Cool Hipnoise – “Sexy”
Projeto Ágora: Entrevista com Mimmo Epifani (04/11/2021)
Mimmo Epifani, é um conhecido bandolinista de San Vito dei Normanni, cidade da província de Brindisi, em Puglia (Itália). Colaborou com artistas de renome a nível internacional como Massimo Ranieri, Eugenio Bennato, com quem fundou o movimento Taranta Power, Antonio Infantino, Caterina Bueno, Matteo Salvatore, Ambrogino Sparagna, Avion Travel, Peppe Servillo, Danilo Rea, Rita Marcotulli, Fabrizio Bosso, Roberto Gatto, Furio Di Castri, Javier Girotto, Fausto Mesolella, entre outros. Participa também nas atividades do Circolo Mandolinistico de San Vito dei Normanni. Trata-se de um artista de referência para a cultura local e o desenvolvimento de géneros expressivos do Salento, como a pizzica e a tarantela.
Em resposta à situação de atual emergência devida à pandemia do COVID-19 e à necessidade de promover iniciativas que possam avaliar e atenuar o impacto no âmbito das artes performativas, investigar os efeitos da crise, com enfoque no sector da música, documentar as estratégias aplicadas pelos artistas nas suas atividades criativas e de performance, o Projeto Ágora convida Mimmo Epifani, para compreender os efeitos provocados pela crise sanitária, quer no nível individual, quer no âmbito do sector cultural em Portugal.
Francesco: Bom dia Mimmo Epifani! Obrigado por aceitar o convite e pela disponibilidade. Estamos aqui em Salento e obrigado por conceder esta entrevista.
Podes te apresentar,? Quem és, Mimmo Epifani ?
Mimmo Epifani: Obrigado a ti Francesco! Grande músico e amigo da Calábria, Milão e Portugal! São três: calabresa, milanesa e portuguesa!
Francesco: … e pernambucano, obrigado!
Mimmo Epifani: Grande! A apresentação… Eu sou um músico que toca bandolim um pouco ao redor do mundo, comecei aqui na zona rural de Alto Salento, San Vito dei Normanni, na província de Brindisi. Havia uma senhora aqui que tocava tambor nas “tarantate”, Belvedere… o nome era Belvedere! Depois veio o Mestre Mino Parmisano, Giovanni Parmisano Nardelli, Parmisano era o apelido… com ele comecei a aprender a arte do bandolim! Ele era um artesão, porque tocava tarantate, tocava pizziche e também construía instrumentos. Obviamente, ele era agricultor e fazia tudo sozinho! Aprendi a arte da música assim: ouvindo nas barbearias, na verdade ele era amigo dos barbeiros! Então… o meu mestre, depois… quem me aperfeiçoou cada vez mais, sempre “de ouvido”, ou seja, “sem música”, foi o Mestre Costantino Vito, um barbeiro da minha terra, de San Vito dei Normanni, enfim, onde… além da arte da música ele também exercia essa profissão de barbeiro. Ou seja, cortava barba e cabelo, não lavava com shampoo, não fazia mais nada porque não tinha água quente dentro da sua loja… e isto resumindo… depois lentamente, ao longo do caminho…
Francesco: Veio tudo o resto?
Mimmo Epifani: Veio tudo o resto! Veio o conservatório, veio a banda, vieram os amigos com quem tocámos juntos… Suíça, Florença e agora voltei ao básico, porque você sempre volta para onde começou… para fazer as coisas bem feitas, não se pode trair as origens e o lugar onde se nasceu!
Francesco: Isso é muito interessante porque, mesmo o meu regresso ao Sul [de Itália], tendo em conta que a minha família é do Sul, tem algo a ver! Então tu cresceste aqui no interior e aprendeste o bandolim aqui, depois nas barbearias avançaste e desenvolveste a tua técnica e foste para o conservatório e, com isso, começaste a tocar pelo mundo fora?
Mimmo Epifani: Eu fiz os primeiros concertos… os primeiros concertos, digamos assim… vamos chamá-los… as primeiras apresentações, um concerto… a tocar para um público… o meu primeiro público foi o da igreja, digamos… fora da barbearia. Antes tocava-se só na barbearia, só te deixavam tocar lá. Punham-te a guitarra na mão para começares a aprender e a acompanhar. Mas aí… era um público só de homens e pessoas que conheciam a barbearia! Ou seja, não era um público real formado por homens e mulheres, crianças… bem… não, nada! Eu conheci o público real quando comecei a tocar na igreja, porque o meu professor dizia-me:”Quando você sai daqui, como você toca aqui, você deve tocar como na igreja. O palco é como se você estivesse na igreja, é preciso respeito, para com os músicos que tocam contigo e para com o público que te ouve.”
E, a partir daí, fiquei sempre com esta coisa de tocar vestido de forma bastante sóbria. Aqui… bem, não… calções. Já vi concertos… onde… pessoas que vinham com calções e sapatilhas, ora… assim, tipo… eu, não! Ainda não consegui fazer isso! Mesmo a tocar no meio da rua, em qualquer lugar de desespero possível, é sempre… pronto! Um respeito pela música, tanto pelo instrumento, como por quem te ouve!
Francesco: No teu percurso musical, já tocaste pelo mundo fora, eu sei… tocaste em quase todos os países que existem… mas num certo momento… te cruzaste com a cultura portuguesa, Lisboa e o fado!
Mimmo Epifani: Sim Sim! Felizmente, uma vez, aconteceu quando eu morava em Florença, porque eu estava a estudar em Pádua no conservatório, mas eu morei em Florença por uma série de coisas… Comecei a tocar numa orquestraem Viareggio, num grupo que tocava nos navios e aconteceu que me chamaram para tocar para uns turistas japoneses que adoravam a música napolitana e também o bandolim. Então, eu estava a tocar num restaurante, num hotel de cinco estrelas muito prestigiado perto de Siena para estes turistas japoneses e a sorte foi que o chefe de cozinha era português e vinha do Alentejo. Fiz amizade com o chefe, porque depois comemos lá, acabámos… entre uma pausa e outra falávamos, eu ia para a cozinha porque sempre me interessei não só por música, mas também por arte culinária, enfim… certo? Porque o principal é isso: é a música e a comida, porque se você não come bem não pode tocar bem, inútil… estamos… não é? Essa é a minha filosofia! Pronto! E então, este chef português fez-me descobrir as canções de Amália Rodrigues e a cultura popular de Portugal, que tinha muitas semelhanças com a do Sul de Itália e pronto! Com a Puglia… onde estou! Os meus amigos portugueses, quando vêm aqui dizem que é uma espécie de Alentejo, então… tive a sorte de conhecer este meu amigo e… que me apresentou a Portugal e me levou a Portugal pela primeira vez , há 25 anos… 26 ou 27… 28 anos atrás… bem! E, a partir daí, a minha paixão, o meu amor e tudo o que aconteceu com a música e a colaboração musical cresceu!
Francesco: E colaborações com músicos portugueses… ah desculpa!
Mimmo Epifani: Também deve-se ao facto de, no meu percurso musical, ter conhecido o diretor de um festival, que é um dos festivais mais importantes da cultura lusófona e ele é italiano, de Pontedera, Marco Abbondanza. O festival chama-se Sete Sóis Sete Luas. Conhecendo-o e depois conhecendo outros músicos, enfim… no contexto dessas tournés que aconteceram e enfim…
Francesco: Acabaste por conhecer melhor a cultura portuguesa?
Mimmo Epifani: Conheci melhor a cultura portuguesa e os músicos portugueses!
Francesco: E tocaste recentemente num evento muito importante?
Mimmo Epifani: Sim! Num evento muito importante: “Cem músicos para Amália” porque era o centenário do nascimento de Amália, faria 100 anos este ano e convidaram-me para tocar e interpretar algumas músicas italianas que Amália cantou! Então fui o único músico que chamaram da Itália para fazer esse evento, num belo teatro, entre outras coisas: o Teatro São Luiz, em Lisboa!
Francesco: Lindo! E assim tu que tens… que também conheces bem a música napolitana e agora também estás a entrar, há já alguns anos no mundo do fado, como pensas que… quais podem ser os pontos de contacto entre estes dois géneros musicais… as duas cidades, as duas músicas?
Mimmo Epifani: As duas cidades, as duas músicas, são… aparentemente distantes… mas muito próximas… tanto no poema, na letra, nas palavras e também na música, porque… existe a canção do fado e há também a serenata napolitana, certo? A “posteggia” é feita de bandolim, guitarra e um homem que cantava! Em Portugal, por outro lado, há o homem e a mulher que cantam, que tocam guitarra de fado, a viola que é uma guitarra normal como as que temos aqui e agora há também a adição do baixo, antes não tinha… e uma mulher que cantava de xaile, sempre com pinta… como dizia o meu professor, sempre… ou seja, até os fadistas têm sempre que se vestir de alguma forma… elegante! E essa era a cultura! Depois a comida é a mesma, é uma coisa linda, mais do que a comida, também o convívio… Portugal é um país que tem a ver com música e comida… muita afinidade com o Sul de Itália e com Nápoles também!
Francesco: Perfeito! Voltando um pouco à cultura local daqui… em relação ao Circolo Mandolinistico [Clube Bandolinístico], tu também foste um dos protagonistas?
Mimmo Epifani: Não! Eu juntei-me ao Clube Bandolinístico depois, um dos protagonistas é o mestre que faleceu, já não está lá, esteve há alguns meses… Federico di Viesto, que abriu este Clube Bandolinístico, que na realidade, antes… foi aberto em 1935 se não me engano… ’35 ou ’37… depois foi fechado por uma série de coisas, que a guerra tinha chegado… e depois Federico di Viesto reabriu. Federico di Viesto depois encerrou-o… porque, resumindo, tinha uns esquemas um pouco, digamos… antiquados, não? Faziam sempre as mesmas coisas, mas a sorte foi que entrou lá o Giuseppino Grassi, que é outro bandolinista de San Vito, que queria reabrir o clube e queria fortemente que as atividades fossem retomadas. Então agora eu também participo com Giuseppino nas atividades do Clube Bandolinístico, que é uma realidade tão importante de San Vito dei Normanni. Ou seja, da nossa terra e que também está a ganhar espaço em toda a Itália e espero que no mundo!
Francesco: Poderia tornar-se um centro de bandolim no sul de Itália de referência para muitos músicos?
Mimmo Epifani: Sim, sim! Certo!
Francesco: E a resposta dos jovens, como é? Eles estão a aproximar-se da música popular?
Mimmo Epifani: Eles estão a aproximar-se da música popular, infelizmente de uma forma, às vezes, demagógica, errada… porque agora a música popular tornou-se mais do que apenas música para ouvir, também é uma tradição sobre a qual… se pode trabalhar e talvez desenvolver, certo? De uma forma moderna, porque não é que se possa fazer música tradicional como era há cem anos… ou há cinquenta anos… é preciso saber bem como se fez para talvez remodelá-la de alguma forma, é isso que eu faço nos meus álbuns, certo? Por outro lado, para alguns jovens, essa música popular, por assim dizer… a pizzica tarantata, na aldeia de San Vito há essa dança de San Vito, a pizzica… que se tornou uma moda, então sendo uma moda fazem de uma forma… pois! Na minha opinião, às vezes… até de uma forma errada, infelizmente!
Francesco: Ok! A barbearia também foi reaberta?
Mimmo Epifani: As barbearias sempre estiveram abertas… agora, retomámos aquela antiga tradição que existia antes! Uma tradição “velha” mais do que “antiga”! Não, eu diria também antiga… porque… há mais de duzentos anos atrás eles tocavam… tocava-se nas barbearias e ensinava-se a tocar instrumentos e também entretinham as pessoas que iam cortar o cabelo e fazer a barba, digamos! Clientes!
Francesco: Isso é lindo! E tu encontraste essa tradição em outros lugares do Sul de Itália?
Mimmo Epifani: Sim, Sim! Não… em outros lugares do Sul de Itália, em toda a Itália até Roma sempre houve essa coisa do barbeiro, porque eles encontravam-se, brincavam e conversavam sobre outras coisas, enfim, havia uma espécie de centro de… cá! De reunião da pequena cidade, o barbeiro sabia de tudo… entendes? As histórias de toda gente… e toda a gente falava sobre os seus problemas e depois tocava-se… e pronto! Um ponto de encontro, pronto!
Francesco: Então a música tradicional foi transmitida naquele ponto de encontro social, que era a barbearia.
Mimmo Epifani: Na barbearia, sim! Naquela ponto de encontro que era a barbearia… porque aí depois chamavam-se os barbeiros para irem fazer o pequenos concertos, não é? Para curar até as picadas das “tarantate” e os chamados, enfim… tarantati! Aqueles que foram picados ou beliscados por uma hipotética aranha, enfim… mas esse é um tópico um pouco maior para abrir… que merece… uma coisa específica!
Francesco: É claro! E para concluir, gostaria de te perguntar: tu como músico além de … ser humano, todos nós passámos por esse período difícil nos últimos dois anos, gostaria de saber como viveste, enquanto músico, o período do lockdown, a pandemia, como foi para ti?
Mimmo Epifani: Olha! Eu fiquei com muito medo na realidade, porque eu nunca tinha vivenciado uma coisa dessas… a conversar com os idosos, porque eu adoro estar com os idosos, porque eu aprendo muito com eles, enfim… eles disseram-me que nem na época de guerra aconteceu uma coisa parecida… porque estamos acostumados a viajar, a tocar, a lidar com o público, não é? É como… para nós, é o nosso pão de cada dia, porque se não tocarmos, não estamos no centro das atenções, nos sentimos um pouco… Então, sendo que não se podia sair com o carro, não podia se andar no meio da estrada, andar sempre com essa máscara até agora… não? A obrigação também de levar a vacina e coisas que a gente talvez, a gente não queira fazer… mas eu tinha que fazer de propósito porque… eu tenho pavor de picadas e essas coisas assim… não porque sou contra a vacina, pelo contrário… se for bom… vamos torcer para que seja bom! Bem… mas eu fiquei apavorado e tive que fazer de propósito porque não tendo o Green Pass, não te deixavam subir ao palco e toda essa história… então eu fiquei assustado! A certa altura, comecei a entender que tínhamos que conviver com isso… e como toda a gente eu estive em casa, a escrever música e… mas não música triste, não. Eu nunca fiquei triste… não! Pelo contrário, fiz um caminho, digamos assim… comecei a tocar e a estudar para quando terminar… ser mais… também foi um momento de reflexão e estudo, de estudo, é isso!
Francesco: Ah que bom! Então aproveitaste para… nesse sentido foi positivo?
Mimmo Epifani: Sim, Sim! Mas todas as coisas são positivas! Até esse vírus que veio, eu não sei! Sinto muito pelas pessoas que morreram e não sobreviveram, que ficaram doentes… mas de alguma forma isto também nos fez entender que… houve um momento da nossa vida, em que tínhamos abusado demais de tudo… uma coisa demais, demais…
Francesco: Ao extremo?
Mimmo Epifani: Ao extremo de tudo! Então houve uma coisa superior a nós, eu acho… eu vejo dessa forma, que nos disse: “vocês têm que se acalmar um pouco!” Ainda por cima, quem sabe de onde vem esse vírus? E na minha opinião, essa doença não acaba nem com remédios, nem com vacinas, nem com médicos, nem com cientistas… ela vai acabar quando o Senhor Nosso Deus quiser! Acho que é a minha opinião!
Francesco: Ok! Obrigado Mimmo!
Mimmo Epifani: Obrigado a ti Francesco!
Francesco: Olha, para o público português, que talvez vai ver esta entrevista… se quiseres, diz como podem ouvir a tua música e onde… um website?
Mimmo Epifani: Sim! Há um site http://www.mimmoepifani.it e depois nos vários motores de busca, na internet, youtube, spotify, todas essas coisas modernas que eu não conheço bem… enfim! Basta colocar Mimmo Epifani no computador e depois aparece!
Francesco: Encontram a tua música! Obrigado mais uma vez Mimmo!
Mimmo Epifani: Obrigado a ti Francesco e esperamos… que nos recuperemos o mais rápido possível de todas essas coisas más que estão a acontecer!
Francesco: Obrigado mais uma vez!
Mimmo Epifani: Obrigado!
Lafa Mukigo #4: Foggy
Disco Voador: Patricia Pascal | Jazznewblood Tapes #1
O meu disco é melhor que o teu! Ep#3 Ricardo Quinteira
Disco Voador: ULULO | Música Moura #2
Projeto Ágora: Entrevista com Ariel Rodriguez (10/03/2021)
Ariel Alejandro Rodríguez Garcés (San Juan, Argentina), Licenciado em Composição Musical (Universidad Nacional de Villa María, Córdoba, Argentina), conta com uma extensa experiência como docente no ensino musical. Nos últimos vinte anos desenvolveu uma intensa trajetória profissional: festivais, concertos, gravações e workshops em Argentina, Brasil, Espanha, França, Portugal, Alemanha, Itália, Turquia, etc. Conta atualmente com um total de 4 discos autorais, assim como música para peças de teatro e espetáculos de dança contemporánea. Em 2017 radica-se em Serpa, Portugal, onde trabalhou como criador residente, gestor, técnico de gravação, pós-produção de áudio e professor de piano no Musibéria -Centro Internacional de Músicas e Danças do Mundo Ibérico– (Centro Internacional de Músicas e Danças do Mundo Ibérico). Atualmente reside em Lisboa onde desenvolve-se maiormente como compositor, pianista e arranjador colaborando com inúmeros artistas da cena local e internacional. Atualmente reside em Lisboa onde colabora com vários artistas entre os quais destacamos Martin Sued e Orquestra Assintomática.
Em resposta à situação de atual emergência devida à pandemia do COVID-19 e à necessidade de promover iniciativas que possam avaliar e atenuar o impacto no âmbito das artes performativas, investigar os efeitos da crise, com enfoque no sector da música, documentar as estratégias aplicadas pelos artistas nas suas atividades criativas e de performance, o Projeto Ágora convida Ariel, para compreender os efeitos provocados pela crise sanitária, quer no nível individual que no âmbito do sector cultural em Portugal.
Francesco: Olá Ariel! Boa tarde, obrigado por ter disponibilizado esta conversa Ariel Rodriguez: obrigado eu…
Francesco: do Projeto Ágora, que está começando e vai abarcar muitos músicos amigos e colegas! Queria que te apresentasses…
Ariel Rodriguez: olha para a câmara ou olho para ti?
Francesco: Para mim!
Ariel Rodriguez: Eu sou Ariel Rodrigues, eu sou argentino, estou a viver aqui em Portugal já há mais de 4 anos, e pronto, sou músico, principalmente pianista, também toco guitarra, sou compositor e arranjador, pronto! Chega!
Francesco: Então, eu queria começar fazendo-te esta pergunta: eu queria saber de que maneira a pandemia te afetou do ponto de vista financeiro, desde o princípio? Ou seja, já passou um ano, estamos a cumprir um ano de pandemia e confinamentos vários e lockdowns… de que maneira isso te afetou do ponto de vista financeiro?
Ariel Rodriguez: Pronto! Foi muito concreto, foi uma afetação muito concreta, todos os trabalhos pararam, todos os projetos ficaram cancelados alguns, outros adiados, outros não sabem quando vão se montar e pronto! A atividade mesmo, encerrou! Então, pronto! A atividade financeira dependia desta atividade e esta atividade empírica mesma, da própria atividade… eu já acho que é um sucesso, é um êxito ter sobrevivido este ano nestas condições e não sei quanto tempo vai durar, mas sim afetou de uma forma muito concreta. Eu literalmente, no sentido literal… eu comi dos meu ahorros, das minhas poupanças, eu comi… este ano foi disso!
Francesco: Exato…
Ariel Rodriguez: consegui recuperar um bocadinho em alguns momentos…
Francesco: no final se calhar do ano de 2020?
Ariel Rodriguez: Sim! Consegui recuperar para que no pingue tão rapidamente, não? O dinheiro, mas eu literalmente vivi disso…
Francesco: ok! E dos apoios do governo, digamos assim, ao sector artístico… tiveste a possibilidade de conseguir algum apoio, recebeste alguma coisa? Da Segurança Social, dos outros apoios da GDA…
Ariel Rodriguez: estou à espera um bocado de uma resposta da Segurança Social, agora neste momento. Eu tinha pedido para a cultura também um apoio e não sei se tenho sido escolhido ou não… à partida eu não tenho, são as únicas duas, os dois apoios que eu precisei pedir, até agora…
Francesco: …que podias?
Ariel Rodriguez: Que poderia, sim! Poderia pedir mais, na verdade não senti a necessidade, senti que se calhar tinham outras pessoas que precisavam mais do que eu… eu senti me ainda seguro, mas pronto já… tal como eu disse aquele… eu comecei a ver o final da minha conta bancária e pronto, então comecei a ficar… olha: se calhar eu vou precisar de pedir e agora para o futuro vou ficar mais atento!
Francesco: Te ocorreu alguma vez durante este período de pensar, vou mudar de trabalho?
Ariel Rodriguez: Sim, sim! Sim já me ocurrió, durante este período e durante o outro período também já… um período normal da vida, às vezes eu pensei… se calhar, sei lá, posso estudar psicologia a ser tipo psicólogo ou outra coisa, não sei…
Francesco: …mas ocorreu várias vezes, não é?
Ariel Rodriguez: E agora aprofundou um bocado, aquela crise existencial que eu acho uma crise saudável, digamos… um replaneamento constante do como faço o que eu faço, porque eu faço o que faço, quero fazer só isto? Quero fazer outras coisas? Pronto! Isto colocou também muitas coisas em questão, na verdade eu não acho que seja mais do que uma atividade intelectual, não vai passar de ai, eu vou continuar a fazer música enquanto se… enquanto eu puder eu vou fazer música…
Francesco: …e exatamente em termos de trabalho criativo, estávamos a falar um bocadinho antes, de que maneira todo este processo de confinamento, dos lockdowns, pandemia e falta de perspetivas, como de trabalho e apresentações em público, de que maneira isto afetou o teu trabalho criativo, por exemplo, em casa?
Ariel Rodriguez: Também foi muito direto, inicialmente eu tive uma espécie de explosão criativa, quando consegui encontrar de repente muito tempo que normalmente não tinha, uma pequena explosão criativa e também eu acho, mesmo no começo da pandemia quando foi aquele primeiro lockdown, eu tive assim um momento… florescer uma pequena primavera criativa que foi o produto daquele ócio criativo. Mas de repente quando o ócio não foi escolhido, quando o ócio foi digamos forçado, foi obrigado… eu fui paulatinamente perdendo as energias e fui perdendo um pouco as motivações. Tenho que dizer que, sei lá? Que não me encontro agora num estado ótimo, estarei num 40% da minha energia criativa mais ou menos ativa, eu sinto isso! Sobretudo custa me… custa me sentar-me um tempo no piano a escolher músicas, a escolher harmonias, a tentar compor, a fechar ideias, eu fico desmotivado muito rapidamente, fico sem energia… já! E eu acho que tem a ver com esta situação de confinamento tanto tempo, não? De incertezas, incertidumbre…
Francesco: …e de um inverno que foi muito duro…
Ariel Rodriguez: …inverno muito duro, muito duro! Até eu também fiquei infetado, então pronto sim, eu acho que tem a ver diretamente com isso…
Francesco: …é como sair de um pesadelo! Agora que vem a primavera…
Ariel Rodriguez: …alteraram-se teus horários, fico com os horários trocados às vezes, depois organizo-me de novo, consigo ter mais ou menos uma vida, consegui ver que há cosas simbólicas que eram importantes para mim, por exemplo: mesmo que não ia para a rua, vestir roupa de rua era bom para mim, preciso vestir uns ténis…
Francesco: …não ficar de pijama!?
Ariel Rodriguez: Não ficar com a roupa de casa o tempo todo… e pronto! Comecei a tentar ter alguns “atos simbólicos”, por dizer de alguma forma…
Francesco: …como se tudo fosse normal?
Ariel Rodriguez: Sim, sim! Mas pronto! São medidas paliativas que tentam subsanar uma coisa que de fundo não está, não é? Que é a atividade mesma, a troca com as pessoas, a partilha, os concertos, os convites… as coisas vem muito de pouco, muito pouquinho…
Francesco: …exato! Em relação aos concertos, tu por exemplo em 2019, que foi o último ano da vida “pré-covídica”, digamos assim, quantos concertos tocavas por ano mais ou menos, em 2018, em 2019, uma média?
Ariel Rodriguez: Pronto! Eu venho de Argentina, eu estava na Argentina até o ano 2016 e decidi vir para Portugal para viver e fui para o Alentejo, no meio do campo, no meio do nada, porque mesmo decidi de parar com aquela loucura dos concertos e decidi de dedicar-me… estive numa instituição cultural de produção cultural e dediquei me muito tempo a compor e a criar sobretudo e a gravar e a participar em projetos de outros, mas eu não tinha muitos concertos e de facto foi esse o meu… a minha motivação para vir a viver a Lisboa… eu já estava a sentir a necessidade de ir para os palcos novamente, só que cheguei aqui em Lisboa em Março de 2020…
Francesco: …ah! Ok, perfeito!
Ariel Rodriguez: A viver! Então não apanhei concertos… mas eu não tinha assim… uma grande presença nos palcos nos anos anteriores… mas na Argentina sim, eu não parava eu tinha concertos 5as, 6as, sábados e domingos, entre partilhas, convites e gravações, concertos meus e coisas… eu não parava…
Francesco: …portanto o teu normal era ter 100/120/110/90 concertos por ano… e a partir de 2020?
Ariel Rodriguez: Eram muitos! Muitas vezes não eram muito bem remunerados, algumas vezes sim… outras vezes não, mas não importava aqui muito a coisa financeira, se não que era a quantidade de concertos, eu tinha muitas participações de concertos em Argentina, eu não parava! Praticamente eu não parava!
Francesco: Então na hora em que decidiste de voltar para os palcos entrou…
Ariel Rodriguez: …pois! Eu estava em boxes, fui para a pista e digo, ok! Vamos recorrer a carreira e… estava tudo cerrado… fechou! Fechou tudo! Mesmo assim, tive agora uma pequena… um pequeno, no final do verão aqui… em 2020 que o confinamento abriu um bocadinho e permitiu, já estávamos a ter de novo uma exposição maior, não? Eu tocava 3/4 vezes por semana…
Francesco: …exato! O que me interessava saber era: nestes concertos que fizeste já durante o período da pandemia, o que é que sentiste em relação às restrições que existem, ou seja… como é que estes elementos extramusicais, digamos assim… como a máscara, o uso obrigatório da máscara, algumas restrições… não sei se tocaste em palcos maiores, como é que estes elementos podem afetar a performance, a nossa performance?
Ariel Rodriguez: No sentido dos horários, por exemplo, tem que ser todo mais curto, tem que terminar mais cedo, tem que começar mais cedo, por exemplo, alterou um bocado nisso, no sentido… não sei! Aquele ritual pós-concerto, quando acabas de tocar, que vais a cumprimentar as pessoas, que estás com gente, esta situação também alterou, não? Manter a distância e não poder mesmo ter um exercício natural da convivência com as pessoas, altera! Eu acho que reflete um bocado no palco, reflete um bocado sobre como tocas, o que tocas, o que escolhes tocar e o que não…
Francesco: …exato! O tipo de repertório e de comunicação…
Ariel Rodriguez: …o tipo de repertório, sim… pronto! Normalmente eu faço uma música muito tranquila e muito contemplativa, não é uma coisa assim muito virtuosa nem nada, então… normalmente já vinha assim mas eu acho que até ficou um bocadinho mais agora…
Francesco: ok! Interessante…
Ariel Rodriguez: poderia ser uma explicação…
Francesco: …ou seja, pode… digamos assim… ter influenciado a escolha dos repertórios?
Ariel Rodriguez: Também, sim! A criatividade e a criação…
Francesco: …e em relação a todos os concertos que houve nesta altura… de live streaming, performance e gravações, estes novos formatos de apresentação dos músicos, tens alguma coisa… pensaste nisso, por exemplo o futuro como será? Quais as estratégias podemos ter para imaginar o nosso trabalho no futuro?
Ariel Rodriguez: Não sei! Eu gosto, eu gostei… eu respeito! Eu não fiz muitos! Eu fui convidado a uns streamings que eu fiz, mas… não gosto muito, sobretudo porque acontece comigo às vezes, eu estou… sei lá… qualquer rede social, no instagram… de repente tem ali sei lá, um streaming live de alguém que eu admiro, que eu gosto muito… mas aquilo não foi planejado por mim, eu estou noutro momento da minha vida… eu estou fazendo outra coisa, estou… sei lá a cozinhar em casa, eu não consigo dar atenção para esta… não é uma atividade planejada por mim, a atividade vem a mim e não sou eu que procura a atividade, percebes? Acontece… pelo menos esta é a minha visão, não é? E isto, eu acho que muda muito o contexto, não? Que depende muito do contexto… e mesmo tu pões, quando acontece aquilo que pões um pianista incrível, um músico incrível naqueles pianos que estão nos aeroportos ou… está fora do contexto, percebes? E o gajo pode estar a tocar hermoso, pode estar a tocar de uma forma incrível, mas está fora do contexto… a maior parte da gente passa… e aqui acontece a mesma coisa, não? Normalmente, aqueles concertos em streaming é uma forma também, é uma forma de buscar outros caminhos para tentar compensar aquilo que não temos na vida real, não é? E como eu disse também e aqui vou por me de intelectual, como disse o Walter Benjamin naquele seu ensaio famoso, aquilo perde valor cultural para ganhar um valor de exibição, ou seja tens uma chegada a outros continentes, a lugares do mundo que tu se calhar não imaginas, mas vai em desmetro de aquela áurea que o valor cultural mesmo, que tem uma relação direta com a manufatura, com artesania, com aquilo que está vivo!
Francesco: Com a espontaneidade do momento?
Ariel Rodriguez: Com aquilo que está vivo mesmo! Não? Que está feito, digamos de pessoa para pessoa. Eu acho que ganhas aí um valor de exibição maior, mas aquilo não é de graça, não é grátis, ou seja… perdes um bocado aquele valor cultural e tens de ter certas condições técnicas que te permitam fazer um streaming com qualidade, por exemplo: eu tenho um telefone com streaming com aquele microfone que tem o telefone? Fogo! Não se percebe nada! Tens que ter certas condições, uma boa câmara, uma boa microfonia, uma mesa para a mistura e para poder enviar uma coisa decente, não sei… pelo menos, não é?
Francesco: Para outras pessoas que entrevistei, esta coisa… esta situação de performance em live streaming pode ser “um tiro no pé”, exatamente porque como tu estás a dizer também, pode haver ausência de recursos, digamos assim, de condições boas para fazer um bom som e ao mesmo tempo para outros… é como oferecer um show ou um concerto de graça sem…
Ariel Rodriguez: …sim! Mas além do técnico… tem pessoas do mainstream que fizeram o live assim por streaming, também não é? Pessoas que tem muito dinheiro… e nota-se muito a diferença, porque eles tem todos os meios, multi câmara, produções com multi câmara e tudo pós-produzido live… e pessoas que fazem em casa com uma ferramenta muito rudimentária… e fica muito evidente a diferença de…
Francesco: a discrepância…
Ariel Rodriguez: …mas por além desta questão técnica que é importante, mas eu acho que o mais importante… o essencial, aquilo apanha-te num momento onde tu não estás vinculado, estás a passar histórias no instagram, de repente está! Aparece aquele live, percebes? Ou estás em uma coisa… estás fora do contexto… eu acho que é importante tu saíres da tua casa para fazeres uma atividade, para ir para o teatro, para ir a um concerto, para ir a qualquer coisa, a uma sala qualquer, não é? Acho importante, desde o ponto de vista simbólico, tira-te do teu espaço, tira-te da tua zona, do teu conforto, tira-te do teu lugar e predispõe-te para… ok! Vou lá! Vou para o cinema, vais par ver um filme! É diferente quando tu vês na tua casa, de repente tens o whatsup ali, tu não molestas a ninguém, tu podes… fazes qualquer coisa…
Francesco: …o risco é que seja mais uma plataforma de música como o spotify, onde a música passa random e nem lhe das atenção e então teremos eventualmente muitas performances ao vivo assim, neste paradigma de…
Ariel Rodriguez: …temos, temos muitas! Na verdade não estão a faltar estas performances, estão a faltar os espaços de comunidade e convívio mesmo e de partilha…
Francesco: obrigado Ariel! Vamos logo para o final desta conversa que está sendo muito interessante… eu queria saber se esperas da política ou dos políticos algum melhoramento para a condição do sector cultural, dos músicos…
Ariel Rodriguez: [suspiro]
Francesco: difícil?
Ariel Rodriguez: Sei lá! Eu acho que a pandemia veio de uma forma muito evidente a deixar sim claro as diferenças estruturais que já… em este sistema, neste modo de viver que temos, que temos organizado… que estava organizado antes de eu nascer, que é muito difícil de mudar radicalmente. Acho que esta situação deixa muito evidente, mesmo com os meus parceiros que eu vejo na Argentina, com relação com Europa e mesmo aqui na Europa, entre diferentes camadas… artistas, digamos que tem uma maior colocação no sistema e pessoas que não tem tanta chegada [alcance] eu acho que de repente… e fora também, o espaço cultural em relação por exemplo com os apoios para as empresas, para o mundo financeiro, não tem comparação nenhuma, percebes? Ou seja, eu acho que o governo, que pronto! Fica muito evidenciado isso, por mais que o governo seja um… esteja a pronunciar-se com políticas de apoio, que eu acho bem… comparativamente com as políticas de apoio que têm grande entidades financeiras, não tem comparativa digamos, ou seja tem caminhos muito mais fáceis… e as diferenças de números são muito evidentes, eu acho que só fica mais demostrada a injustiça, a injustiça essencial que há!
Francesco: Era o ponto mais ou menos de conclusão ao qual toda a gente chega…
Ariel Rodriguez: …é aquilo que eles esperam também, não? Não sei como se… como se resolve!
Francesco: Difícil!
Ariel Rodriguez: Muito difícil, não sei!
Francesco: Vai! Ultimíssima pergunta: tens alguma, uma música ou duas para aconselhar, para podermos linkar a esta entrevista, para ouvir o que andaste a tocar durante o confinamento, ou seja, se fizeste algum live streaming, ou algum concerto ou alguma música que gravaste…
Ariel Rodriguez: pronto! Eu tenho um canal, falando justamente em streaming, tenho um canal do youtube onde eu tenho 4 discos já ali autorais. Tenho um canal de youtube com 4 discos autorais, estava ali… eu tenho um quinto disco que já está gravado, misturado, masterizado… estava pronto a ser lançado, só que veio esta situação de pandemia e deixou todo em standby e decidi de ficar um bocado à espera. Entretanto tenho gravado muitas outras coisas, tenho participado, tenho feito arranjos, tenho algumas coisas já também feitas, prontamente irão sair… mas pronto! Tentei mais ou menos manter-me ativo, algumas músicas saíram no meu youtube channel, Ariel Rodriguez, podes ir buscar um disco que chama-se “Umbrales” e ali aparece o meu youtube channel e aparece tudo e tem material miscelânea onde eu estou a tocar às vezes, a praticar alguma coisa, ou a partilhar com alguma cantora ou cantante…
Francesco: alguma música no específico, uma?
Ariel Rodriguez: Prontamente, agora no dia 24 de Março, vai sair uma música que é um arranjo de uma música de Charlie Garcia que é um rockstar argentino que eu admiro, que é uma música que chama-se “Los dinosaurios” que fala sobre os desaparecidos da ditadura e pronto! Vai sair agora 24 de Março [2021], que é o aniversário da ditadura de 1976 de Argentina, que eu gravei uma versão e pronto vai sair isso e aconselho visitar isso! Por agora… que é o último que eu tenho!
Francesco: Claro!
Ariel Rodriguez: Mas está tudo ali no meu Youtube!
Francesco: Muito obrigado Ariel! Fantástico, obrigadíssimo! Foi uma conversa super enriquecedora! obrigado!
Ariel Rodriguez: Obrigado! Espero que sirva!
Francesco: Obrigado!
Projeto Ágora: Entrevista com André Neves Valente | MAZE (17/07/2021)
Maze é um poeta, rapper, activista, agitador e divulgador cultural, artista visual e educador originário do Porto. É um nome referência na cena do hip hop português. Hoje continua a criar e a acompanhar a música mais fresca que se faz em território nacional e internacional. É o histórico MC dos Dealema e colabora com outros artistas da cena musical nacional, no âmbito do hip hop, soul, neo-soul e RnB, como Sam the Kid, Mundo Segundo, Beatbombers, Spock, Oder, Azar Azar, entre outros. É ativo em outros campos das artes, como no graffiti, na fotografia e na arte visual em geral, actualmente dedica-se a atividades pedagógicas realizadas em Portugal.
Em resposta à situação de atual emergência devida à pandemia do COVID-19 e à necessidade de promover iniciativas que possam avaliar e atenuar o impacto no âmbito das artes performativas, investigar os efeitos da crise, com enfoque no sector da música, documentar as estratégias aplicadas pelos artistas nas suas atividades criativas e de performance, o Projeto Ágora convida Maze, para compreender os efeitos provocados pela crise sanitária, quer no nível individual, quer no âmbito do sector cultural em Portugal.
Francesco: Boa tarde caro André, obrigado!
MAZE: Boa tarde!
Francesco: Por ter aceite este convite no ciclo de conversas do Projeto Ágora, estou muito contente de poder te entrevistar e falar um bocadinho, podes te apresentar!
MAZE: Obrigado eu pelo convite Francesco, é um prazer poder participar deste projeto que já me descreveste e que me parece ser muito interessante. Sou André, artisticamente as pessoas conhecem-me por Maze, sou artista multidimensional: artes visuais, música, poesia, escrita, vou me desdobrando artisticamente e é isso que eu faço desde sempre: criar!
Francesco: Perfeito! E… retomando um discurso já enfrentados com outros interlocutores, eu começo normalmente por perguntar como é que foi desde o princípio de Março 2020, toda esta vivência dos lockdowns e confinamentos, como é que se repercutiu na tua vida assim profissional, começando pelo lado mais financeiro, não é? Da sobrevivência e subsistência…
MAZE: …foi muito… foi muito duro, como foi para toda uma classe ligada à cultura, para muitas outras áreas mas assim pelo meu… pelas pessoas que gravitam à minha volta e que estão relacionadas com a cultura e com a música, com teatro também, com algumas da dança que eu conheço, foi grave… foi pesado, eu lembro-me que em Março, um dia antes de termos fechado, eu ia dar um concerto com a banda da qual faço parte, com os Dealema, ia tocar à Galiza e fiz a viagem de comboio para o Porto a confiar que ia tocar, eles iam-me apanhar no Porto e seguíamos de carrinha para a Galiza. Eu cheguei à estação e eles nem sequer vieram ter comigo, ligaram-me a dizer, olha: apanha já outro comboio e vai embora porque isto foi cancelado e vamos entrar em lockdown, quer Espanha, quer Portugal! E eu regressei para Lisboa, ainda sem perceber muito bem o que é que estava a acontecer, mas a pensar: ok! Então isto que eu faço e que me é tão natural, vai deixar de acontecer, como é que eu vou pagar a renda? Eu precisava deste concerto! Eu precisava deste dinheiro…
Francesco: …no especifico daquele concerto…
MAZE: …daquele concerto… então vinha a pensar nisso e obviamente que os primeiros meses foram meses de algum aperto, porque… já há algum tempo que eu vou baseando a minha sobrevivência e subsistência na minha criatividade e parte deste dinheiro vem de concertos ao vivo e se eles não existem não consigo pagar as minhas necessidades básicas. Então nestes primeiros meses de Março, Abril, Maio… foram meses de muito aperto… eu vivo com a minha filha, então não é só a minha sobrevivência é a dela também, então tive que arranjar aí formas de subsistir e durante o processo todo e o tempo todo deste ano e meio quase… ou já passou um ano e meio, talvez… foram altos e baixos, momentos em que realmente, sem trabalhar tive apoios, depois deixei de… depois não tinha tanto dinheiro, depois voltava a ter, depois não tinha, depois chegou ali um momento em que eu… resolvi ir para outros lados, não é? Procurar alternativas porque não ia ganhar dinheiro de espetáculos, de concertos e de apresentações ao vivo das quais baseio a minha principal fonte económica, então comecei a dedicar-me mais às artes visuais e à pintura e a coisas que estavam a acontecer, convites que surgiram para pintar campos… campos de basket e fazer intervenções, ajudar em intervenções artísticas, porque tive que procurar alternativas na subsistência!
Francesco: E hoje em dia ainda trabalhas nestas outras áreas?
MAZE: Sim! Eu vou fazendo, habituei-me a ser este freelancer, então nunca me comprometo com nada, já há muitos anos que não me comprometo com um trabalho das 9 às 17h, para sobreviver! Prefiro ter esta vida mais solta em que se calhar mais incerta e não sei bem o amanhã, mas sou mais feliz a gerir o meu tempo e a gerir a minha vida… mas continuo a fazer… agora que está tudo a retomar, eu começo a voltar à música e a muitos projetos que fui fazendo durante este tempo, tentar dar-lhes vida ao vivo outra vez de aqui para a frente, mas continuo a procurar estas alternativas e a agarrar muitas coisas que não são diretamente relacionadas com a música para conseguir ter dinheiro!
Francesco: Mas já fazias isto antes da pandemia, ou agora com a pandemia… foi mais…
MAZE: …já! Mais acentuado! Já fazia e sempre sempre fiz coisas muito diversas no meio artístico, mas que me iam aparecendo, não de uma forma muito forçada a basear toda a minha subsistência económica nestas áreas, porque tinha sempre concertos… a verdade é essa! Sou um privilegiado porque durante muitos anos tinha concertos de Dealema que é uma banda de culto, que mesmo sem editar discos, tínhamos sempre concertos regulares, tínhamos sempre coisas a acontecer mesmo sem termos discos há não sei quantos anos, havia sempre… as pessoas tinham sempre vontade de nós ouvir… então isto é um privilegio…
Francesco: …e eles estão retomando também, não é? A banda…
MAZE: …sim! Também… nós somos 5, temos vidas muito diferentes… eu vivo em Lisboa, eles vivem no Porto, então às vezes é difícil termos uma retoma de ensaios e de rotinas e de fazer músicas, mas eu acho que agora cada um de nós está a repensar outra vez em regressar à música e quando estivermos na mesma sintonia, vamos certamente como banda também fazer este regresso!
Francesco: Ótimo! E neste período em que eventualmente ficaste mais em lockdown como toda a gente ficou… a tua própria criatividade pessoal, tiveste uma força sobrenatural de convulsões criativas ou também tiveste pausas e momentos de reflexão ou de… simplesmente de tudo parado?
MAZE: Sim! Acho que disseste tudo… falaste em reflexão e em momentos criativos, eu acho que foi um oscilar destes momentos. Inicialmente em Março, de Março a Abril eu estava em casa e um amigo meu que também é músico, o Mike Coast, estava a falar com ele e disse olha: tenho umas ideias, quero fazer registos e ele enviou-me por correio um condensador, um microfone condensador e eu estava a fazer bases instrumentais, então tive assim um ou dois meses a gravar músicas, sempre a fazer músicas e a gravar músicas! Fiz ai um disco de 20 músicas no início da quarentena, que ainda não saiu este disco mas que eventualmente vai sair. Mas depois de ter feito e de ter criado isto tudo, eu acho que por não poder apresentar e por não poder tocar ao vivo… nada, não é? Estava tufo fechado… acho que tive também aí uma quebra na criatividade, foi… ok! Já tirei isto tudo de mim… agora não me apetece fazer mais! Vou entrar aqui noutro registo e acho que entrei mais neste registo da reflexão e de absorver mais coisas e ver filmes e ler livros, porque como parte da minha criatividade é a escrita, eu preciso de armazenar e de absorver para depois ter material para escrever e para criar! Então acabei de criar e entrei nestas fases de… ok! Agora deixa-me absorver, deixa-me absorver… deixa-me refletir…
Francesco: …mastigar e digerir!
MAZE: Digerir, perceber o que é que estamos a viver a nível mundial e o que é que está a acontecer… situar-me mais… e tive um período assim… depois retomei a criatividade, então são estes picos… não é?
Francesco: Exato! E por exemplo, em toda esta trajetória entre lockdowns e períodos de reabertura e outra vez lockdowns… tiveste eventualmente a possibilidade de voltar a tocar nu mundo mudado, exatamente… ou seja, por exemplo, na questão da performance ao vivo com um púbico já isolado… afastado com máscara o que é que sentiste nestas situações?
MAZE: É muito estranho porque… tu sabes bem, és músicos e quem está em palco alimenta-se de uma energia que sai, sai e vai para o público e regressa e quando regressa do público ainda te alimenta mais e é ali um ciclo, não é? Energético que tu crias… e sempre estivemos habituados a ter um público que reagia, que dançava, que berrava, que cantava, que… então a energia tem outra escala quando é assim! E de repente quando tem pessoas sentadas, com uma máscara e não estás a ver expressões, parece que há um bloqueio… há uma parede invisível que impede que esta energia saia de ti e entre no outro e regresse a ti, para criar este ciclo! Então é muito estranho, é muito muito estranho este regresso e espero que estas circunstâncias mudem rápido
porque há saudades desta energia de concerto!
Francesco: De libertação?
MAZE: De libertação, de palco, de catarse quase!
Francesco: E houve também uma altura no meio dos dois lockdowns e durante o primeiro, em que muitas pessoas começaram a fazer lives streamings e parecia ser o novo formato de música que podia trazer a música em casa das pessoas, apesar da distância…
MAZE: …sim!
Francesco: Muitos interlocutores, eu perguntei o que é que eles achavam em relação a este novo formato de performance, não sei se queres comentar… se fizeste algum live streaming destes…
MAZE: …quero comentar, quero! Eu por acaso quero… e tenho algo a dizer sobre isto, da minha perspetiva: para mim não funciona, no meu caso! No meu caso, não vejo que seja… não me traz, não me acrescenta, sabes? Não… acho que é valido para quem quiser… é uma forma de manter isso vivo e de manter a arte viva e de continuar a fazer… a criar conteúdos e a chegar às pessoas que cada vez mais estão atentas ao digital, mas para mim não funciona… eu prefiro o contacto, prefiro o contacto! Sentir, estar… a presença física é mesmo importante! Então não me satisfaz, nunca me satisfez… ainda por cima neste período eu comecei a ver que toda a gente fazia isto… então houve ali uma sobrelotação de oferta! Toda a gente estava a criar conteúdos e a oferecer conteúdos… e a maior parte deles eram forçados… era quase uma tentativa de… era quase uma auto imposição: se eu não fizer, eu não vou criar… eu vou desaparecer!
Francesco: Sim! Porque os outros estão fazendo, eu não faço? Eu desapareço…
MAZE: …ya é isto! Eu vou acabar por desaparecer porque não estou a aparecer na grande montra… na grande montra digital! Então esta confusão e este turbilhão todo afastou-me disto…
Francesco: …logo automaticamente?
MAZE: Automaticamente, tive mesmo sem redes sociais durante este período…
Francesco: …a sério?
MAZE: Ya!
Francesco: Durante o lockdown tu saíste da…
MAZE: …então a partir aí de Abril o meu telemóvel avariou e eu decidi… isto é um empurrão! Isto é mesmo… estava a me afetar disto, esta necessidade das pessoas aparecerem e se mostrarem… uma competição quase, uma competição artística: nós não podemos tocar ao vivo, mas estamos todos a fazer live… live streaming… estamos todos a fazer entrevistas ao vivo, estamos todos a fazer conteúdos e a gerar conteúdos! Isso incomodou-me um bocado e também serviu de empurrão para dizer: não! Eu vou me afastar disto, eu quero respirar, quero viver, quero experimentar outras coisas que não passem pela validação ou a aprovação do outro! Mesmo correndo o risco de desaparecer! Acreditar que a obra fala mais alto, quando crias alguma coisa fala muito mais… a obra fala muito mais alto que o artista, então independentemente se tu apareces ou não, se és convidado ou não, se as pessoas se lembram de ti, se o que tu crias consegue chegar ao outro, é o que interessa… é o que importa!
Francesco: Super interessante esta perspetiva!
MAZE: Fixe!
Francesco: Perfeito! Em termos depois de apoios…. tiveste alguns apoios, conseguiste te safar também através de apoios do governo ou…?
MAZE: Consegui! Consegui ter apoios da Segurança Social, candidatei-me aos apoios da Segurança Social e consegui porque tive uma quebra de faturação total e então não tinha forma de gerar dinheiro, não estava a tocar, não estava a… na minha atividade como músico, não estava a passar recibos, então tive direito a estes apoios e ainda bem que tive porque consegui sobreviver muito tempo com este apoio, isto a nível estatal! A nível de cooperativa, não é? Da GDA e da gestão os direitos dos artistas, também tive direito a apoios… lembro-me inicialmente tive direito a um cartão alimentar de compras em que podia fazer algumas compras, tive direito a três cartões… era preenchido com o valor, com o mesmo valor por três vezes… e depois mais tarde candidatei-me a um novo apoio da GDA e também consegui já mais perto do fim deste período todo e ainda recebi mais um valor numa distribuição que eles fizeram… então foram esses! Candidatei-me a mais coisas, candidatei-me… lembro de me ter candidatado a um da Gulbenkian, que não tive direito a esse e a mais algum que agora não me ocorre, que também não recebi… provavelmente porque estava a cruzar já mais apoios e já tinha o apoio da Segurança Social, porque este é o base!
Francesco: Ah ok! Não… eu pergunto isso normalmente para saber se os músicos e os artistas no geral se sentem satisfeitos com estes apoios e isto tendo em conta a precariedade enorme que nos envolve como classe trabalhadora, não é?
MAZE: claro!
Francesco: O que veio à tona nestas alturas, então… o que quero saber no fundo é se te consideras satisfeito ou se poderia ser muito melhor, digamos…
MAZE: …poderia ser, pronto! Não quero parecer ingrato, não é? Porque estou a receber algum dinheiro, estou a receber dinheiro que fui descontando ao longo dos anos para a Segurança Social, também então é um direito! Mas, pode ser sempre muito maior se tu for comparar com outros países europeus, com os apoios aos artistas que são completamente diferentes e em Portugal a cultura é sempre relegada assim para um segundo plano, isto é porque não é importante, não… estão aí, estão aí a… criam! Têm uns hobbies… sabes? A mentalidade portuguesa ainda vê o artista muito como uma coisa de hobbies, não é um trabalho sério! Não é trabalho sério… é um extra! Não é necessário… precisamos de engenheiros, de médicos… e depois há os artistas! E a arte está à frente disto tudo, porque a arte é essencial para a sobrevivência enquanto espécie da humanidade, enquanto…. deveria ser valorizada desta forma e então os apoios podiam obviamente ser muito melhores, porque eram apoios básicos que davam para alimentação, não é? Nem sequer para pagar uma renda, não são apoios suficientes para tu pagares uma renda, pagares as contas e te alimentares e uma filha, não é? É uma ajuda, é uma ajudinha… então pronto! É à nossa escala, em Portugal as coisas funcionam muito assim, no desenrasque desta forma… dão só para dizer que não estão a dar nada e se fosse… há países que não, tratam mesmo o artista de outra forma e com a dignidade que merece!
Francesco: Ok perfeito, muito obrigado André, queria concluir esta nossa conversa perguntando-te se entre as criações que aconteceram durante o período de lockdown ou durante este período todo, tens alguma coisa a sair, alguma música que queiras aconselhar para linkar a esta entrevista…
MAZE: …boa! Tenho! Tenho uma que ainda não saiu… quando estamos agora a gravar esta entrevista, mas que deve sair de aqui a um mês no máximo, nas próximas semanas… chama-se “Que horas são” e é uma música num registo um bocadinho diferente do meu, não é bem rap, é spoken word, é de um produtor chamado Spock…
Francesco: …chamado como?
MAZE: Spock!
Francesco: É de aqui?
MAZE: Sim! É de Amadora e tenho um flautista Francesco Valente…
Francesco: …ah pois é!
MAZE: E deve sair brevemente, entretanto também lancei um projeto, mesmo recentemente com um teclista Azar Azar, compositor e teclista e produtor… de um projeto que é Maze e Azar Azar, o Vol. I chama-se “Sub-Urbe” o Volume I e o primeiro single que lançamos com videoclip chama-se… a música chama-se “Rubi” e foi lançada mesmo há pouco tempo, é um projeto assim… é uma narrativa, é um conto urbano… um conto urbano em rap!
Francesco: Ok! Perfeito, depois encontrarei na altura em que sairá a entrevista…
MAZE: …sim! Facilmente!
Francesco: Facilmente, para linkar! Muito obrigado, foi enriquecedor e muito interessante ter esta conversa contigo! Grazie!
MAZE: Obrigado pelo convite!
Francesco: Abraço!