
José Barros – Enraizado (2024) (single)
Há algo na música que transcende o acto de tocar, cantar ou compor. Para alguns, ela é mais do que uma simples expressão artística; é um laço profundo com a terra, com as tradições e com a cultura que lhes corre nas veias. Sou uma dessas pessoas. Cada acorde, cada batida e cada melodia que crio parece emergir de um lugar que está para além da minha consciência, como se eu fosse apenas um veículo para algo muito maior. A minha ligação com a terra, as pessoas, a cultura popular e tradicional portuguesa, é algo que está embrenhado em mim de tal forma que, mesmo quando não penso nisso, a música que faço mostra isso mesmo. Não importa para onde vou, não importa o que tento criar, há sempre um eco que me chama de volta, um som distante que reconheço nas notas que toco, nos versos que escrevo, na música que componho. A cultura da qual sou feito está gravada em cada gesto, em cada escolha musical, em cada momento de inspiração.
É curioso, porque muitas vezes não me dou conta dessa presença. Parece que caminho por uma estrada invisível, sem me aperceber do quanto ela já está traçada. Não escolho os caminhos que sigo na música, porque de alguma forma, eles é que me escolhem a mim. E por mais que tente romper com as amarras da tradição, com as memórias culturais que carrego, percebo que sou feito delas. A música que crio não é apenas minha; ela é um reflexo de uma herança colectiva, uma melodia ancestral que ecoa no presente, mas que, entendo agora, sou eu mesmo que me apego a essa memória colectiva que afinal, embora imaterial, talvez exista mesmo.
Percebo agora que essa busca incessante por outros horizontes — explorando novas sonoridades, estilos, culturas, e línguas — não era uma tentativa de me afastar da minha tradição, mas sim uma jornada para me reconectar com ela de forma mais profunda. O que inicialmente me parecia um libertar dessas amarras acabou por se transformar numa redescoberta das minhas próprias raízes, ainda que de forma diferente, mas sempre de forma natural. Embora não deliberadamente, o meu percurso musical nunca foi por obrigação de ter que fazer isto ou aquilo, mas a verdade é que a minha raiz estava sempre ali, pulsando de forma invisível, guiando as mãos, os dedos, a voz e o coração.
Essa raiz é, ao mesmo tempo, um abrigo e uma corrente. É ela que me mantém conectado ao que sou, ao que sempre serei, mas também me desafia a reconhecer que, por mais que eu me tente distanciar, nunca serei completamente livre dela. E talvez essa seja a maior liberdade que posso ter: aceitar que a música que faço, é no fundo, uma extensão da terra que me viu nascer, da liberdade (50 anos) que ajudei a crescer e consolidar, da voz, do cante e do pensar/tocar/cantar em português, seja aqui ou no mundo.
José Barros
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