assim… de vontade de aproveitar o tempo para estudar, voltar a estudar, ter tempo para… mas depois de um pouco de tempo, perder o estímulo e este é um ponto em comum com os outros! E agora passando um pouco mais à frente: agora que estamos numa altura em que está reabrindo devagarinho e temos o medo que possa voltar a fechar, que é o que aconteceu em vários países de Europa e do mundo… mas, neste sentido, quais estratégias por exemplo artística e/ou pessoal tens para lidar com esta situação no futuro? Por exemplo, em termos de carreira, tocar, fazer projetos… isto me interessa porque estamos vivendo uma altura em que também o formato de apresentação da música, está passando do formato live ao formato streaming, computador onde tudo se passa dentro de uma tela…

Martin Sued: …eu sinto que temos que resistir a esta mudança, não é? Não pode acontecer isto, ou seja: se calhar não vamos ter os grandes festivais, mas a música é uma coisa de partilha, é como… não podemos parar de deixar de partilhar… é como… eu acho que vai ser como água, que haja lugar por onde continuar, não é? Não é possível acabar com isso e…

Francesco: …todos estes festivais online e streaming, pessoal que fez streamings e…

Martin Sued: …eu, na verdade, não sei se é meio ridículo, mas eu tenho fé que a coisa vai voltar, que vamos poder voltar a trabalhar de tocar ao vivo, na verdade vivo desta ilusão, porque se penso que a coisa vai diretamente virar para a virtualidade eu prefiro fazer outra coisa na minha vida, não… cozinhar… não sei… é outra coisa!

Francesco: Tens uma espécie de repulsa a priori?

Martin Sued: Sim!Mas… estratégias, não sei… por enquanto é mais “salvatagem”… é mais…

Francesco: …salvar-se!

Martin Sued: Salvar-se e sobreviver e tentar, uma coisa que eu acho muito importante é tentar pensar nestas estratégias de uma maneira coletiva, não é? Não de uma maneira individual, porque isto vai acabar connosco, se começamos a viver isto como: como posso eu me salvar? Já o futuro é muito desolador, não é?

Francesco: E em termos de estratégia coletiva, há algum movimento que tu tenhas visto, aqui em Portugal ou em Argentina ou em qualquer outro lugar do mundo, de artistas que se juntaram para fazer alguma coisa…?

Martin Sued: Na verdade não tenho uma informação de uma coisa assim, estabelecida… sei que se formaram grupos e coisas, mas não tenho um exemplo assim super claro para partilhar, mas o que estou a dizer é que acho que temos… mesmo isso que estás a fazer, temos que pensar juntos …

Francesco: …pensar juntos, exatamente, uma estratégia para…

Martin Sued: …uma estratégia para todos!

Francesco: Exato, para não nos deixarmos digamos assim… este futuro que parece já traçado de uma música que se deve viver online, até porque como disseste antes, a vida de um músico é uma vida de partilha com os outros, seja a experiência criativa que depois a performática com o público…

Martin Sued: …claro! Pelo menos a coisa da música, no sentido que a música tem para mim e que sei que tem para ti e para muitos outros, não é? Que infelizmente não é o sentido que tem a música no nível alto do mercado. Ou seja, já antes da pandemia este tipo de música que ouvimos, que era igual aqui, em Turquia, África, Sul América… que é música pasteurizada, música que não é feita… não surge de um convívio, é música que surge de alguém que quer ganhar um dinheiro! Então, para esta música do mercado é ainda melhor esta situação, é mais simples, mais acessível, não? Porque o único objetivo é ganhar dinheiro! Mas para nós que escolhemos a música como uma maneira de viver e uma maneira de nos relacionar, esta é uma tragédia! Não é?

Francesco: Absolutamente! Temos que, exatamente sobreviver e resistir nesta altura e produzir, criar…

Martin Sued: …criar, criar juntos! E estamos a fazer, não é? Quando aparece a oportunidade vamos fazer e eu tenho a esperança de que vamos a encontrar a forma, se calhar vamos fazer muito pouco, vamos fazer um grão de areia no mundo mas…

Francesco: …a coisa bonita é que num ano, já passou mais de um ano de restrições e conseguimos montar uma orquestra…

Martin Sued: …montamos uma orquestra, oooh!

Francesco: Mas agora, são 3/4 meses que estamos parados porque veio mais um confinamento e 4 meses é 1/4 de um ano…

Martin Sued: …sim! Mas eu acho que uma das coisas bonitas da arte ou da música é justamente transformar estas cenas em beleza, não é? A nossa responsabilidade, tem que ser esta!

Francesco: E para terminar, assim, eu muitas vezes pergunto se vocês e eu, pergunto isto a mim próprio, se esperas da política ou de quem… o Ministério da Cultura, de quem… pronto! Gera a política da cultura… se tens algumas espectativas depois de tudo o que se passou ou que está passando, em relação ao sector cultural, à música?

Martin Sued: Ou seja, é complexo para mim! Para mim, obviamente tem que existir apoios, tem que existir ajuda, mas ao mesmo tempo, acontece como uma luta de sentimentos neste ponto, porque às vezes quando vejo alguns movimentos de artistas a pedir para o Estado muita coisa e ao mesmo tempo vou a caminhar por Almirante Reis e vejo pessoas dormindo na rua e antes da pandemia, nenhum deles falava nada! Eu sinto também que a comunidade artística, tem que se pensar dentro de uma sociedade que tem umas carências enormes e que nós dentro desta sociedade, ainda assim com esta merda que ficamos fechados, temos privilégios, não é? E pensado no mundo… não é? Então eu penso que tem que ter apoio, tem que ter ajuda, mas que a prioridade tem que ser os que não tem para comer, não é? Os que não tem para comer, ou os que acabam no crime, acabam na cadeia, sabes? Que eu acho que se nós, como trabalhadores da cultura, temos por nosso estilo de vida tempo para refletir e estamos avocados a uma mirada sensível do mundo, não podemos pedir coisas para nós, esquecendo que há pessoas que não estão e… esquecendo que somos privilegiados, não é? Então… sim! Temos que pedir para o governo, mas eu acho que o mais interessante é tentar participar e tentar criar, nós, aproveitando o privilégio que temos… criar uma maneira de resistir a esta situação, pedir também… mas não só pedir!

Francesco: E se calhar, sensibilizar também a opinião pública sobre…

Martin Sued: …sensibilizar a opinião pública e nós próprios entender que, quando somos trabalhadores desempregados agora, não é que somos… não existe um trabalhador desempregado premium… ou seja: é igual que um outro trabalhador desempregado! Então às vezes quando… eu sinto uma coisa meio estranha quando um artista fica desempregado e pretende um apoio que outro desempregado não tem, porque? Somos juntos, desempregados! Então, isso… não sei se sou claro!?

Francesco: É uma outra perspetiva, porque cada um tem uma perspetiva diferente… ok! Para acabar e agradeço pela tua disponibilidade…

Martin Sued: …obrigado!

Francesco: Queria saber se tens alguma música que produziste durante este ano, que queiras… que possamos alegar a esta entrevista para quem ver depois, poder ouvir o grande som do Martin Sued!

Martin Sued: Podemos usar o vídeo que vamos gravar acá na…?

Francesco: Claramente, se tem alguma música no específico daquelas que vais gravar…

Martin Sued: “Migra” pode ser…!

Francesco: Porque? Argumenta em 30 segundos… há um significado?

Martin Sued: É uma música inspirada nas migrações de pássaros, como um espelho de nós, não é? Tem uma coisa que… eu soube uma vez, que os pássaros muitas vezes migram sem ter a necessidade física, ou seja que são pássaros que originalmente migravam por uma mudança de clima, então para procurar alimentos faziam estas viagens, mas depois com o cambio, depois… sem precisar de viajar por alimentação, viajavam igual por informação genética das gerações anteriores que faziam aquelas viagens, então me fez pensar também em nós que migramos pelo mundo, às vezes por uma necessidade concreta e às vezes mesmo por uma… é repetir um movimento! E para mim, estes são os primeiros tempos fora da minha terra e são sentimentos super fortes, então acho que esta música representa um pouco…

Francesco: …ok! Perfeito, muito obrigado Martin!

Martin Sued: Obrigado eu!

Francesco: Iremos depois alegar esta música que ainda vai ser gravada nestes dias, muito obrigado! Olha que lugar especifico e especial… maravilhoso!

Martin Sued: Maravilha!

Francesco: Obrigado Martin!

Martin Sued: Obrigado eu!

Projeto Ágora: Entrevista com André Xina (17/04/2021)

André “Xina” Coelho é um compositor e produtor português. Descendente de cabo-verdianos, viveu seis anos em Macau, onde iniciou a sua formação musical. Enquanto Mestre em Antropologia e Cultura Visual, investigou casos de ruído de bairro recolhidos na cidade de Lisboa. Este projeto acadêmico despertou o interesse de Xina pela ecologia acústica. Em 2010 fez uma pesquisa na África Ocidental, onde recolheu o património sonoro dos diferentes locais por onde passou, entre Dakar (Senegal) e Timbuktu (Mali). Com base nesta pesquisa, criou o projeto Sontato, que apresenta a documentação de diferentes paisagens sonoras. A partir de 2012 Xina viaja para o Brasil, funda os projetos Imidiwan, XAFU, Rickshaw e o coletivo Radio Tamashek, lançando vários álbuns e colaborando principalmente com artistas portugueses, brasileiros e moçambicanos. Em 2018 criou o projeto solo Ha Kwai, que significa “fantasma negro” na língua cantonês, termo pejorativo chinês dado a pessoas de pele escura. Em 2021 chega Nzungu (“branco” em língua mwani) o seu mais recente projeto, produzido durante a pandemia entre Itália e Portugal, com o álbum de estreia “Dark Night of the Soul”.

Em resposta à situação de atual emergência devida à pandemia do COVID-19 e à necessidade de promover iniciativas que possam avaliar e atenuar o impacto no âmbito das artes performativas, investigar os efeitos da crise, com enfoque no sector da música, documentar as estratégias aplicadas pelos artistas nas suas atividades criativas e de performance, o Projeto Ágora convida André Xina, para compreender os efeitos provocados pela crise sanitária, quer no nível individual, quer no âmbito do sector cultural em Portugal.

André Xina: Olá!

Francesco: Olá, André Xina, bem-vindo! Bom dia neste dia bonito de primavera 2021!

André Xina: Bom dia!

Francesco: Bem-vindo aqui nestas conversas do Projeto Ágora!

André Xina: Obrigado!

Francesco: Estou muito feliz de poder conversar um bocadinho contigo!

André Xina: Obrigado!

Francesco: Estou seguro que o teu contributo vai ser útil para a comunidade!

André Xina: Obrigado, obrigado pelo convite, vou me apresentar: sou o André Xina, bom! Sou músico sou produtor, colaboro em alguns projetos e neste preciso momento, derivado se calhar desta conjuntura, estou a dedicar-me mais aos meus projetos pessoais, não é? Acho que este momento deu a oportunidade para ter se calhar um foco mais… em relação a trabalhos que estavam suspensos, por uma questão de tempo, por uma questão de prioridade e agora estou a dedicar mais aos trabalhos que realmente estão mais conectados com a vivência que eu estou a ter agora, um pouco isso, sim!

Francesco: Perfeito! Eu já vivi contigo pessoalmente algumas etapas deste ano bestial, desde Março 2020 até hoje, depois nós separamos, depois do primeiro confinamento estivemos juntos em Nápoles, não é?

André Xina: Exato!

Francesco: Eu gostava de saber, no arco de um ano, assim… como é que esta pandemia acabou por afetar, digamos assim… a nível financeiro a tua vida de músico?

André Xina: Bom! Eu acho que no meu caso se calhar teve um impacto maior, digo assim… no meu caso foi maior porque acaba que eu dependo muito da minha… dos projetos que eu estou… que eu próprio colaboro ou que eu crio, ou seja, eu não tenho uma capacidade… vá! Técnica, ou se calhar eu não me permito na realidade, é mais isso! Não me permito a ser tão colaborador de projetos alheios, porque não me considero instrumentista, por exemplo, não é? Eu sou mais produtor e nos últimos anos dediquei-me muito a produzir os meus próprios trabalhos. Então naturalmente não me consegui desdobrar neste ano em projetos ou iniciativas de outros colegas, não é? De outros músicos, mas eu acho que mais por uma questão na realidade de necessidade emocional de estar sozinho! De estar sozinho e na realidade de refletir e de repensar o que é que para mim é isto! O que é que para mim é música, o que é que para mim é arte, o que é que… quais são os meus desejos, as minhas necessidades e espectativas em relação a esta forma de expressão digamos espiritual, não é? E então eu acho que aproveitei um pouco a minha facilidade por exemplo de ter… de ficar numa casa de família no sul de Portugal e de poder ter menos preocupação ao nível financeiro, fiz também trabalhos, por exemplo, fiz trabalhos agrícolas no último ano que deram um encaixe financeiro em que eu também não tivesse que ter então esta necessidade de fazer trabalhos artísticos, que provavelmente eu não estaria com a sensação de os concretizar. Então, este ano para mim, eu considero que foi um ano muito produtivo, porque eu me dei a conhecer outras formas de criar. Eu acho que era um pouco essa a minha curiosidade, de estudar mais, de pesquisar mais, de sair da minha zona de conforto ao nível criativo. Eu estava já a sentir as minhas formulas um pouco já… bom! Já reconhecíveis para mim mesmo, então de ter a vontade de criar novos desafios e isso logicamente se desdobrou em novas escutas, em novos trabalhos, especialmente na área da música experimental, que era uma área que eu nunca tinha tido qualquer tipo de interesse, ou se calhar tinha um certo preconceito… e pronto! E agora eu me dei a… numa forma muito natural, a conhecer artistas que me deram uma nova consciência ao nível do que é que é criar, de estar mais desprendido também neste estágio, não é? E isso foi muito bom porque eu acho que se relaciona com o momento do agora, não é? Com a forma como eu acho que se calhar nós, na comunidade artística, temos que estar um pouco mais desprendidos dos naturais… ou dos constrangimentos que agora estão a dominar todos os sectores, não é? Na sociedade, mas também ao nível da expressão, não é? Ou seja, nós… de certa forma, a nossa liberdade de expressão está condicionada e eu acho que a arte que consegue de uma certa forma visionária, nos dizer que caminho é que também a gente pode prosseguir e um caminho… ele que seja um caminho justo, não é? Um caminho harmonioso desprendido de ansiedades ou de preocupações sobre, ao nível económico, não é? Ao nível de aspetos que nos põem reféns, põem a nossa natureza refém, não é? Então eu acho que este ano teve este aspeto económico muito fragilizado, mas num plano mais digamos etéreo, num plano mais criativo foi um momento de descoberta, pronto! É isso, então para mim foi um ano muito positivo! Considero!

Francesco: Interessante! A nível portanto de criatividade, estiveste a criar novas…  a procurar novas linguagens, novas formas de compor, de criar durante este tempo… e tiveste a oportunidade de tocar ao vivo ao longo do ano? Todas as datas que tinhas, foram canceladas?

André Xina: Não! As datas que eu tinha, a partida foram canceladas e ao mesmo tempo eu não projetei novas datas, eu não… eu na realidade, é engraçado, eu na realidade este ano… no início da… depois de termos voltado de Itália, eu criei uma certa aversão em tocar ao vivo, porque estava a por em causa muitas coisas: uma é a nova forma de tocar ao vivo, era algo que para mim estava… eu tinha assistido ao vosso concerto, não é?  Do projeto que tu participas, dos Ayom, eu tinha visto o vosso concerto que é um concerto com uma temperatura elevada e eu senti que estava tão arrefecido, não é de uma forma muito consciente, por questões de Covid e distanciamento e tudo mais, que isto me gerou aversão, no sentido assim… não era algo que… não é uma experiência justa entre o artista e o expectador! É uma coisa que está… em que ninguém ganha, não é? É claro que… como é que eu hei de dizer, é uma… há uma consolação ali, claro, não é? Todos nós estamos a ser consolados! O artista porque sente então que está a prestar o seu serviço, que é aquilo que sente que nasceu para fazer, para servir, não é? Para servir ao nível artístico, está também a ter o seu retorno financeiro, justo! Mas… também o expectador se sente consolado com uma sensação… vá! Com a transmissão, mas perde-se… há alguma coisa que se perde neste… entre estes dois lugares, alguma coisa se está a perder e se nós começarmos a normalizar isso, não sei! Eu acho que… eu não fico tão preocupado porque a arte sempre foi um veículo de resistência e é como água, não é? Que se infiltra no lugar e encontra o seu caminho, então eu não fico muito preocupado com o que vem ai, ao nível de resistência, mas agora acho que vamos passar por um período de normalização que não faz justiça em relação ao poder que a arte tem de nos afetar enquanto seres humanos, enquanto sociedade, não é? Enquanto forma de gerar uma consciência… vá! Positiva em relação a isto! Porque eu acho que nós os artistas, se calhar somos pessoas mal vistas na sociedade, mal vistas no sentido assim… vistos sempre como uns outsiders, ou como alguém que não é produtivo dentro desta lógica de mercado, não é? Desta lógica, do que é que é uma sociedade em crescimento, não é? Mas no fundo sempre fomos e sempre seremos na realidade os visionários em relação ao que é uma sociedade justa, o que é uma sociedade que… em que nós conseguimos viver em harmonia, conseguimos viver com toda a diversidade de pensamentos, conseguimos então viver em paz! Eu acho que a arte tem este poder de gerar contextos pacíficos e pode ser que dentro de pouco tempo, se calhar a nossa geração ainda não vai apreciar isto , mas dentro de pouco tempo a arte será assim o leme da consciência de evolução ao nível da sociedade e tudo mais, ou seja vai ser um lugar em que os políticos, em que todas aquelas pessoas que estão a comandar, não é? O mundo, verá que é a partir da arte que a gente consegue então descobrir novos mundos, eu acho que é um pouco isto! Mas ainda estamos num lugar em que nós incluem como… mais como entretainers, não é? Como pessoas que estão a olear esta maquina do entretenimento, do que propriamente apreciarmos a arte como uma forma de gerar mais profundidade ao nível de consciência humana, não é? Acho que é um pouco isso!

Francesco: Dito isto e estou perfeitamente de acordo contigo, perde-se algo na

performance ao vivo e não sabemos quando voltará eventualmente a ser o que era, mas desenvolvem-se novas formas, novos formatos de performance entre os quais o live streaming que teve um boom logo em Março e Abril, todo o mundo fazendo vídeos com telemóveis, apresentações de repertórios, músicas, performances. Vejo e reparo que cada um tem uma ideia diferenciada em relação a estes novos formatos, mas eu penso: qual então neste campo a estratégia dos músicos para sobreviverem pelo menos durante este período e manter… ou digamos assim… ativar o seu papel social de músico… transmitir, comunicar?

André Xina: Sim! Claro que não se pode subestimar ou contestar as ferramentas que agora são possíveis de transmissão. Elas tem que ser ativadas e há pessoas que se calhar tem mais evolução ou mais destreza para lidar com as tecnologias e depois temos muitos artistas, artistas que se calhar tem mais, como é que eu hei de dizer… se calhar o discurso destes artistas é já um discurso muito importante de ser apreciado e se calhar não tem tanta capacidade de lidarem com um ambiente que é um ambiente novo para todos nós, não é? Nós claro que vivemos numa sociedade moderna e vamos sempre acompanhando a evolução especialmente tecnológica e relacionada com a comunicação, não é? Mas há pessoas que realmente não têm isso, ou por uma questão de aversão, por não sentirem-se confortáveis com isso, ou porque simplesmente não… é algo que

lhes transcende… mas eu acho que sim! Acho que não há agora uma alternativa em relação a isso, então cada um tem que fazer o possível para se adequar e para conseguir sobreviver. Eu, no meu caso por exemplo, eu não fico tão… eu não fico muito com essa vontade de mergulhar neste lugar, bom! Para já porque acho que estou numa fase criativa em que se calhar a vontade que eu quero ter ao nível de partilha pressupõe outro tipo de projeção sonora, que faz com que se calhar o fator presença é muito importante e os média neste aspeto, eles serão sempre um cartão de visita ao nível de experiência musical, porque por uma questão prática… a projeção, ela retrai muito o campo, o espectro sonoro! Por exemplo no teu caso, tu és contrabaixista… eu acho que os gadgets e tudo mais, eles são realmente injustos para os baixistas e para formas sonoras que necessitam de ter então uma projeção mais ampla, não é? Ao nível sonoro! Eu por exemplo, epá! Eu vou este verão se possível fazer novamente trabalhos agrícolas, de forma em que eu consiga fazer aquilo que eu acho que se calhar agora é importante para todos nós artistas, que é aproveitar este momento de suspensão para gerarem profundidade criativa de… gerarem espaços em que possam ter respostas emocionais em relação a este momento, das suas vidas e não necessariamente o que se está a passar no mundo, mas o que se está a passar no seu mundo, não é? E da gente ter então um momento em que possamos então falar aquilo que a gente precisa realmente de falar, totalmente desconectado com coisas que nós possam prender a nossa respiração criativa, digamos assim! Eu acho que este é o momento precioso para isso, como na altura do renascimento, não é? Em que era a altura mesmo da idade das trevas e saíram obras magníficas e eu acho que de certa forma prever então esta opressão e haver inevitavelmente uma condução desta energia, não é? Que depois ela pode ser traduzida em arte ou em outra coisa qualquer. As pessoas precisam neste momento, sejam considerados artistas ou não, as pessoas precisam de se expressar, as pessoas precisam de criar, tal como Agostinho da Silva dizia, não é? O homem nasceu para criar! E é isso que eu acho que agora é importante nós termo consciência! Todos nós humanos! A gente precisa de criar e de dar espaço para isto! Há um lado material que ele precisa de ser energizado, precisamos de comer, precisamos de sobreviver, cada um de nós tem de arranjar as suas formas de sobrevivência, mas aquela que eu acho importantíssima enquanto responsabilidade nossa neste mundo, é de criarmos qualquer coisa que seja: seja um poema, seja o que quer que seja, isso é que é o mais importante para que a gente consiga novamente, como disse antes, a gente consiga realmente projetar um mundo que a gente está a idealizar e não ficar uma coisa reprimida no nosso consciente coletivo, não é? Mas seja uma coisa que a gente realmente consiga partilhá-lo e de repente encontrar pessoas que estão também a pensar da mesma forma de que nós! Nem que seja pelo exercício de a gente não achar que estamos a pensar sozinhos, mas a gente ter a sensação que estamos sim a pensar na mesma coisa e começarmos então a criar, vá! Micro pátrias de consciência e depois vermos o que é que isto eventualmente vai se materializar! Eu acho que a nossa geração, será uma geração de… martirizada neste aspecto, mas a gente tem de pensar nos nossos filhos, temos de pensar nos nossos netos, não é? De certa forma temos que pensar no futuro que… pode ser que numa próxima vida, para quem acredita nisso, pode ser que a gente ainda depois tire proveito disso, deste investimento, acho que é isso, assim!

Francesco: E em termos de criação, seguramente desde 2020 e eu sei que criaste várias coisas, entre os quais um disco que saiu e eu gostava de alegar a esta entrevista alguma das tuas músicas para quem vai depois ouvir, poderá ouvir exatamente uma das criações deste último período, depois podes aconselhar nós pelo menos duas musiquinhas e comentá-las!

André Xina: Ok! Eu este ano, eu criei um projeto novo que é o Nzungu, que na língua Kimwuani, que é uma língua falada a Norte de Moçambique, em Cabo Delgado, que até inclusive recentemente está numa situação… não! Já está numa situação assim há muitos anos, mas agora ganhou uma certa visibilidade porque morreram brancos… de certa forma é um pouco isso! Mas é “branco”, “Nzungu” quer dizer “branco” na língua de Kimwuani e é um projeto que se complementa com Hakwai, que significa preto na língua cantonense e que são os dois projetos que para mim se completam entre si e no qual eu me sinto pleno, não é? Hakwai se calhar é uma coisa mais eletrónica, mais clubbing, digamos assim, que é um lado meu de vontade de remisturar e de ter… de fazer música mais estilizada e Nzungu é mais experimental, mais totalmente desprendido, são então isso que eu disse antes, são impulsos de… emocionais em que eu depois de certa forma, deixo que eles sejam como tem que ser, as músicas são muito cruas e eu sinto que elas são assim, que elas não precisam de uma certa maquilhagem, que acho que de certa forma tenho aptidão para fazer isso, não é? É uma coisa que eu gosto imenso de fazer, é de ser muito detalhista em relação a uma parte de edição, na parte de mixagem e tudo mais e com este projeto é o oposto, é uma coisa em que eu deixo que seja mais cru, não é? E é por isto eu sinto que é mais verdadeiro!

Então, lancei agora um trabalho que na realidade foi gravado em Itália! O que… que era na altura da pandemia, eu gravei muito piano lá na casa do Antonino, o piano vertical que ele tinha, pelo menos gostava de ir lá e de tocar e eu… coincidentemente ou de uma forma distraída, digamos… eu punha a gravar com o meu telemóvel, rascunhos sem nenhuma pretensão e depois a dada altura percebi que teria algum trabalho com uma certa narrativa e então depois gravei com os microfones que a gente tinha na altura disponíveis. Eu gravei antes de irmos embora, no dia anterior, antes de apanharmos o avião de volta para Portugal, eu gravei algumas ideias e depois quando cheguei a Portugal… e pensava eu que ia fazer uma coisa novamente assim, eletrónica, masterizado… até se calhar ia ser um trip hop com piano e não sei o que… nanana…! Na realidade comecei a brincar com os pedais que eu tinha e comecei a ter outra relação com aquela matéria e a perceber que se calhar aquilo era um discurso muito mais sincero, do que eu fazer uma coisa num lugar comum, bom! Uma coisa que eu se calhar já sabia o resultado antes de o acionar… já sabia para onde é que este processo iria se diluir. Então eu me propus a algo que na realidade era… ia ser algo imprevisível, porque estar a fazer processamento de sinal, através de pedaleiras e de resampling e de saturação de sinal, não é? E de sobre posicionamento, gera de repente situações… lugares inusitados, lugares que a gente nem sabe por onde é que aquilo vai nós levar… e eu gostei muito desta

sensação de conduta muito natural, também perceber aonde é que está o recado… vá! Do próprio processo tecnológico, não é? Onde é que também a tecnologia me leva e não achar-me mestre, como é que eu hei de dizer, ou dominador do processo, mas deixar que as diferentes forças implícitas, discursassem! Ou seja que fosse o próprio mecanismo tecnológico, fossem as próprias pedaleiras, fosse até a própria matéria… perceber o que é que estava para além disso, não é? Ou seja… propus-me ali como… mais como… às vezes como uma mosca na parede, às vezes como alguém que simplesmente conduz mas que não interfere, simplesmente intervém, não é? Fazer um pouco uns exercícios que me levaram para lugares muito interessantes, levaram-me inclusive a de repente conhecer artistas que eu jamais iria imaginar que queria ouvir e tudo por uma questão de coincidência entre aspas, não é? Por uma questão inevitável, se calhar de contacto! E isso foi para mim muito bom, mesmo a nível de pesquisar, ao nível técnico, ao nível físico do som, não é de… ao nível poético do som e isto para mim foi tudo muito bom, porque fui tudo sem estratégia e sem eu querer premeditar e simplesmente por estar numa situação solitária e de necessidade de crescer, de continuar a crescer dentro de aquilo que é a minha vocação, não é? Mas isto foi muito bom, eu sinto-me contente por isto. E agora, vou lançar o novo trabalho em que tu vais participar e é um trabalho… este projeto Nzungu, é para mim um projeto que neste momento precisa de ser energizado por uma questão de afirmação em relação àquilo que é o momento atual para todos nós, mas especialmente para aquilo que é o meu momento pessoal. Então é um projeto que vou desdobrar depois a nível performáticos e perceber como é que… que diálogo é que também vai surgir de ai, porque ele vive muito da improvisação, da espontaneidade, então eu sei que este lado performático ele depois tem outros ingredientes implícitos, não é? E então eu estou curioso para perceber este novo passo, percebendo também os constrangimentos em relação a isso, em relação à performance mas… é uma coisa que eu não estou assim tão preocupado agora…

Francesco: e duas música, dois títulos…?

André Xina: Dois títulos? Se calhar… eu diria… o “Frémitos I” e o “Frémitos II”, serão esses dois! Apesar de que eles não refletem o trabalho por inteiro, porque é um trabalho que tem uma narrativa muito própria, com seus altos e baixos a nível de intensidade, a nível emocional, mas estes dois trabalhos são… eu considero-os o coração do disco, eles estão no meio, há de ser a faixa… se não me engano a 4 e a 5, não sei! Penso que sim, que é a 4 e a 5! Eles são o coração do trabalho e eles acho que refletem aquilo que realmente que o trabalho refletisse… estas duas! É um discurso denso e ao mesmo tempo, com uma certa carga de ansiedade, que refletem muito o que foi… o que se passou na Itália e o que se passou posteriormente na fase mais de edição também, acho que estas duas músicas realmente são para mim, são o disco! É isso!

Francesco: Muito obrigado Xina, vou te fazer a última pergunta que relaciona-se mais ao terreno, ou seja à questão outra vez financeira… queria só saber rapidamente se tiveste algum apoio do governo, se tens algumas espectativas da política em relação ao sector artístico e podemos…

André Xina: …ok! Em relação ao apoio do governo, com o Projeto Xafu a gente teve um apoio da ajuda emergencial, que na realidade depois a gente traduziu este apoio para um outro projeto que de repente nasceu e foi um projeto que de repente nasceu e foi um projeto que… bom! Felizmente apareceu, nem que fosse para a gente conseguir materializar “Altre”, não é? Este projeto que eu acho que é um projeto muito verdadeiro e que será muito interessante então concretizá-lo! Doutros apoios eu estou a tentar concorrer, não é? Para a GDA ou pelo menos para aqueles que são acessíveis, estou mais interessado na realidade em residências internacionais e é este o meu… mais o meu foco, vai ser mais neste aspecto e no mais… quero na realidade também arranjar outros tipos de trabalho, não necessariamente conectados com a música para que eu tenha todo o a vontade e todo o relax em criar da forma mais tranquila e genuína possível! E então é isto! Basicamente é esse o meu momento, não estou tão preocupado em relação aos apoios, apesar de que eu acho que eles têm que existir e muito mais, eu acho que as percentagens dadas para a cultura e para… o investimento feito por parte do governo, ele se calhar é curto e ele se calhar pode ser feito de outras formas, com iniciativas… com as entidades privadas, podem ser feitos outros tipos de editais e outros tipos de incentivos que podem se calhar gerar oportunidades que de momento, ainda estamos se calhar ainda sem perceber como gerar mecanismos de circulação financeira e de investimento cultural, ainda… e se calhar que esta crise pode então gerar pontos de reflexão, como… por exemplo: tu já tiveste um debate com o líder de um partido, pronto! São coisas que agora estão surgir numa forma  de oportunidade, de necessidade e então eu estou crente que vamos ter novas formas de investimento cultural!

Francesco: Muito obrigado Xina, o teu contributo é fantástico, ótimo, vai ser de ajuda seja a mim e está sendo agora que… a outras pessoas, eu espero! Pelas perspetivas que nos apresentaste, portanto agradeço mais uma vez, grande Xina, obrigado!

Projeto Ágora: Entrevista com Jabu Morales(16/04/2021)

Jabu Morales (Aloise Felippe Morales De Melo), é cantora, percussionista, compositora e arranjadora. É originária de Minas gerais (Brasil) e mudou-se para Barcelona em 2008, onde se tornou uma líder no cenário da música popular brasileira. Seus vários projetos pop brasileiros incluem Tambor de Saia e Mandacaru. Lançou dois discos à solo como compositora e intérprete: “Jabú” e “Malungo”. Jabu combina a sua herança musical rítmica com todas as influências que acumulou ao longo da sua trajetória artística. O seu último projeto intitulado “Ayom”, nasceu da colaboração com outros artistas que compartilham a mesma paixão pela música popular afro-latina e brasileira.

Em resposta à situação de atual emergência devida à pandemia do COVID-19 e à necessidade de promover iniciativas que possam avaliar e atenuar o impacto no âmbito das artes performativas, investigar os efeitos da crise, com enfoque no sector da música, documentar as estratégias aplicadas pelos artistas nas suas atividades criativas e de performance, o Projeto Ágora convida Jabu Morales, para compreender os efeitos provocados pela crise sanitária, quer no nível individual, quer no âmbito do sector cultural em Portugal.

Francesco: Olá Jabu, bem-vinda aqui nestas conversas do Projeto Ágora, aqui numa paisagem maravilhosa lisboeta!

Jabu Morales: Belíssimo!

Francesco: Lusitana… estou muito contente de poder conversar contigo sobre algumas questões. Em primeiro lugar, se te puderes apresentar…

Jabu Morales: bom dia! Eu sou a Jabu Morales, eu sou compositora, cantora e percussionista. Eu sou de Belo Horizonte, Minas Gerais, mas eu moro há 12 anos em Barcelona!

Francesco: Perfeito! Barcelona… aqui pertinho, ao mesmo tempo longe…

Jabu Morales: …é!

Francesco: Queria saber, por exemplo: viveste este período todo em Espanha, portanto é interessante também perceber o que é que aconteceu aqui ao lado. Na tua carreira exatamente… digamos assim… de cantora, música… também és performer de percussões e tens vários grupos lá, como é que viveste esta altura desde Março 2020 e qual o impacto financeiro?

Jabu Morales: O impacto financeiro foi uma absoluta suspensão! Antes da pandemia eu tinha uma dinâmica laboral de um projeto semanal na cidade, que era o Madame Baião, que era um grupo de forro, que a gente se apresentava semanalmente e no verão eu saia viajar com Ayom! Era mais ou menos esta a dinâmica e com a pandemia, o forro acabou! Foi a primeira coisa que teve que ser suspendida… as minha aulas de maracatu também tiveram que parar e a gente ainda conseguiu com Ayom fazer algumas coisas no verão [2020], mas tudo sem perspetiva. Foi de repente esta fonte de renda e de ingresso que eu tinha, foi suspendido! Um pouquinho a gente fez no verão e afortunadamente no fim do ano eu consegui uma ajuda… uma ajuda não! Os meus direitos de compositora, entrou um dinheiro que eu não esperava então também deu uma certa aliviada. E um pouco antes da pandemia, a gente conseguiu realizar um festival de forro, que acontece anualmente, que é um festival que a gente faz, chama-se Festival Sereia! Então a gente fez a última edição no começo de Fevereiro e veio a pandemia. Então eu acho que nos primeiros meses eu ainda fiquei coando este restinho de vida e de trocas e na verdade eu não pensei muito… eu acho que não parei assim no começo, eu segui a inércia que eu vinha, a gente decidiu gravar… lançar o disco que a gente tinha gravado neste momento da pandemia, então a gente foi encontrando coisas para seguir vivendo à densidade do que estava rolando, sem saber quando ia terminar, mas tentando manter à vista alta, o foco alto para seguir meio… ali com um horizonte um pouco utópico e seguir caminhando, não entrar nessa… porque era um momento de muita dúvida! Eu acho que a dúvida que tem um efeito nocivo, assim na… na criação e nos projetos, porque você fica paralisado, você não assume nem a derrota, nem a abundancia, você fica nessa…

Francesco: …num limbo…

Jabu Morales: …é!

Francesco: E essa decisão de lançar o disco foi forte, conheço muitos grupos e muitos músicos que tem disco pronto e estão aguentando, está tudo na gaveta…

Jabu Morales: …é! Foi uma decisão meio assim, foi tipo uma escolha: a nossa manager na altura pontuou isso, quanto a… que era uma altura meio difícil que… geralmente as pessoas pensam o lançamento com um plantio para colher… na tour, na hora de você circular isso que acabou de lançar. E a gente iria plantar, mas ia colher sabe-se quando e esse tempo também podia passar, muitas coisas podiam dar errado…

Francesco: …sim!

Jabu Morales: Mas a gente teve sorte e conseguiu tecer assim um equipe massa e um assessor de imprensa legal e conseguimos manter isso alto e finalmente foi uma jogada boa, que o disco teve reconhecimento e ficou reverberando muito tempo, foi meio uma… um jornalista inglês, a gente fez uma entrevista da Songlines, e ele falou… fez uma descrição muito linda assim, da sensação que ele tinha quando ele ouvia, que era mesmo um sol que aparecia e esquentava os corações e trazia assim uma coisa muito positiva neste momento tão difícil, tão duro, tão inesperado que a gente vivia!

Francesco: Então a música vem também como um momento digamos… de ajuda para as pessoas…

Jabu Morales: …acho que foi assim para mim neste momento… esta reflexão que todo o mundo fez, não é? O que é que é realmente necessário? Assim… nos primeiros meses de pandemia… o que é que você precisa para viver? Mesmo… e papel higiénico foi visto que a humanidade toda precisa… farinha… era engraçado nos primeiros meses, acabava a farinha nos supermercados… e música? E arte? Ressignificar toda a angustia, toda a dor, toda a dificuldade, colocar… reformular isto para fora, por isto para fora, olhar de outra perspetiva! Eu acho que a música e a arte no geral… ficou claríssimo e explícito que é de facto saúde mental, assim! É uma coisa que é vital para você manter o barco? Acho que é manter, levando… acolher a tristeza e a angustia, mas manter… assim! E penso também que a rotina me ajudou… eu acho que o fato de ter que estar com os meus filhos, mantendo as coisas mais ou menos em marcha com a coisa da escolinha online, que uma época foi… e fazer as comidas e manter essa coisa na casa, foi bem importante para que eu pudesse viver as angustias e todos os processos assim, mas num acordo, assim… tudo bem! Venha! É legitima a angustia, mas depois você vai que ter que ir embora porque eu preciso de fazer o almoço! Assim…

Francesco: …exato!

Jabu Morales: Então não! Ela não me afogava, era um acordo: te recebo crise! Eu te recebo, caos! Mas a vida precisa continuar, vamos tentar encontrar o nosso passo e seguir essa dança!

Francesco: Portanto, neste processo de lançamento do disco, a criatividade e as ideias foi sempre animando o espírito…

Jabu Morales: …a criatividade e as ideias, elas foram sempre mantendo o barco andando, sim! Eu estava com Alberto, o meu companheiro, então a gente conseguia manter isto vivo e estar sempre cantando, compondo, criando, esboçando alguma coisa, pensando alguma maneira de seguir em movimento, seguir criando, mesmo que a gente não tivesse ainda claro qual era a finalidade do que a gente estava criando, era simplesmente criar para existir!

Francesco: Para existir! Fantástico! E em relação… depois no verão de 2020, depois do primeiro confinamento chegaste a fazer alguns concertos em tournée internacional?

Jabu Morales: Fizemos, a gente fez acho que 15 concertos, alguma coisa assim. Na Itália a gente trabalhou um pouco, na Suíça e surpreendentemente no reveillon, no momento em que estava tudo louco, a gente fez um show nas Maldivas, que foi tipo mesmo uma manifestação de que pequenas pérolas, pequenos milagres acontecem!

Francesco: Ou seja, foram uma das bandas mais afortunadas que eu conheço…

Jabu Morales: …gente! Foi tipo… parecia um conto, parecia que era mentira, até acontecer assim… era mais inusitado e impossível e especialmente neste momento, era mesmo uma gotinha de milagre.

Francesco: E… me interessava saber, nestes concertos, por exemplo no princípio do verão de 2020 e durante o verão, foi tudo feito no regime digamos assim de restrições, distanciamento social, máscara… como é que viveste isso como performer e como é que sentiste com o público?

Jabu Morales: Foi! Foi tudo… então! Eu acho que agora vão vir os desafios, porque me dá a sensação que quando vem uma situação muito extrema, muito aguda… todo o mundo ativa o modo de sobrevivência e a coisa… você soluciona porque não tem o que fazer e ai com a persistência desse quadro é que você vai se dando conta… a energia vai baixando, não é? E você vai se dando conta do desafio. Na altura em que a gente fez os shows, tinha distanciamento e todo o mundo de mascara, sentado… mas as pessoas estavam tão sedentas desta descarga de energia, que ficava todo o mundo saciado. Eu acho que agora vai vir a fase mais difícil, que é: esta realidade se estabeleceu! É essa! Como eles falam na Espanha: “es lo que hay!”. Então é agora que vai ser o desafio de você seguir comunicando com o público, seguir apresentando uma música que é solar e é de festa mas tendo em consideração que agora a premissa é que as pessoas vão estar sentadas, que tem este distanciamento, que vai ter que ter uma comunicação diferente. Eu penso que o desafio, ele ainda está por vir!

Francesco: É incrível! Porque isto, é claro, prolonga-se e durará ainda algum tempo e é por isto que interessa saber a mim e penso também aos que vão ouvir estas conversas, como é que… as estratégias… é? Como é que podemos nós organizar e ver como, ou seja… abordar a performance ao vivo neste quadro histórico. Em relação, por exemplo a toda a atividade que houve nos concertos de live streaming, tudo no computador… a música, até os festivais estão aplicando este formato… fizeste alguma coisa?

Jabu Morales: A gente fez alguns festivais, mas a gente… os shows que a gente reproduziu eles foram shows que a gente gravou no começo da pandemia, então as exibições eram ao vivo, mas a transmissão foi numa circunstância de streaming. Na verdade eu acho que eu preciso muito aprender, porque é uma maneira de se seguir que me desafia muito, porque não é sempre que eu consigo conectar com isso, então eu enquanto consumidora questiono como é que seria… como é que eu lido com isto, se eu consumo isto, se isto me pega… eu consigo ligar o computador e servir uma copa de vinho e de verdade… assim ver aquilo… assim?

Francesco: Curtir o concerto? Exato!

Jabu Morales: Ou não, eu fico mais analisando se… bom, enfim! Para mim é uma, eu acho que vou ter que também me empenhar para aprender a encontrar a maneira de eu me expressar, que siga sendo legitima para mim e que… porque ao mesmo tempo esta possibilidade que amplia, não é? Eu tenho amigos que são professores de música e que depois desta pandemia, surpreendentemente conseguiram um alcance muito maior de alunos e um ritmo… uma carga semanal de trabalho que eles não tinham quando… antes da pandemia! Então são essas duas outras faces que vão dialogando, não é?

Francesco: Ou seja pode ser uma ferramenta útil, mas para a performance teremos que ver como é que vai evoluir…

Jabu Morales: …na necessidade vai revelando assim… abordagens que a gente não tinha se dado conta ainda. Esta coisa do live, ela de facto é a que mais me desafia porque essa energia que te chega quando você decide ver uma música ao vivo, isto você não reproduz com vídeo! É outro lugar, não é? É outra coisa que te alimenta e não esta bomba, este canal direto assim quando você vê uma banda que estão ali os 5 alinhados energeticamente, todo o mundo te mandando uma carga de energia. Com a tela você não consegue, você vai por outras coisas e eu acho que é um aprendizado… eu acho que a gente está vivendo uma era muito intensa, que de aqui a uns dez anos a gente vai olhar para atrás e vai falar: caramba! Revolução wifi foi nesta, não é? Assim… igual…

Francesco: …naqueles meses…

Jabu Morales: …tiveram muitas revoluções… de todos os tipos: tecnológica, a revolução que são uns marcos para a história! Eu acho que a gente está vivendo uma, que de aqui a uns anos a gente vai se dar conta…

Francesco: …ou veremos, por exemplo alguns live streamings feitos no zoom com telemóveis, com qualidade péssima de áudio e… nós poderemos eventualmente rir das condições em que fizemos isso…

Jabu Morales: …até isso! Das tecnologias que vão surgindo, não é? Tinha este desafio, de conseguir fazer lives… e músicos em diferentes partes, que tinha latência e ai não tinha solução e ai pintou… uma vez um músico de São Paulo, parece que eu vi divulgando uma live que ele tinha feito com um amigo em outra casa e tinham conseguido um técnico que desenvolveu uma coisa lá para diminuir a latência e eles finalmente conseguiram. Estas coisas agora são todos experimentos e de aqui a uns anos vão ser assim, ah! Come on é só girar a tela para essa função…

Francesco: …exato!

Jabu Morales: E você elimina a latência!

Francesco: Portanto… estamos num período exatamente assim, de perguntas e questões… como é que vai ser de aqui a uns anos? Ninguém sabe mas estamos no caminho de uma revolução digital!

Jabu Morales: Estamos dentro dela, dentro do furacão…

Francesco: …obrigado Jabu! Queria saber se neste processo de Março 2020 até hoje recebeste algum apoio em Espanha de artista?

Jabu Morales: Eu recebi, tinha uma ajuda emergencial para os artistas, mas eu… você tinha que ter quotizado “x” horas e eu fiquei no mínimo, então recebi uma ajuda quase que irrisória assim… um café! Eu consegui mais no final, agora… em Fevereiro de 2021 uma ajuda, mas não por ser artista, uma ajuda emergencial para famílias, pela unidade familiar e um ano depois da pandemia… de fato eu não sobrevivi neste período com ajudas do governo, eu sobrevivi com ajudas do meu circuito de convivência, não é? O meu companheiro, o pai dos meus filhos, a gente foi se ajustando e deu para sobreviver, mas governamental… não! Não pude!

Francesco: E tens alguma espectativa, depois… considerando este período como um período de reset… “zero”, alguma espectativa da política em relação ao sector artístico, esperas alguma mudança? Alguma melhoria? Melhoramento?

Jabu Morales: Olha! Eu acho que neste momento assim… eu encontro que o discurso é um pouco… tem umas coisas mais urgentes, mais emergentes para cuidar, pensando que com toda a penúria, com toda a dificuldade que eu passei, eu vivi isso num lugar privilegiado: eu tinha o que comer. Quando vem a crise, acontece um pouco isso assim… sinto que por parte dos governos, pelo menos na Espanha é assim, mais urgente as pessoas sobreviverem, terem o que comer, terem onde dormir e terem toda a estrutura necessária para viver ou as enfermidades, ou despedir um parente. Então quase que a arte, esse foco nisso… é como se fosse uma coisa secundária assim… é mesmo uma briga: quem tem voz de decidir alguma coisa ou de colocar uma pressão, são mesmo sectores que mercantilizam e comercializam a cultura! Então eu vejo os restaurantes a hotelaria, se posicionando no sentido de seguir vendendo copas, vendendo jantares e tal… mas a arte como a manifestação “carro chefe”? Eu não vejo ser contemplada não! Eu percebo que ainda tem muito caminho!

Francesco: Há muito caminho para fazer! Obrigado Jabu! Muito obrigado pelo contributo e queria só saber se durante este período, justamente lançaste um disco, se podes nos aconselhar duas músicas, uma ou duas, para nós alegar aqui e para o público poder ouvir-te cantar e tocar!

Jabu Morales: Neste período? Duas músicas? Eu acho que “Exu” que é uma música que abre os caminhos e para a gente foi mesmo… o momento em que a gente decidiu lançar, as coisas começaram a acontecer e um pouquinho de doçura: “Maré e o Luar” para as pessoas conseguirem sorrir um pouco

e desligar de toda esta densidade que a gente está vivendo!

Francesco: Obrigado! Estão as duas no disco do Ayom…?

Jabu Morales: Estão as duas no disco, dá para ouvir na sua plataforma digital preferida, spotify, youtube, deezer, soundcloud, bandcamp…

Francesco: perfeito! Gracias, muchas gracias, obrigado e muito obrigado, grazie e mille!

Jabu Morales: Obrigado a você, Francesco!

Lançamentos de Maio de 2022

Projeto Ágora: Entrevista com Sérgio Milhano (15/04/2021)

Sérgio Milhano estudou na Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo do Porto. Tem trabalhado em diversos projetos ligados ao teatro, à dança, à música e ao cinema. Na música destaca-se a sua colaboração com grupos como Deolinda, Ana Moura, Aline Frazão, Lura, Tcheka, Mafalda Arnauth, Melech Mechaya, entre outros. Foi coordenador de audiovisuais do Maria Matos Teatro Municipal até Outubro de 2007 e atualmente trabalha com o Teatro O Bando e com a Companhia Olga Roriz. Em 2009 fundou a Pontozurca, criando uma editora discográfica, um estúdio de gravação e uma estrutura de produção e direção técnica nas várias áreas das artes performativas. Em 2018 complementa a estrutura da Pontozurca, abrindo a Drogaria Central Loja de Discos (Almada).

Em resposta à situação de atual emergência devida à pandemia do COVID-19 e à necessidade de promover iniciativas que possam avaliar e atenuar o impacto no âmbito das artes performativas, investigar os efeitos da crise, com enfoque no sector da música, documentar as estratégias aplicadas pelos artistas nas suas atividades criativas e de performance, o Projeto Ágora convida Sérgio Milhano, para compreender os efeitos provocados pela crise sanitária, quer no nível individual, quer no âmbito do sector cultural em Portugal.

Francesco: Boa tarde grande Sérgio, obrigado por ter aceite este convite de falar aqui nestas conversas Ágora e estou muito contente de verdade estou seguro que o teu contributo vai ser muito útil, podes te apresentar se quiseres…

Sérgio Milhano: ok, obrigado eu pelo convite! Pronto, o meu nome é Sérgio Milhano, sou técnico de som, produtor, trabalho com música, com dança, com teatro, sempre na área do som, fundei a Ponto Zurca acerca de 12 anos, que é um estudo profissional de gravação e mistura de som. É também uma editora discográfica e pronto! E agora há três anos iniciamos um projeto numa loja de discos, também em Almada, chamada Drogaria Central e pronto acho que é… por estas coisas todas, que te lembraste de mim, não é? De fazer estas perguntas…

Francesco: …sim! Sobretudo porque lidas com muitos músicos, muitas bandas e deves ter uma visão geral do panorama, mais ampla provavelmente de muitos outros músicos que tocam em 2/3/4 projetos… lidas com muitas pessoas!

Sérgio Milhano: Sim! Exato, se calhar estou nesta posição, não é privilegiada, mas é diferente de um músico, não é? Porque trabalho com muitos projetos diferentes e no meu caso concreto pode ser útil a minha experiência, no sentido que eu trabalho não só com música, mas trabalho também muito com teatro e com a dança contemporânea, assim também um pezinho às vezes a fazer uma coisa de cinema, ou teatro, ou televisão, mas com teatro e com música trabalho, com teatro música e dança trabalho mesmo quase na mesma proporção…

Francesco: …ok, exato!

Sérgio Milhano: Por tanto isto pode ajudar a dar uma visão mais alargada do…

Francesco: …então, exato! Vamos tentar abordar a questão de um ponto de vista geral e se puderes também reduzir ao teu caso individual, enquanto digamos assim gerente de um estudo de gravação, queria saber o impacto financeiro desta pandemia desde o princípio, desde Março 2020, foi devastador imagino… ou se puderes comentar um bocadinho isso…

Sérgio Milhano: …sim! Foi um impacto…. sim! Foi mesmo, um forte impacto negativo não só ao nível do estúdio, mas principalmente ao nível da atividade que eu enquanto técnico e o estúdio enquanto direção técnica de um rol grande ainda de projetos, de repente… um ano que… ainda por cima, isto é uma… falo com várias pessoas e já tive esta conversa e acho que até, não é só na área da música, é em vária áreas. Portugal vivia uns tempos muito de esperança e de… havia muito turismo e havia muita coisa a acontecer em Portugal e havia… falava-se e falava com várias pessoas e toda a gente achava que 2020 ia ser um ano de record, íamos trabalhar imenso, havia imensos… por exemplo na minha área, havia imensos festivais de música, de teatro, o estúdio estava super bem… os calendários do estúdio estavam super ocupados, eu tinha imensos colaboradores a trabalhar comigo já, por causa da divisão de trabalho, porque na Ponto Zurca somos dois, temos um produtor também residente que é o João, mas pronto somo três pessoas basicamente que trabalham aqui diariamente no estúdio, mas havia trabalho para muito mais, portanto isto estava… assim… era assim um… estava muito interessante o trabalho aqui e de repente, pronto! Com o lockdown parou tudo, sem… o início foi assustador! Eu lembro-me que… acho que foi eu… foi toda a gente, tu nem sabias muito bem, tu não conseguias raciocinar, não é? Tu não conseguias perceber… ok! Isto vai durar 15 dias, isto vai durar 15 meses, isto vai durar 15 anos? Quer dizer, ainda ninguém sabe, não é? Mas então no início, havia assim… eu pelo menos, no meu caso senti isso: havia assim uma certa… quase impotência de raciocinar e tomar decisões, porque foi tão repentino e foi tão drástico, que foi… eu lembro-me que tive um dos melhores Fevereiros da minha vida, em termos de trabalho e graças a este ótimo Fevereiro, eu tive capacidade de não desesperar financeiramente logo em Março, logo no primeiro mês de paragem. E então lembro-me perfeitamente de dizer, epá fogo! Felizmente tive… fiz uma tournée com a Ana Moura em França de algumas 10 datas, fui substituir um colega meu e fiz por ai umas 6 datas de Dead Combo… neste mês de Fevereiro e ainda trabalhei no estúdio, portanto se pensarmos que o mês de Fevereiro tem 28 dias, eu com 10 mais 6, são logo 16 dias de trabalho bom! E depois ainda fiz umas coisinhas no estúdio e tinha o estúdio a trabalhar com outras pessoas, portanto foi de facto um mês de Fevereiro muito bom! Isto para dizer… mas depois tinha imensas atividades que eu começava, projetos de teatro, de dança, concertos, gravações no estúdio, de repente ficou tudo… pronto! Como já é sabido e como toda a gente já deve dizer, ficou tudo parado! Pronto, financeiramente foi um susto muito grande, que está a ser ainda… depois começaram a sair os apoios, os… e pronto! Qua ainda… toda esta política dos apoios, não vou dizer que é confusa, mas é… mas não tem chegado acho eu de maneira… as coisas não acontecem da maneira que é anunciada, portanto quem vê as noticias acha: ok! Está a chegar imenso dinheiro à cultura! Ok, as câmaras estão a pagar 50% dos concertos adiados! Mas isto não é regra, existem no meu caso concreto, posso dizer que foram mais as exceções do que as regras, portanto foram mais os concertos que foram adiados ou cancelados e que eu não recebi nada do que propriamente os que eu recebi aliás, acho que tenho dedos na mão para contar os que recebi, até acho que numa mão só consigo contar todos os que recebi e posso dizer que perdi… eu na altura fiz a contagem, portanto de Março até Setembro [2020], porque se pensava que o primeiro lockdown maior seria até Setembro, eu tinha acerca de 80 datas canceladas, portanto essas datas… destas 80 posso dizer que devo ter feito por aí umas 8 ou 10, que já foram reagendadas e que foram naquele período em que se conseguia trabalhar…

Francesco: …que foi Julho, Agosto… não…

Sérgio Milhano: …foi Setembro e Outubro, eu lembro-me que ainda fiz… por exemplo no caso da dança, ainda conseguimos repor por ai uns 4/5 espetáculos da Olga Roriz, da Companhia da Olga Roriz e esse foi um caso dos… que até conseguimos repor algumas coisas e que eu recebi os dinheiros todos, mas na música principalmente foi… eu até digo, foi criminoso! Porque com uma lei que é tão direta e é tão explicita e que eu não sendo “legista” consigo ler e consigo interpretar e perceber, não percebo como é que é possível as câmaras não assumirem as suas responsabilidades e não pagarem aos técnicos, aos músicos? Há uma outra coisa que me preocupa imenso que é… porque lido com estas pessoas, são pessoas que me são muito próximas que… se alguns artistas e músicos ainda receberam o dinheiro de algumas compensações destas, se alguns técnicos ainda receberam o dinheiro, as empresas que fornecem os equipamentos, muitas vezes as adjudicações dos trabalhos são muito perto do evento, tu contratas o artista e se calhar com seis meses de antecedência, mas a empresa que vão fornecer o equipamento, por vezes são adjudicações muito mais perto e então…

Francesco: …elas não tinham contrato…

Sérgio Milhano: …estas empresas não tinham contratos feitos, ainda não se sabia quem iria fazer, portanto… este dinheiro estava destinado para esta parte, não é? Do orçamento que é o aluguer do equipamento… e pronto! Estou muito próximo a muitas pessoas dessas, que estão com as empresas com armazéns gigantes, com investimentos brutais, com leasings gigantes de equipamento, que contavam com as festas de verão, com os festivais e que receberam zero… pronto! E como muitos tem moratórias nos bancos, mas que as moratórias vão acabar, não é? E o equipamento continua lá e não foi… portanto…

Francesco: …um panorama bastante…

Sérgio Milhano: …sim! E nós não sabemos quando é que vai voltar… esta… eu percebo tudo, não é? É fácil perceber o que está a acontecer e é fácil perceber que não se consegue fazer previsões, não é? Sei lá, ainda hoje parece que vai haver esta comunicação, mas estamos sempre a falar em 15 dias, porque… ou seja: vamos abrir os teatros segunda feira! Mas a garantia que temos é que os teatros se abrirem segunda feira, vão estar abertos durante 15 dias, de aqui a 15 dias vamos decidir se continuam abertos ou se voltam a fechar… e é muito difícil programar e fazer uma programação, sei lá… de itinerância, de tournée, não é? Como é que se programa uma tournée, mesmo dentro de Portugal, já nem falo no internacional, como é que se programa uma tournée com esta indecisão? Vamos arrancar agora e de aqui a oito dias paramos? E depois quando é que retomamos outra vez? Temos que fazer ensaios novamente com os músicos, portanto há todo um investimento, há toda uma… há todo um mecanismo de como estas coisas funcionam que me parece a mim que… ou as pessoas decidem… não conhecem este mecanismo ou então não querem saber e pronto! Ambas são preocupantes, mas… e depois, penso mesmo que devia haver uma política mais inteligente de… ou mais dedicada, portanto… é isto! Era preciso maior conhecimento do que é a nossa área…

Francesco: …e toda a logística que é envolvida…

Sérgio Milhano: …certo! Para poder tomar decisões adaptadas a esta realidade, uma realidade… eu percebo que é muito difícil, mas os apoios tem que ser conduzidos para a realidade de cada área: a hotelaria terá as suas, sei lá… a medicina terá… a saúde terá as suas, a ciência terá as suas, o desporto terá as suas! Eu falo daquilo que eu conheço e que é o meu meio, de facto, nós na área cultural… existem particularidades desta área que penso que não estão muito protegidas nesta política de apoios gerais e eu falo das pessoas que estão à minha volta e que estão a passar mesmo muitas dificuldades. Felizmente e a propósito da tua pergunta inicial também, desviei-me um bocadinho, houve um impacto… o impacto maior… pronto! O impacto… como é que eu hei de dizer? Logo, logo… aquando do primeiro confinamento, portanto está agora a fazer um ano… não é?

Francesco: Já passou um ano…

Sérgio Milhano: …já passou?

Francesco: Um ano e meio… um ano e três meses…

Sérgio Milhano: …aí em Março do ano passado, aí o impacto foi… pronto! Foi um desligar de tudo, não é? Mas eu pronto, eu não… eu acho que esse primeiro mês, primeiro mês e meio não serve bem de… estava toda a gente perdida! Mas depois a partir de aí, a única coisa que eu sinto que conseguimos recuperar e retomar, ainda que de uma forma débil…

Francesco: …não a pleno ritmo…

Sérgio Milhano: …mas que conseguimos retomar, conseguimos trabalhar e tem sido um bocadinho à base do sustento da Ponto Zurca, é! Foi o estúdio! Portanto… e a loja de discos, que também dentro do que é o modelo do comércio de pequena escala, porque é uma loja pequena, onde só podem estar duas pessoas na loja, porque é uma loja pequena… mas foi abrindo e voltou a uma certa normalidade. O estúdio demorou mais tempo mas em Junho, Julho, conseguimos voltar a uma normalidade no estúdio felizmente… porque temos… trabalhamos com muitas pessoas, temos… felizmente temos uma procura grande também de trabalho e embora não estamos em overbooking e não estamos a trabalhar, mas conseguimos retomar… pronto! Conseguimos manter as coisas e ter uma… e garantir alguma sustentabilidade. Agora, tudo o que é espetáculos ao vivo… que era uma área bastante forte, se vamos a falar do impacte financeiro… porque o estúdio, como é que eu hei de dizer, o estúdio se bem que pode ter até algum income, não é? Obviamente que tem o income da diária que os artistas pagam para estar no estúdio, o estúdio tem… é muito pesado logisticamente… de manter: compramos os equipamentos, a manutenção dos equipamentos, pronto! Portanto é uma maquina, pronto! Complicada de sustentar… e o estúdio já tem uma certa dimensão e obriga mesmo a que haja este trabalho regular… felizmente este trabalho a partir de Julho, principalmente até agora… tem se mantido, sendo que este último confinamento, eu senti uma quebra maior…

Francesco: …em relação ao primeiro?

Sérgio Milhano: Em relação ao primeiro, porque sinto que mesmo os artistas maiores com quem trabalho que no primeiro confinamento, até podemos dizer que aproveitaram para gravar, porque vinham com um income de concertos regular e disseram, olha: se calhar agora é uma boa altura para se gravar e para se parar, porque também pensavam que esta paragem ia ser… aquele que todos pensávamos, não é? No início, ah! Isto de aqui… eu lembro-me que no primeiro… quando paramos, dizia-se que logo nesse verão já ia estar toda a gente vacinada e que já vinha a vacina, não é? E que aquilo era uma coisa de dois ou três meses e voltávamos à normalidade… aliás ainda se discutia se ia haver festivais de verão neste ano [2020]… e depois quando se percebeu que isto afinal não era assim, não é? Agora já se discute: será que vai haver festivais… este ano [2021], portanto um ano e meio depois… portanto! E agora mesmo estes artistas maiores, eu já sinto que mesmo estes já estão com algum, não vou dizer… não sei se são dificuldades financeiras, mas que já olham de outra maneira para os investimentos e também porque existe aquele receio, isto mais na música… de lançar um disco agora e não o poder apresentar ao vivo, portanto…

Francesco: …e não ter aquele retorno de datas, de tournées…

Sérgio Milhano: …de não ter retorno! As coisas hoje são muito rápidas, tu não consegues ter um disco e estar um ano e meio depois… com… este disco! Já não é novo para o público, ou pelo menos para quem manda na cena musical e por isso, há aquela coisa dos tempos modernos de seis em seis meses tens de sair com um single novo, isto falando daquela área mais pop, não é? Mais comercial! Então, com isto parado os artistas também recuaram um pouco e dizem, epá… se calhar, vou gravar agora, mas para que? Para lançar de aqui a um ano? Então, parece que também estão a atrasar um bocadinho este processo. O último disco que eu gravei antes do confinamento, portanto… estamos a falar de um disco que foi gravado em Novembro/Dezembro de 2019, saiu este mês! Foi o disco da Gisela João

Francesco: ah! Da Gisela, passou um ano e quase e meio…

Sérgio Milhano: …o disco foi gravado mesmo no limite do confinamento, acabou de ser misturado ali no inicio do confinamento, mas depois só sai agora! Portanto isto é um caso… pronto! O disco da Gisela é um caso de… por exemplo, de um disco que ficou… penso eu, eu não estou dentro do processo, não é? Mas este tempo penso que se deve precisamente a essa… uma certa, mesmo os mais profissionais managers da nossa… do mundo… toda a gente foi apanhada de surpresa e há uma nova maneira de, como é que eu hei de dizer… de lidar com isso!

Francesco: Perspetivar?

Sérgio Milhano: Perspetivar… de… como é que agimos agora? Não é? Aquilo que falávamos um bocadinho antes de começar esta entrevista, que é isto agora do streaming, não é? Isto de repente passou para à frente de tudo, parece que é a coisa mais importante do mundo e dantes era apenas usado por alguns, não é? E de repente passou a ser a ferramenta principal da divulgação de tudo, da música, do teatro, da dança…

Francesco: …até de orquestra sinfónica…

Sérgio Milhano: …até de orquestra! Peças a serem tocadas com as pessoas em confinamento em casa, não é? Descobriu-se um novo… há uma nova cena, há um novo mundo digital, chamemos lhe assim, que… pronto! Que eu acho que serve para… como é que eu hei de dizer? Serve para dar respostas a estes tempos, mas que sem duvida vai deixar marcas para…

Francesco: …no mercado?

Sérgio Milhano: No mercado e na maneira de como as pessoas ouvem música, veem espetáculos… neste momento, aqui a minha pergunta, a minha duvida… e porque estou… faço também parte da produção de um ciclo de música e por exemplo, neste caso o ciclo de música que nós produzimos, que se chama…

Francesco: …que se chama?

Sérgio Milhano:  O “Há Música na Casa da Cerca” que vamos este ano 2021 fazer a 7ª edição, portanto começamos há sete anos atrás. O ano passado tínhamos, portanto 2020, tínhamos acabado de fechar a programação, porque isto é feito em parceria com a Casa da Cerca, que é um Centro  de Arte Contemporânea em Almada e com a Câmara de Almada e tínhamos acabado de fechar a programação no final de Fevereiro…

Francesco: …um pouco antes…

Sérgio Milhano: …um pouco antes, tínhamos as datas, porque é sempre no último sábado de cada mês, nos meses de Maio a Setembro e há dois concertos nas exposições que são feitos antes, em Março e Abril. E tínhamos acabado de fechar esta programação precisamente no final de Fevereiro, não me lembro do dia, mas lembro que foi antes do final de Fevereiro e no dia… o primeiro concerto seria… não em Março deste ano, mas sim em Abril, seriam dois em Abril e estávamos ali a ver as melhores datas para fechar definitivamente as datas de Março, quando no dia 12 se percebe que isto muda tudo, não é? E pronto! E na altura a primeira… os primeiros pensamentos… foi… ok! Vamos ter que cancelar… internamente aqui na Ponto Zurca fizemos um exercício de perceber como é que podíamos não deixar cair o projeto, porque eu achava que parar um ano era  parar! Interromper um habito que já havia no público e é muito difícil criar estes hábitos no público, porque isto é uma programação que traz à cidade um outro tipo de artistas, uma coisa se calhar menos mediática, menos mainstream, mas que eu penso ser de grande qualidade e que traz um novo conteúdo para um novo público! É a minha ideia: é a ideia que nós temos deste ciclo é levar pessoas que não estão habit… que se calhar não tem ainda aquele chamamento de comprar um bilhete para ir ao teatro ver um concerto, através de uma programação gratuita num sitio lindíssimo, com um jardim, vão ter vontade de ir ver e criar este habito nas pessoas e ir educando o público. E ao mesmo tempo também, trazer um público diferente do próprio público da banda que é aquele que já é público do artista e que comprou o bilhete, portanto é aqui… pronto! Um bocadinho tentar puxar a coisa, mas… mas isto para dizer que ficamos… pronto! Parar seria terrível e depois surgiu uma ideia que não é de todo original… e que é de toda a gente, que foi: ok! Se não podemos ter público, então vamos fazer streaming! Nos abdicamos do live streaming, porque eu tecnicamente… eu estou muito ligado à parte técnica destas coisas, acho sempre que o live streaming para ser feito na qualidade que eu gosto de ter nas coisas que produzo, obrigaria a um investimento financeiro que não era suportável, então… e uma vez que temos todos estes recursos do estúdio, o que eu pensei foi: para quem vê em casa, estar a ver direto, ou estar a ver em diferido, não creio que tenha… que faça uma grande diferença, também porque havia esta incerteza de quando é que se podia

sair, quando é que não se podia sair, quando é que estava mesmo fechado, quando é que não podíamos ter público, mas podíamos estar 10 pessoas a filmar, então o que nós fizemos foi: assim que tivemos a oportunidade de uma pequena abertura, na vida normal entre aspas, nesta nova vida normal, decidimos filmar tudo de seguida, pós produzir…

Francesco: …todos os concertos?

Sérgio Milhano: Todos os concertos, pós produzir… e os concertos saiam na data anunciada inicialmente na programação…

Francesco: …sem ser exatamente em streaming

Sérgio Milhano: ….sem ser o streaming direto… isto permitia-nos melhorar a cor do vídeo, melhorar a edição, misturar em estúdio, corrigir algumas coisas, pronto e elevarmos se calhar um bocadinho, penso eu, a fasquia do produto e com isto conseguimos também fazer as transmissões com media partners! Tivemos o ano passado a RTP África, o Público, o Jornal do Público e a Antena 2, porque tentamos direcionar o tipo de artista, tentamos encaixar numa plataforma que nós parecia mais adequada a este artista, pronto! E fizemos três com o Público, dois com… não, três com o Público, um com a Antena 2 e um com a RTP África. Este ano já fizemos um também, ainda sem público, um bocadinho no formato do ano passado, porque foi agora em Março, foi o lançamento da programação…

Francesco: …mas o processo foi igual, gravar lá e depois pós produzir?

Sérgio Milhano: Certo! Este processo foi igual, no entanto vamos… o próximo é agora… este foi com o Bernardo Couto e com o Martin Sued e o próximo vai ser com o Mestre Galissa da kora. Em Maio nos queremos… acreditamos que já vamos ter público e ai vamos filmar com público e será transmitido no media partner uma semana depois. Portanto a data da apresentação live com público é uma e a data de transmissão é outra! Porque o que aprendemos do ano passado foi que não queremos de todo e acho mesmo que isso é um fantasma que está na cabeça de algumas pessoas e que não faz sentido, que é: o live streaming não vem substituir a vontade das pessoas a ir a uns concertos, quem tem vontade de ir ver um concerto… até porque é completamente diferente a experiência de ver um concerto ao vivo e presencial, de o ver através de uma câmara ou de um ecrã de um telemóvel ou de um computador, ou até na televisão, para quem tem os dispositivos, que pode ter para estar a ver o youtube e o facebook na televisão. Eu acho que, eu agora… ao mesmo tempo penso que… se calhar eu próprio tenho de admitir que percebi a grande ferramenta que é o streaming porque de repente não tenho medo de ter menos pessoas no concerto, porque estou a transmitir, mas sei que não posso ter, por exemplo… como depois… ainda por cima a internet dá-nos isso, não é? Nós conseguimos ver quem é que teve a ver o vídeo, não a pessoa em concreto mas conseguimos dizer que… por exemplo, eu consigo saber que tiveram duas pessoas no Japão, por exemplo, a ver o concerto e tiveram 30 ou 40, no caso do Nilson [Dourado] ou mais… já não lembro, em Maio a ver do Brasil, porque ele é um artista brasileiro e essas pessoas nunca viriam a ver o concerto em Almada, estando no Brasil! E é ali que nós pusemos, através do streaming, conseguimos aproximar as pessoas, conseguimos levar esse público…

Francesco: …este público global…

Sérgio Milhano: …há pouco tempo, fiz um streaming com a Olga Roriz e falava-se… era um streaming pago, onde as pessoas pagavam o bilhete, era… e era engraçado porque conseguimos perceber que estavam a comprar os bilhetes de vários países espalhados pelo mundo fora e sei que a produção teve vários contactos, por exemplo, de produtores de festivais que estavam a comprar os bilhetes para ver a estreia da peça. Portanto, isto deixa-me pensar, por exemplo eu lembro-me que fui à Coreia do Sul com a Olga e por exemplo, se calhar o produtor de um festival de dança na Coreia do Sul pode estar a ver a peça no dia em que ela estreia, ou no dia a seguir, ou na semana a seguir, não tendo que fazer uma viagem à Europa para ver este espetáculo. Portanto, ele pode estar a ver essa peça e pode pensar em programá-la para o seu festival, portanto o streaming permite-nos de repente…

Francesco: …mas pode também ser, pelo contrário, que eles no lugar de contratar-te e comprar-te 15 bilhetes de avião para a Coreia, vão dizer, ok! Façam isto em streaming num teatro de Lisboa e transmitimos para o público da Coreia… que isto venha reduzir estas possibilidades de tournée, etc.?

Sérgio Milhano: Eu penso que… eu percebo a tua pergunta, pensei muito durante estes tempos nesta questão e isso é precisamente é apenas a minha opinião, mas a minha opinião é que esse é o fantasma que eu acho que não devemos ter, não podemos ter este medo! Porque? E agora, não quero parecer muito drástico na minha opinião, mas eu penso mesmo que o público, isto é um bocado parvo se calhar o que vou dizer, mas… às vezes apetece-me dizer que o público que fica satisfeito a ver um espetáculo de dança ou um concerto no telemóvel, não merece… não é este público que eu preciso ter nos meus concertos, porque eu acredito mesmo que é tão diferente a experiência, eu acho que uma coisa não vem substituir a outra…

Francesco: …sim, sim!

Sérgio Milhano: Eu acho que nem sequer é comparável, aqui há uns tempos tive uma conversa com um amigo, que se falava do caso por exemplo do futebol, não é? Com as mega transmissões que há na televisão e que se calhar muita gente diz, epá! Não, eu para ir para o estádio e não sei o que… com os 20 euros tenho o canal pago na televisão e vejo aqui ou até vou ao café e estou com os amigos e não sei o que… e eu acho que o futebol é um bocadinho diferente, porque é um jogo que na realidade o que interessa é o resultado, até podemos discutir, até se calhar vês melhor ali do que… vês melhor na televisão do que vês ao vivo…

Francesco: …mas não será nunca a mesma emoção que estar ali no estádio…

Sérgio Milhano: …mas nunca é a mesma emoção que estar ai no estádio! E as pessoas que realmente gostam de futebol, não trocam um café cheio com um ecrã gigante, ou o conforto do sofá de casa, por irem ao estádio ver o jogo! Por isto é que os jogos cada vez tem produções… investimentos de produção televisiva maiores e os estádios continuam cheios, porque as pessoas não deixam de ir aos estádios para ver! Agora… lá está! O que permite a transmissão televisiva é que se calhar o jogo esteja a ser visto no mundo inteiro e em vez de ter 60mil pessoas no estádio, tem 60mil milhões de pessoas espalhadas pelo mundo a ver o jogo. Portanto eu acho que a transmissão, não vai… não tem necessariamente que roubar as pessoas que tem a experiência no sitio, não vai tirar-te a possibilidade de tournée, mas eu penso mesmo que vai potenciar! Por isto também é que eu digo que quis fazer pós produção, porque acho que devemos ter muito cuidado com os conteúdos que colocamos, para mostrar o produto…

Francesco: …na sua melhor… potencialidade…

Sérgio Milhano: …na sua melhor… isso! Porque esse foi um dos problemas que eu senti na maneira de como foi abordada a questão do streaming: streamings com o telemóvel, ou com qualidade… eu acho que isto sim afasta o público! A pessoa diz: ah! mas a música do Manuel Maria é isto? Ah, então não quero ir ver!

Francesco: Exato!

Sérgio Milhano: Mas se, epá! Manuel Maria nunca ouvi falar e lhe chegar um vídeo… uau! A pessoa diz, epá! Quando este Manuel Maria passar aqui no teatro da minha cidade, eu quero ir ver! Que isto é bom! isto chamou-me a atenção! Portanto, eu acho que é assim que temos que olhar para isso! Por exemplo, outra coisa que eu não sei se fiz bem ou se fiz mal, eu acho que fiz bem se não, não tinha feito, mas por exemplo, nós… os concertos tem uma duração de uma hora normalmente… quando houve esta adaptação para streaming, nós cortamos a duração dos concertos para 30 minutos, porque eu penso que enquanto uma hora é extremamente prazeroso estar num jardim a ver um concerto, eu não acredito que seja muito prazeroso estar mais do que 20 minutos, 30… a olhar para um telemóvel… dentro do que é a tua vida caseira. Portanto, eu acho que também é preciso adequar os conteúdos, porque se ninguém vai ver o concerto todo e eu quero pensar no concerto como um todo! É como ver um filme, eu quero ver um filme do principio ao fim, não vou ver só a parte da ação, onde acontece a parte principal, não! Eu quero ler a história toda, eu não leio só 10 páginas do livro e digo que eu li o livro! Portanto eu, se quero ver o concerto… eu tenho que ver o concerto! Então nós alteramos o tempo do concerto para 30 minutos e este ano vamos fazer o mesmo: o concerto presencial tem uma hora, mas o transmitido só tem 30 minutos, não é porque queremos poupar na fita ou, não! É porque achamos mesmo que são produtos diferentes que devem ser trabalhados de forma diferente. Porque um não procura ser substituto do outro, são ferramentas diferentes… o conteúdo é o mesmo, não é? O conteúdo base é o mesmo, mas o produto é diferente, pronto! O som que se deve fazer para o streaming, não é necessariamente o som que se tem de fazer no live, tem que ser… é isto que eu acho que… é isto que me afastou dos live streamings… que é esta capacidade de… eu posso estar a fazer um grande som de streaming e o som no dia está muito mal, porque eu estou com uns auscultadores demasiado preocupado, como é que aquilo vai chegar à casa das pessoas… e viceversa: pode estar um grande som nos espaços, mas que não é adequado à transmissão, isto obrigaria a ter dois técnicos separados, a fazer uma e outra coisa, para garantir aquela qualidade que se pretende, ou então fazer em pós produção e não fazer em tempo real…

Francesco: …exato!

Sérgio Milhano: Pronto! É um bocadinho por ai, pronto! E agora estamos todos na espectativa que isto retome, não é? O mais cedo possível!

Francesco: Muito obrigado Sérgio, o teu contributo é ótimo até para todos os músicos que fizeram streaming e todos os músicos que entrevistei até agora, que… como tu disseste… têm uma ideia um pouco assim… do streaming, como se fosse um formato de performance que vem substituir a música ao vivo e ouvindo as tuas palavras realmente, poderá ser de ajuda para todos, para entender este novo formato como uma ferramenta para o futuro, até pelas estratégias futuras de marketing e de difusão de produtos novos…

Sérgio Milhano: …sim! E penso também que cabe a nós não deixarmos de, como é que eu hei de dizer… acho que parte do próprio músico e dos próprios técnicos e até do próprio público, fugir desta ideia de que uma coisa vem substituir a outra, até porque um dos… a rentabilização e eu percebo que é isto que assusta toda a gente, a rentabilidade ou a rentabilização, não sei qual é o nome técnico para isto, mas como é que nós conseguimos recuperar financeiramente o fruto do nosso trabalho através do streaming? É muito complicado e é isso também uma das grandes preocupações, não é? Porque… quer dizer, são os concertos de certa forma que te dão a sustentabilidade financeira e o streaming veio complicar bastante isso! Porque é muito difícil perceber ou há vários estudos destes exemplos, não é? De trabalhos que são streaming pago e normalmente as pessoas recuam, mas as pessoas… e isto para mim é a primeira prova que as pessoas não estão na disponibilidade ou na disposição de pagar para ver um streaming, mas estão para pagar para ver um concerto!

Francesco: Exato, sim!

Sérgio Milhano: Portanto, o próprio consumidor, agora esquecendo o lado de quem produz… o próprio consumidor já dá valores diferentes a uma coisa… ainda da valores bastantes diferentes a uma coisa e a outra! E isso pra mim é a prova que mesmo na cabeça das pessoas existe esta separação. Neste momento, não havendo uma… a outra pode ser pelo menos… manter-nos vivos de certa maneira e educar o público também, se calhar através de crowd fundings e de aquelas coisas que as pessoas participam com o que querem, não é? E há casos até espetaculares de pessoas que conseguiram angariar bastante dinheiro com os seus concertos online. Acho é que quanto maior for a qualidade deste produto, também mais podes exigir ou mais podes esperar, que as pessoas estejam na disponibilidade de te oferecer, acho que sim!

Francesco: Ok! Sérgio muito obrigado por este contributo, foi um grande prazer falar contigo e foi de aprendizagem para mim também, para ver as coisas com uma perspetiva diferente…

Sérgio Milhano: …sim! É um pouco da minha maneira de ver tudo isto, não é? Não sei se é certa, sinceramente!

Francesco: Ok! Obrigado, Sérgio!

Sérgio Milhano: Nada!Um abraço!

Ululo “Poço” (2022)(single)

Projeto Ágora: entrevista com Márcio Silva (29/04/2021).

Entrevista com Márcio Silva (Edu Mundo) (29/04/2021)

Edu Mundo é o nome artístico de Márcio Silva, músico natural do Porto. Tocou bateria no grupo Reggae Souls of Fire, viola braguesa nos Diabo na Cruz e bateria nos Terrakota. Integra atualmente os Fogo Fogo, grupo de música de fusão com influências de Cabo Verde. Edu Mundo tem composto canções para outros artistas, destacando-se “Pantomineiro”, música que integra “Rua da Emenda”, de António Zambujo, e “Eu Entrego”, que faz parte do disco “Moura”, de Ana Moura. Edu Mundo canta no seu projeto à solo e em Cordel, grupo que lançou o seu primeiro álbum “Cordel” (2019) e que prepara o lançamento do novo álbum.

Em resposta à situação de atual emergência devida à pandemia do COVID-19 e à necessidade de promover iniciativas que possam avaliar e atenuar o impacto no âmbito das artes performativas, investigar os efeitos da crise, com enfoque no sector da música, documentar as estratégias aplicadas pelos artistas nas suas atividades criativas e de performance, o Projeto Ágora convida Márcio Silva, para compreender os efeitos provocados pela crise sanitária, quer no nível individual, quer no âmbito do sector cultural em Portugal.

Francesco: Bom dia caro Márcio Silva! Bem vindo aqui na esplanada…

Márcio Silva: …da Graça!

Francesco: Do bairro da Pena! A Graça está do outro lado, é um prazer ter te aqui, podias te apresentar em quatro frases, ou como quiseres… quem és?

Márcio Silva: Então! Eu chamo-me Márcio Silva, venho do Porto e basicamente sou um músico, compositor, que começou pela bateria, comecei por tocar bateria noutros projetos e depois mais tarde acabei por gostar da composição e da guitarra e de instrumentos harmónicos e passei a compor também, basicamente é esta a minha função!

Francesco: No mundo e na sociedade…

Márcio Silva: …não sei! Mas pelo menos sinto-me útil desta maneira!

Francesco: Que bom! Te convidei então a esta entrevista, já que passas por Lisboa, para falar de algumas coisas, já entrevistei outros músicos e interessa-me saber o impacto de toda esta história da pandemia, desde Março de 2020 até hoje, já passou mais de um ano. Estamos agora num período de ligeiro desconfinamento, mas tirando umas conclusões pelo momento atual que estamos a viver a pandemia teve um impacto sobre a tua vida… por exemplo a nível financeiro?

Márcio Silva: A pandemia mudou drasticamente o meu quotidiano, a maneira como eu vivia, tanto a música como a minha própria vida, porque o meu trabalho é sobretudo viajar para ir deslocar-me para um local e chegar lá e tocar ou dar música às pessoas daquele espaço. A partir do momento em que a pandemia se instalou e se propagou pelo país, eu perdi a possibilidade de fazer estas coisas, de poder viajar e deslocar-me para outro sítio e executar o meu trabalho. Então acabei por ficar… acabamos todos por ficar confinados à casa e em casa não dá! Só se faz a primeira parte do trabalho, que é compor ou produzir qualquer coisa, mas depois o trabalho de mostrar de escoar este trabalho, isso não acontece! Então claro que mudou drasticamente a minha vida, em termos práticos, nestas coisas efetivas de poder trabalhar ou não e isso consequentemente trouxe questões económicas, porque como eu não podia ir tocar, também não recebo destes concertos que não vou tocar e assim como eu… dezenas de pessoas, isto falando no ramo da música, mas se formos para o teatro é a mesma coisa, se formos para outros ramos é a mesma coisa! Afetou toda a gente nesta maneira, pelo facto de termos de ficar privados em casa, outras pessoas até gostaram porque não gostavam de ir trabalhar para o escritório e de repente puderam trabalhar em casa, a fazer a mesma coisa que faziam no escritório… fazer em casa… e muitas pessoas até… a vida até melhorou, até gostaram desse… dessa coisa!

Francesco: Do teletrabalho…

Márcio Silva: …mas para nós foi… para nós músicos e agentes culturais, foi um ano parado… congelado, foi uma congelação assim… e isto depois claro, teve vários efeitos, principalmente económicos, não é? Não aconteceu nada, 2020 toda a gente estava a projetar assim um ano incrível, toda a gente cheia de projetos e não sei o que…

Francesco: …te aconteceu de pensar alguma vez de mudar de trabalho ou ter que procurar outra coisa, para sobreviver a este zero absoluto?

Márcio Silva: Sabes que esta sempre foi a minha… eu sempre imaginei que ser músico era trabalhar em muitas coisas, porque gostar de música muitas vezes é não conseguir viver da música! E eu para poder viver de fazer música ou fazer aquilo que eu gosto tinha que… sempre tive que trabalhar e fazer biscates em outras coisas: trabalhar numa loja de roupa, ou trabalhar num… já trabalhei na Porto Editora, trabalhar… assim! Biscates, coisas do inverno, que são normalmente as temporadas onde nós não trabalhamos, se não estivermos a gravar discos, então para mim já é normal estar a trabalhar numa coisa que depois me vai ajudar a pagar o investimento da música. Felizmente nesta pandemia não tive de fazer isso, mas comecei a fazer outras coisas para ocupar a cabeça, nomeadamente plantar, plantar legumes e flores e coisas do género, porque no sitio onde eu estava tinha um campo onde eu podia fazer estas coisas, então… acabei por trabalhar mais por ocupar a cabeça, do que propriamente para tirar dinheiro e… porque felizmente tive a possibilidade de juntar antes da pandemia, no início do ano eu decidi reunir todos os ganhos do verão passado, então a pandemia foi passada com esse bolo e preocupei-me só em existir! Mas ao mesmo tempo a ver uma vida paralela ali na agenda do meu telemóvel a ver que… acordar e dizer e ver que o telemóvel dizia… hoje tocas na Galiza!

Francesco: A mim também aconteceu..

Márcio Silva: …e perceberes que aquilo é um avatar, é uma coisa que é paralelo que não vai acontecer e tu estás confinado em casa! Pronto, então é… tem essa dicotomia que é uma coisa nova, nunca ninguém pelo menos na minha geração tinha vivido uma coisa dessas, a não ser que fosse obrigado pelos pais a ficar em casa!

Francesco: Exato! E em termos de… neste período… em termos de trabalho criativo, conseguiste te dedicar à música, na composição e na criação ou o confinamento em casa também te bloqueou em algum período?

Márcio Silva: É engraçado que instrumentistas e malta… pelo menos eu falo da área que eu conheço, instrumentistas e malta compositores, já são pessoas que têm obrigação de passar muito tempo sozinhos, porque a composição obriga a ficar muito tempo sozinho. O estudo do instrumento, seja ele qual for… se a pessoa for dedicada vai ter que passar muito tempo sozinho agarrada àquilo… então isso já é uma espécie de quarentena! Muitas vezes, quando estamos a gravar um disco ou quando vamos de residência artística, ficamos uma semana, duas semanas dentro de uma casa só a trabalhar um projeto e isto é uma coisa vista como normal… mas como não está o mundo a dizer: tens que ficar em casa! Ninguém sente esta pressão, mas nós já fazemos esta quarentena! Eu pelo menos fico muitas vezes… enquanto a música não chega ou está ali e eu já descobri um riff qualquer, mas a música ainda não chegou, eu fico de pijama três ou quatro dias ali a trabalhar, a repetir, a pousar… depois vou fazer um café e volto e pego outra vez e já saiu mais qualquer coisa e às vezes isso demora. Ou seja, para mim

a cena de estar em casa e passar assim alguns dias em casa, já era uma coisa normal! Para mim? Já era uma coisa normal! Agora imagina o que não deve ter sido para aquelas pessoas que precisam de horas para coisas… trabalhar, às 8 horas vou ao dentista, às 10h vou sair e vou buscar o miúdo à escola e depois vamos… há pessoas que precisam destes ganchos, destas pressões do horário e para estas pessoas é que foi realmente um desequilíbrio. Eu consegui compor porque eu olho para a composição um bocado como um escape ao meu aborrecimento! Quando me sinto aborrecido é a melhor altura para eu compor. Quando estou super excitado e com vontade de fazer muita coisa a probabilidade de compor vai sair sempre… é sempre qualquer coisa que me vai servir a mim como pessoa, vou fazer uma música para uma coisa que eu quero! Enquanto eu estou aborrecido, eu não tenho bem um tema! Sai aquilo porque eu estou aborrecido… é quase um escape, uma função para combater o meu aborrecimento!

Francesco: Um aborrecimento inspirador…?

Márcio Silva: Sim! E então na quarentena foi perfeito porque eu estava aborrecido constantemente, só que obviamente o foco da composição é um… mas o foco, há outros focos que eu por exemplo na quarentena não consegui… não consegui ler muito, apesar de ter o tempo todo e estar tudo ali para mim, eu não consegui ler muito! Porque depois havia outras coisas que desligavam… há sempre aquelas questões que estão num plano de fundo, quanto tempo é que vamos ficar aqui? Será que isto vai durar? Será que eu vou apanhar esta coisa? Será que eu vou passar esta coisa aos meus mais velhos? E essa sensação de uma certa culpa, de um inimigo invisível, porque de repente nós estamos a lutar contra um inimigo invisível! A gente não sabe se estamos a apanhar, se não estamos a apanhar. Então estas questões eram todas muito novas e todos nós estávamos com um certo melindre, estávamos com um certo medo de que essa coisa… que fossemos nós a personagem principal de um cenário apocalíptico, porque também depois os médias põem as coisas nestes termos, então toda a gente estava com muito medo de muita coisa, ainda por cima eu passei a quarentena com pessoas muito mais velhas e eu senti esta responsabilidade de poder ir à mercearia e chegar e matar o meu… então estas preocupações de plano de fundo, nunca me deixaram ficar sossegado ao ponto de eu me por a ler

o “Siddartha”, ou por me a ler o Herman Hesse, ou por me a ler algum…

Francesco: …a cabeça livre para…

Márcio Silva: …a cabeça livre para fazer… e limpa! Porque está sempre com aquela preocupação em pano de fundo, de que estamos a viver uma doença…

Francesco: …e esta preocupação entrou nas tuas letras ou na tua música de alguma forma??

Márcio Silva: Sim!

Francesco: Se bem dissimulada… eventualmente…

Márcio Silva: …eu a quarentena, aproveitei para fazer uma coisa um bocadinho diferente daquilo que me é natural. Eu normalmente escrevo sobre coisas que estão fora de mim, raramente escrevo sobre o que eu estou a pensar das coisas. Apesar de eu na letra estar a dizer que eu estou a pensar qualquer coisa, estou normalmente a vestir-me dentro de uma personagem. E esse “Eu” que a letra está a falar, não é… não está ligado com a pessoa que eu sou! Às vezes eu estou a dizer na música: ah! Eu penso isso… mas não sou eu, é uma personagem que eu vesti… e na quarentena decidi de ter opinião, como compositor, decidi por o meu “Eu” lá dentro, então tenho uma data de canções que servem de diário. Por exemplo “O efeito de uma asa de animal”, é um bocado a falar disso! Basicamente é alguém que trincou uma asa de morcego na China e aquilo… este efeito dominó, depois com coisas meias de paradoxo… é pegar em coisas meia de paradoxo, do género: de repente as pessoas têm todas que se fechar em casa e a preocupação máxima é ter papel higiénico, em vez de ter comida! Ou de repente as pessoas que estão habituadas e que não sabem fazer comida e que sempre encomendaram comida, agora o empregado de mesa é o estafeta, já não existe empregado de mesa, é o estafeta! É a pessoa que leva à casa… então são estes pequenos, eu reparei nestes pequenos paradoxos, na maneira como as pessoas tentam se libertar destas prisões impostas, para continuar os seus costumes, como se os seus costumes fossem mais importantes do que estas flexibilidades que ainda são importantes ter… quando aparece uma doença, um terramoto, uma coisa qualquer. Então, aí eu decidi dar uma opinião pessoal, ter uma opinião pessoal sobre a coisa, coisa que nunca tinha acontecido, então é mais uma espécie de diário…

Francesco: …de diário de bordo…

Márcio Silva: …mas lá está! É uma coisa que eu tive que me adaptar, porque não estou habituado a escrever… eu a dizer coisas, eu Márcio Silva a dizer: olha, agora vou vos dizer o que eu acho sobre as montanhas! E desta vez começou a acontecer isso!

Francesco: Era provavelmente… e é uma altura em que a nossa opinião conta

alguma coisa, não é? Porque é algo que estamos a viver de excecional, assim de diferente…

Márcio Silva: …sim é totalmente novo! Não há… aconteceu há cem anos atrás de alguma maneira, de algum modo parecido, mas não havia este fluxo de informação que agora existe! Na altura em que apareceu a gripe espanhola, provavelmente o que acontecia na Malásia ficava na Malásia! E de repente hoje em dia, o que acontece na Malásia tu tens… está no noticiário!

Francesco: E no teu telemóvel…

Márcio Silva: …no minuto seguinte!

Francesco: Exato!

Márcio Silva: E já há essa sensação do que o que acontece, onde quer que seja no país, influencia-nos diretamente… e isso muda tudo, muda tudo porque nós temos noticias de tudo a toda hora e para o lado bom e para o lado mau! Então é um bocado isso, e… sim! É um bocado… é todo um novo mundo que está por descobrir e nós estamos encima do muro, no fundo! Porque vimos o que aconteceu até aqui… somo filhos da cassete e do cartucho de música, mas entretanto também apanhamos o walkman e o CD e o discman e agora vamos… já passou ao mp3 e já deixamos… a maior parte dos nossos filhos já não ouvem álbuns, já só ouvem singles e os singles que têm vídeo, se não tiver vídeo? Não existe! E nós estamos a viver esta coisa toda, somos a geração ou somos das gerações que está encima do muro, não tinha internet… os nossos filhos perguntam como é que nos vivíamos, como é que nos conseguíamos viver no meio das pedras?

Francesco: Sem telemóvel?

Márcio Silva: na gruta…

Francesco: …exatamente! Trouxeste aqui o discurso e a conversa num plano, onde eu queria também… uma direção para onde queria também chegar, que era a questão do futuro, não? Do que é que está acontecendo, do que vai ser também o nosso trabalho em termos de contextos performativos, formatos… estavas a falar exatamente do álbum, da música avulsa, das estratégias diferentes dos músicos…

Márcio Silva: …certo!

Francesco: Quando pensas nisto, o que é que te surge? Tendo em conta que hoje, exatamente o álbum quase já não tem mais sentido, os grupos dos músicos mais jovens fazem música avulsa, são contratados para criar músicas avulsas, com vídeos e grandes produções em youtube, views, etc. números…

Márcio Silva: eu acho que vão aumentar acima de tudo, ou sinto… não é uma coisa de achar, porque aqui no meio tem uma esperança! Óbvio, quando eu digo que eu acho… aqui no meio vai uma quantidade de esperança, que é: eu quero acreditar que vai acontecer assim! O que eu estou a sentir, é que vão aumentar as opções: quem gosta de álbuns, vai continuar a gostar de álbuns, porque ainda existem gerações que ouvem música assim, como se o álbum fosse um livro e cada música fosse um capítulo deste livro… e a primeira música faz sentido para contextualizar a última, apesar de hoje em dia, cada vez mais a sociedade imprime velocidade às coisas, ou seja nós não temos tempo para sentarmos num sofá e ouvir 50 minutos de música sem estar a fazer mais nada! É como se estivéssemos a perder o nosso tempo! E há uma certa parte da sociedade, principalmente a mais juvenil que imprime ou imprimem lhes esta velocidade ao ponto de eles não poderem perder muito tempo a ouvir um disco. E então eles seguem também este movimento, que é um movimento “pop” de fazer música avulsa, como tu dizes… tipo, o que interessa são os singles e é aquelas balas que batem ali e não as músicas que nem são single mas que de alguma maneira depois vão vestir todo o conceito e… eu acredito que se abrirem estas opções todas, pode-se tornar uma coisa mais justa em algumas coisas. Por exemplo, nós… a nossa sociedade é muito material, no sentido em que interessa-se muito pela beleza e que o artista tem que ser belo, o artista tem que ser bonito, perfeito! Não pode ter mono celha, ou não pode ter aquele bigodinho à Badaró, ou não pode ser obeso, ou não pode ser anorético… e de repente com esta história toda de termos que ficar em casa, já eu começo a ver amigos meus a tocarem em casa para plateias que estão lá do outro lado, pessoas que têm uns óculos virtuais e estão dentro de um café virtual e neste café virtual está o meu amigo a tocar! Provavelmente tem um câmara e uma aplicação que cortou toda a paisagem do quarto dele e pôs lá um palco, ele pode até estar a tocar no Evereste, se quiserem põem lá o que quiserem. Eu acredito que vão existir muitos músicos que vão por este caminho, um caminho paralelo, virtual, onde vão tocar para pessoas que estão do outro lado, em casa no seu conforto. Mas claro que vão existir pessoas que vão querer tocar in loco, mas eu sinto que vai abrir este caminho… da mesma maneira, começam a existir concertos dentro de jogos de… videojogos…

Francesco: …ah! Isto não sabia… como? Concertos dentro de videojogos?

Márcio Silva: Sim, agora o Fortnite, por exemplo, que é um jogo que teve uma aceitação global, mundial… no início da pandemia começou a juntar grandes marcas, grandes entidades discográficas, pagaram a… nem sei ao certo, mas a quem fez o Fortnite, criaram avatars para os artistas e as pessoas que queriam ver aquele concerto, aquele concerto estava publicitado e então, existe como se fosse uma base comunitária dentro do jogo, onde tu podes ir lá e interagir com outros avatares, não é? Para entrar no jogo, tens de criar uma personagem e bastava existires dentro desta plataforma e ias ver, acho que foi um hip hopper, um rapper que fez um concerto, onde ele a meio se transforma em dragão e depois desaparece e aparece como uma ave e sempre a tocar… a cantar neste caso! E eu olhei para aquilo e fiquei fascinado, porque de repente, um cego ou uma pessoa que perneta, ou maneta… que se calhar até ele tem uma voz inacreditável e sempre foi posto de lado, pela figura dele não representar esta perfeição, se calhar esta pessoa nesta situação vai ter uma oportunidade como todas as outras! Porque… se ele for um avatar, as pessoas vão reparar só naquilo que ele está a fazer, até podem reparar na figura dele, mas vai ser menos importante do que aquilo que ele está a fazer e de repente, ai vira meio anarca, não é? Eu posso querer ir cantar no palco em vez estar a ver a mim, estás a ver o Pikachu ou… então, neste aspecto eu acho que pode ser mais justo de… de repente, a malta que está no topo da pirâmide da música pop, tem que ser super lindo e tem que representar uma ideia de beleza, de um nicho qualquer. Eu acho que este portal, esta coisa de… lá está! Quando digo eu acho, quero acreditar que ao abrir este espectro para um campo virtual, demostre que os desafinados também tem coração! E que existem pessoas que se calhar têm muito talento , mas que não têm a figura que as pessoas estão habituadas… ah! Este é mesmo bonito, vou ouvir, vou dar uma oportunidade! E se calhar, pode ser que se encontrem muitos artistas que nunca teriam hipótese porque não têm aquela figura… mas isto é só, é… lá está… é um “eu acho” misturado com “espero que aconteça”! Claro que depois o dinheiro também entra aqui e obviamente que quem tem mais dinheiro vai produzir melhores avatares e aí entra outra vez naquela bola de neve que a gente já conhece. Mas eu olho para isto com um aspecto… de uma maneira positiva, porque tudo o que traz criatividade… que projeta criatividade ou que obriga, que instala de alguma maneira um ambiente instável ao ponto de nós podermos criar, eu acho isso sempre positivo! É o crisol… a crise, a separação dos metais e eu gosto destes momentos de ruptura 

porque é aí eu acho que os criativos sobrevivem sempre, porque apresentam novas soluções e apresentam novas maneiras… quem fica “rotinado” e quer forçar a rotina é que se torna inflexível de alguma maneira, agora para onde vai? Eu nem sabia que havia internet, quando saquei o primeiro disco dos Beatles até chorei, agora imagina para frente… uma pessoa nem sabe o que é que vai acontecer! Mas neste momento a cabeça está aberta a tudo, porque tudo pode acontecer, não faz a ideia… já dei um concerto a olhar para um telemóvel e tu também!

Francesco: O que é que, por exemplo… esta experiência de tocar… era um live streaming? Verdade? com Fogo Fogo, foi… ah! Foi também com outros projetos?

Márcio Silva: Sim… e toquei à solo também! Como eu só estava habituado a tocar com público e a ter a reação do público… é como se estivesse amputado… de repente estar a tocar e não ter aquela reação, mesmo quando é má! Quando as pessoas não gostam! E essa reação é importante para o artista, para o artista perceber se deve seguir naquela direção, ou se não deve seguir naquela direção. Quando o público está do outro lado, mas dum outro lado onde não se consegue percepcionar o que ele está a sentir, o que ele está a ver… porque num público a gente percebe, pelos olhares, pela dispersão, se as pessoas estão dispersas, se estão a conversar umas com as outras, nós acabamos sempre por ter este jogo de cintura de poder mudar o alinhamento, tentar buscar uma canção que provoque ou que… e quando estamos no telemóvel, só vemos um número… estão aqui 300 pessoas a ver e acaba a canção e… depois há outra coisa que é, o espaço onde nós tocamos é o nosso espaço, o nosso espaço intimo onde nós temos a possibilidade de errar! E o espaço do concerto é um espaço que dentro da cabeça é um espaço de função, de serviço, onde nós vamos lá cumprir o nosso trabalho e de repente estamos a misturar os dois espaços: eu tenho que estar em casa e esse mesmo espaço, é o espaço onde eu estou a dar concertos e a servir… e isso para mim é meio esquizofrénico, porque de repente acaba o concerto, eu poso a guitarra e vou à minha casa de banho e de repente vou à minha cozinha a fazer uns ovos estrelados e estou na mesma, no mesmo espaço físico que deveria ser um espaço de função e de serviço, eu tipo me deslocar até este sitio e ali vou fazer o meu melhor… e de repente eu estou a misturá-lo com o meu espaço de casa, o espaço de improviso, o espaço do erro e isso a mim foi a única coisa que me deixou assim meio… eh! Espera aí! Mas… estou a dar um concerto, mas é em casa? Mas em casa é aonde eu ensaio, onde eu erro, onde eu posso…

Francesco: …e de repente tens de fazer…

Márcio Silva: …e de repente, estou de desresponsabilizado porque eu em casa posso fazer heresias, posso de repente escrever o que eu quiser e aquilo fica ali dentro confinado e de repente misturam-se estes dois espaços: o espaço de serviço e o espaço de lazer e de intimidade. E então depois acontecem mais uma vez estes pequenos paradoxos, estas coisas da pessoa que têm um live streaming em casa e veste o fato só da cintura para cima…

Francesco: …e de baixo o pijama…

Márcio Silva: …e debaixo está o pijama e isto é possível acontecer, não é? Porque, pronto! E connosco acontece a mesma coisa, de repente darmos uns concertos e o concerto em casa, sem reação do público…

Francesco: …com um som às vezes duvidável, não é? Tipo o som do telemóvel, ou…

Márcio Silva: …a maior parte das vezes com som duvidável… e depois tem esta coisa, que pelo telemóvel é muito difícil ser-se fidedigno em termos de som! Mas as pessoas estão tão imediatas, que parece que é importante, mesmo sendo um som de merda, ter isso presente! E depois também percebe-se muito, percebeu-se muito com esta… claro que eu já estou a misturar uma data de assuntos, mas… percebeu-se nesta quarentena o lugar da cultura. Não existiram coisas que estavam em posições diferentes, dentro das prioridades de uma sociedade, que de repente por uma questão de justiça voltaram a ocupar o espaço que deviam ter… que devia ter sido ocupado sempre. O caso da medicina por exemplo, que nós temos greves de enfermeiros, greves de médicos, constantes… a pedirem melhores qualidades de trabalho, melhores condições de trabalho e não sei o que… e que de repente com uma pandemia as pessoas perceberam realmente:

é melhor tratar bem os médicos! Se não!? E o mesmo acontece com a cultura, de repente as pessoas todas dentro de casa precisam de conteúdo, conteúdo para existir, para ocupar a cabeça, então o que é que seria desta quarentena se não existisse a netflix, se não existissem filmes, se não existisse música, se não existisse o spotify, que dá ali às pessoas uma ideia de ser gratuito, está aqui à mão de semear… é só pegar e… e essa valorização de quem compôs, quem produziu este conteúdo artístico continua assim meio marginal. A não ser que sejam os grandes que tem uma grande maquina publicitária por trás, sempre e constantemente a dizer: “foi ele que fez, foi ele que fez, tens que lhe dar valor”! Mas de repente, na quarentena, 8 meses, 10 meses, 12 meses… e nós temos ali séries e precisamos da cultura para nos ocupar…

Francesco: …se bem que neste caso netflix e canais parecidos é uma cultura bem massificada, mas pronto…

Márcio Silva: …é popular, é uma cultura mainstream, mas não deixa de a ser… os meus sobrinhos por exemplo, eles não leem um livro, mas entre não saberem nada e puderem ver, por exemplo… uma série que fale sobre o…

Francesco: …o império romano…

Márcio Silva: …por exemplo, o império romano, para mim é melhor que eles vejam a série e pelo menos saibam e tenham uma ideia de qualquer coisa, que nós já sabemos que o episódio é preso em 8 segundos, nos primeiros 8 segundos tens de ficar preso àquilo, se não mais tarde ou mais cedo vais te levantar, vai buscar um café e aquilo já foi, desligas e pões um combat box ou uma coisa qualquer random. Mas aí também se definiram prioridades, a pandemia também traz esta ideia de definir, de reorganizar uma data de coisas dentro da sociedade, nomeadamente a educação, que aí todos os putos tiveram que estar em casa e os país viram o que é lidar com um puto 24 sobre 24 horas e muitos deles devem ter dito assim: santa é a tua professora! Da mesma maneira que as relações, quando uma relação está mais ou menos estabilizada, tem um quotidiano…: 2ª feira levantam-se os dois e ele faz-lhe o pequeno almoço e ela vai trabalhar e ele fica mais um tempo, toma um banho, vai trabalhar também, encontram-se às seis, chegam à casa, ele traz as compras, ela até faz o jantar, ele estende a roupa, vêm um filme, ela adormece de cansaço e ele adormece também, vão para a cama, acordam, ela faz o pequeno almoço, pronto! E de repente… não há o sair para ir trabalhar e ficarem juntos 24 sobre 24 horas? Isso acabou com muitas relações porque as pessoas não sabiam lidar com a outra pessoa no tempo que outrora era de trabalho… então tem que saber lidar com coisas e ver outro tipo de características numa pessoa, que nós nunca tínhamos visto! Porque lidávamos com aquela pessoa no pós laboral e então estava tudo certinho, não é? Batia tudo certo! Cada um ocupava a sua função: sai do trabalho agora vou ter com o meu marido, com o meu namorado! E então… todas estas coisas são novas para nós, se bem que parece que dentro da nossa inconsciência, quando nós vemos de uma maneira racional: educação, saúde? Claro que sim, têm que estar no pináculo da sociedade, mas não estão! É uma coisa quase hipócrita, não é? Meia cínica! Estas coisas são atiradas assim para os fundos assim… das prioridades! E a pandemia trouxe esta coisa e assim como na cultura também, só que nós vivemos em Portugal e Portugal tem muitos esquemas, muitos sacos, muitas… muitos negócios, muita coisa a acontecer, principalmente em termos políticos! E no meu país eu não me sento nada defendido… olho para o meu painel político e não há um que eu diga assim: este gajo vai me defender, esta senhora vai me defender! E estamos todos assim, todos nós… eu não conheço um artista que olhe para a Ministra da Cultura e diga assim, aquela senhora não podia ter sido outra! Está perfeita ali naquele lugar! Porque aí nos percebemos o quão desamparados estamos e é muito difícil estar… eu desconto… tenho um trabalho normal, apesar de ser músico e a maior parte da minha família assim: ok! Tu gostas de tocar música, mas qual é o teu trabalho… mesmo?

Francesco: É um clássico!

Márcio Silva: E depois chega a um plano político, a um plano maior e vemos que a visão é exatamente a mesma destas pessoas, da minha família que me dizem a mesma coisa… então é muito estranho! Eu ser alguém que traz cultura e que quero trazer coisas novas e coisas diferentes, ou mais coisas para aquilo que nós já temos e perceber que sou visto como uma ave rara que só quer andar ai a coçar a barriga e a beber umas cervejas e pronto! Basicamente….

Francesco: portanto…! Desculpa a interrupção…

Márcio Silva: Não faz mal! Basicamente num plano político, quando se tiram assim as condições todas a uma sociedade, de poder respirar e viver e palpitar, não é? Uma cidade cheia de pessoas e movimento… quando se lhe tira isso, começa-se a perceber as fragilidades da sociedade… é mais claro! Claro que se pode perceber com a sociedade em movimento, mas é muito mais claro entender as fragilidades de uma sociedade quando está tudo parado! E de repente eu, como agente cultural, uma pessoa que tende a trabalhar para a cultura, percebo que a cultura neste país é muito frágil! Excluindo meia dúzia de cantores ou de artistas que chegaram a um lugar comum, em que são unânimes perante um público português e estas pessoas de alguma forma são salvaguardadas, porque são queridas, são acarinhadas pelo povo! Eu acho isto, é meritório, é ótimo que aconteça, mas podia acontecer também com os artistas locais, aqueles cantores que são da coletividade e que estão em Freixo Espada à Cinta, só tem um cantor em Freixo Espada à Cinta, esta pessoa devia ser…

Francesco: Freixo?

Márcio Silva: Espada à Cinta! É uma localidade, podia ser Solorico de Bastos… de repente existe um grupo coral em Solorico de Bastos e apareceu a quarentena: morreu o grupo coral! Mas as pessoas adoravam ouvir o grupo coral… então há que proteger! É uma coisa que tirar… é preciso tirar a orquídea do sol, não é? E tem que existir alguém, se gosta de orquídeas, não é? Se acha que a orquídea é importante existir, tirar a orquídea do sol se não ela vai morrer. E a mesma coisa aconteceu com a arte, com a cultura… percebermos que a cultura não tem só a função de nós satisfazer! Nós ao interagirmos com a cultura, também estamos a modificar a cultura e a fazer com que ela acabe por refletir coisas que são nossas… pronto! E o que acontece é isso, nota-se muito estas fragilidades, estamos a caminhar encima de uma camada de gelo muito fininha e que a cada passo pode quebrar e nós podemos… e então nota-se essa coisa, nota-se muito isso e obviamente, por exemplo: eu achei que o ano 2020 ia ser um ano grandioso, tinha três discos para lançar, vários concertos consequentes destes três discos e de repente fica tudo fechado e não há concertos, há este concerto em live streaming e não sei o que!? Mas muda tudo! E eu como músico, ainda tive alguma possibilidade, agora imagina um roadie, ou malta que depende mesmo dos lives para viver…

Francesco: …um baixista…

Márcio Silva: …eh! E que tiveram que investir dinheiro, imagina pessoas que no final de 2019 investiram assim 50mil euros num P.A. ou assim, o ano de 2020 será à grande com material novo…

Francesco: …ficou tudo parado nos armazéns!

Márcio Silva: O pessoal morreu! Esta pessoa se não tem um fundo de maneio, não tem família para o suportar, esta pessoa meteu a corda no pescoço! E aconteceu isso com muitas pessoas! E a própria… o Ministério ou o governo, não tem capacidade, não teve capacidade de ajudar, de garantir que estas pessoas iam ter o mesmo nível de vida que tinham antes da quarentena e isso demostra muita coisa. Ou seja eu faço cultura, pratico esta ideia de cultura neste momento porque eu gosto, porque eu quero e eu sinto que este é o meu sonho, é a minha teimosia! Parece uma bênção e uma maldição ao mesmo tempo! Mas eu o faço por mim, se eu começar a pensar num aspecto coletivo apetece-me logo dizer, não! Não vou fazer absolutamente nada, esta malta não merece! E entra logo esta questão de justiça e de merecimento e de mérito, acho que merece ou não merece! Então cheguei à conclusão que eu faço, porque eu preciso de deitar esta coisa fora e preciso de estar por dentro disto, que isto faz-me feliz! Eu acabo um ensaio, por muito duro que seja, eu vou para casa com uma sensação de missão cumprida! Então é mais por ai! E isso eu acho que muda a cabeça um bocadinho de se toda a gente… se houver muita gente a pensar como eu, eu acho que vai mudar um bocadinho esta coisa, mas claro que voltando ao início… só aumentam umas opções, porque o pop vai continuar a ser pop, as pessoas vão… vai existir uma gama de pessoas que vão continuar a querer fazer música com o refrão a bater no segundo 30…

Francesco: …clássico!

Márcio Silva: E pessoas a acharem que aquilo é altamente, como se isso fosse uma coisa que tivesse que ser, não podem existir mutações a esta coisa…

Francesco: mas por exemplo, a pandemia desenvolveu também… sobretudo nas redes sociais, já que estávamos todos em casa isolados, uma discussão digamos coletiva sobre exatamente a precariedade, digo em vários canais das redes sociais, grupos que se juntaram, até grupos solidários com outros artistas, houve movimentação, portanto provavelmente este debate coletivo pode levar a alguma coisa! Pode também… sindicatos que estão se fortalecendo, ou seja pode ser este momento um momento digamos de passagem ou de transformação, ou de reset… isto, se calhar estou sendo muito positivo, mas o mundo da política… a classe política se deu conta que existe um movimento, existem pessoas, existe um debate público… e esperemos que isto possa levar a alguma coisa…

Márcio Silva: …eu aí sou pessimista! Eu aí tenho uma relação pessimista, que é: há um cinismo latente no meio desta coisa toda! A cultura é o que nós diferencia dos outros animais! É a nossa cultura, é o que nós trazemos de memórias, das nossas raízes, dos nossos pais, dos nossos avos, daquilo que nós ouvimos, daquilo que o nosso país diz acerca de nós mesmos, eu não sei quem eu sou se não for outra pessoa a dizer-me quem eu sou! Eu só sei que sou teimoso, porque outra pessoa insiste em dizer-me que eu sou teimoso! E a nossa cultura é a nossa identidade, é aquilo que diz quem nós somos de diferente dos outros, não é de melhor… é de diferente! E sem cultura nós somos iguais ao hipopótamo, à girafa, ou… temos um costume de sobrevivência e o que nós faz diferentes destas outras espécies é que nós conseguimos identificar e racionalizar sobre estes costumes artísticos, que em termos materiais não servem absolutamente para nada! Termos capital de guito, não serve para nada! Mas até a bem pouco tempo, um agricultor precisava de passar três meses à espera das batatas, porque ela estava a crescer, a batata estava a crescer… o batatal estava a desenvolver-se! Então precisa de passar três meses e nestes três meses era como se fosse uma quarentena, em três meses criam-se canções, criam-se cânticos, as pessoas rodam a caneca do vinho e a cultura é feita desta espera, desta maturação de coisas que vão aparecer, que nós sabemos que vão aparecer… mas enquanto não aparecem, aparecem outras: uma canção, um poema, alguém que escreve uma coisa que faz rir ou cómica…! E de repente com esta velocidade toda, já não há essa relação com a espera que a pandemia voltou a trazer, voltou a nós mostrar como é que era mais ou menos esperar e ter esta relação de espera associada a um lazer. Em Portugal a cultura é diferenciada, é diferente: quem é artista e quem é entertainer! E o entertainer normalmente ganha ao artista, porque o artista tem um lado encriptado. Existe uma parte daquela informação que não é dada! O espectador tem de ir ao encontro daquela mensagem e não lhe é dado tudo de mão beijada, a não ser que seja uma exposição para crianças, tu vais a um museu qualquer a ver uma exposição do Dali e não está lá por baixo: este relógio derretido quer dizer… é todo um lugar vazio em função da tua percepção e depois tu podes ocupar estes lugares vazios com umas definições que tu escolheres dar ao relógio a derreter, à formiga ou… e na música pop que hoje é vista como um estilo, antigamente a música pop era a música aceite pelo povo que era… que tinha-se tornado naquele momento a mensagem que o povo, não é? Como há músicas hoje em dia que são assim: “é sexta feira? ye” esta música é aproveitada… foi… toda a gente sente esta coisa do “é sexta feira”! Então esta música veio trazer essa sensação unânime para toda a gente e essas são as músicas populares, não é um estilo… agora é um estilo, música pop é um estilo, isto é muito engraçado! Mas… há essa diferenciação e essa valorização de uma coisa em prol da outra, a não ser que estejamos numa elite com muito dinheiro, a arte é sempre vista como uma coisa pelo povo, pela… pelas classes mais baixas é vista como uma coisa difícil, muito seria, muito encriptada, parece que eu vou ver um quadro, ou ouvir uma canção do Zé Mário Branco e parece que estou a abrir um cofre e não sei o código e tem esta coisa… só que é esta coisa é que é bonita, porque a medida que nós vamos abrindo e descobrindo o código, percebemos que esse código é só nosso e que as outras pessoas estão a abrir o mesmo cofre… tem outros códigos e tem outras definições! E essa é a coisa é que é bonita, nós levarmos para a casa um bocadinho mais de musculação das definições das coisas… e isso é arte! De alguma maneira, óbvio que também existe provocação… para mim isto é arte! O entretenimento não é bem assim, o entretenimento é… que é aquela coisa que também é imprescindível, mas no entanto é aquele filme do domingo que a gente sabe que o herói vai passar por uns problemas dificílimos e depois no final vai conseguir matar o vilão, que é sempre o vilão e o herói é sempre o herói e os dois tem características muito definidas: o herói é sempre bonzinho, ajuda as velhinhas a passar na paragem do autocarro, estas coisas… e o vilão é aquele que passa pelas poças de água e molha toda a gente que está na paragem! Então, no entretenimento o herói casa com a princesa e é tudo muito feliz, acaba e vamos comer um hamburger! E na arte não é bem assim, quando acaba esta experiência, a pessoa vai para casa e ainda vai a mastigar aquele lastro de percepção que chegou, fogo! Sei lá… é como ver um filme do David Lyinch ou do Tarkovsky, há muita coisa que não se chega lá! Então é preciso ir pelo caminho… ir ruminando e essa coisa é que eu acho que é interessante! E esta contextualização para que? O entretenimento e a arte não estão ligados, os dois repelem-se, é como a música popular e a música erudita: uma acha que… a música erudita pensa que a música popular é brejeira e a música popular acha que a música erudita é elitista, é muito de mis-en-scene e de coisas e de não sei o que, é tudo muita popa, muito rococó, não tem mensagem direta. E elas não se aliam, é muito raro aliarem-se até que aparecem estes compositores como o Lopes Graça que pega num malhão e põe o malhão a tocar revisitado numa opera e coisas assim… uma peça clássica! São raros estes momentos onde de repente um artista de mainstream, de entretenimento vá a buscar artistas que estão na crista da onda da provocação, porque isso não é unânime, então eles não se revezam, as pessoas… os artistas que estão no topo da nossa cadeia alimentar em Portugal, da arte… não viram a pirâmide ao contrário! Porque eu sinto que chega uma altura em que tu não consegues subir mais! Somos 10 milhões, não vais conseguir ser o Justin Bieber, somos 10 milhões… pronto! Chega uma altura em que o patamar não sobe mais, pronto! Temos aquele penico, pronto é aquilo! E a maneira de crescer é virar a pirâmide ao contrário, é de repente o gajo que chega lá encima, não tenho mais por onde ir… bora virar a pirâmide e ajudar os que estão em baixo, trazer os que estão de baixo e em Portugal isso não acontece! Quando acontece é para salvaguardar a generosidade da pessoa que está lá encima… olha eu a publicitar este artista miserável, que estava a tocar ali na rua! E… há um bocado esta coisa, tipo… os dois saem sempre reconhecidos, então entretenimento e a arte não se ligam! Por isto é que existe um espaço tão grande entre…. e um espaço quase… é um deserto e muito difícil de caminhar entre um e outro, entre pessoas como por exemplo o Fausto ou o Zé Mário Branco e o Quim Barreiros, ou podia dizer mesmo os Capitão Fausto, coisas mais de agora, mais contemporâneas! E existe espaço e não se… não há entreajuda entre eles, a canção é o denominador comum, mas não há entre ajuda, porque é como se uns fossem a… tivessem a competir uns com os outros. Então nós dentro da nossa classe somos inimigos de nós próprios, porque eu basta subir um bocadinho… tu vês, por exemplo, na cozinha fez-se uma greve de fome à porta da Assembleia, os chefes mais conhecidos… pode ter sido sensacionalista, mas fizeram! Achas que alguma vez a Mariza, ou o Agir, ou o António Zambujo, ou o Miguel Araújo, ou… estes artistas… entertainers que estão no topo de forma, no topo, no pináculo da pirâmide, da cadeia alimentar… não se vão sujeitar a isso, isso não é nada sensual, não é nada apelativo! Se bem que isso em Portugal já aconteceu quando a IURD quis comprar o Coliseu, o Pedro Abrunhosa e o Rui Reininho algemaram-se à porta do Coliseu! E isso eu acho que é de artista! Isso é uma coisa que eu acho que é de artista! Mas hoje em dia é tudo tão, parece ser tão… nós temos que ser unânimes, eu tenho que dizer coisas que o público gosta, porque o público na verdade é que é o artista hoje em dia! O público é que vai lá a cantar, a passar por uma boa experiência e soube ao palco e o artista até tem que dizer… há seis pessoas que fazem anos, é o aniversário daquelas pessoas… esta música vai para a Margarida que faz anos hoje! Então de repente a plateia está num lugar de destaque… e pronto eu sinto isso, sinto que a elite não ajuda ou não há mistura entre a elite da música e a malta que está a sobreviver da música!

Francesco: Ou seja não há união, representatividade… e união, uma voz unívoca! 

Márcio Silva: Não há!

Francesco: Grande Márcio! O teu contributo é muito valioso, umas perspetivas fantásticas e cada um, não é? Traz a sua! Tu trouxeste aqui vários pontos de reflexão muito interessantes. Queria terminar a nossa conversa pedindo se tens feito, ou se podes mencionar duas músicas, uma ou duas, vai! Que compuseste durante o período supracitado, ou seja desde Março 2020, mas também… pronto! Durante 2020, uma ou duas músicas que possamos aqui alegar à entrevista e se podes também comentá-las… e se quando elas estiverem prontas com um vídeo ou um mp3, possamos colocar aqui para o público ouvir…

Márcio Silva: …claro! Então dentro deste… como eu falei no início, dentro destas… deste grupo de coisas que eu fui fazendo na quarentena associadas a esta questão de diário, ou de… tentando elevar estes pequenos paradoxos da sociedade, apareceu esta canção que se chama “O efeito de uma asa de animal”, que é basicamente a falar da pandemia, ou de pequenas coisas que acontecem, que são estranhas. De repente rebenta uma pandemia e as pessoas saem de casa para buscar papel higiénico, não saem de casa para buscar mantimentos, comida, sei lá! Podiam ser gillettes… o engraçado é saber que é papel higiénico, as pessoas estão mais preocupadas com o que sai do que com o que entra… e isto é muito interessante!

Francesco: Fantástico!

Márcio Silva: E eu deparo-me sobre estas coisas e o “Efeito de uma asa de animal” fala sobre isso, não propriamente especificamente do papel higiénico… mas fala um bocado sobre esta coisa. E depois tem outra música chamada “É natural” que fala sobre esses… as nossas relações tem um costume táctil, eu chego e abraço-te! Isto é natural para mim! Não há outra forma de ser, mesmo quando é uma coisa super formal, eu tenho necessidade de tocar na outra pessoa quando chego! “Olá boa tarde como está?”. E de repente, na quarentena, havia situações… no início, existiram situações em que eu, por exemplo tinha que conhecer a mãe de alguém e ficamos os dois assim, tipo… “Bom dia como está?”… Será que vou, não vou, como é que é? oh! Olá, olá… isto é muito estranho! Para mim, não é? Que estou habituado… passei 30 anos a viver de uma maneira, a sentir de uma maneira de repente, põem-me noutro lugar? Então a canção fala um bocado sobre isso, fala sobre essa natureza que em dois ou três anos, deixou de ser natural! Não podemos cumprimentar ninguém, não podemos ir no metro, de repente toda a realidade da rua são pessoas de máscara, uma situação mega… que nós só víamos nos filmes de pós apocalíptico! Ruas desertas… de repente tu podes ir para a Avenida da Liberdade a sacar sons de passarinhos, coisa que nunca poderia ter acontecido outrora porque tinha carros e camiões e circulação de transito… pronto! Então as músicas, fechando um bocadinho… as músicas falam sobre essa… trazem um bocadinho este diário de alguém que está a reparar em coisas que outrora nunca tinham acontecido e… tem outras, mas eu acho que estas duas vou conseguir gravá-las…

Francesco: …vão fazer parte de um disco que vão sair em breve…? Mais ou menos?

Márcio Silva: Vão fazer parte de um disco que vai sair em breve, que tem uma temática, quer dizer “Ali é a nação”! Basicamente eu pus-me num lugar onde eu sou o observador, que a quarentena deu este lugar subjetivo a toda a gente: é como se tivéssemos encima de um morro, a ver a nação de fora e a podermos ser alguém que está no papel do narrador, que não é interveniente direto, não é uma personagem principal naquela história, mas estamos a ver de fora tudo o que está a acontecer, a ver as noticias a chegar: “hoje 500mil mortos! Hoje mais não sei o que…!”. Então todas aquelas coisas são ondas que nos afetam, mas que nós temos que estar passivos em casa a levar com….

Francesco: …a saber filtrar de alguma forma…

Márcio Silva: …filtrar, mas de repente a levar com aquelas vagas de informação e tentar fixarmos nos no mesmo sitio, com moral, com esperança, com crença, perseverança. Então as músicas falam um bocado sobre isso: é de por num ponto de vista de fora, a ver a nação ali… é a nação! E ao mesmo tempo, esse exercício é o trocadilho… é uma “alienação”: para eu conseguir ver de fora esta sociedade e por me num plano de um observador, eu tenho que me “alienar” deste costume de ter que sair: agora tenho um trabalho as 8h, agora… vou para casa, vou buscar o filho à escola, vamos a…! E esta coisa, para nós conseguirmos ver de fora, temos realmente que nos alienar! Então este foi um trocadilho que me fez… epá! Se calhar é por aqui que eu devia ir… era isto que eu devia fazer: arranjei um termo

que suprimia as necessidades, que é alguém que está fora a ver e que ao mesmo tempo tem que se alienar, foi obrigado a alienar-se para ver o mundo e pronto! Desta condição eu decidi escrever algumas canções… e acredito que eu vou conseguir acabá-las para depois passar aqui no teu programa!

Francesco: Perfeito! Maravilhoso! Muito obrigado Márcio, gracias mil! Foi uma entrevista fantástica…

Márcio Silva: …foi mais um monólogo!

Francesco: Não, foi muito interessante! Mais uma vez obrigado Márcio, és o maior! Obrigado!

Projeto Ágora: Entrevista com Nuno Sarafa (08/08/2021)

Nuno Sarafa é baterista e percussionista, natural da cidade invicta o Porto. Colabora com artistas de renome na cena musical nacional como Joana Espadinha, Suzie & the Boys, Flak, David Fonseca, Sérgio Godinho, Jorge Palma, X-Wife, White Haus, We Trust, There Must Be A Place, Mirror People, Paulo Praça, Fat Freddy, entre outros. É também jornalista musical, ativo no âmbito da revista AS (Arte Sonora).

Em resposta à situação de atual emergência devida à pandemia do COVID-19 e à necessidade de promover iniciativas que possam avaliar e atenuar o impacto no âmbito das artes performativas, investigar os efeitos da crise, com enfoque no sector da música, documentar as estratégias aplicadas pelos artistas nas suas atividades criativas e de performance, o Projeto Ágora convida Nuno Sarafa, para compreender os efeitos provocados pela crise sanitária, quer no nível individual que no âmbito do sector cultural em Portugal.

Francesco: Olá Nuno Sarafa!

Nuno Sarafa: Olá!

Francesco: Bem-vindo aqui às conversas do Projeto Ágora, estou muito contente de poder conversar contigo, sobre alguns assuntos que têm a ver com a vivência dos músicos durante o período que estamos a viver ainda da pandemia, do confinamento, etc. Gostava que te apresentasses rapidamente!

Nuno Sarafa: Sim! O meu nome é Nuno Sarafa, tenho 44 anos, toco bateria, sou jornalista de uma revista de música e pronto a música é a minha vida! Basicamente, acho que resumo a apresentação daquilo que eu sou!

Francesco: Quatro palavras para dizer tudo! Eu gostava para começar, de saber de que maneira a pandemia afetou a tua situação financeira, desde o princípio das restrições e do confinamento?

Nuno Sarafa: Portanto, eu felizmente tive muita sorte também, a pandemia trouxe-me alguns desafios diferentes para a minha vida: estava habituado a tocar muitos concertos durante o ano, de 60/70 passei para 5 ou 6 no espaço de um ano! Quando a pandemia começou, eu sou já há muitos anos fã de podcasts, há muitos anos que adormeço a ouvir podcasts, então lembrei de fazer um podcast em vídeo nas primeiras semanas de confinamento, em que liguei a alguns amigos para lhes fazer uma entrevista acerca do disco da sua vida, então era uma conversa de 15 minutos à volta do disco da vida deste convidado em que depois eu editava aquilo com uns planos de corte e tal e pronto! e aquilo…

Francesco: …mas era uma entrevista áudio?

Nuno Sarafa: Era uma entrevista em zoom, no fundo foi aproveitar a tecnologia da moda do momento… e comecei a ligar a um a dois ou três, quatro amigos músicos, a falar sobre o disco da vida deles: pronto! E montei uma espécie de podcast que meti no iTunes e tal, pronto! Aquilo chegou a algumas pessoas, uma delas foi a diretora da revista Arte Sonora que me ligou a perguntar se eu não queria e… andou a ver o meu curriculum, tendo em conta que eu tenho formação em comunicação e sou músico, se eu não queria juntar os dois mundos, os dois universos e trabalhar com eles, não só para escrever mas também para fazer outro tipo de conteúdos como é o caso dos podcasts, em que tu entrevistas músicos e artistas, de vários quadrantes e tens ali um conteúdo semanal para apresentar. Portanto, no fundo aconteceu isto, que foi: eu comecei a fazer o podcast, passado duas ou três semanas recebi o convite para trabalhar com esta revista e ainda lá estou a trabalhar hoje. Portanto, a pandemia em termos financeiros não me afetou assim de sobre maneira, a não ser nos primeiros… um mês, dois meses, mas depois, na verdade… praticamente não a senti em termos financeiros… o que também me levou a tocar mais guitarra, levou-me a compor coisas, pronto! Todos os momentos em casa que tenho livres, tenho composto muita música, apesar de não ter… eu moro num apartamento e não tenho a minha bateria, eu sou baterista, mas tenho muitos instrumentos de percussão, tenho adufes, tenho algumas caixinhas e pandeiretas e pandeiros e shakers e… um diabo a quatro! Então, eu fui com um “microzito” registando coisas para musicar um livro que já ando a escrever a uma data de tempo, que também aproveitei o confinamento para, em vez de estar a ver televisão sentado no sofá… a produzir coisas que de outra forma, nunca tenho tempo para fazer. Portanto a pandemia, claro que traz um lado muito negativo, ainda por cima eu também fui infectado com Covid, mas trouxe-me uma abertura para a minha vida, em que fui procurar coisas que eu se calhar não tinha tanto, ou tempo ou às vezes vontade de fazer e que fui explorar: explorar novos caminhos de comunicação, seja ela com a música, seja ela com a escrita, com vídeo, portanto foi… no fundo, é um marco importante também, porque apesar de toda a desgraça mundial e à tua volta, quando sais de casa e vês as pessoas que eram duas ou três e agora são vinte na rua, isto tem um lado muito negativo, mas trouxe-me a mim em termos profissionais a artísticos, um lado muito positivo, que foi ir buscar mais coisas, procurar mais e ainda estar a fazer mais!

Francesco: Isto é fantástico! Quer dizer que a pandemia não te afetou em termos de criatividade?

Nuno Sarafa: Não! Pelo contrário! Aumentou… eu também gravei um disco pelo meio, em que tivemos obviamente que respeitar todas as medidas de seguranças. Fomos ao Namouche a gravar o disco novo de Joana Espadinha, em ambiente de pandemia, tudo fechado! Mas, isto foi um trabalho coletivo. Mas depois nas minhas horas de solidão em casa aproveitei.. epá! Com a minha guitarra, tocar horas à fio a guitarra, tocar muitos instrumentos, o piano, também tenho um piano em casa, que é a minha companheira que é pianista. Então fui explorar um bocado de coisas que normalmente eu no dia a dia não tenho, não é? É sempre tarola, os pratos e o bombo e umas notícias na revista… por isto a pandemia trouxe-me coisas. Pode parecer um paradoxo, mas na verdade trouxe coisas muito positivas para a minha vida!

Francesco: Em termos de performance, por exemplo, tiveste poucos concertos? Por exemplo se te perguntar se… em 2019 quantos concertos fizeste?

Nuno Sarafa: Em 2019 eu devo ter dado 50 e tal, 60… em 2020 dei 6! Portanto fiz… no início do ano, ali no primeiro trimestre 2 ou 3, depois tivemos… a partir de Março fechou totalmente e quando abriu mais ou menos no verão, ali nos Agostos/Setembro por ai… fiz mais 3 ou 4, cheio de medidas de seguranças, como é óbvio! Mas pronto! E aí sim! Percebi o valor de… eu já sabia disso, nunca tinha dúvidas: eu amo o que faço, sou um apaixonado pelo meu trabalho, mas quando voltamos a dar concertos, foi quando eu senti que eu preciso disto como de pão para a boca! é tipo uma coisa de…

Francesco: …que te alimenta?

Nuno Sarafa: Epá! Que alimenta a tua alma, não é? Não é só uma questão financeira, não é só… é muito da alma, que é uma coisa… nós fazemos isso há 30 anos! Deixas de um momento para outro uma coisa que é dada como garantida, deixas de a ter e a partir do momento que voltas a ter um “vislumbrezinho” disso, epá! Acho que valorizas de uma forma muito maior, acho que dei muito mais valor a estar com os amigos, a estar com os colegas, tocar música junto com outras pessoas e não estar em casa!

Francesco: Ensaiar, criar juntos…

Nuno Sarafa:  …exatamente! Porque é muito bonito, mas no sofá sozinho é uma coisa, numa sala de ensaio ou num palco com os teus amigos a tocar, é outra completamente diferente, não é?

Francesco: E em termos, por exemplo, para o futuro digamos próximo, se ficarmos nesta situação que é, digamos assim… determinada pela falta às vezes de perspetivas para os músicos, tu tens um trabalho também… mas estamos a falara gora…

Nuno Sarafa: …mas isto também não é garantido, não é? Não é nada garantido!

Francesco: Exato! Existe alguma estratégia, assim que pensaste: como fazer? Vista a falta de concertos, a falta de contato com o público, de programações culturais….

Nuno Sarafa: …claro! É assim, de alguma forma tem de acontecer alguma coisa, não é? Tem de se inventar novos conteúdos e novas formas de os apresentar. Agora temos aqui a questão dos live streamings, por exemplo, que eu compreendo que ela tenha que existir, porque o mundo não pode parar, a arte não pode parar, as pessoas precisam também de se alimentarem através da cultura, mas eu acho que isso em termos da parte do artista é sempre… é mais uma vez o prejudicado da cadeia: é que mais uma vez, a partir de um projeto de live streaming, quem ganha no fundo não é o artista, que está a trabalhar, está a dar o seu trabalho e a maior parte das vezes, não é exatamente bem compensado, percebes? E depois… e nada substitui como é óbvio o contacto físico e próximo com o público, não é? É um conceito, um paradigma completamente diferente, se vamos ter de fazer mais, se calhar vamos ter de fazer mais… tudo bem! Eu até agora fui sempre contra, durante a pandemia, nos projetos em que trabalho, quando surgiram as propostas de se fazer live streaming, eu disse: eu não faço!

Francesco: Ah ok! Te recusaste categoricamente?

Nuno Sarafa: Sim! Porque repara: ok! Eu vou e vai o baixista e vai o pianista e os sopros e tal, mas não vai o técnico de som, não vai a estrutura! São pessoas que também vivem de música, não são músicos e nem artistas, mas sem eles não existe música e nem arte a ser difundida para as pessoas e eu acho que: ou estamos todos ou não vai ninguém! Esta é aminha opinião! Se há condições, alugas um espaço, há dinheiro para pagar a todas as pessoas que estão a trabalhar, porque é muito bonito isto da arte e da cultura, mas para quem vê de fora e muitas vezes não percebe, acha que o pessoal está ali a curtir, não é? Que é uma diversão, é! Mas é uma diversão barra trabalho: isso é trabalho! E as pessoas de uma vez por todas têm de perceber que a cultura é trabalho! E não é uma cena de passatempo ou tempo livre que é para a maioria das pessoas que, epá! Para as pessoas do público, mas para quem a faz, não é! Portanto, ou tu crias condições para que tu consigas ter a tua equipa toda a trabalhar e a ser paga, para poder depois por comida na mesa, não é? Porque tu não pagas o supermercado com um estado de espírito! Ou há estas condições ou então eu acho que não vale a pena. Tem que se arranjar e rearranjar formulas para…

Francesco: …portanto, novas estratégias e pensar… porque haverá novas formas de apresentação musical de performance e tudo vai na direção do streaming…

Nuno Sarafa: …tudo vai nesta direção!

Francesco: Tudo vai nesta direção, como o teletrabalho e depois haverá também performance e apresentações online…

Nuno Sarafa: …tudo bem! Claro, mas também já, hoje em dia existem várias, não são nem 3 nem 4, existem muitas plataformas já que permitem tu emitir, transmitir em broadcast o teu espetáculo, mas a receberes… ou seja, através de um sistema de “bilhética”, em que as pessoas que querem ir ver o concerto

pagam um ingresso para assistir a aquela transmissão, que pode estar ou não disponível nas horas seguintes, mas pronto! Isto traz um problema: que as pessoas em Portugal já… a cena da borla é quase instituída, tu vais dar um concerto amanhã e tens meia dúzia de amigos a pedir-te uma entrada, portanto, isso também tens de combater um bocado… é que isso é uma faca de dois gumes, não é? Porque, ok! Tens aquela plataforma, vais fazer um espetáculo, vais fazer uma transmissão, mas depois vais ter público a pagar o bilhete? Pois, se calhar os grandes artistas se calhar têm, porque tem uma profusão e porque conseguem chegar a muitas mais pessoas! Um artistas independente não tem e mais uma vez o artistas independente, que é a maioria dos artistas que existem é sempre o mais prejudicado!

Francesco: Exato! Então o elemento central aqui é exatamente não oferecer…

Nuno Sarafa: …não pode oferecer! Nós Não podemos oferecer a nossa arte de borla!

Francesco: Ok! E em relação aos concertos, tiveste alguns concertos depois das restrições aqui em Portugal ou no estrangeiro assim… concertos onde sentiste que, ou seja concertos onde havia limites para o público e para os músicos, o uso da máscara, a impossibilidade de dançar, de se levantar…

Nuno Sarafa: …claro! Tive!

Francesco: O que é que sentiste?

Nuno Sarafa:  Senti uma frieza muito grande! Senti uma certa frieza, não é? A ausência total de contacto com o público, lembro-me de dar um concerto que tinha… que era num espaço que deveria dar para umas 5/6mil pessoas à vontade e estariam 500as ou 600as, sentadas na cadeira, cada pessoa sentada numa cadeira, distanciada da pessoa do lado 2 metros ou 3… epá! E senti do palco uma coisa completamente diferente! Muito feliz por estar a poder tocar outra vez, ao mesmo tempo uma sensação de muita tristeza, epá! Isto é uma pena de nós não podermos estar aqui a partilhar, não é? Aquilo que é o espetáculo ao vivo, que é uma partilha no fundo de um palco para o público e viceversa!

Francesco: A troca de energias, a comunicação…

Nuno Sarafa: …uma troca de energias, sim! É tudo: é mesmo uma fluidez de comunicação que existe, por isto, um artista em palco, muitas vezes ou a maior parte das vezes é influenciado por aquilo que sente vem da plateia e isso também interfere na sua própria performance, não é? E neste tipo de… com estas restrições isto não existe! Tu nem sequer sabes… as pessoas estão com uma máscara à frente, só vês os olhos, é muito estranho! Mas antes haver do que não haver, não é? Como é óbvio!

Francesco: Sim! É realmente algo… um universo completamente diferente a nível de performance… portanto, não sabemos no futuro como é que… o que é que poderá haver, quais os novos formatos… estes online, já discutimos que…

Nuno Sarafa: …é o que vai acontecer, não é?

Francesco: É o que vai acontecer, para ti? De certeza?

Nuno Sarafa:  Sim, isto vai acontecer! Não tenho dúvida nenhuma de que o formato live streaming vai ser uma cena que vai ficar!

Francesco: Um paradigma futuro… tem que se preservar o direito do artista a…

Nuno Sarafa: …sim! Tal como… exatamente como a máscara! Que hoje em dia se calhar, é para o ano, de aqui a dois anos, uma pessoa que tenha uma gripe eventualmente se calhar até vai andar com máscara, que é uma coisa que já existe em outros países, mas de uma forma geral na nossa cultura não existe. Mas se calhar isto veio para ficar e o live streaming é uma coisa que veio para ficar, concertos com distanciamento se calhar é uma coisa que veio para ficar, em vez de levar 10… é um sítio que dá para 10mil pessoas, pões lá três mil! Isto vai acontecer, acho que de uma certa forma vai… um regresso à normalidade, àquilo que nós tínhamos antes a 100%? Eu infelizmente, sou pessimista neste caso e não acredito que vai voltar a ser exatamente como era!

Francesco: Ou pelo menos em breve?

Nuno Sarafa: Sim! Em breve, nos próximos… no futuro próximo, 1 ou 2 anos não acredito! Acredito que vamos ter, vai voltar tudo, mas que vai ser devagar, com regras e não vai ser tudo de uma vez!

Francesco: Ok! Agora, queria perguntar-te por exemplo se tu, bom! Considerando que tens um trabalho, mas tiveste por acaso algum apoio do governo em relação à tua atividade de músico profissional?

Nuno Sarafa: Não! Não tive e esta é outra questão que é a questão da política cultural em Portugal: é historicamente muito deficitária, começa logo por não existir uma base de dados que agora, depois destes problemas todos já estão a criar através da universidade e a nível da parte política do Ministério, estão a criar uma base de dados que é para poder saber, que é fundamental, quantos é que somos? Quantas pessoas vivem da arte? Porque… trabalhos que tenham alguma segurança com um contrato de trabalho, não tiveram… não sentiram este impacto financeiro da pandemia, mas um trabalho que é altamente precário como o do artista, que é do recibo verde, que… tem trabalho, recebe… não tem? Não recebe! Que a maior parte dos artistas estão todos neste… fazem parte deste fenómeno, não é? E portanto, esse é o ponto 1 que é: saber quantos é que somos, onde é que estamos, quanto é que ganham, quanto é que fazem num ano, se precisam de apoio ou não… este é um ponto essencial! E depois claro, é uma coisa que é uma luta em Portugal há muitos anos, que é aumentar o orçamento do Estado para a cultura e que ainda por cima, é ridículo, não se está a pedir o 20%, esta se a pedir o 1% pelo menos? Percebes? Portanto em Portugal a cultura sempre foi um parente pobre, mas… sempre que temos um determinado tipo de cor política, nem sequer Ministério temos e depois quando temos outra cor política, para chamar os bois pelos nomes: quando está a direita no poder não tem Ministério, quando está a esquerda tu tens Ministério, mas mesmo assim não é eficaz, não é eficiente, não chega às pessoas! A cultura em Portugal é uma coisa muito… quase elitista, só por exemplo as companhias de bailado é que tem uma determinada ajuda ou são vistos como efetivos promotores da cultura, só que não é verdade, porque não são os únicos! Não é? Tu tens músicos independentes, artistas de rua, pintores, escultores, tens… pessoal do teatro, uma quantidade de companhias que trabalham de norte a sul e ilhas e que não tem o apoio do Estado! Mas há três ou quatro grandes que têm! E isto é um problema que é histórico e que é preciso mudar mesmo e nesse sentido acho que qualquer… todos os Mistérios da Cultura que Portugal teve em democracia, foram infelizmente e por muito que me custe dizer… epá! Não existe, é praticamente inexistente! Tu tens de te fazer à vida, por ti próprio, faz muito mais às vezes uma entidade como a GDA pelos artistas, do que o Ministério da Cultura!

Francesco: Incrível!

Nuno Sarafa: E isto é incrível! E é triste! É triste tu perceberes que vives num país que tem muita produção cultural, tem muita coisa boa aqui a acontecer, mas que não tem um apoio político que lhe permita evoluir: isto é muito simples! Um país como a França que tem política social para a cultura, como os intermitentes que deixam de ser intermitentes, naquele ano em que estás a construir um disco, não vais trabalhar para um supermercado, porque tu não vai ser um bom músico, ou um melhor músico se estiveres oito horas no supermercado e depois vais à noite ainda a fazer o teu disco? Não! Queres fazer um disco? Ok! Nós damos-te aqui um sustento durante estes meses para a produção do disco e depois tens de levá-lo para a estrada e provar que trabalhas e que o mostras e que o promoves e aí… passas a ter novamente direito, a quando precisares de parar? Tens um apoio! Isto faz de… isto é um apoio à produção cultural, isto faz com que a tua cultura seja…

Francesco: …e da criatividade!

Nuno Sarafa: E da criatividade, faz com que a tua cultura seja mais rica, que as pessoas tenham vontade de fazer, agora: tu teres de te desenrascares, que é aquela palavra típica portuguesa noutra área, desenrascares-te para poderes trabalhar no sector cultural? É triste! Devias ter condições para poderes trabalhar como noutra função ou em outra área qualquer da economia!

Francesco: Portanto, o que tu esperas dos políticos ou da política?

Nuno Sarafa: Não espero nada! Não espero nada! A única coisa que eu espero é entre nós, nós é que temos de nós ajudar uns aos outros!

Francesco: E nos unir?

Nuno Sarafa: E nós unirmos!

Francesco: E neste sentido, de alguns movimentos reivindicativos que nesta altura surgiram…

Nuno Sarafa: …sim! Estes movimentos são importantes e são tão importantes e falou-se tanto e gritaram tanto, que na verdade o Ministério da Cultura, por exemplo, foi fazer uma coisa que já devia ter feito há muitos anos, que é este levantamento, que é um censo dos profissionais da cultura, que não são só as atrizes, os bailarinos e os músicos, mas são os técnicos de som, são os técnicos de luz, são os roadies, são os motoristas, são os managers… é uma indústria gigante, que não parecendo é! Só que pronto! Portugal tem uma… tudo o que é festivais grandes, que trazem os nomes grandes do cartaz internacional e não sei o que… estes tem visibilidade e isto é que é a cena! Mas depois esquecem-se dos outros, que é maior parte, que é a formiguinha, que está aqui a trabalhar todos os dias e não sei o que! E que não desiste, a cena é: acho que é… o importante também é não desistir! Porque eu imagino e acredito que muitos colegas nossos e amigos… e isto sempre, lá está! Que é: não apoia estas pessoas, elas vão deixar de fazer isto, vão deixar de ser…

Francesco: …mudar de trabalho ou procurar…

Nuno Sarafa: …e tu vais perder uma panóplia gigante de know how, de pessoas que andam há 20/30/40 anos a aumentar a sua sabedoria e conhecimento na parte técnica, na parte artística e criativa e que vai deixar de existir…. estas pessoas… vamos voltar à idade da pedra! Vamos voltar aos anos ’80, não é? Em que ninguém sabia nada do que andavam aí a fazer, opa! Estou a falar aqui especificamente da parte técnica, por exemplo, que é uma coisa que é mesmo fulcral e tu vês muitos… eu conheço muitos amigos e se calhar tu também hás de conhecer, com quem já falei durante este período de confinamento, que me disseram: epá! Eu vou arranjar um trabalho, eu vou arranjar um trabalho e depois olha! Se isto voltar, depois eu vejo! Vais perder…

Francesco: …o problema é que depois… voltar para uma situação precária?

Nuno Sarafa: Já não vais voltar, não é? E as pessoas tem filhos e estás a perder massa crítica, know how,conhecimento, muito investimento, muito conhecimento… e isto, para isto eles não olham e é uma pena!

Francesco: Muito obrigado Nuno!

Nuno Sarafa: Eu é que agradeço!

Francesco: Foi um belíssima conversa, gostava de terminar a nossa conversa perguntando-te: não participaste a live streamings durante a pandemia?

Nuno Sarafa: Não participei!

Francesco: Mas participaste, digamos, a atividades criativas de grupo, tens alguma… gostava de perguntar-te se tens alguma sugestão de uma ou duas músicas que pudéssemos linkar a essa nossa conversa, para ouvir-te a tocar?

Nuno Sarafa: Olha, eu gostava muito de poder, mas ainda não temos pronto… de Suzie & the Boys, era bom! Mas não temos pronto!

Francesco: Mas por exemplo, nesta residência artística produziram algumas músicas, tem alguma música que gostavas por exemplo, um dia que fosse pronta ou uma gravação de ensaio?

Nuno Sarafa: Sim! Há um tema que eu gosto particularmente, que é um blues, assim uma toada mais calma, que tenho já estado a fazer assim uma escuta higiénica que me agrada bastante, o nome é que eu não lembro do tema… espera aí…

Francesco: …não faz mal! Meteremos depois…

Nuno Sarafa: …meteremos? Consegues chegar lá? Eu depois envio-te!

Francesco: Meteremos a indicação certa! E porque? esta música te desperta alguma…?

Nuno Sarafa: Não sei, transmite-me… logo que mal começamos a tocar este tema, transmite-me assim uma sensação de calma, uma paz e normalmente… pronto! Um gajo está sempre agitado, bateria e percussão e é tudo para frente… é tudo…

Francesco: …ou aquela frenesia às vezes de criar música de dança…

Nuno Sarafa: …exatamente! E às vezes esqueces-te que também precisas de uma música que só… sentes que fechas os olhos e que viajas e é isto que esta música me traz, que é viajar um bocadinho, viajar lá para trás! Viajar para um tempo que eu não conheço e que tenho muita curiosidade e gostava de ter conhecido, mas não conheço! Porque já foi há muitos anos e este tema em especial, transporta-me muito para ali, para a Nina Simone e Etta James e estas cantoras assim… que com alma, com soul, que nós tocam mesmo no fundo!

Francesco: Fantástico! Muito obrigado Nuno!

Nuno Sarafa: Muito obrigado eu, pelo convite! Obrigado!

Francesco: Foi um grande prazer, obrigadíssimo!

Nuno Sarafa: Obrigado!