
Sergio Figueira – Nhô-Dénga-e-quêl-Sêrena (2025) (single)
Aproveitando as celebrações do 50o aniversário da independência de Cabo Verde, anuncío o lançamento nas plataformas digitais do meu mais recente trabalho
intitulado “Sêrena”.
Trata-se de um álbum conceptual que tem como temática o exaltar do ser feminino representado na figura materna, na mulher, na amante, na ilha abrigo, na terra que nos acolhe, concebe, protege e acarinha, nos acompanha e aconselha, nos dá a luz e à luz.
O enredo da estória passa-se numa altura antes do “tempo de caniquinha” (termo popular usado em Cabo Verde para designar algo que se passou num tempo muito remoto) nas ilhas da outra face da lua onde uma sereia aparecia nas praias encantando o povo com o seu canto e beleza.
Era uma autêntica romaria contemplativa e transformativa que despertava nas pessoas o melhor da sua essência tornando-as mais fraternas. Graças a isso criou-se uma sociedade mais harmoniosa e pacifica abençoada e inspirada por esse ser mágico.
Temática do single – ” Nhô Denga e quêl Sêrena “
É um dos episódios do álbum em que entra uma personagem do imaginário popular de Cabo Verde que é o Nhô Denga e que no caso particular deste tema representa um ser egoísta, mesquinho, narciso, com muito poder e riqueza material julgando-se com isso o dono do mundo com o direito a dispor e a mandar na vida dos seus congéneres. A humanidade está sempre em perigo por causa dessas individualidades e personalidades que estão sempre à espreita à espera da sua oportunidade para subverter e atropelar a paz social e no caso concreto desta estória também não houve exceção à regra.
Aconteceu então que o Nhô Denga ouvindo e vendo a Sereia, também se encantou perdidamente pela sua beleza e voz e devido à sua personalidade desequilibrada, resolveu raptá-la para tê-la só para ele.
Com isso, ela deixou de cantar porque só conseguia fazê-lo se estivesse em liberdade, o amor não se podia comprar nem ser tomado à força. Então tudo naquela terra começou a definhar e a morrer, deixou de chover, as ribeiras começaram a secar, o verde desapareceu e as pessoas ficaram infelizes.
Nas noites de lua cheia ela subia a uma das torres do Palácio do Nhô Denga que ficava no Monte cara e lamentava a sua situação, fazendo ecoar a sua voz no mar da Baia e pedindo ajuda para que alguém a viesse salvar.
Até que chegou um dia e surgiu nos céus um ser encantado que brilhava tanto como se fosse ele próprio uma estrela feita de ouro montado num cavalo alado/
marinho e que tendo ouvido os apelos da sereia se prontificou para a ajudar. O Nhô Denga, ganancioso como era não conseguiu evitar ficar pasmado a olhar para aquele brilho intenso dourado que vinha na sua direção e acabando por ficar cego devido a isso deixou de representar um perigo para todos.
Assim a Sereia foi salva e livre voltou a encantar o mundo.
Sérgio Figueira ( nylon guitar ); Vojinha ( Steel guitar ); Hernani Almeida ( nylon guitar );Renato Chantre ( Bass ); Amilcar Chantre ( Percussão ); Carla Lima ( voz ); Denys Stetsenko ( Violin )