Fogo Fogo – “Fladu Fla”
Cool Hipnoise – “Groove Junkie”
O meu disco é melhor que o teu! #2 André Xina
Projeto Ágora: Entrevista com João Gomes (23/06/2021)
João Gomes além de ser músico (teclista), é DJ e produtor. Representa uma parte integrante da história e cultura musical de Lisboa, por ter integrado grupos de referência da cena musical nacional, entre os quais se destacam os Cool Hipnoise, Spaceboys, Orelha Negra, Cais do Sodré Funk Connection e mais recentemente os Fogo Fogo, grupo que lançou o seu disco de estreia em 2021, com título “Fladu Fla”. Além disso colaborou com inúmeros artistas em tournées nacionais e internacionais, como Ana Moura, Sara Tavares, Orquestra Todos, etc.
Em resposta à situação de atual emergência devida à pandemia do COVID-19 e à necessidade de promover iniciativas que possam avaliar e atenuar o impacto no âmbito das artes performativas, investigar os efeitos da crise, com enfoque no sector da música, documentar as estratégias aplicadas pelos artistas nas suas atividades criativas e de performance, o Projeto Ágora convida João Gomes, para compreender os efeitos provocados pela crise sanitária, quer no nível individual, quer no âmbito do sector cultural em Portugal.
Francesco: Olá, boa tarde, grande João! Obrigado por ter aceite este convite!
João Gomes: Boa tarde grande Francesco!
Francesco: Aqui nas conversas do Projeto Ágora, podes te apresentar rapidamente?
João Gomes: Então, sou João Gomes sou músico, trabalho aqui em Lisboa na música desde 1994 ou por aí, portanto há de ser por ai 25 anos… ya! Já trabalhei em vários projetos, com vários artistas na área da música negra, música soul, música afro, música reggae e por aí…
Francesco: Ótimo! Eu já cruzei contigo também em algum projeto no passado, Orquestra Todos e em algumas coisinhas ai que aconteceram…
João Gomes: …ya!
Francesco: É um prazer ter te aqui, eu normalmente faço uma série de perguntas aos artistas e aos músicos, exatamente para perceber um pouco qual foi a vivência durante este período de pandemia… estamos em pleno verão, agora, não é? 2021 e ainda cancelam concertos, me cancelaram um por exemplo da Orquestra Todos há uns dias atrás, estamos ainda no risco de cair outra vez em restrições, confinamentos e etc. Portanto eu gostava de começar para saber como é que viveste isto e como é que te afetou a nível sobretudo… digamos em primeiro lugar, financeiro por exemplo?
João Gomes: Oh! Claro que afetou muito, vivi de várias formas… estas pandemias teve várias fases, não é? Como principalmente na nossa interpretação das coisas, perceber o que é que estava a acontecer… o primeiro ano eu ainda tinha algumas economias fixe! Tenho trabalhado bem nos últimos anos e foi aquela ilusão de que tudo ia passar rapidamente. Tive uma quebra de faturação de 90 e tal %, mas fui me aguentando na esperança que no ano seguinte as coisas fossem voltar ao normal e que desse para regressar. No meu caso nada voltou ao normal, no final… no início do desconfinamento já este ano também perdi mais trabalho e cenas que tinha a espectativa de ter de trabalho, que deixei de ter e neste momento estou um bocado numa fase de procura de novos projetos, mas está tudo muito em águas de bacalhau, não é? Porque na realidade ninguém sabe com o que é que vai contar nos próximos meses, os próprios agentes e promotores, etc. não sabem o que é que vai acontecer, está tudo sempre dependendo dos números e dos comunicados da DGS e governo, epá! E é… continua a ser tudo muito complicado… epá! Acho que há cada vez mais gente do nosso meio a pensar em trabalhos alternativos e deixar…
Francesco: …e chegaste a pensar alguma vez nisso?
João Gomes: Agora, quando vinha a vir para aqui, pela primeira vez pensei nisto!
Francesco: Sim? De deixar por um tempo e encontrar alguma alternativa…
João Gomes: …epá! Para procurar outra cena…
Francesco: …tipo? No campo da música ou… mudar de sector…
João Gomes: …epá! Não sei, acho que, não sei… epá! Os campos todos onde eu estive sempre ligado, são todos campos que estão neste momento parados: noite, restauração, lojas, bem… lojas de discos por exemplo, foi uma atividade que acho que teve um pequeno aumento, um pequeno boost, não é? Quando… mesmo quando estavam fechadas eu acho que há muita gente que vendeu mais, há muitos anos já tive uma loja de discos e era uma cena que eu curtia fazer, que eu acho que conseguia fazer, epá! Sei lá, mas… pronto! Mas agora estou… por acaso estava a pensar nisto, mas ainda não tomei esta decisão, espero não chegar a ter que tomar…
Francesco: …mas chegaste a este…
João Gomes: …hoje em dia já dependo menos de… os meus filhos já estão crescidos, agora já não tenho aquela cena de comprar as fraldas… epá! Pronto, já são mais independentes e eu me aguento, mas está muito complicado e foi uma grande… um grande choque! Talvez para quem tivesse mais trabalho, nota-se isto mais…
Francesco: …e tu eras um desses…
João Gomes: …eu tinha muito trabalho, estava a tocar numa media de 4/5 vezes por mês todo o ano!
Francesco: Ou seja tinhas uma media de 50/60/70 concertos por ano…
João Gomes: …ya!
Francesco: 2020 foi tipo…
João Gomes: …2020 ainda tive ali em Fevereiro… ainda fiz uma tour!
Francesco: Ah! Pouco antes de…
João Gomes: …devo ter tido uns 9 concertos, que foi o meu balão de oxigénio para o resto do ano!
Francesco: E no verão de 2020… 0?
João Gomes: No verão de 2020 tive 3 ou 4 concertos, no verão quer dizer… de Maio até ao fim do ano!
Francesco: Sim, sim!
João Gomes: No segundo semestre de 2020, tive meia dúzia de concertos, que é muito… epá! Não daria para me sustentar…
Francesco: …muito pouco, claro!
João Gomes: Ou seja… todas as economias que eu tinha, foram usadas… epá! E é isso e agora um gajo está com 50 anos a fazer um restart! À espera de um momento para poder fazer um restart! Porque não sabemos quando é que isto vai acontecer…
Francesco: …por exemplo, em relação ao trabalho criativo, durante estes meses aconteceu alguma coisa relevante, algum projeto novo, algumas ideias… conseguiste trabalhar por exemplo em casa no confinamento, compor, fazer… ou também ficaste meio bloqueado?
João Gomes: Não! É a mesma coisa do que eu estava a dizer no início, houve várias fases e no início foi uma fase mais ingénua, mais lírica em que todos estavam a procura do lado positivo da paragem e a achar que íamos conseguir tirar muitas coisas positivas, nesta altura se calhar estava mais criativo e um pouco mais, com mais pica para fazer coisas… fiz um EP, produzi um EP com Karlon, um rapper… e no entretanto estivemos sempre na iminência de lançar o disco dos Fogo Fogo que tinha sido acabado de gravar também em Fevereiro de 2020. Acabamos por ainda não o editar, porque não achamos que fosse a melhor altura, porque epá! Não podendo produzir… promover o disco e as músicas novas, sem podermos apresentarmos ao vivo é um bocado complicado e é um projeto de festa, de dança e não estamos a conseguir a ter concertos… os poucos concertos que há, é tudo coisas mias intimistas, mais calmas… e portanto, temos estado nesta… a obra está feita, tinha sido feita mesmo antes de começar a pandemia, mas foi mais esta questão do planeamento e planificação do lançamento…
Francesco: …ficou em standby?
João Gomes: Já lançamos um single, fizemos… já temos tudo pronto e o disco está na fábrica, vamos tentar lançar no final deste verão…
Francesco: ah! No final do verão…
João Gomes: …sim!
Francesco: Tendo em consideração que o inverno poderá ser mais um inverno destes últimos…
João Gomes: ….epá! Pois!
Francesco: Mas tem que ser lançado, claro!
João Gomes: Claro! Epá, já estamos fartos de ter o disco há um ano… na prateleira!
Francesco: Claro!
João Gomes: Já não nós dá muita… a pica também vai se perdendo, já estamos com mais vontade de fazer um disco novo… do que divulgar este que nós já conhecemos de trás para a frente, já o ouvimos bué, apesar de ainda ninguém o conhecer…
Francesco: …sim, exato! Vais lançar um álbum que para ti já é velho…
João Gomes: ….já não é novo!
Francesco: Isto é muito esquisito, mas pronto! É um período de standby em que muitas pessoas têm discos para lançar e estão parados…
João Gomes: …é isto! Mas eu acho que acontece… corre-se o risco de acontecer este fenómeno, o próprio artista perde um bocado a…
Francesco: …a pica! E já que por exemplo, Fogo Fogo é uma banda de dança
e de festa, te aconteceu de fazer alguns concertos em live streaming, isto sim porque te vi durante a pandemia, eu estava confinado em Nápoles…
João Gomes: …ya!
Francesco: E fizeste alguns concertos com público, sentado, com máscara e estas restrições?
João Gomes: Fizemos!
Francesco: Qual é o sentimento e a sensação?
João Gomes: Epá! Já estou habituado… a começar a habituar-me, no início era super estranho, o último que fizemos que foi o primeiro… foi o regresso à Casa do Independente, estavam 35 pessoas ou o que… que era a lotação permitida máxima, que era ridículo… ma eu já curti bué! Diverti-me imenso, tal era a ressaca e as saudades de tocar naquele palco, mesmo sendo nesta situação das pessoas sentadas e super limitadas e super… ya! Limitadas… deu para curtir!
Deu para curtir, porque as saudades eram mais do que isto… super reprimidas na verdade, eu estava à procura da palavra… mas ao mesmo tempo, aqui há duas semanas atrás fui com a Sara Tavares à Bulgária, tocar no Sul da Bulgária, em Plovdiv e lá eles dizem que já têm imunidade de grupo, já não há restrições nenhumas, a lotação da sala estava… que era ao ar livre, parecia um teatro romano, estava totalmente cheio, sem máscaras… epá! Era uma sensação completamente diferente, parecia que de repente estávamos em 2019 outra vez!
Francesco: Fantástico!
João Gomes: Foi incrível!
Francesco: Eu por acaso vi nos jogos do europeu lá por Hungria…
João Gomes: …Hungria também…
Francesco: …estádios cheios de gente, tudo sem máscara tranquilamente…?!? Há umas diferenças e umas discrepâncias…
João Gomes: …nós fomos… só para viajar tivemos que fazer todos o teste, todos negativos, lá também… de lá para cá tivemos que fazer o teste, epá foi incrível!
Francesco: Ok! E em relação a estes novos formatos de apresentação e de performance, mesmo ontem me chegou uma email a convidar-me a escrever-me numa plataforma de live streaming para aceder a um público global, através deste formato de performance que é o live streaming, o que é que sentes em relação a isto? Se fez muito, não é durante a pandemia… muitos concertos, muitas gravações caseiras… ou não…
João Gomes: …não tenho a mínima motivação para investir nisto!
Francesco: A mínima motivação para investir nisto?
João Gomes: Ya! Não tenho nem interesse, não curto, epá! Atuar para um ecrã… não curto!
Francesco: É como ir num estúdio de televisão… mas é estranho…
João Gomes: ….também não curto ir à televisão!
Francesco: Não! Eu pergunto isto porque também…
João Gomes: epá! É sempre gostei de fazer concertos e de fazer música… mas… epá! Estar a comunicar, estar a ver as pessoas, estar em festa.. então como DJ, eu gosto de ouvir música passada por DJ’s e de dançar com outras pessoas, danças com desconhecidos, epá! Esta vida agora é criminosa! Eu gosto… streaming, epá! É mesmo triste para mim, é mesmo triste… não, epá! Fiz meia dúzia de vezes, pronto! Porque… achava que era necessário, era… na altura era a única coisa que havia para fazer… epá! Nem sequer se ganha muito dinheiro, algum dinheiro de jeito… enquanto isto não acontecer, eu acho que não vou investir nisto!
Francesco: Ok! Ok!
João Gomes: Prefiro viver com dois trocos, vir para aqui todos os dias a apanhar sol e a ler o meu livro!
Francesco: Grande! Não és o único, há outras pessoas que disseram que eventualmente se o futuro da música vai nesta direção deixariam de tocar, o que é exatamente o último fim do músico é compartilhar momentos e música com o público…
João Gomes: …ya!
Francesco: Ok! Vamos para a parte final aqui da nossa conversa, eu gostava de saber se durante esta pandemia, conseguiste pelo menos ter algum apoio financeiro do governo, dos vários apoios que foram apresentados, candidaturas de projetos para a cultura…?
João Gomes: Ya! Tive alguns, por ter empresa no início foi muito complicado, em 2020, epá! As coisas estavam todas… não estavam feitas para a realidade… os apoios não foram pensados para a realidade… epá! Viu-se claramente que a tutela não tinha noção do que é que eram os estipulados, estas a ver? Não têm noção do que é que é o mundo terra a terra da cultura, portanto estava tudo… epá! Foi super complicado, eu tinha a empresa, mas sou trabalhador… sou sócio gerente de uma empresa, mas tenho direitos de autor e passo recibos verdes para os direitos de autor, então como tinha recibos verdes passados não podia receber apoio da empresa, porque tinha a empresa não podia receber o apoio aos particulares, foi super complicado! Mas depois lá para o final do ano… lá recebi um apoio da Segurança Social, recebi um da Câmara e depois candidatei-me ao apoio do apoiar Compete2020… não é? Do Garantir Cultura, epá! Que se revelou no final um apoio muito, epá! Muito pouco apoio, porque implica uma grande capacidade de investimento, que naturalmente os artistas e as empresas das artes, neste momento poucas têm! Muitas poucas têm… e eu fiz um projeto que foi apoiado mas que… agora com o passar do tempo, estou a chegar à altura de começar a pô-lo em prática e estou a ver que não vai ser possível, porque eu tenho que… tinha que ter um fundo de maneio, que neste momento já não tenho, a minha vida está parada há mais de um ano! Eu tive uma quebra de faturação gigantesca que eu na altura que fiz o projeto ainda esperava talvez, pudesse mudar nesta altura, estamos um Junho, final de Junho… já tivesse algum trabalho, mas as espectativas neste momento são… igual ou pior a 2020, epá! Portanto vou ter que desistir, vou ter que… vou devolver o dinheiro, porque estou a ver que na altura de começar a fazer pagamentos ainda não vou ter… com o IVA, tenho que pagar a priori, eu não vou ter este dinheiro! O IVA só se recebe no ano seguinte, portanto a pessoa tem que ter um fundo de maneio, tem que ter uma base para conseguir fazer estes investimentos e epá! Pronto eu acho que… a ideia que eu tenho então em relação aos apoios que houve é que são todos meio falaciosos, então os apoios também do Garantir Cultura para profissionais independentes… é tudo… paga-se IRS, paga-se… é tudo taxado!
Francesco: Sim!
João Gomes: Então como é que vais ganhar dinheiro com os apoios que estão a dar? Nós é que temos que pagar impostos de tudo, sobre estes apoios todos, epá! É por isto que é muito complicado resistir…
Francesco: …e portanto em conclusão a política cultural é assim um pouco meio… falaciosa, falaz? Não como é que se diz?
João Gomes: Falaciosa!
Francesco: No sentido que estes apoios vêm mas depois são taxados e é difícil depois realizar projetos culturais!
João Gomes: Ya! É preciso ter-se uma base, que não há nunca… porque julgo que nesta altura ninguém tem!
Francesco: Depois de um ano e meio de inatividade…
João Gomes: …pois…as maiores empresas do meio da música, estão a trabalhar com dois ou três trabalhadores e… epá! Está tudo desfeito, o nosso mercado… o nosso, epá! Não sei números, mas de certeza que mais da metade das empresas, não vão reabrir…
Francesco: …não vão reabrir…?
João Gomes: Eu acho que nós no final disto, vamos estar a um nível se calhar semelhante em termos de meios, de número de empresas e de profissionais dentro da… na área a funcionar como estava em 1990!
Francesco: Incrível! Ok! Grande João! Para acabar, tens alguma música que produziste, uma ou duas durante o período da pandemia ou algum live streaming que possamos aqui linkar na entrevista?
João Gomes: Eu tenho estes live streamings dos Fogo Fogo…
Francesco: …que fizeste no Namouche Studio?
João Gomes: Sim! No Namouche…
Francesco: …eu estava a ver te de Nápoles, quando estava confinado lá…
João Gomes: …ya! Foi o Live in a Box, o que era, não é?
Francesco: Fado in a Box?
João Gomes: Chamava-se Live in a Box… acho que foi!
Francesco: Ok! Encontra-se no youtube, não é?
João Gomes: Ya! E também lancei um EP com Karlon, chamado “Ismos”!
Francesco: “Ismos”! Boa!
João Gomes: Sim! Com cinco músicas, eram 5 instrumentais que eu tinha lá feito em casa, tinha comprado uma MPC e tenho produzido várias coisas assim, mais de hip hop, com samples de Cabo Verde e o Karlon que é de origem cabo-verdiana ouviu, gostou muito e fizemos aquilo um bocado assim à correr…
Francesco: …ele meteu umas letras por cima, fantástico! Eu procuro…
João Gomes: “Ismos”, está nas plataformas digitais!
Francesco: ok perfeito!
João Gomes: Madface e Karlon…
Francesco: …como?
João Gomes: Eu sou Madface e Karlon!
Francesco: Ok, nunca tinha ouvido, vou ouvir então, fantástico! Obrigadíssimo!
João Gomes: Nada Francesco!
Francesco: Pelo contributo, obrigado!
João Gomes: Um prazer!
Francesco: E espero que este verão corra melhor, estamos ainda em Junho…
João Gomes: …vamos ver epá, eu já estou à procura de sítios para ir dar mergulhos… apanhar sol!
Francesco: Obrigado mais uma vez!
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Projeto Ágora: Entrevista com Walter Martins (14/04/2021)
Walter Martins, além de ser arquiteto, é músico e DJ. Toca saxofone no grupo Rosa Mimosa y Sus Mariposas, canta e toca percussões no grupo Ayom. Natural de Luanda (Angola), reside em Lisboa onde além de colaborar com os projetos musicais citados, atua como DJ em vários lugares conhecidos na cidade.
Em resposta à situação de atual emergência devida à pandemia do COVID-19 e à necessidade de promover iniciativas que possam avaliar e atenuar o impacto no âmbito das artes performativas, investigar os efeitos da crise, com enfoque no sector da música, documentar as estratégias aplicadas pelos artistas nas suas atividades criativas e de performance, o Projeto Ágora convida Walter Martins, para compreender os efeitos provocados pela crise sanitária, quer no nível individual, quer no âmbito do sector cultural em Portugal.
Francesco: Olá Walter!
Walter Martins: Olá!
Francesco: Boa noite! Bem-vindo aqui, nesta série de conversas com artistas, músicos, amigos, colegas… e podes-te apresentar, se quiseres… se puderes…
Walter Martins: ok, primeiramente, obrigado pelo convite e por fazer parte deste projeto. Chamo-me Walter Martins, sou músico, angolano, nasci em Angola, em Luanda onde vivi até aos meus 18 anos e na altura mudei-me para Lisboa para começar o meu curso na universidade de arquitetura. Fiz o meu curso de arquitetura, comecei trabalhando como arquiteto, ou seja a minha vida como músico tem mais ou menos uns 5 anos, que sou… pronto! Que trabalho como músico profissional, mas pronto! Digo… ainda nem me considero um músico, considero-me ainda um aprendiz de música… a música sempre fez parte da minha vida, pela minha cultura, pelo meu país, não é? Sempre ouvimos muita música em casa e dançamos… as famosas festas de quintal, ou seja, a música… o meu pai também é um grande amante de música, sempre ouvimos muita música em casa, ou seja esta minha paixão pela música sempre foi, desde… posso dizer desde que nasci, mas pronto! Viver da música, trabalhar com a música é algo ainda recente, assim… na minha vida!
Francesco: E neste período especial que começou logo em Março 2020, também a tua atividade assim… sofreu algum bloqueio, não é? Parou de alguma forma?
Walter Martins: Sim!
Francesco: Desculpa! Queria saber mais ou menos a nível financeiro, qual foi o impacte, por exemplo, quantos concertos normalmente fazias por ano?
Walter Martins: É assim, um ano antes da pandemia, eu fiz… eu pronto, eu sou músico em duas bandas, um dos projetos chama-se Ayom, que é o projeto onde toco como percussionista e tenho outro projeto de trabalho também, que é um projeto de cumbia, que chama-se Rosa Mimosa y Sus Mariposas, onde eu toco saxofone. Digamos que no ano anterior à pandemia, com Ayom fizemos 70 concertos, com a Rosa acerca de 20, portanto posso dizer que num ano fazia 90 concertos…
Francesco: …muito concertos!
Walter Martins: Muitos concertos! E… com a pandemia as coisas complicaram-se muito, não é? Não havia possibilidade de podermos trabalhar, com muita sorte conseguimos ainda fazer alguns concertos no verão de 2020, mas podemos dizer que 20%, algo muito irrisório, se for a comparar com o habitual. Obviamente que houve um grande impacte financeiro, porque neste momento vivia só de música e era esse o meu trabalho e ao qual dedicava todo o meu tempo e como sabemos o trabalho de artista, não é? Tem intrínseco esta busca constante de datas, de trabalho, não é? Não é como um trabalho normal, que vamos das 9 às 18h e dia 30 de cada mês chega aquele salário! Portanto… a partir deste momento que deixamos de poder trabalhar, foi muito difícil conseguir resistir financeiramente, pagar as minhas contas, tinha que fazer… tive que voltar a fazer coisas que fazia antes, trabalhos de arquitetura, de carpintaria, tivemos que nos reinventar um bocado e fazer coisas que não pensávamos fazer para conseguir resistir, mas estamos aqui!
Francesco: E com muitos esforços, conseguiste manter as duas coisas: a música e estas novas experiências de trabalho?
Walter Martins: Sim, sim! De certa forma, tudo o que nós obriga a fazer uma mudança, que nós obriga a tomar caminhos que não esperávamos, também nós trazem coisas boas, outras novidades e surpresas na vida, são sempre janelas que se abrem e que nós fazem às vezes também pensar, mas sim! Foi duro e teve que ter muito jogo de cintura para conseguir manter, porque a verdade é que… a minha ideia sempre foi tentar resistir a isto para continuar a fazer música, para continuar a fazer o que eu gosto e então não tive este primeiro ímpeto, este primeiro instinto de… pronto! Agora vou desistir disso, vou me focar noutra coisa, mas mais no sentido de conseguir o mínimo para resistir para poder
continuar a fazer a vida que eu quero fazer e que eu gosto de fazer!
Francesco: E recebeste algum apoio do governo, algum apoio específico, pediste algum?
Walter Martins: Não! Na verdade, para ser sincero, também não fiz muito por isso, não pesquisei muito, não me candidatei a muitos apoios, mas também tentava pesquisar e saber por muitos amigos, muitos artistas e… pronto! O panorama em Portugal ainda é muito complicado, os apoios são escassos, chegam mas… só que muitas vezes muito atrasados. Na verdade é que tive de pedir o apoio dos meus pais em alguns meses que foram mais complicados e que… principalmente os meses de confinamento em que era impossível fazer qualquer tipo de trabalho e na verdade não consegui apoios da… os poucos que tentei não consegui!
Francesco: E em termos de trabalho criativo, o impacto qual foi, por exemplo, em termos de trabalho individual, estudo, ou de trabalho em grupo?
Walter Martins: É assim, para mim foi uma experiência bastante interessante, porque o meu… o processo de criação, pelo menos nos projetos em que eu trabalho, sempre foi um processo coletivo, não é? Havia sempre a possibilidade de estarmos juntos, juntávamos em algum lugar onde íamos criar, onde íamos… pronto! De alguma forma, criar as músicas, divertirmo-nos, experienciar…. e com o confinamento e por conta desta distância de estarmos distantes uns dos outros, cada um em sua casa, tivemos que começar a fazer isto quase de uma forma virtual, ou seja aprendi a mexer em programas que não mexia, a fazer…
Francesco: …quais?
Walter Martins: Por exemplo, eu não me lembro o nome dos programas, mas basicamente são programa de fazer faixas de música…
Francesco: …ah ok!
Walter Martins: Então começou a criar-se também uma nova forma de criar que era solitária, mais solitária do que coletiva e também esta questão de poder através… pronto! Da tecnologia, ter uma flexibilidade muito maior, ou seja, experienciar coisas em poucos segundos e conseguir ouvir o produto, perceber como funciona… ou seja, foi interessante perceber que mesmo que a gente tenha limitações e que não possa fazer as coisas como fazemos na normalidade, temos sempre alguma maneira de contornar estas coisas e de descobrir coisas novas e acho que a nível criativo a pandemia acabou por ser um período em que criamos muito com os dois projetos que fizemos, lançamos um disco com o projeto Ayom em Novembro de 2020, assim num ato bastante de coragem, quando tudo parecia parado, decidimos lançar e lançarmo-nos nesta aventura, neste desafio… e agora com a Rosa Mimosa, também neste segundo confinamento estivemos a criar o nosso disco que deve sair em breve!
Francesco: E esta decisão de lançar um disco num período tão sinistro, foi realmente corajosa! O que é que vos estimulou ou vos deu a força de acreditar em lançar um disco num período como este, em que toda a gente está em casa fechada?
Walter Martins: Eh! Eu acho que tinha muitos pontos de desvantagem, não é? Em lançar um disco nesta altura, porque normalmente quando se lança um disco temos concertos, temos tournées, temos estas coisas todas e a verdade é que lançar nesta altura, tínhamos sempre este risco, não é? Ainda hoje temos este risco, porque nós estamos em Novembro, oxalá que tenhamos uma boa tournée de verão de lançamento do disco, mas ao mesmo tempo algo instintivo em nós dizia que era a hora de lançar isso. Por outro lado também tínhamos as vantagens de as pessoas terem muito menos ofertas de concertos, muito menos oferta de música, de arte, de estímulos de positividade. Estamos num momento tão negro da humanidade que por um lado as pessoas estarão mais receptivas a ouvir, a pesquisar, têm mais tempo também para estar em casa, para ouvir e por outro lado, acho que como músico e como artista é esse o nosso papel na sociedade e acho que era um momento em que a sociedade precisava mais disso, portanto de certa forma também houve este chamamento quase de… do nosso papel, da nossa função na sociedade, de dar arte às pessoas e de dar esperança às pessoas, positividade, música! Vamos pensar que as coisas vão melhorar, que vão correr melhor! E pronto! Lançamo-nos nesta aventura!
Francesco: E pelos vistos foi uma grande decisão!
Walter Martins: Foi! Foi uma grande decisão porque, para a surpresa de todos nós o álbum tem sido premiado por várias revistas importantes, blogs de world music em todo o mundo, como a revista Songlines por exemplo, que é uma das revistas que eu mais gosto e que eu mais sigo dentro do mundo da world music, portanto é sempre uma grande satisfação, não é? Em receber esta valorização de algo tão grande, é algo quase que nós transcende e que nós admiramos é muito… tem sido muito bonito esse…
Francesco: …e a coisa mais linda… visto que sei porque estou um pouco envolvido nesta história, é que este disco foi feito e realizado aqui nesta casa fantástica no meio do Alentejo…
Walter Martins: …é verdade!
Francesco: Isto é incrível!
Walter Martins: Isto foi incrível! Foi um momento muito mágico porque, não é? Nós juntamos aqui para criar, não é? Para criar músicas, era um projeto que tinha acabado de nascer, estávamos todos com muita vontade, com muitas ganas de criar e a verdade é que tivemos uma química incrível, logo as coisas funcionaram muito rápido, muito fácil, muito naturalmente… e pronto! Logo decidimos de gravar as músicas, fizemos um home studio mesmo aqui nesta casa e fomos muito valentes e a verdade é que agora estamos a receber os frutos disto, das sementes que plantamos, não é? Colher um pouco os frutos disso e frutos que nós nunca esperávamos que alguma vez…
Francesco: …uma história incrível!
Walter Martins: Mas sim! A verdade é que às vezes é isto mais que interessa, a simplicidade, o amor, a dedicação, a verdade! Eu acho que isto, estas coisas conseguem de alguma forma tocar as pessoas, conseguem de alguma forma passar esta mensagem que nós como artistas queremos passar!
Francesco: E em relação aos concertos que conseguiste depois fazer em 2020, o que é que sentiste nos momentos digamos assim mesmo da performance, em tocar em frente a uma audiência… digamos tapada por uma máscara, distanciamento social, qual é a sensação do performer, no teu caso… por exemplo? O público… como é que sentiste o público depois do primeiro confinamento?
Walter Martins: Eu posso e confesso-te que pensei que ia ser muito pior!
Pensei que ia ser uma coisa completamente diferente, pensava: ah! O público com máscara, sentado… tanto num projeto como no outro… é música muito de dançar, muito enérgica! Então, pensamos que… pronto! Que ia ser muito triste, que ia ser muito cinzento e a verdade é que não! A verdade é que não é preciso a gente ver a cara de uma pessoa para perceber que ela está a sorrindo ou que ela está contente, mesmo que tenha a cara tapada ou mesmo sentada, sem poder se mover, sem poder dançar livremente, consegues na mesma perceber que estás a tocar nas pessoas, que as pessoas estão a gostar e que estão a ter ali uma experiencia emotiva, ou seja, eu diria que é diferente… sem duvida é diferente, mas tem a sua beleza na mesma, tem a sua magia na mesma, nisto acho que não perdeu nada!
Francesco: Ok, fantástico! E em relação aos concertos online, em live streaming e estes novos formatos de música que está surgindo nesta altura, este novo formato… muitas bandas fazem performances em casa, zoom, etc. e os festivais começam a adotar este tipo de formato para conseguirem que a música continue… o que é que achas? O que é que sentes em relação a isso? Se fizeste já algum? Ou…
Walter Martins: …sim! Durante a pandemia também fizemos alguns concertos em streaming! É assim: eu para ser sincero acho que nada consegue substituir o impacto da música ao vivo, o impacto de estarmos a ver uma coisa a estar a acontecer ali no presente e que nós estamos a ver com os nossos olhos. Acho que o streaming é uma boa solução, para este tempo e para estas limitações e eu acredito que será uma solução temporária porque acho que a partir do momento que se possa novamente fazer concertos como na normalidade, podermos estar todos juntos e seguros, acho que ninguém vai optar pelo streaming, não acho que vai virar uma tendência! Acho que simplesmente é uma tendência temporária e muito dentro daquele discurso que falei atrás, não é? Da gente ter que arranjar maneiras e contornar os obstáculos para continuar a fazer o que gosta, continuar a fazer o nosso papel como artistas, fazer isto chegar às pessoas. Portanto, neste momento eu acho que se tiver que ser streaming, será streaming, quando tenho que ir ver um concerto, se não posso ir ver ao vivo, verei em streaming e terei imenso prazer, mas sinceramente acho que isto será uma solução temporária.
Francesco: Ótimo! Portanto, em relação às estratégias que os músicos podem ter para continuar a trabalhar com música, pode-se… digamos, considerar o live streaming como uma opção, ou há outras estratégias possíveis? Pensaste alguma vez no que é que podemos fazer para… se isto continuar muito tempo, como é que podemos? Difícil?
Walter Martins: Eu prefiro acreditar que isto não vai durar muito tempo! Eu acho que a… que assim: isto também é um problema muito complexo, não é? É uma questão muito difícil de contornar em certos pontos, como o de ter muita gente junta, não é? Teríamos que talvez reduzir muito mais as pessoas e ter muito mais espaço, ou seja dentro de como funciona o mercado da música, eu acho difícil fazer mais do que se já está a fazer, não é que me vem uma ideia assim…
Francesco: …mas por exemplo os estádios de futebol para o Europeu de 2021, estão pensando em meter o 25% do público, eventualmente os festivais deverão ou poderão pensar… não sei…
Walter Martins: …é! Poderia ser uma opção sempre, seria sempre um número limitativo das pessoas, não é? Mas obviamente que… acho que isso muda todo o cenário, não é? Porque se um festival que traz 20 ou 50 bandas, que vive de bilheteira ou seja que consegue um retorno deste seu investimento de bilheteira, com menos pessoas… pronto! Teria que ser um festival alargado se calhar a um mês e as pessoas vão passando quase… quase mais como um teatro, como um circo, que são sempre coisas mais demoradas, mais prolongadas, talvez pudesse ser uma opção! Mas pronto! É… eu acho que é um pouco, acho que a única forma realmente viável economicamente para fazer estes eventos grandes seria exatamente arranjar espaços grandes, que normalmente não são espaços de concertos ou algo que permitisse ter mais gente, mas para ter mais gente precisávamos também de espaços muito maiores para conseguir manter a segurança: o estádio de futebol é uma boa ideia por exemplo, mas é… e pronto! Espaços ao ar livre, acho que também as praças das cidades, voltar a reabitar estes espaços e a dar estes lugares aos artistas, não é? Porque os artistas todos nasceram na rua, da vida quotidiana, portanto poderia ser também interessante isso, não é? Sairmos um pouco do conceito de sala de espetáculo interior, que vai ter todas estas condicionantes, que em relação ao vírus são complicadas de gerir e pensar talvez a fazer coisas mais ao ar livre, ocupar espaços da cidade que se calhar são… estão mais abandonados neste sentido e trazer as pessoas a contemplar também estes espaços, acho que poderia ser uma via!
Francesco: Ótimo! Em relação à questão do músico e da precariedade dos músicos, houve alguns movimentos ou digamos grupos que trabalharam um pouco esta questão da solidariedade, refiro-me por exemplo à União Audiovisual, existem sindicatos que estão querendo fortalecer-se e chamar a atenção para vários músicos alinharem em vários projetos distintos, para que exatamente a questão da precariedade do sector artístico seja tratada por uma… digamos por decisões políticas, ou seja, pode ser um momento também de mudanças neste sentido? Quais as tuas espectativas em relação à política da cultura?
Walter Martins: Eu acho que, por exemplo, digo para o caso do país onde vivo que é Portugal, não é? Eu acho que esta pandemia foi mais uma alerta, foi mais um trazer ao de cima um problema que existe e que normalmente está disfarçado, que é perceber que os operadores da cultura estão muito… digamos assim “abandonados”, muito pouco salvaguardados! E neste momento em que veio a pandemia e em que falamos de saúde, de morte e de coisas que parecem tão mais importantes, parece que a cultura é uma coisa que não é importante, não é urgente. Urgente é manter a população a funcionar, a indústria a funcionar, a comida a chegar à casa das pessoas, não é? E acho que os artistas sem dúvidas e a parte da cultura, ficou um bocado para trás, não é? Como se não fosse uma coisa urgente, urgente agora são os médicos, são os trabalhadores da parte alimentar… Houve aqui uma nova cadeia, não é? Uma nova estratificação, em qual a cultura ficou como se fosse para o último ponto, para o último posto, não é? O que eu condeno! Isso… acho que a cultura é muito necessária para a sociedade e eu acho que a pandemia vai exatamente mostrar isso, que além destas pessoas não estarem salvaguardadas, não é? E perceber-se que a primeira vez que não têm trabalho, não têm maneira de trabalhar, não têm maneira de obter algum rendimento, estas pessoas não estão a conseguir manter-se, não estão a conseguir chegar aos apoios que o Estado dá, esses apoios chegam tarde, a más horas, poucos, muito escasso, conheço muitos, muitos, muitos amigos que trabalham na cultura como: assistentes de palco, como técnicos de som, como todas estas pessoas que estão completamente desamparadas! E isto mostra um problema e traz um problema e eu espero que este sacrifício que estamos todos a passar seja o suficiente para abrir os olhos dos políticos e de quem nós lidera, não é? De perceber esta lacuna que está intrínseca e também de perceber da importância que nós temos dentro da sociedade, principalmente quando estamos a passar um momento de tristeza, é? De dureza da vida, ou seja, somos muito importantes nesta altura para manter as pessoas positivas, para manter as pessoas alegres, para conseguirmos dar este doce que a vida não nos está a dar neste momento e pronto! Espero que isto seja suficiente para abrir os olhos e para nós também artistas, nós impulsionadores da cultura nos movermos e começarmos a lutar para sermos mais respeitados e para sermos mais valorizados!
Francesco: Muito obrigado Walter, o teu contributo é ótimo e deste algumas sugestões superinteressantes. Vai ser muito útil para quem vai ouvir e para mim também que estou aqui a ouvir agora e para terminar a nossa entrevista, queria saber se das várias produções em que foste envolvido desde o princípio da pandemia, se podes nós aconselhar duas músicas, duas musiquinhas para alegar aqui à entrevista, para depois à posteriori quando ela sair, podermos ouvir-te a tocar percussões… o que é que nos aconselhas? Duas musiquinhas…
Walter Martins: …ok! Então pronto, vou aconselhar assim, sugerir duas músicas, uma de cada projeto em que participo. Pronto: do projeto Ayom, sugiro ouvirem “A Maré e o Luar” porque é um semba inspirado na música popular angolana e acho que vão gostar, é uma música muito dançante, muito enérgica e ao mesmo tempo com uma grande poesia e romantismo atrás!
Francesco: “Maré e o Luar” que é do disco?
Walter Martins: Do disco “Ayom” , do primeiro disco do grupo Ayom. E depois posso aconselhar da Rosa Mimosa Y Sus Mariposas a música “Rio Arriba” que é uma música que quem compôs foi o nosso guitarrista Olmo Marín!
Francesco: Olmo Marín!
Walter Martins: Umgrande músico e amigo excecional, com um talento incrível e fizemos esta música e compusemos para o disco, que vai sair muito em breve e espero que vocês gostem!
Francesco: E o lançamento previsto para?
Walter Martins: O lançamento está previsto para final de Junho [2021], está quase…
Francesco: …perfeito! Em tempo para…
Walter Martins: …está no forno, quase a sair…
Francesco: …está no “forninho”! Quase a sair… que maravilha! Eu gosto muito de saber e de conversar com pessoas que utilizaram este período de maneira positiva, guardando esta positividade… e produtiva, como é no teu caso, é mesmo assim! Produziste, estão saindo discos, portanto, os meus parabéns e agradeço-te pelo contributo mais uma vez, muito obrigado Walter!
Walter Martins: Obrigado eu Francesco!
Francesco: Obrigadíssimo! Grazie e mille!
Walter Martins: Obrigado!
Projeto Ágora: Entrevista com Diogo Picão (10/03/2021)
Diogo Picão é músico, compositor e letrista. Nasceu em 1988 na Lourinhã, começou a estudar saxofone na Escola de Jazz de Torres Vedras em 2003 e licenciou-se em Música na ESMAE- Escola Superior de Música, Artes e Espectáculo, Porto, em 2009. Terminou a Pós-Graduação Artes da Escrita na FCSH, Universidade Nova de Lisboa, em 2018. Lançou em Fevereiro de 2018 o seu álbum de estreia, “Cidade Saloia”. O disco conta com a participação de vários convidados que encontrou em Lisboa, entre os quais destaca-se Salvador Sobral, com o qual colabora em vários projetos. Colabora também com Olmo Marín, no projeto chamado Sambacalao. Atualmente trabalha no seu segundo disco e integra outros projetos como a Orquestra Latinidade e a Banda B.leza.
Em resposta à situação de atual emergência devida à pandemia do COVID-19 e à necessidade de promover iniciativas que possam avaliar e atenuar o impacto no âmbito das artes performativas, investigar os efeitos da crise, com enfoque no sector da música, documentar as estratégias aplicadas pelos artistas nas suas atividades criativas e de performance, o Projeto Ágora convida Diogo, para compreender os efeitos provocados pela crise sanitária, quer no nível individual que no âmbito do sector cultural em Portugal.
Francesco: Olá caro Diogo Picão, bem-vindo aqui a estas conversas do Projeto Ágora, muito contente de poder falar contigo… apresentação rápida?
Diogo Picão: Obrigado eu pelo convite! Sou o Diogo Picão, músico, compositor, cantautor da Lourinhã e residente em Lisboa! Basicamente acho que é isso, acho que é o mais importante!
Francesco: Então eu queria começar a nossa conversa com esta pergunta, de que maneira a pandemia desde o princípio das restrições, etc. e já vamos completar um ano, desde o princípio de tudo, afetou a tua situação financeira?
Diogo Picão: Bom! Totalmente, porque deixou quase de haver concertos ao vivo, excepto na altura em que abriu depois na altura da primeira vaga, mas, sim! No fundo foi uma quebra, não sei de… 80/70%, 80%… houve ali uma fase do ano em que consegui reestabelecer um bocado, há alguma coisa da net que se fez no primeiro confinamento conseguiram render alguma coisa, outras nem tanto, depois houve alguns apoios do Estado que também ajudaram a… da Segurança Social e do Ministério da Cultura, também um apoio da GDA com a Santa Casa da Misericórdia, que ajudaram a reestabelecer um bocado a coisa, mas sim foi um buraco muito grande!
Francesco: Sim! Porque por exemplo: tu nos anos anteriores, costumavas fazer quantos concertos por ano? Por exemplo em 2019, em 2018?
Diogo Picão: 2019 foi bastante… foi o meu melhor ano desde que sai da universidade há 11 anos, em que só fiz música e foram por ai uns 70 concertos…
Francesco: …e em 2020?
Diogo Picão: Não sei… 15? 20 no máximo… a contar com
Francesco: …os da net, online?
Diogo Picão: Mas sim! Mas foi uma quebra, eu diria uns 15/20… por acaso ainda não os fui contar mas foi assim… uma… foi chegar a um ponto… estava a achar que agora já estava, senti que já estava a coisa a rolar e isso, sempre há uma quebra muito grande, mesmo antes do Covid, de… primavera/verão e outono/inverno em que há muitos menos concertos…
Francesco: sim! Que é fisiológico!
Diogo Picão: Mas a partir do momento em que já está… pelo menos foi o que eu senti agora, que já estou na cidade há mais anos, a roda já andava um bocado sozinha, aqueles que eu arranjava e aqueles que vinham ter comigo, aqueles concertos que vinham ter comigo… porque já estás no meio… e isto, de repente a quebra foi abrupta!
Francesco: E esta quebra te levou alguma vez a pensar de mudar de trabalho? Encontrar outro trabalho, complementar com outra coisa?
Diogo Picão: Sim! Complementar? sim! Comecei a fazer na altura um… foi por aí em Setembro, um curso de programação digital, de web development, mas veio o primeiro concerto grande a seguir e rapidamente perdi a motivação… mas, sim! Não é uma coisa de agora que eu penso que… sempre foi um caminho instável em termos económicos… é uma coisa que eu já sabia desde que eu fui estudar para música, que eu assumi isso! Mas… e já em outras alturas, tive outros trabalhos ou a dar aulas de música no início e depois tive alguns trabalhos: trabalhei num hostel e pensei nisso, arranjar alguma coisa a longo prazo que desse para trabalhar nas duas, na música e neste caso na programação, porque pareceu-me que era um coisa que há bastante procura e que dá para trabalhar á distancia, mas pronto… a partir de… quando há concertos? O meu foco vira diretamente para tocar…
Francesco: …pronto! Mas é um pensamento que já vinha desde antes?
Diogo Picão: Sim! Só se tornou mais forte, porque a quebra também foi muito mais forte… mas, pronto!
Francesco: Eu gostava de saber se a partir do momento em que tivemos estas restrições e confinamento, lockdowns etc. De que maneira estas situações podem ter afetado o teu trabalho criativo, por exemplo tu compões, fazes música…
Diogo Picão: epá! Vou te ser sincero: logo no início, no primeiro confinamento em Março, eu acho que eu estava mais organizado… quer dizer… acho que houve ali partes mais criativas em que escrevi mais, até texto, uma ou outra crónica, compus duas canções, na altura acho que… mas depois o tempo vai passando e entras um bocado num marasma de estar muito tempo em casa e falta-te o estímulo exterior, não é? Porque acho que compões, eu pelo menos componho em relação ao que me acontece na vida e se estou sempre em casa, pronto aquilo… depois rapidamente esgotou e de repente…
Francesco: …a chama?
Diogo Picão: Sim! Dás por ti e já não… vais compor sobre o que? Quer dizer: depende das pessoas, a mim pelo menos, no início ainda senti isso de tentar me organizar um bocado mais para isso e depois compus ali uma coisa ou outra e escrevi um bocado mais, mas essa chama depois foi se um bocado embora. Agora neste confinamento é que estou a aproveitar para gravar o meu próximo álbum, pronto! Que é… ou seja as coisas já estão compostas… é um bocado pensar nos arranjos, chamar os músicos e ir gravando, porque não há… ou seja… não há muito mais a fazer, fartei-me também de combater… não há como combater um tsunami e tipo, pronto! Estás a ser levado e é um bocado tentar de te manter (…) da água e…
Francesco: …tomar na positiva e ser produtivo ao máximo…
Diogo Picão: sim! De alguma maneira, sim!
Francesco: É positivo e aproveitaste este último neste sentido…
Diogo Picão: sim!
Francesco: Agora, eu gostava de perceber, por exemplo, em termos de concertos ao vivo que tu fizeste, não aqueles online, são duas dimensões distintas: naqueles em que tocaste ao vivo mesmo, com público, o que é que sentiste em termos de limitações, ou simplesmente… como é que os elementos externos à música, como as restrições, a máscara, etc. podem ter afetado a tua performance?
Diogo Picão: Ok! Bom! A primeira sensação foi de alívio gigantesco, porque de repente estava a tocar para pessoas presencialmente e isso é uma sensação muito positiva… e ao mesmo tempo, percebia-se que havia ali um medo no público ou nas pessoas que estavam a organizar o concerto e isto foi diferente um bocado… demos uns concertos mais pequenos de bar ou de restaurante, que haviam… não sei 10/15/20/30 pessoas e… pelo menos as pessoas estavam ali próximas, mas senti isto: toda a gente de máscara, é uma coisa estranha, é difícil habituares-te a isso… só que como nós, acho que vínhamos de um período tão chato, que deste alguns concertos online, que é mil vezes pior que isso, a sensação foi: epá! Menos mal, pelo menos posso estar ao pé das pessoas a tocar! Mas depois foi estranho, por exemplo num concerto grande, um dos melhores que foi do ano passado, foi sempre no Teatro S. Luíz, organizado pelo B.leza e pelo Music Box em que era uma sala grande e de repente… epá! Chegar e teres metade das cadeiras vazias e pessoas a quererem dançar e… o pessoal que trabalhava lá a dizer, que pronto! Que não podia, aquela coisa de cumprir as regras… e é mesmo um contrassenso e tu sentes que aquilo está a levantar voo e… ah! Nunca consegue arrancar, na mesma foi um alívio… porque vinha dos vários meses em que a única possibilidade de tocar foi online, portanto era um misto, uma dualidade com as duas coisas…
Francesco: …ou seja, de um lado a possibilidade de poder estar lá outra vez e ao mesmo tempo a consciência que isto não podia levantar um voo como…
Diogo Picão: …exatamente, sim! Especialmente quando a música é mais dançável, não é? Neste caso específico, no São Luiz era muita música cabo-verdiana e tal e epá! Umas coladeiras e tal… epá, de repente! As pessoas estão já agarradas à cadeira e eu próprio a tocar, tipo a querer… a querer dançar, então, sim! Mas pronto, sim! Era uma sensação estranha…
Francesco: …e em relação àquelas performances online? Já que hoje em dia este formato vai ser uma das possibilidades futuras de transmissão de…
Diogo Picão: epá! Eu vou te ser sincero, eu não… eu acho que tens uma ferida e pões um penso por cima, mas o penso não é a resolução… a ferida tem que sarar! No fundo o que eu achei destas coisas online, é ok! Que bom! Eu posso estar a tocar e houve uma ou outra que economicamente correu bem, outras que… não digo que foram um fiasco, mas em termos económicos não deram nada de especial, o que também é interessante perceber que se é um novo modelo para se fazer no futuro é interessante perceber, ok! Mas, se não serve para os músicos sequer terem um cachê ao mínimo, então não é um grande modelo económico, pode ser um modelo de divulgação para fazer de vez em quando, mas não é… é como ter… se não fores um artista de renome, teres músicas no spotify é fixe, ou nas redes sociais, é fixe para divulgar o trabalho, mas não é isso que te dá dinheiro, ou seja… cada play é 0,2 cêntimos creio, portanto!? É assim um mínimo, portanto, eu acho que foi… por um lado é… é um misto também, é bom haver esta possibilidade, foi bom ter havido esta possibilidade, foi bom ter havido público e as pessoas terem mexido… mostrou também a importância da arte e dos concertos na vida das pessoas, sendo que somos trabalhadores bastante precários, ao mesmo tempo percebes que há muita… e com fraca organização sindical e fraca organização de classe, ao mesmo tempo as pessoas querem ouvir a música, querem ver os filmes, querem ver teatro, querem este tipo de cultura! Mas eu não acho que seja uma troca, principalmente quando são coisas mais… o primeiro porque… a qualidade sonora é difícil ter, por exemplo, concertos que fizeste pequenos em casa, não tens material técnico suficiente para ter uma qualidade à sério e pronto! E às vezes é mais porque tu sentes que estás a ver os músicos ao vivo… mas em termos técnicos é quase melhor gravar antes e por numa certa hora disponível, porque… e depois é também a questão de teres tanta oferta, ou seja tu não podes estar a combater com a quantidade de shows, de concertos gravados ao vivo durante décadas com qualidade boa, então os mais recentes, não é? E de repente estás a ver o teu live ou o teu concerto no zoom e é tipo… ok! É porque o teu público gostas das canções…
Francesco: …se bem que houve alguns concertos online produzidos já em estúdio, tipo… no teatro, em algumas salas de espetáculo…
Diogo Picão: claro! Aí é mais… sim! Neste caso tendo mais meios técnicos e uma boa ligação à internet é possível fazer isso, agora a partir de casa que era aonde muitos artistas e os artistas independentes, creio que a maior parte estiveram nesta situação… tiveram que trabalhar com a sua net que tinham disponível, com… ou se calhar uma “interfacezinho” que tinham ali, se tivessem… um microfone ou dois e pronto… tentar! E eu acho que as pessoas vão ver e isso é um lado interessante porque as pessoas ligam-se a isso, porque há uma ligação também emocional à música que está a ser feita, ao artista específico que aquelas pessoas gostam… eu próprio, dei por mim como púbico, ver uma ou outra live de artistas que gostava muito, com qualidade de telemóvel e a gostar muito de aquilo e a perceber, ok! Isto é o que é! Não é que a qualidade seja muito boa… mas a partilhar com este momento, até eu acho que foi bom neste sentido! Agora… no futuro eu acho que isto não pode ser visto como: ah! Agora descobrimos aqui uma coisa que vai funcionar!
Francesco: Exato! Então as estratégias para nós pensarmos em novos formatos… isto há de vir ainda, não sabemos bem qual é que será o futuro… mas…
Diogo Picão: …epá! Pois, eu acho que a primeira coisa é resolvermos isto para podermos voltar a tocar ao vivo, que nunca vai ser substituído por mim, por nada! Porque tocar ao vivo, quer dizer: é a troca entre os músicos que estão no mesmo espaço a tocar e a reação do próprio público, não é? E é nesta troca, há um momento ali em que as pessoas estão fisicamente juntas e isto faz muito a diferença, ou seja, no público está a haver e está a ver aquilo a acontecer ao vivo, “live” como se diz na net, mas ao vivo realmente ou aos vivos… mas… ou seja… além disso, de resolver este problema na parte digital, a questão é: os modelos em que isto for feito, tem que ser minimamente rentáveis, pronto! Ou que sejam coisas mais curtas, só de divulgação porque tu queres e pronto e abre-se ai um espaço para aquilo, mas… por exemplo, houve alguns deles organizados em zoom e com alguma organização por trás, na altura até o “My Invisible City” que era uma associação que estava a fazer estes concertos, mais bem organizados e funcionaram ou Inside Number Nine que eram outros amigos que faziam, já faziam antigamente uns concertos em casa e organizaram aquilo e de repente há algo palpável, não é? Que ajuda a pagar a renda e não só, porque as visualizações não pagam a renda, tipo… as palmas e as visualizações podem ser boas ou más para o ego, mas não pagam a renda nem nunca pagaram um jantar, portanto tem que haver esse equilíbrio e acho que no futuro, tem que haver essa noção: até que ponto a gente se pode estar a expor na Internet, ou em concertos e tal… o que não tem nenhum…
Francesco: …retorno?
Diogo Picão: Retorno financeiro! Que é onde… com o qual nós contamos para ter a nossa vida como toda a gente! Não é pedir e também não é dizer nada que as pessoas não queiram… em quase todos os trabalhos não seja uma coisa óbvia… como dizia a Billy Hollyday: “don’t ask me to give the only thing I can sail”… algo assim do género… não me peças para dar a única coisa que eu possa vender que é a minha arte!
Francesco: Exato! Obrigado Diogo, fantástico! Queria saber, para terminar, o que é que… quais as tuas espectativas em relação à política, aos governos: o que é que eles podem fazer para proteger um pouco este sector cultural e também aqueles movimentos reivindicativos que surgiram agora, se tens algo a dizer sobre isso…
Diogo Picão: …bom! Uma das coisas que mais me dá esperança neste momento será se conseguirmos criar o Estatuto do Artista ou dos trabalhadores da cultura que me parece ter a ver com o sistema dos intermitentes em França e que aqui não há… eu acho que isto daria algum fôlego a quem trabalha nas artes e não só, os artistas e os frontman’s, todos os artistas que estão à volta da criação de qualquer peça ou de qualquer obra musical, o que for e todos os técnicos que estão à volta dessa… que quase todos sofrem do mesmo que é: quando há trabalho recebes, quando não há trabalho não recebes, pronto! Acho que essa é a única, a primeira… porque se começa a ouvir a falar disso pela primeira vez, nalguns políticos e nalguns… nos meios… nos média! Porque isto mete aqui uma questão que é: finalmente a sociedade a perceber ou admitir que precisa destas pessoas, utiliza os recursos que estas pessoas criam, gostam do trabalho que elas fazem e então a sociedade como um todo, tem que se organizar para que estas pessoas terem meios básicos de subsistência, a mim parece-me óbvio! E portanto… essa é a minha única esperança deste processo tão duro, pronto! É que realmente seja tão.. que isso fique tão óbvio que é… além de uma coisa importante, um tipo de escolha de vida muito precária e que as pessoas fazem na mesma, porque gostam daquilo que fazem e acreditam na arte que fazem e então decidem dar as suas vidas por isso, porque é uma… às vezes não é quase uma escolha, mas é uma necessidade também… queres exprimir uma coisa e decides dar a tua vida e escolher o teu caminho profissional naquele sentido, pronto! Isto é uma coisa que me dá esperança, que a sociedade como um todo e os políticos forçados por essa noção crescente criem este Estatuto, não sei em que moldes mas, no caso eu acho dos intermitentes em França é… tu descontas por todos os concertos ou peças que fazes e depois quando não tens trabalho há uma média para conseguires subsistir se não houver este tipo de trabalho, o que também eu acho que vai forçar os próprios músicos e os artistas no geral, que muitas vezes vivem ali numa… nós vivemos ali numa zona cinzenta, em que não se passa recibos de tudo, em que não… em que de repente há uma força para se passar tudo e para tudo ser declarado mas que o Estado contribua quando é necessário e que aceite que há realmente uma onda, não é um trabalho estático e pronto! E a criação cultural será melhor quanto mais estrutura tiverem as pessoas, pronto isto é a esperança maior que me dá! A outra questão é, tenho… não sei se é esperança mas tenho alguma… sim alguma esperança que os próprios músicos e neste caso contra mim falo… ganhem um pouco mais… alguma noção de classe, consciência e que se comecem a juntar um pouco mais e que se comecem a criar estruturas agregadoras, sindicatos que funcionem ou que pelo menos tenham uma abrangência grande da classe que já está em trabalho e também dos alunos que estão a ser formados agora e que vão para o mercado de trabalho entretanto e que… pronto! Isso era uma coisa boa em termos, pra nós e pra quem vier a seguir e pronto! E também que isto seja feito pelas sociedades dos direitos, ou seja a SPA Sociedade Portuguesa de Autores, que eu acho que é muito fraca no trabalho de transmitir a informação e o conhecimento, principalmente para as pessoas que se estão a formar agora, acho que esta fraca comunicação com o exterior com os direitos dos autores, no âmbito do… no geral… não para quem já está inscrito mas na sociedade no geral e na própria GDA que na mesma, acho que tem feito um trabalho até bastante bom durante esta pandemia de apoio e de transmitir esta informação, porque não é só existir o apoio, não é só… é dar literacia, é saber ensinar aos artistas, os criadores, ou os executantes, no caso de não serem até compositores no caso da música, mas que dos direitos que existem e para as pessoas poderem registar as coisas e para a recolha ser feita o mais justamente possível e a repartição ser feita mais justamente possível! Porque se não quer dizer… ou seja, não serve só cobrar se depois a repartição não é clara, não é transparente, pronto! Mas eu acho, quanto mais noção de classe houver e mais houver esta união, melhor vai ser para todos! Claro que há aqui uma questão que é: a criação artística e acho que por isto é que é difícil organizarmos por classe, tem um lado muito individual, tem um lado muito… difícil de agregar às vezes e noutros não. Ou seja, por exemplo: nós como músicos tocamos em conjunto, tocamos em banda, por exemplo se me perguntares para eu escrever canções, geralmente eu quero estar sozinho até aquilo estar feito e eu não quero nem sequer a opinião de ninguém e depois quando eu acho que já está mais ou menos o que me parece interessante, depois vou partilhando e até às vezes corrigindo coisas que eu acho pertinentes, consoante as críticas dos outros. Mas há um lado que liga-se à estética, não é? Tens um bocado que deixar cair esse… ou seja, tu podes não gostar esteticamente da obra de um artista e na mesma reconheceres-te em termos de classe com ele. E isso é uma coisa que que eu acho que os artistas tem muita dificuldade, que é: ok! Não gosto daquela obra específica, mas nós estamos todos dentro de uma classe que é um bocado… ok! Uma subclasse, o músico, o ator, o encenador, sei lá? O técnico de som, mas pronto! Não… é começarmos a separar um bocadinho a coisa que eu acho que ainda é difícil de… ou seja, o músico clássico, o músico de jazz, o músico de samba, o músico pimba, o rapper, o que for… pronto! As pessoas que estão a criar música e, isto falando só do âmbito da música, e tem que haver a noção de que estamos todos no mesmo barco! Não é que todos tenhamos de gostar do trabalho de uns e dos outros e ter que dar palmadinhas nas costas, não é nada disso! Acho que até é bom criticarmos e não é que a gente tenha que seguir o trabalho de coisas que não gosta, mas termos esta noção que não temos que gostar do trabalho necessariamente esteticamente que está a ser feito, para percebermos que trabalhamos todos na mesma coisa, no nosso caso que é a música! Portanto… e que levamos música a vários públicos diferentes, pronto! E que tudo isso é valido, porque eu acho que isso nós vai dar muito mais força, em termos de classe e vai evitar com que haja caches tão baixos e haja uma precariedade tão grande!
Francesco: Perfeito! muito obrigado! Diogo, última… ultimíssima pergunta que te queria fazer: tu tens realizado concertos online durante a… durante o período mais crítico, se bem que ainda estamos num período crítico e tens contribuído por exemplo em produções de discos, etc. Tens alguma, uma ou duas músicas que nós possamos linkar a esta entrevista para te ouvir?
Diogo Picão: Sim! Olha: um dos concertos que dei no verão, que foi a convite da Câmara Municipal da Lourinhã, donde eu cresci! Foi uma série de concertos que eles fizeram, chama-se Sons da Minha Terra e foi um concerto todo gravado por uma equipa técnica, vídeo e som e que está disponível no Youtube da Câmara Municipal da Lourinhã e em que eu toco só piano e voz e foi o primeiro concerto que eu fiz assim, só piano e voz, que é como eu escrevo, como componho as canções, pronto… sem banda! Esse é um deles, o outro foi um trabalho de um duo que eu faço parte com o Olmo Marin, chama-se Sambacalao, que foi gravado no Camones, que é um lugar de concertos muito interessante ali na Graça, aqui em Lisboa e que está também no youtube deles e é um concerto inteiro, também gravado com qualidade som e vídeo, creio que aquilo está como “Little Cam Ones” mas se forem ao youtube do Camones, vai lá aparecer “Sambacalao”, pronto! Foram assim os dois mais… que eu acho que ficaram mais interessantes neste sentido!
Francesco: Ok! Perfeito! Obrigado Diogo, muito obrigado pela conversa!
Diogo Picão: Obrigado!