Jazz Tracks de Danilo Di Termini #188

Jazz Tracks de Danilo Di Termini #188

Descrição do podcast:

Cada Domingo a partir das 9 horas, uma hora de jazz com Danilo Di Termini. Duke Ellington disse uma vez que estava se tornando sempre mais difícil estabelecer onde começava ou acabava o jazz, onde começava Tin Pan Alley e acabava o jazz, ou até onde residia a fronteira entre a música clássica e o jazz. Não será certamente o Jazztracks a traçar estas linhas de fronteira.

Tracklist:

Enrico Pieranunzi → Molto ancora

Attilio Zanchi → Better Git It In Your Soul

Charles Mingus → The Shoes of the Fisherman’s Wife Are Some Jive Ass Slippers

Samara Joy →  Reincarnation Of A Lovebird

Esperanza Spalding & Milton Nascimento → A Day in the Life

Andy Sheppard → Pop

Jerry Bergonzi → Just Friends

Sonny Rollins → Softly as in a Morning Sunrise (alternate take)

Dizzy Gillespie → Vote Dizzy 

Bert Jansch: The Pentangle – Solomon’s Seal (1972)

Bert Jansch: The Pentangle – Solomon’s Seal (1972)

Memória de Elefante 03/11/24

Autor: Francesco Valente

Uma rubrica que revela eventos, curiosidades, lançamentos, aniversários e fatos históricos ligados ao universo da música popular mundial.

Kamuya – Ninguém Ft. koi Kowaku (2024) (single)

Kamuya – Ninguém Ft. koi Kowaku (2024) (single)

O artista multifacetado Kamuya está prestes a lançar o seu novo EP autointitulado, KAMUYA, um projeto que explora uma fusão inovadora entre Rage, Trap, Emo e EDM. Gravado, misturado e masterizado no próprio estúdio de Kamuya, o EP reflete a versatilidade e experimentação sonora do artista ao longo de nove faixas cuidadosamente produzidas e será apresentado pela primeira vez ao público no MusicBox, dia 13 de Novembro, no evento Bloodborne, onde Kamuya atuará junto a MIZU, Koi Kowaku e outros artistas independentes que fazem parte do line up da segunda edição do evento.

Kamuya, também conhecido como Ricardo Ramalho, cresceu em Marinhais e construiu a sua reputação na cena musical underground de Lisboa, tanto como artista solo quanto como membro do grupo Dark Knights Clique, ao lado de Devlloz e SKIN. Este ano, Kamuya teve destaque como DJ e engenheiro de som no evento Bloodborne no MusicBox e participou no evento solidário A-gosto, organizado pela Rádio Ophelia. Recentemente, atuou com o grupo Dark Knights Clique na FCUL, num evento de benefício para apoiar estudantes.

O EP KAMUYA inclui colaborações especiais com o artista Koi Kowaku em duas faixas e destaca-se pela sua fusão de elementos digitais e acústicos, como sintetizadores, guitarra, baixo e bateria. Kamuya explora as várias facetas da sua musicalidade, misturando gêneros de forma fluida e criando uma atmosfera única que junta o old school com o new school do underground.

As influências de Kamuya são vastas, desde o SoundCloud Rap, com referências a XXXTENTACION e Juice WRLD, até à cena Emo, com bandas como Bring Me The Horizon e Falling In Reverse. Mais recentemente, o Rage e o Rap Underground têm exercido grande impacto sobre o seu trabalho, com influências de artistas como Zodiak, 2hollis e Ken Carson.

O público já pode explorar o single “123”, lançado em agosto, que conta com a colaboração de Micas, de Reia Cibele, no baixo. O single é um reflexo da habilidade de Kamuya em desafiar fronteiras e criar algo novo e cativante.

Para explorar mais sobre o trabalho de Kamuya, o link do EP e o single estão disponíveis abaixo:

Link para o EP “KAMUYA”

Single “123”

Mira Kendo – N Dija Nha Africa (2024) (single)

Mira Kendo – N Dija Nha Africa (2024) (single)

Braima Galissá nasceu na Guiné-Bissau, cresceu na tradição familiar dos griots, figuras íntimas da história cultural e identitária do povo Mandinga. Durante anos, dedicou-se a explorar as profundezas da sua herança, praticando a arte e o ofício da Kora.

Tocando o seu instrumento, sentado à sombra de uma mangueira outrora plantada em Bankulé Bissau, a sincronicidade existente na circularidade dos tempos trouxe à cena o músico holandês Jori Collignon. Produtor, teclista e músico eletrónico, Collignon vê-se como um amante das raízes tradicionais da música, que utiliza para tecer, na sua própria trama identitária, as pontes sonoras que interligam diferentes povos, origens e gerações.

Juntamente com o célebre guitarrista da Guiné-Bissau, Eliseu Imbana Forna e o baterista de Selma Uamusse, Gonçalo Santos, colaboraram na criação de Mira Kendô, ou “bem pensado”, um projeto que traz à conversa a naturalidade dos seus caminhos e eleva a sensibilidade das relações com os outros e com o mundo ao seu redor.

Após a apresentação do novo grupo no festival Le Guess Who? em 2023, nos Países Baixos, Mira Kendô lança o seu álbum de estreia pela Gris Gris Records no próximo dia 8 de Novembro.

“Kano” é o primeiro single de Mira Kendô. Uma doce e animada canção de amor. Esta homenagem ao jovem romance é cantada pelo Mestre Braima Galissá, acompanhado pelos sons hipnotizantes do seu kora. O guitarrista, Eliseu Imbana Forna, tece as suas partes de guitarra e baixo ao longo do arranjo, enquanto o orgão Farfisa de Collignon entrega algumas belas melodias e o baterista Gonçalo Santos marca o groove acelerado e envolvente. “Kano” é uma canção feita para mover corpos e corações.

Braima Galissá: “O Híbrido Improvável”

Texto de Fininho Sousa

Conheci Braima Galissá lentamente. Não num determinado momento, mas ao longo de anos. Quando nos tornámos amigos próximos e começámos a trabalhar juntos, éramos já incapazes de traçar a origem exacta da nossa amizade. Braima é uma figura cultural de talento cristalino, colocado perante uma ambiguidade azeda. Por um lado, é um artista disciplinado e meticuloso, que atingiu um nível de desempenho raro, colaborou com algumas das maiores figuras da música nacional como Sara Tavares e General D, toca Kora todos os dias há 55 anos e impõe um estilo especialmente tecnicista, sofisticado, e absorvente de todas as linguagens musicais valiosas à sua volta. Por outro, a arquitectura dos costumes culturais Europeus delineou-lhe limites por ele sempre rejeitados mas impossíveis de ignorar. Vezes sem conta, em sua representação perante o interesse – mais ou menos formal – de editoras na gravação e edição dos seus temas, ouvíamos propostas ou planos de pré-produção já definitivos que consistiam apenas no Braima, sozinho, a tocar os seus temas na Kora, cantando. Sem metrónomo, sem efeitos; “Puro”. E sem interesse em ouvir o próprio artista que, repetindo em vários idiomas e ao longo de variações gramaticais, afirmava que a sua música era de dança, criada para uma banda de pelo menos cinco elementos. Estes editores independentes, bem versados nos obscuros nomes do Jazz, nunca se aperceberam da arbitrariedade daquela arrogância; seria este paternalismo também calmamente explicado a discípulos dos Weather Report? A identidade histórica do Djidiu como contador de histórias e a sua formação histórica como compositor para Kora e voz é inegável. O que se duvida é do músico tradicional Guineense exclusivamente como agente do passado, estático no tempo, representante de uma pureza cultural imaginada. A Kora, como tantos outros instrumentos desenvolvidos ao longo de séculos, evoluiu. Braima, como qualquer músico Guineense, toca Salsa. O Gumbé, cuja versão Guineense é o orgulho nacional da Guiné-Bissau, teve muitas vidas, e tem muitas versões distintas pela África ocidental adiante. A Morna Cabo verdiana, como argumenta Vasco Martins, tem fortes influências da Argentina, via ilha da Boavista. A modernidade não é um projecto exclusivamente Europeu, e é um desperdício que músicos associados a territórios (erradamente) vistos como alheios à modernidade tenham constantemente de provar que também pertencem ao clube dos “cosmopolitas”. Os Tabanka  Djaz que o digam.

A 8 de Junho de 1998, de regresso à Guiné-Bissau depois de ter actuado em dois concertos, viu os seus voos cancelados ao saber que Ansumane Mané tinha reunido tropas para depor Nino Vieira em Bissau, iniciando uma Guerra Civil. Braima viu-se, então, inadvertidamente retido em Portugal e uma nova vida tomou forma. Um novo país por tempo incerto, com novas tradições musicais e formas de comunicação, e muitos admiradores de braços abertos. Uma das maiores diferenças que Braima refere ter encontrado em Lisboa foi a de poder colaborar com músicos de conservatório. Estes músicos, experimentados na composição colectiva, impunham um método e uma estrutura, tanto nas composições como nos ensaios, que o fez repensar as possibilidades da Kora e voz em estúdio. Tudo, afinal, era possível. Lembro-me de, em certos períodos de abertura e inspiração, ter ouvido pelo WhatsApp experiências quase diárias que o Braima ia fazendo com músicos de todos os ângulos. Da Kora em loop e sob efeitos, enleada numa manta de texturas de electrónica experimental, a um tema onde a Kora parecia arrastar-se, distorcida, em linguagem blues ou, frequentemente, a Kora tocando sobre uma caixa de ritmos. A vontade de absorver a diversidade espantosa de tradições musicais na metrópole não influenciou, no entanto, um dos pilares fundamentais da sua arte. Braima representa uma forma artística rara entre as elites culturais das grandes cidades contemporâneas: carrega a sua arte como um desígnio que exige disciplina, repetição, rigor e paciência. A Kora exige constantes afinações, manutenção e tipicamente um período de aprendizagem de vários anos, incompatível com a era artística contemporânea de expectativa de resultados imediatos. Braima não vê a sua carreira de músico como uma forma de escape ou de liberdade de expressão, mas como uma responsabilidade herdada, honrosa e que importa cumprir em pleno.

A minha geração, nascida pouco depois do 25 de abril em Portugal, foi totalmente dominada pela cultura do eixo EUA-Reino Unido. Essa preponderância, que abordei de forma juvenil mas enérgica no panfleto “Colónia Cultural Voluntária”, tem como uma das consequências a marginalização imediata de música de tradições afastadas desse eixo. A música de dança electrónica sem Detroit, Chicago, Londres e Manchester perde peso e transforma-se numa de duas hipóteses: um papagaio irrelevante, ou uma novidade imperceptível para a maioria esmagadora das populações ocidentais urbanas, educadas, viajadas e democráticas. As portas da aceitação são sempre, por muitas razões, abertas por projectos das mesmas metrópoles: Nova Iorque, Paris, Londres, LA, Berlim. A World Music como um projecto unitário (que é cada vez menos), mostrava “o outro lado” empurrado pela contracultura e pelos cooperantes  entretanto regressados. Esse lado, hoje, está esgotado porque traz consigo percepções essencialistas que o novo entusiasta já não patrocina: genuinidade, simplicidade, primitivismo.

Braima, continuamente avaliado por editores Europeus como apenas um representante, revelou repetidamente para quem o ouviu ao longo da sua longa carreira, todas as qualidades de um compositor tradicional em constante evolução, bem como as de um experimentador urbano implacável. Essas frequências, no entanto, permaneceram inaudíveis às mesmas elites que, nos anos 80, precaviam Youssou N´Dour para que não se degradasse fazendo música sofisticada. Este disco, ao aninhar-se em redor das suas composições enquanto busca um som híbrido e desabrigado, encurta distâncias e junta finalmente a arte de Braima ao corpo árduo de trabalho que cria novos pólos, novas misturas, novos riscos, novas alternativas aos mesmos centros urbanos que ainda hoje nos ditam o gosto. Porque é neste trabalho de lento aperfeiçoamento que se cria cultura: um achatamento intercultural radical que gera uma equivalência e familiaridade, facilitando a troca de argumentos musicais ao ponto das fusões parecerem, afinal, naturais.

Obrigado Braima e Gris Gris.

Mira Kendo – Yo Debo (2024) (single)

Ensaio do projecto musical Mira Kendo ( Mestre Braima Galissa , kora , Jori Collignon , teclados , Eliseu Forna Imbana , guitarra , e Goncalo Santuns , bateria ) no estudios Le Garage Palmela . Palmela , 22 de Setembro de 2023 . ©Enric Vives-Rubio

Mira Kendo – Yo Debo (2024) (single)

Braima Galissá nasceu na Guiné-Bissau, cresceu na tradição familiar dos griots, figuras íntimas da história cultural e identitária do povo Mandinga. Durante anos, dedicou-se a explorar as profundezas da sua herança, praticando a arte e o ofício da Kora.

Tocando o seu instrumento, sentado à sombra de uma mangueira outrora plantada em Bankulé Bissau, a sincronicidade existente na circularidade dos tempos trouxe à cena o músico holandês Jori Collignon. Produtor, teclista e músico eletrónico, Collignon vê-se como um amante das raízes tradicionais da música, que utiliza para tecer, na sua própria trama identitária, as pontes sonoras que interligam diferentes povos, origens e gerações.

Juntamente com o célebre guitarrista da Guiné-Bissau, Eliseu Imbana Forna e o baterista de Selma Uamusse, Gonçalo Santos, colaboraram na criação de Mira Kendô, ou “bem pensado”, um projeto que traz à conversa a naturalidade dos seus caminhos e eleva a sensibilidade das relações com os outros e com o mundo ao seu redor.

Após a apresentação do novo grupo no festival Le Guess Who? em 2023, nos Países Baixos, Mira Kendô lança o seu álbum de estreia pela Gris Gris Records no próximo dia 8 de Novembro.

“Kano” é o primeiro single de Mira Kendô. Uma doce e animada canção de amor. Esta homenagem ao jovem romance é cantada pelo Mestre Braima Galissá, acompanhado pelos sons hipnotizantes do seu kora. O guitarrista, Eliseu Imbana Forna, tece as suas partes de guitarra e baixo ao longo do arranjo, enquanto o orgão Farfisa de Collignon entrega algumas belas melodias e o baterista Gonçalo Santos marca o groove acelerado e envolvente. “Kano” é uma canção feita para mover corpos e corações.

Braima Galissá: “O Híbrido Improvável”

Texto de Fininho Sousa

Conheci Braima Galissá lentamente. Não num determinado momento, mas ao longo de anos. Quando nos tornámos amigos próximos e começámos a trabalhar juntos, éramos já incapazes de traçar a origem exacta da nossa amizade. Braima é uma figura cultural de talento cristalino, colocado perante uma ambiguidade azeda. Por um lado, é um artista disciplinado e meticuloso, que atingiu um nível de desempenho raro, colaborou com algumas das maiores figuras da música nacional como Sara Tavares e General D, toca Kora todos os dias há 55 anos e impõe um estilo especialmente tecnicista, sofisticado, e absorvente de todas as linguagens musicais valiosas à sua volta. Por outro, a arquitectura dos costumes culturais Europeus delineou-lhe limites por ele sempre rejeitados mas impossíveis de ignorar. Vezes sem conta, em sua representação perante o interesse – mais ou menos formal – de editoras na gravação e edição dos seus temas, ouvíamos propostas ou planos de pré-produção já definitivos que consistiam apenas no Braima, sozinho, a tocar os seus temas na Kora, cantando. Sem metrónomo, sem efeitos; “Puro”. E sem interesse em ouvir o próprio artista que, repetindo em vários idiomas e ao longo de variações gramaticais, afirmava que a sua música era de dança, criada para uma banda de pelo menos cinco elementos. Estes editores independentes, bem versados nos obscuros nomes do Jazz, nunca se aperceberam da arbitrariedade daquela arrogância; seria este paternalismo também calmamente explicado a discípulos dos Weather Report? A identidade histórica do Djidiu como contador de histórias e a sua formação histórica como compositor para Kora e voz é inegável. O que se duvida é do músico tradicional Guineense exclusivamente como agente do passado, estático no tempo, representante de uma pureza cultural imaginada. A Kora, como tantos outros instrumentos desenvolvidos ao longo de séculos, evoluiu. Braima, como qualquer músico Guineense, toca Salsa. O Gumbé, cuja versão Guineense é o orgulho nacional da Guiné-Bissau, teve muitas vidas, e tem muitas versões distintas pela África ocidental adiante. A Morna Cabo verdiana, como argumenta Vasco Martins, tem fortes influências da Argentina, via ilha da Boavista. A modernidade não é um projecto exclusivamente Europeu, e é um desperdício que músicos associados a territórios (erradamente) vistos como alheios à modernidade tenham constantemente de provar que também pertencem ao clube dos “cosmopolitas”. Os Tabanka  Djaz que o digam.

A 8 de Junho de 1998, de regresso à Guiné-Bissau depois de ter actuado em dois concertos, viu os seus voos cancelados ao saber que Ansumane Mané tinha reunido tropas para depor Nino Vieira em Bissau, iniciando uma Guerra Civil. Braima viu-se, então, inadvertidamente retido em Portugal e uma nova vida tomou forma. Um novo país por tempo incerto, com novas tradições musicais e formas de comunicação, e muitos admiradores de braços abertos. Uma das maiores diferenças que Braima refere ter encontrado em Lisboa foi a de poder colaborar com músicos de conservatório. Estes músicos, experimentados na composição colectiva, impunham um método e uma estrutura, tanto nas composições como nos ensaios, que o fez repensar as possibilidades da Kora e voz em estúdio. Tudo, afinal, era possível. Lembro-me de, em certos períodos de abertura e inspiração, ter ouvido pelo WhatsApp experiências quase diárias que o Braima ia fazendo com músicos de todos os ângulos. Da Kora em loop e sob efeitos, enleada numa manta de texturas de electrónica experimental, a um tema onde a Kora parecia arrastar-se, distorcida, em linguagem blues ou, frequentemente, a Kora tocando sobre uma caixa de ritmos. A vontade de absorver a diversidade espantosa de tradições musicais na metrópole não influenciou, no entanto, um dos pilares fundamentais da sua arte. Braima representa uma forma artística rara entre as elites culturais das grandes cidades contemporâneas: carrega a sua arte como um desígnio que exige disciplina, repetição, rigor e paciência. A Kora exige constantes afinações, manutenção e tipicamente um período de aprendizagem de vários anos, incompatível com a era artística contemporânea de expectativa de resultados imediatos. Braima não vê a sua carreira de músico como uma forma de escape ou de liberdade de expressão, mas como uma responsabilidade herdada, honrosa e que importa cumprir em pleno.

A minha geração, nascida pouco depois do 25 de abril em Portugal, foi totalmente dominada pela cultura do eixo EUA-Reino Unido. Essa preponderância, que abordei de forma juvenil mas enérgica no panfleto “Colónia Cultural Voluntária”, tem como uma das consequências a marginalização imediata de música de tradições afastadas desse eixo. A música de dança electrónica sem Detroit, Chicago, Londres e Manchester perde peso e transforma-se numa de duas hipóteses: um papagaio irrelevante, ou uma novidade imperceptível para a maioria esmagadora das populações ocidentais urbanas, educadas, viajadas e democráticas. As portas da aceitação são sempre, por muitas razões, abertas por projectos das mesmas metrópoles: Nova Iorque, Paris, Londres, LA, Berlim. A World Music como um projecto unitário (que é cada vez menos), mostrava “o outro lado” empurrado pela contracultura e pelos cooperantes  entretanto regressados. Esse lado, hoje, está esgotado porque traz consigo percepções essencialistas que o novo entusiasta já não patrocina: genuinidade, simplicidade, primitivismo.

Braima, continuamente avaliado por editores Europeus como apenas um representante, revelou repetidamente para quem o ouviu ao longo da sua longa carreira, todas as qualidades de um compositor tradicional em constante evolução, bem como as de um experimentador urbano implacável. Essas frequências, no entanto, permaneceram inaudíveis às mesmas elites que, nos anos 80, precaviam Youssou N´Dour para que não se degradasse fazendo música sofisticada. Este disco, ao aninhar-se em redor das suas composições enquanto busca um som híbrido e desabrigado, encurta distâncias e junta finalmente a arte de Braima ao corpo árduo de trabalho que cria novos pólos, novas misturas, novos riscos, novas alternativas aos mesmos centros urbanos que ainda hoje nos ditam o gosto. Porque é neste trabalho de lento aperfeiçoamento que se cria cultura: um achatamento intercultural radical que gera uma equivalência e familiaridade, facilitando a troca de argumentos musicais ao ponto das fusões parecerem, afinal, naturais.

Obrigado Braima e Gris Gris.

Kamuya – Ninguém Ft.koi Kowaku (2024) (single)

Kamuya – Ninguém Ft.koi Kowaku (2024) (single)

O artista multifacetado Kamuya está prestes a lançar o seu novo EP autointitulado, KAMUYA, um projeto que explora uma fusão inovadora entre Rage, Trap, Emo e EDM. Gravado, misturado e masterizado no próprio estúdio de Kamuya, o EP reflete a versatilidade e experimentação sonora do artista ao longo de nove faixas cuidadosamente produzidas e será apresentado pela primeira vez ao público no MusicBox, dia 13 de Novembro, no evento Bloodborne, onde Kamuya atuará junto a MIZU, Koi Kowaku e outros artistas independentes que fazem parte do line up da segunda edição do evento.

Kamuya, também conhecido como Ricardo Ramalho, cresceu em Marinhais e construiu a sua reputação na cena musical underground de Lisboa, tanto como artista solo quanto como membro do grupo Dark Knights Clique, ao lado de Devlloz e SKIN. Este ano, Kamuya teve destaque como DJ e engenheiro de som no evento Bloodborne no MusicBox e participou no evento solidário A-gosto, organizado pela Rádio Ophelia. Recentemente, atuou com o grupo Dark Knights Clique na FCUL, num evento de benefício para apoiar estudantes.

O EP KAMUYA inclui colaborações especiais com o artista Koi Kowaku em duas faixas e destaca-se pela sua fusão de elementos digitais e acústicos, como sintetizadores, guitarra, baixo e bateria. Kamuya explora as várias facetas da sua musicalidade, misturando gêneros de forma fluida e criando uma atmosfera única que junta o old school com o new school do underground.

As influências de Kamuya são vastas, desde o SoundCloud Rap, com referências a XXXTENTACION e Juice WRLD, até à cena Emo, com bandas como Bring Me The Horizon e Falling In Reverse. Mais recentemente, o Rage e o Rap Underground têm exercido grande impacto sobre o seu trabalho, com influências de artistas como Zodiak, 2hollis e Ken Carson.

O público já pode explorar o single “123”, lançado em agosto, que conta com a colaboração de Micas, de Reia Cibele, no baixo. O single é um reflexo da habilidade de Kamuya em desafiar fronteiras e criar algo novo e cativante.

Para explorar mais sobre o trabalho de Kamuya, o link do EP e o single estão disponíveis abaixo:

Link para o EP “KAMUYA”

Single “123”

Toña La Negra – Oración Negra (2022)

Toña La Negra – Oración Negra (2022)

Memória de Elefante 02/11/24

Autor: Francesco Valente

Uma rubrica que revela eventos, curiosidades, lançamentos, aniversários e fatos históricos ligados ao universo da música popular mundial.

African Roots #57

African Roots #57

Autor:

Gil Santos 

African Roots é um podcast semanal que explora as sonoridades Africanas, indo às raízes e aos discos perdidos, passando por novos projetos sem rótulos estilísticos, podemos ir do boogie ao semba, das mornas ao soul, do zouk ao disco. Há espaço para tudo o que seja boa música Africana.

Tudo gravado em vinil.

TRACKLIST:

1 – Matata – Wanna Do My Thing

2 – Amadou & Mariam – Filaou Bessame

3 – Sir Victor Uwaifo – Kirikisi 

4 – The Apostles – Don’t Huzzle for Love

5 – Bola Johnson – Lagos Sisi

6 – Horoya Band – WèRè WèRè

7 – Afro National – Push Am Forward

8 – The Psychedelic Aliens – Okponmo Ni Tsitsi Emo Le

9 – Mbamina – Djambo (Salut a l’Afrique) 

10 – Geraldo Pino – Let Them Talk

11 – Ify Jerry Krusade – Everybody Likes Something Good

12 – Orchestra Baobab – Kelen ati leen

13 – The Sweet Talks – Akampany

14 – Marumo – Khomo Tsaka Deile Kae?

15 – Monomono – Tire Loma da Nigbehin

16 – Brigth Engelberts – Tolambo Funk 

Yma Sumac – Un Amor (2024)

Yma Sumac – Un Amor (2024)

Memória de Elefante 01/11/24

Autor: Francesco Valente

Uma rubrica que revela eventos, curiosidades, lançamentos, aniversários e fatos históricos ligados ao universo da música popular mundial.

Playlist Lançamentos Outubro 2024

Playlist Lançamentos Outubro 2024

A Radio Olisipo recebe diariamente solicitações de músicos que pretendem divulgar suas obras. A cada mês publicamos uma seleção em formato de playlist, com temas de álbuns, new releases e singles em destaque. Aqui apresentamos a playlist dos destaques do mês de Outubro 2024. Boa Escuta!

Playlist Lançamentos Outubro 2024 I

01. Equinōcio – Marcha a Ré (feat. O Marta) (2024) (single) 

02. Virgem Suta – Amor Ao Avesso (2024) (single)

03. Rossana – Inglaterra (2024) (single) 

04. Rod Krieger – Cabelos Longos (2024) (single) 

05. Manila – Estas Ruínas (2024) (single)

06. Sandra Martins – Meu Sul (2024) (single) 

07. Ganso – Papel de Jornal (2024) (single)

08. Jafuipedro – Vida de Recreio (2024) (single) 

09. Janes – Faz – Me Sonhar (2024) (single) 

10. Biloba – Flor de Verão (2024) (single) 

11. Jazzy Moon ft Ric Wolf – Your Eyes (2024) (single) 

12. Mlk Mau Aluno – John Travolta (2024) (single) 

13. Don Pie Pie – Chairy (2024) (single) 

14. Duarte Pádua – Never Late (2024) (single)

15. Dora Maria – Saias que Agita (2024) (single)

16. Sue – 9 de Setembro (2024) (single)

17. Sue – Pulse (2024) (single) 

18. André Mourão – Cansaço (2024) (single) 

19. Beatoven – M&H (feat. Carla Prata & Dj LyCox) (2024) (single) 

20. Bombazine – Pouca Dura (2024) (single) 

Playlist Lançamentos Outubro 2024 II

21. Rogério Godinho – Virou Silêncio (2024) (single) 

22. Ela Jaguar – BMF (2024) (single) 

23. Treewax – Save Me (2024) (single) 

24. Humana Taranja – Casa (feat. Evaya)(2024) (single) 

25. MELA – Não é amor (2024) (single) 

26. Mão Cabeça – A Cigarra E A Formiga (2024) (single) 

27. Mão Cabeça – Nódoa (2024) (single) 

28. Mão Cabeça – Alecrim (2024) (single) 

29. MONiMO – in between (2024) (single) 

30. Filipe Furtado – Cravos (2024) (single) 

31. Marta Bettencourt & João Miguel – Só A Lua Sabe (2024) (single) 

32. Carlos Cavallini – Um Milhão (2024) (single) 

33. Yosune – Lámpara (Mi Deseo) (2024) (single)

34. JonTravelz – En Passant (2024) (single) 

35. Merai – Ser (Mito de Orfeu) (2024) (single) 

36. MaZela – Entre Amor E Ódio (2024) (single) 

37. Silva Lining Band – I Don´t Really Mind (2024) (single)

38. Kiko & The Blues Refugees – Ghosts (2024) (single) 

39. Sophia & Os Senhores Roubados – Patinho Feio (2024) (single)

40. Bruno Pereira – Ainda Espero Que Me Escrevas (2024) (single) 

41. Raquel Santos – Losing (2024) (single)

42. Objeto Quase – Fim da Paciência (2024) (single) 

43. Sana – Só não te sei dizer que não (2024) (single) 

44. Jay Mezo – Tudo o que lá vai, um dia volta (2024) (single) 

45. Sofia Hoffmann – In Love (2024) (single) 

Ali Farka Touré – The River (1990)

Ali Farka Touré – The River (1990)

Memória de Elefante 31/10/24

Autor: Francesco Valente

Uma rubrica que revela eventos, curiosidades, lançamentos, aniversários e fatos históricos ligados ao universo da música popular mundial.

Prazeres Interrompidos #310: Diana Preston – Eight Days at Yalta (2020)

Prazeres Interrompidos #310: Diana Preston – Eight Days at Yalta: How Churchill, Roosevelt, and Stalin Shaped the Post-War World (2020)

Autor:

Octávio Nuno

Podcast sobre livros. Um livro num minuto! Em todas as tuas redes sociais, plataformas de podcasts, mas também nas rádios e jornais. Boas leituras!

While some of the last battles of WWII were being fought, U.S. President Franklin Roosevelt, British Prime Minister Winston Churchill, and Soviet Premier Joseph Stalin–the so-called “Big Three”–met from February 4-11, 1945, in the Crimean resort town of Yalta. Over eight days of bargaining, bombast, and intermittent bonhomie, while Soviet soldiers and NKVD men patrolled the grounds of the three palaces occupied by their delegations, they decided, among other things, on the endgame of the war against Nazi Germany and how a defeated and occupied Germany should be governed, on the constitution of the nascent United Nations, on the price of Soviet entry into the war against Japan, on the new borders of Poland, and on spheres of influence elsewhere in Eastern Europe, the Balkans, and Greece. With the deep insight of a skilled historian, drawing on the memorable accounts of those who were there–from the leaders and high level advisors such as Averell Harriman, Anthony Eden, and Andrei Gromyko, to Churchill’s clear-eyed secretary Marian Holmes and FDR’s insightful daughter Anna Boettiger–Diana Preston has, on the 75th anniversary of this historic event, crafted a masterful and vivid chronicle of the conference that created the post-war world, out of which came decisions that still resonate loudly today.

Ever since, who “won” Yalta has been debated. Three months after the conference, Roosevelt was dead, and right after Germany’s surrender, Churchill wrote to the new president, Harry Truman, of “an iron curtain” that was now “drawn upon [the Soviets’] front.” Knowing his troops controlled eastern Europe, Stalin’s judgment in April 1945 thus speaks volumes: “Whoever occupies a territory also imposes on it his own social system.”