Raul Misturada – Pangaré (2024) (single)

Raul Misturada – Pangaré (2024) (single)

Um cavalo estrangeiro.

O novo disco de Raul Misturada, “Pangaré” (2024), obra que encerra a trilogia precedida por “Equilibradamente Insano” (2016) e “Tudo Começa Quando Explode” (2021), chega ao mercado fonográfico no próximo dia 12 de julho, com lançamento pela Cafezinho Edições.

“(…) Se olhares demasiado tempo dentro de um abismo, o abismo acabará por olhar dentro de ti” – Friedrich Nietzsche, Além do bem e do mal ou Prelúdio de uma filosofia do futuro.
César Lacerda

“Pangaré” (2024), novo disco de Raul Misturada, tem a virtude de, logo nos primeiros segundos de sua execução, sustentar uma fermata sobre nossa atenção. E nesse estado de coisas, de um tempo suspendido, o artista faz uso de sua lupa. Dispõe-na sobre a vida e os dias de hoje, e então, nos convida a olhar através dessa lente para a face do mundo. Um mundo à beira do abismo, por onde ele passeia, mercador de sonhos, cartógrafo das memórias, sustentando hasteada a bandeira do amor. E isso não é pouco, tampouco é pueril: vivemos a radical era do individualismo. E o que se ouve na voz desse cantador-cantautor, que veleja entre o mais recôndito passado e o mais indistinto futuro, é a sabedoria de quem mirou os olhos do abismo. E sorriu para ele.

I. É possível amar em outra língua?
Em 2021, Raul Misturada cruzou o Atlântico e mudou-se com a família para Europa. Em Lisboa, onde reside atualmente, sua percepção da língua portuguesa se tornou a de um estrangeiro. A cidade, que abriga uma diversidade grande de imigrantes paquistaneses, russos, angolanos, brasileiros, enfim, fez com que o sotaque pernambucano do músico soasse como apenas mais um na algazarra. Raul conta que no comércio vizinho à sua casa, onde comprava víveres de um comerciante nepalês, e onde ambos se comunicavam exitosamente numa língua outra (mistura de português, inglês e língua-da-encruzilhada), ele pôde conceber a força do que se instaurava ali: a criação em parceria de um idioma comum, um território inventado e habitado por dois migrantes. Ao concluir a transação e sair da pequena venda, Misturada pensou em voz alta: “bom demais ser pangaré”. Nascia ali o seu novo disco.

Do espécime dos equídeos, o pangaré é popularmente conhecido como um tipo de cavalo de baixa estatura e valor, ou ainda pior, um xingamento. Raul, no entanto, intuiu a possibilidade de transfiguração do sentido daquela palavra. Sentiu a sua história ressignificada por um adjetivo. Nascido em Recife, Pernambuco, viveu toda sua infância na pequena Mumbeca 2, cidade da região norte do estado, e mais tarde, passou sua trajetória mudando de cidade para cidade – Recife, Curitiba, Itajaí, Blumenau, São

Paulo. Hoje, vivendo no estrangeiro, gostou de se enxergar na pele do ‘pangaré’: o bicho matuto que já atravessou fronteiras carregando as senhas da sobrevivência, as habilidades extraordinárias da reinvenção.
“Pangaré”, canção que abre e dá título ao disco, é toda elaborada a partir de uma língua indefinida. Uma colagem de sons estilhaçados. Ouve-se algo do mediterrâneo desértico, algo das veredas do grande sertão, algo de Cervantes ou dos griot’s d’África, algo das imensas periferias do novo mundo. Mas também, em diálogo, soam antigas guitarras tuaregue, os badalos nos pescoços dos equinos, tudo velejando em estéreo. E é essa infinidade abundante de sons, edificados minuciosamente, que configura a arquitetura do disco que começa a se desvelar. Misturada, ao comentar seu trabalho como produtor musical da obra, explica: “Eu penso muito mais como sonoplasta do que como arranjador. Ou seja, não é sobre harmonizar uma melodia, por exemplo. Mas sim, sobre como sobrepor sons, como alcançar suas profundidades”.